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Chapter 4 Acquisition project management

4.5 Spare parts management

Na Análise Textual dos Discursos de Jean Michel-Adam, a dimensão semântica compreende um dos níveis de análise textual, uma vez que cabe à Linguística Textual a descrição e a definição das diferentes operações, inclusive as operações semânticas, que são realizadas sobre os enunciados em todos os níveis de complexidade.

9 A operação de localização espacial e temporal e a operação de conexão, por exemplo, analisadas aqui como categorias do nível semântico do texto, contribuem de forma determinante para a progressão textual – aspecto observado no nível da textura.

Deste nível de análise, a representação discursiva é a principal categoria analítica, conforme salienta o próprio Adam (2011) no esquema quatro, anteriormente apresentado. Entretanto, como o próximo capítulo desta tese é dedicado com exclusividade às representações discursivas que se constroem nos enunciados, nos deteremos aqui às demais operações que se estabelecem na dimensão semântica.

Conforme Adam (2011), as unidades textuais são submetidas a dois tipos de operações de textualização: operações de segmentação (descontinuidade) e operações de ligação (continuidade), apresentadas no esquema a seguir:

Figura 03 – Esquema 5: Operações de segmentação e de ligação Fonte: Adam (2011, p. 64).

De um lado, as operações de segmentação (tipográficas na escrita e gestuais e fonéticas na oralidade) dividem o todo da unidade textual em segmentos descontínuos, que se organizam de forma linear. Por outro lado, as operações de ligação consistem na construção de unidades semânticas e de processos de continuidade pelos quais se reconhece um segmento textual (ADAM, 2011). Interessam-nos, aqui, de modo especial, estas últimas operações, porque estão situadas no nível semântico dos textos. As operações de ligação dão coesão, textura e união aos enunciados, às proposições10, constituindo o todo do texto, conforme se verá a seguir:

10 A noção de proposição será desenvolvida com mais clareza no tópico seguinte, quando nos deteremos a apresentar as unidades de análise da Análise Textual dos Discursos.

Figura 04 – Esquema 13: Operações de ligação que asseguram a continuidade textual Fonte: Adam (2011, p. 131).

Desses seis tipos de operações de ligação que asseguram a continuidade textual, nossa atenção recai sobre as ligações do significado, ou as ligações de ordem semântica. O interesse individual por um desses tipos de ligação não implica dizer que isoladamente elas são suficientes para fazer de um texto uma unidade coerente. Detemo-nos especialmente às ligações do significado porque queremos delinear o nível semântico do texto, conforme a perspectiva de Adam (2011), mas reconhecemos que estas operações não funcionam individualmente nos textos.

As ligações do significado podem ser de dois tipos: ligações semânticas 01: anáforas e correferências e ligações semânticas 02: isotopias e colocações. Segundo Adam (2011, p. 132), a correferência “é uma relação de identidade referencial entre dois ou mais signos semanticamente interpretáveis, independentemente um do outro (à diferença de um pronome, vazio de sentido, sem o seu referente)”. Em outros termos, um dado objeto do texto é retomado semanticamente por outro que o complementa numa ligação de identidade que não modifica o seu sentido.

O recuo dos bandidos – Depois de mais de uma hora de pesado bombardeio os bandoleiros recuaram cessando fogo apesar de duramente hostilizados pelos defensores da cidade (N02CP).

Como se pode perceber no fragmento acima retirado de uma das notícias de nosso corpus, a retomada assinalada em negrito é ligada por relação de correferência e, por isso, os dois termos (os bandidos e os bandoleiros) destacados são semanticamente complementares. Os usos não mudam a identidade do referente, mas a reafirma. Este exemplo confirma o que dizem Charaudeau e Maingueneau (2008): correferência é a capacidade que duas palavras ou um conjunto de palavras possuem ao se referirem a um mesmo objeto discursivo. Entretanto, essas duas expressões não são necessariamente sinônimas: “elas reformulam ou reinterpretam o mesmo discurso, complementando-o ou esclarecendo-o ao ouvinte-leitor as retomadas contínuas que um texto possibilita para construir a sua rede de significações” (p. 142).

Ainda segundo Adam (2011), as ligações semânticas correferenciais podem ser chamadas de anafóricas, uma vez que a interpretação de um significante depende de um outro, presente no cotexto esquerdo (o caso das anáforas propriamente ditas – que chamamos de anáforas puras) ou no cotexto direito (o caso da catáfora). Os tipos de anáforas apresentados pelo autor estão sintetizados no quadro abaixo:

TIPO DE ANÁFORA EXEMPLO

Resumidora: “quando incide sobre um segmento longo que ela sintetiza” (p. 134).

