lamentar aquilo que foi deplorado por muitos? Isto é, aquilo que absorvemos junto com o leite de nossa mãe: o amor pelos vícios? Então, se desejamos admitir a verdade sobre o que fizermos, a culpa não deverá ser atribuída a nós, mas à Natureza. De fato podemos observar que já nos primeiros anos as crianças voltam-se mais aos vícios da gula, jogos e divertimentos do que às coisas honestas. Elas odeiam punições e amam agrados; elas fogem da ordem e perseguem a lascívia. Eu me calo sob com que dor os bons hábitos são inculcados. Não apenas as crianças, mas também alguns adultos e a maior parte das pessoas em geral aceitam mal as punições, embora elas devessem se alegrar por serem corrigidas e informadas sobre as causas de seus pecados. E ainda por cima (o pior de tudo), elas se enfurecem contra aquelas mesmas pessoas de quem receberam o benefício da correção.
(2) Para que ninguém seja desviado por um argumento vazio, eu asseguro que aquilo
que é bom por natureza é desejável espontaneamente, e o seu contrário, aquilo que é mal, é naturalmente evitado. Desta forma, as feras, para quem nada melhor do que um corpo lhes fora dado, fogem da fome, da sede, do frio, do calor, da fadiga e da morte. Já para nós, ao contrário, que possuímos o poder do raciocínio e somos por isso ligados aos deuses imortais, a virtude é o único bem e o vício o único mal. Assim sendo, por que nos evadimos do que é virtuoso e desejamos e amamos os vícios? Uma coisa é ceder ao erro, sucumbir, ser encorajado por alguma expectativa - embora isto faça parte do mau -; outra coisa é se deliciar com o próprio pecado. Como dizia Quintiliano, com a sua habitual inteligência: “Há um certo amor desprezível em cometer ultrajes e o mais intenso prazer das ações vergonhosas está em desonrar a virtude”37. E Cícero: “Havia nesse homem um tal desejo de pecar, que o
próprio pecado o agradava, mesmo se não houvesse nenhuma razão para isso”38.
(3) Devo continuar nesse assunto, ou já é uma verdade bastante evidente? Por que nos
agrada tanto corromper as mulheres castas, virginais, consagradas e respeitáveis, a pondo de sermos rapidamente inflamados pelo desejo de desonrá-las, ao invés de possuir as
37 Quintiliano, Declamationes, III, 6, 4. 38 Cícero, De officiis, II, 84, 19.
73 prostituídas, depravadas, lascivas e ordinárias, mesmo quando estas são mais belas? Certamente Sexto Tarquínio39 fora induzido a violar Lucrécia, não tanto pela sua beleza, uma vez que ele já a tinha visto inúmeras vezes, mas pelo seu modo de vida austero, o qual ele desconhecia antes. Parece claro que, ao agir assim, ele fora influenciado pelo único desejo de pecar e corromper a virtude. Assim, vereis que é verdade o que Ovídio dizia:
Nada agrada se não for desonesto. Cada um se preocupa com o seu próprio prazer e o que vem da tristeza dos outros também é deleitoso40.
(4) Já que eu comecei a falar sobre o amor, devo acrescentar que o desejo de pecar
nos leva não apenas ao crime, mas também a tudo o que nós deveríamos temer: a fadiga, o sacrifício e o perigo. Ovídio, bem consciente disto e algumas vezes um tanto lascivo, aconselhava a uma amiga a manter o seu amado. Para isso, ela devia frequentemente deixá-lo do lado de fora da porta, ofendê-lo e machucá-lo41. Por isso Cremes, em Terêncio, dizia:
A raiva dos amantes é a renovação do amor42.
E Horácio diz:
(...) se muitos impedimentos são colocados a tua frente, ficas louco de paixão43.
Oh, incrível verdade! Como se já não soubéssemos! As coisas são desejadas e mantidas porque são obtidas com dificuldade, ou, caso contrário, são abandonadas.
(5) Mas, se é assim, então pouco importa viver virtuosamente, em tranquilidade,
sem temores e em paz?! Por esta razão, confabulava-se que Júpiter raramente se deitava
39 Sexto Tarquínio, filho do último lendário rei de Roma, ficou conhecido, sobretudo, por ter violado Lucrécia.
40 Ovídio, A Arte de Amar, (Ars amatoria), I, 749.750. 41 Ovídio, A Arte de Amar (Ars am.), III, 577.
42 Terêncio, Andria, III, 3, 23. Poeta e dramaturgo romano. 43 Horácio, Sátiras, I, 2, 96-97.
74 com Juno, sua esposa e deusa; e desejava mais suas companheiras de cama humanas, principalmente as roubadas, como era o caso de Alcmena, Leda, Dânae, Europa e outras. Isso chegou até nós através de um provérbio: “As maçãs roubadas são de longe as mais doces”. Se estas maçãs estivessem à venda, elas perderiam a sua atração.
