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Não há consenso entre os professores acerca da finalidade do ensino médio e, se não há essa sintonia, cada professor entra na sala de aula com um propósito diferente; uns preferem atender aos interesses do sistema educativo, ou seja, do Estado, outros procuram a manutenção de uma educação elitista, que tem como único objetivo preparar para o vestibular, mas, há aqueles que entendem o ensino não apenas como domínio de competências, mas como possibilidade de formação humana, senão completa, pelo menos desejável, e há, ainda, aqueles que demonstram total descrença pela escola.

Aí é tão difícil, é difícil por que de repente ela está preparando pro nada que o aluno quer. Para um futuro brilhante? Para muitos é só terminar o colegial e pronto. Para que eu vou usar isso? Eu fico triste quando estou falando de movimentos literários e eles falam para mim assim: para que eu vou usar isso na vida? Eu não preciso disso. Então eu acho assim para que a escola está preparando é uma boa pergunta. É para quê? Para um

futuro promissor? Mas que futuro promissor é esse? Ser cidadão, estar dentro das normas da vida? O que é norma de vida? O que é para mim uma coisa, às vezes não é para o outro, eu me preocupo muito com isso, agora falar, falar é complicado, falar desse jeito assim... é problemático. (Tânia, 49 anos, professora de Língua Portuguesa, da escola Metrópole). Na verdade não prepara para muita coisa não, a gente tem consciência que não vai servir para muita coisa não. Seria possível sim, mas não com a clientela que a gente tem, teria que querer aprender as coisas que eles não querem. Mas não prepara para muita coisa não. Aqui em Franca, especificamente, eles pensam, ah! Vou entrar na UNIFRAN, é fácil entrar, não que o ensino seja de péssima qualidade, a gente não vai julgar a instituição, mas eles conseguem entrar. Agora um ou outro tem condição de entrar numa boa universidade. Mas a maioria sai daqui e não adianta muita coisa não. Melhorou é lógico, melhor ter o que ela oferece do que não ter nada, né? Mas ela não prepara esse aluno nem para a vida, porque quando a gente fala preparação para a vida, envolve tanta coisa, que a escola não tem condições de suprir, para isso a família é mais importante que a escola. (Eleny, 26 anos, professora de Geografia, da escola Metrópole).

A fala das professoras retrata o dilema por que passa a escola pública de ensino médio, no caso das escolas em estudo, localizadas no Estado de São Paulo. É notório como a Secretaria Estadual de Educação esforça-se para a implementação da reforma do Ensino Médio, os professores reclamam do excesso de projetos que devem desenvolver durante o ano, e que não sobra tempo para trabalhar conteúdos que seriam importantes para o aluno passar em vestibular ou prestar concursos. Muitos, perdidos, em meio a tantos projetos, não conseguem visualizar como esses projetos podem contribuir para a formação do jovem. Embora haja espaço nas Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo – HTPC, para reflexão sobre a prática docente e sobre a finalidade da escola, essas horas são utilizadas na preparação de como executar os projetos estabelecidos pela Secretaria de Educação, não dispondo de tempo para reflexão sobre outros temas relevantes. Este fato quer dizer que não há, no conjunto de professores da escola, noções da finalidade do ensino médio.

Se o professor entra na sala de aula e não conhece os objetivos de seus alunos, se também não conhece a finalidade do nível de ensino em que trabalha, como poderá contribuir para a formação do jovem? É necessário que o professor consiga articular, dialeticamente, as finalidades do ensino médio com a realidade do seu aluno, de tal modo que as finalidades estejam já presentes no seu plano de curso, nos objetivos da sua disciplina, na sua prática cotidiana, enfim, que consiga a participação e o envolvimento do aluno, uma vez que sem participação não há aprendizado.

A professora Tânia demonstra que desconhece a finalidade do ensino e também da sua disciplina, quando diz “Eu fico triste quando estou falando de movimentos literários e

eles falam para mim assim: para que eu vou usar isso na vida?”. Por ser um conteúdo trabalhado de forma isolada pela professora, acaba por perder a referência e as características que lhes são próprias, porque não estabelece relações com o cotidiano dos jovens, não é apresentada a vinculação da multiplicidade de funções entre os “movimentos literários” e a construção do cidadão.