“Diante da gravidade da situação, por prudência, foram-se retirando tôdas as famílias da cidade e arredores. Êsse movimento aumentou na proporção da aproximação dos bandoleiros.” (Correio do Povo).

Associativa: incide sobre um segmento

a ser inferido. “Mais tarde, chegou um emissário de Lampião conduzindo um bilhete dirigido ao Prefeito Cel. Rodolfo Fernandes exigindo 400 contos de réis.” (Correio do Povo).

Pronominal: retoma um nome e lhe é,

por definição, fiel, porque “não indica nenhuma nova propriedade do objeto” (p. 137).

“O grupo de bandidos cometeu tôda a sorte de misérias como sói fazê-lo por onde passa.” (O Mossoroense).

que contêm introdução de um referente sob a forma indefinida e depois retomada lexical idêntica” (p. 138).

Grande do Norte e comete depredações. (...). Os bandidos primeiro inutilizaram os aparelhos telegráficos.” (O Nordeste).

Demonstrativa: “indica a identificação, a relação com um segmento posto na memória, anteriormente, mas ela o faz operando uma reclassificação do objeto” (p. 142).

“(...) comerciantes, industriais, autoridades, e elementos de destaque, se entenderam e logo foram comprar rifles e munições, em Fortaleza. (...) êsse armamento está sob as vistas da municipalidade (...).” (O Nordeste).

Quadro 01: Tipos de anáfora. Fonte: Adam (2011).

Diante da exposição, percebemos que esse grupo de ligações semânticas que envolvem as correferências e as anáforas assegura o processo de construção de sentido do texto, fazendo uso dos elementos linguísticos que estão disponíveis na memória do falante para a produção do seu dizer, seja ele falado, seja ele escrito.

O segundo tipo de ligações semânticas refere-se às isotopias e às colocações. Para compreender a noção de isotopia, Adam (2011) recorre a Algirdas- Julien Greimas (1976) e Humberto Eco (1985):

A existência do discurso – e não de uma sequência de frases independentes – só pode ser afirmada se pode ser postulada para a totalidade das frases que o constituem, uma isotopia comum, reconhecível, graças a um leque de categorias linguísticas ao longo do seu desenvolvimento. Assim, somos inclinados a pensar que um discurso “lógico” deve ser sustentado por uma rede de anafóricos que, remetendo-se de uma frase a outra, garantem sua permanência tópica. (GREIMAS, 1976, p. 28 apud ADAM, 2011, p. 147).

Eco (1985, p. 131, apud ADAM, 2011, p. 147), por sua vez, define a isotopia como “a constância de um percurso de sentido que um texto apresenta quando submetido a regras de coerência interpretativa”. Em outros termos, a isotopia diz respeito à permanência de um certo efeito de sentido no todo de um discurso, corresponde, pois, de modo bastante geral, a coerência semântica de um discurso. Para Queiroz (2013), a isotopia está voltada para a coerência semântica do texto, proporcionando a busca pelo seu significado, o que ocorre através da mais simples sequência de elementos linguísticos que organizam os textos, indo até a mais complexa rede configuracional. Compreender as isotopias de um discurso é, pois,

fundamental, para a realização de um trabalho interpretativo de um discurso a partir do léxico empregado em sua construção.

O outro elemento que congrega o segundo grupo de ligações semânticas são as colocações. De modo geral, podemos dizer que as colocações são de dois tipos: as colocações em língua (associações codificadas de lexemas, repertoriada nos dicionários) e as colocações próprias de um texto (estabelecidas pelas repetições de sequências de lexemas associados num texto dado).

Aqui, como salienta Adam (2011, p. 156), diferentemente das isotopias, blocos de sentido temáticos e figurativos que contribuem para facilitar a leitura e, consequentemente, a compreensão de sentido do conteúdo expresso pelo discurso, as colocações compreendem os “agrupamentos lexicais que um texto propõe e que um programa de tratamento informático atento, não apenas à simples segmentação das ocorrências, mas à das ocorrências de lexemas, permite evidenciar.”. De modo geral, as colocações são fundamentais para a construção da coesão semântica dos textos, porque todo o vocabulário empregado pelo autor de um texto é realizado a partir de associações de lexemas.

Esses dois tipos de ligações semânticas ligam as proposições-enunciados e formam a organização linear e reticular da estrutura composicional dos textos, os quais se conectam para assegurar a progressão e a continuidade semântica deles (ADAM, 2011). Esses fenômenos – as anáforas, as correferências, as isotopias e as colocações – são elementos fundamentais para compreender a dimensão semântica dos textos e auxiliam na construção de representações discursivas, principalmente as correferências e as anáforas, que serão tratadas na categoria de referenciação no capítulo seguinte.