Agora, não podemos negar que a natureza é maligna quando - para falar apenas de erros menores - ela nos compele a gargalhar e a escarnar diante da estupidez, da obscenidade e da bobeira dos outros; e, às vezes, das nossas mesmas. Esse é um tipo muito maldoso de prazer, como por exemplo, aquele dirigido a Menete de Virgílio que, emergido do fundo do mar, vomitou água salgada44; e a seu Entelo, caído no chão ferido no meio de uma luta45.
(6) A natureza muitas vezes nos induz a provocar os outros e a irritá-los, mesmo
que só por brincadeira; e, se vemos uma pessoa se acender em fúria, nos divertimos ainda mais. Tal sucedeu à Hécuba que, de tão enfurecida com os gregos por a insultarem e abusarem, dizem, transformara-se num cachorro46. Mas, por que deveríamos continuar? Exemplos apresentam-se por toda parte. Vemos que aqueles poetas, escritores de alegorias, inventaram os ciclópes, os cacos, as esfinges, as hárpias, as sereias e muitos outros monstros similares para demonstrar que existem muitas criaturas naturalmente amantes das ações injustas, saques e crimes vergonhosos, que não são livres para se afastarem do vício ao qual são inclinadas. E a respeito do amor pelos vícios, nada mais precisa ser dito.
(7) O que eu poderia dizer agora sobre o ódio às virtudes, já que, necessariamente,
todos aqueles que amam o crime desprezam a virtude em todos os seus aspectos e se importam tão pouco em ter virtudes, que atacam até aqueles que as possuem. Gostaria que nós não tivéssemos tido tantos exemplos, como Anaxágoras, Teramenes, Sócrates, Calístenes, Zenão, Cipião, Rutílio, Cícero, Sêneca e outros, para quem, nas palavras de Quintiliano, “a possessão de virtudes os fizeram miseráveis”47.
Mas, tu dirás: a virtude, com a ajuda da natureza, está sempre preparada para uma invasão pelo exército dos vícios. Realmente, devo admitir que a virtude é sem dúvida uma qualidade divina, e isto não é apenas o mais alto entre todos os bens, mas também o único.
44 Virgílio, Eneida, V, 178-81. 45 Virgílio, Eneida, V, 446-52.
46 Cícero, Disputas Tusculanas, III, 26. 47 Quintiliano, Declamationes Maiores, II, 1, 9.
75 Porém, se por um lado, a solicitude e o amor pela virtude foram concedidos apenas para poucos como um favor e um presente peculiar da própria Natureza, por outro lado, para a maioria, esse presente foi negado pela malevolência da mesma, de forma que, no que diz respeito aos corpos, vemos alguns monstruosos, fracos e adoecidos.
(8) E a mente dos homens, que a Natureza deveria iluminar, foi por ela cegada para
que estes não contemplassem a luz da sabedoria. Força o morcego a preferir a luz à escuridão; convence a topeira a querer desfrutar da superfície ao invés das entranhas da terra, e a viver neste ar comum a todos nós e não naquele perpétuo sepulcro. Ou esperas que o leão tornar-se-á gentil por sua própria vontade? Mas por que eu falo de feras? Pede ao surdo para escutar, ao mudo para falar, ao cego para ver, ao aleijado para correr. Não, não devemos desejar o que a Natureza não nos permitiu por sua própria vontade. Assim, vemos que muitos, ou a maioria, apóiam o crime, a desonra e a iniqüidade e opõem-se à virtude; e não porque os vícios sejam bons, mas porque elas são corrompidas por natureza. Não nego que cada um de nós, se quisesse, poderia ser mais sábio. Mas,
(...) essa, sim, é uma tarefa árdua, a dura prova! Somente alguns poucos, filhos de deuses, a quem Júpiter gentilmente amou, ou aqueles cujo brilho da virtude se eleva até o céu, conseguiram. Florestas impenetráveis ocupam todo o espaço e as águas do rio Cocito rodeiam com seus braços tenebrosos48.