Como esse conteúdo e tantos outros são apresentados na imprevisibilidade, acabam por significar, para alunos, temas banais, episódios irrelevantes da cultura, fenômenos nada significativos, enfim, na ausência de diferentes abordagens para a mesma temática, abre possibilidade para que seja pensado apenas como conteúdo a ser memorizado e não como “experiência curricular comprometida com a vida, entendida como um processo social, cultural e biográfico, cujo desenvolvimento implica a reconceptualização dos próprios saberes escolares” (MATOS, 1999, p. 173).

Em relação ao depoimento da professora Eleny, há vários aspectos para interpretação: primeiro quando afirma que “a gente tem consciência que não vai servir para muita coisa”; é uma fala carregada ideologicamente, que pensa a educação somente com a finalidade de obter sucesso profissional, nesse sentido, ela vê que o ensino médio tem pouco a contribuir para com os jovens das classes subalternas. Em segundo lugar, “Seria possível sim, mas não com a clientela que a gente tem”, ou seja, uma escola de qualidade não depende de seu projeto pedagógico, dos seus equipamentos e infraestrutura, dos seus professores e sim da clientela que ela recebe, isso significa jogar toda responsabilidade pelo fracasso da escola nos alunos. Os jovens que freqüentam as escolas públicas estão recebendo ensino abaixo dos padrões, e essa responsabilidade a professora atribui ao aluno, a maior vítima do descaso com a educação dos jovens.

A clientela de que a professora fala, ou seja, os jovens a quem ela se propõe a ensinar são, em sua maioria, provenientes das classes subalternas e o ensino médio é a esperança de apropriação da cultura e de transformação da própria vida. Mas a professora não questiona a vida, não questiona os condicionamentos sob os quais a vida desses jovens se realiza e, portanto, não se propõe a ajudá-los a transformar a vida. Para Gramsci, (1968), a participação realmente ativa do aluno na escola só pode existir se a escola for ligada à vida. Desse modo, a escola e os professores devem ter o compromisso “em fortalecer os alunos e transformar a ordem social mais ampla em interesses de justiça e igualdade”. (MCLAREN, 1997, p. 5), somente assim a educação pode cumprir uma das suas funções que é oferecer condições para que o indivíduo consiga alcançar sua autonomia enquanto ser humano.

Em terceiro lugar, no depoimento da professora Eleny, merece destacar a contradição que a professora expressa ao comentar que “Aqui em Franca, especificamente, eles pensam, ah! Vou entrar na UNIFRAN, é fácil entrar, não que o ensino seja de péssima qualidade, a gente não vai julgar a instituição, mas eles conseguem entrar. Agora um ou outro, tem condição de entrar numa boa universidade”, ao afirmar que o ensino não é de péssima qualidade, também não acredita que tenha uma boa qualidade e, ainda, que uma boa universidade é a pública, e na pública apenas “um ou outro tem condições de entrar”. Portanto, o que deveria ser questionado pela professora é a sua parcela de responsabilidade pessoal no futuro dos jovens, pelo simples fato de que a atividade docente, principalmente no ensino médio, tem caráter de gestão de oportunidades, o que implica, simultaneamente, organização dos conteúdos, controle sobre si mesmo, e atenção às expectativas que são depositadas no seu trabalho, como motor das oportunidades sociais de seus alunos.

Outra observação pode ser feita em relação ao seguinte excerto “melhor ter o que ela oferece do que não ter nada, né?”, ou seja, para o pobre, ignorante, sem cultura, qualquer coisa que a escola oferecer será melhor que nada. O seu discurso representa um retrocesso, uma vez que evidencia que a escola é para os bons alunos, e estes não são os pobres, que já nasceram condenados ao fracasso. Novamente, percebe-se a professora ignorando os jovens enquanto seres de direitos, direitos a uma boa educação e a bons professores, direito em adquirir condições de se tornar um homem omnilateral47 conceito que expressa a realização plena do homem.

E, por fim, “Mas ela não prepara esse aluno nem para a vida, porque quando a gente fala preparação para a vida, envolve tanta coisa, que a escola não tem condições de suprir, para isso a família é mais importante que a escola”, a fala da professora “preparar para a vida” é uma reprodução do discurso oficial contido na reforma do ensino médio, e veiculado pelos meios de comunicação, com o seguinte slogan “O Ensino Médio agora é para a vida”. Nos documentos da reforma do ensino médio, isto é, as DCNEM e os PCNEM, há evidências de que cabe ao ensino médio garantir a preparação básica não só para o trabalho como para a vida. No entanto, essa finalidade do ensino médio não foi suficientemente discutida no interior da escola, pouco foi questionado sobre o preparar para o trabalho e, menos ainda, o preparar para a vida, mesmo porque, os documentos não

47 MANARCORDA, Mário A. Marx e a pedagogia moderna. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1975. p. 106.

Defende o conceito de omnilateralidade como a realização plena do homem, capaz de libertá-lo. “A omnilateralidade é, pois, o chegar histórico do homem a uma totalidade de capacidades e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidade de consumo e gozo, em que se deve considerar, sobretudo o usufruir os bens espirituais, além dos materiais de que o trabalhador tem estado excluído em conseqüência da divisão do trabalho”.

enfatizam o que é preparar para a “vida” ou para qual “vida” se pretende formar. E nem a professora questiona o que é preparar para a vida.

Certamente que a finalidade da educação é preparar para a vida. A partir do momento em que o professor desenvolve os conteúdos de sua disciplina, deve facilitar ao aluno assimilar concepções de mundo mais elaboradas e dar condições para que possa apreendê-la e vivê-la ou, em outras palavras, expressas por Duarte48

[...] a educação escolar deve ser vista não de forma unilateral, não como um processo de satisfação das necessidades espontâneas dos indivíduos, mas sim como um processo que produza necessidades cada vez mais elevadas nos indivíduos, cada vez mais enriquecedoras. A educação enriquece o indivíduo fazendo com que ele se aproprie de determinados conhecimentos e fazendo com que essa apropriação, por sua vez, gere a necessidade de novos conhecimentos que ultrapassem, cada vez mais, o pragmatismo imediatista da vida cotidiana e aproximem o indivíduo das obras mais elevadas produzidas pelo pensamento humano.

Como mediador social, o professor precisa acreditar na escola que ajuda a fazer, precisa conhecer a finalidade de ensino que ministra, conhecer as expectativas de seus alunos, sendo assim, a escola, como projeto social, poderá se transformar em plano de reinstitucionalização de crenças, valores, atitudes, práticas individuais e coletivas, que constituem forma de construção social, cujo sentido precisa ser definido a partir de quem está à frente da formação, ou seja, o aluno do ensino médio.

Também não se pode esperar que apenas o trabalho isolado do professor seja a garantia do “abre-te-sésamo” de todas as contradições que se encontram no interior da escola. Muitas vezes, as suas práticas carregam quantidades enormes de diferentes objetivos, por um lado ele é depositário das políticas públicas que necessitam do seu trabalho para implementação dos seus interesses, por outro, ele é depositário dos interesses da sociedade, que nem sempre são os mesmos estabelecidos pelas políticas públicas e, ainda, nele estão depositados as expectativas individuais dos alunos que, por sua vez, podem ser diferentes das estabelecidas pelos governos e pela sociedade, e ainda, há de se levar em conta, os interesses do próprio professor.

Faz-se necessário ressaltar que educação não é apenas ensino, e que muitos interesses contidos na escola visam capacitar e não educar; nesse sentido, o olhar do próprio professor para a finalidade do ensino médio é que não há finalidade, uma vez que a escola não capacita. Resta indagar se educa? Essa pergunta só pode ser respondida pelo próprio professor, pois o trabalho docente é socialmente oculto, testemunhado apenas pelos

48 DUARTE, Newton. A crítica de Marx à naturalização do histórico. Princípios nº 72. Disponível em

alunos, o professor tem o poder de decidir se quer educar ou não e, ainda, escolher a educação que será ministrada.

É o professor, livremente ou sob restrições, quem decide se a aprendizagem será baseada na memória ou “ativa”, se as borboletas serão estudadas ao vivo ou na página 53 do livro artificial de ciências naturais, se os alunos podem cooperar na realização de seu trabalho ou devem competir ferozmente entre si, se o importante é saber localizar uma banana na classificação dos vegetais ou conhecer suas qualidades nutritivas, etc. (ENGUITA, 1989, p. 173).

O professor, na organização de sua aula precisa refletir a que interesses os conteúdos que desenvolve atende: os instituídos por meio da legislação (Estado), os esperados pela sociedade (escola), a própria vontade do professor ou o direito subjetivo do aluno. O ensino não pode ser realizado apenas dependente de interesses gerais abstratos, mas segundo a subjetividade de seus principais atores – os alunos.