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Chapter 5 Risk analysis and management

5.2 Risk management methodologies

No programa da Análise Textual dos Discursos de Jean-Michel Adam, a representação discursiva compreende principal categoria de análise do nível semântico de texto. Para tratar desta categoria, Adam (2011) retoma o “postulado de representação”, de Jean-Blaize Grize (1990, 1996), segundo o qual as atividades discursivas dos interlocutores são orientadas por um conjunto complexo de representações dos temas tratados, da situação de discurso e dos interlocutores (RODRIGUES, PASSEGGI & SILVA NETO, 2012; ADAM, 1999). Por isso, dizemos, acompanhando ainda Rodrigues, Passeggi e Silva Neto (2010), que todo texto constrói, com maior ou menor riqueza de detalhes, representações discursivas de seu enunciador, de seu ouvinte ou leitor e dos temas ou assuntos tratados.

Uma representação discursiva apresenta-se, minimamente, como um tema ou um objeto de discurso e o desenvolvimento de uma predicação a seu respeito, cuja forma linguística se estrutura a partir da associação de um sintagma nominal e de um sintagma verbal, isto é, de um enunciado mínimo proposicional, ou ainda de um nome e de um adjetivo. Esta extensão estrutural, mesmo sendo mínima, no caso desta última forma mais reduzida, segundo Adam (2011), consegue preencher o microuniverso semântico das representações discursivas, porque constrói um “pequeno mundo” (ADAM, 2011) de forma coerente e estável, apresentado ao interlocutor como uma imagem da realidade (PLATIN, 2008).

No entanto, mesmo sendo claramente colocada e reconhecida na economia geral das categorias textuais do programa da Análise Textual dos Discursos, a

noção de representação discursiva é pouco desenvolvida e relativamente incompleta na obra de Adam (RODRIGUES et al, 2012), o que pode ser confirmado ao observarmos o curto número de páginas dedicado às representações discursivas em A Linguística Textual: Introdução à análise textual dos discursos (pouco menos de três páginas) a ausência de discussão sobre algumas operações de construção de representações discursivas, como a predicação. Por isso, necessário se faz a mobilização de estratégias teórico-metodológicas voltadas para a complementação da proposta de Adam (2011), tendo em vista uma melhor compreensão de seu funcionamento nos textos.

Rodrigues, Passeggi e Silva Neto (2012) sugerem, por exemplo, que as operações de construção identificadas por Adam (2011) para as sequências descritivas podem ser interpretadas como operações de construção de representações discursivas, porque são comuns a todos os tipos de sequências (entenda-se o conteúdo referencial-descritivo). “Trata-se de procedimentos de textualização gerais e elementares que estão na base da construção de todo texto” (p. 301). Ademais, estas operações devem ser complementadas com as contribuições de Grize (1990, 1996) sobre suas operações lógico-discursivas, que também são operações de textualização e de construção de esquematizações.

Pensando no postulado das representações de Grize (1990, 1996), Passeggi (2001, p. 248) afirma que:

O postulado das representações remete às “representações mentais” dos interlocutores. Embora a lógica natural não pretenda examinar a realidade psicológica das representações mentais – pois, enquanto lógica, foge das interpretações psicologizantes – ela assume que os interlocutores têm representações e que estas são fundamentais na comunicação discursiva.

Ora, por isso que Adam (2011) afirma que é o interpretante que constrói, a partir dos enunciados, as representações discursivas em função de seus objetivos e intenções (suas finalidades) e de suas representações psicossociais da situação comunicativa, do enunciador “e do mundo do texto, assim como de seus pressupostos culturais” (GRIZE, 2004; ADAM, 2011, p. 114). Assim, as representações discursivas também são construídas em função dos aspectos

socioculturais que envolvem o processo comunicativo ou, melhor dizendo, nos termos de Passeggi (2001, p. 248), com base em pré-construídos culturais que são compartilhados pelos interlocutores, que “mobilizam um conjunto de conhecimentos pré-construídos, de natureza cultural e social, a começar pela própria língua utilizada”.

Para interagir com o outro, qualquer locutor deve ter uma representação da situação de comunicação da qual participará – isto significa que ele deve conhecer não só o seu interlocutor e o tema tratado no seu discurso, mas também deve ter uma ideia de si mesmo enquanto interveniente no processo comunicativo e consciência das intervenções que poderá fazer. Isto porque “uma esquematização tem por função fazer alguém ver alguma coisa, mas precisamente, é uma representação discursiva orientada para um destinatário sobre como seu autor concebe ou imagina uma determinada realidade” (GRIZE, 1996, p. 50). Ao interlocutor, cabe interpretar, reconstruir a esquematização (ou a representação discursiva) que lhe é apresentada. E disto resulta o princípio dialógico do modelo proposto por Grize (1990), apresentado no esquema abaixo:

Figura 06: Situação da comunicação Fonte: Grize (1990)

Do esquema acima, elaborado pelo próprio Grize (1990), depreendemos: os elementos “A” e “B” designam dois lugares ou papéis que podem ser ocupados, claro que alternadamente, por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos, resguardando suas especificidades psicológicas e sociais. “Trata-se de sujeitos que

desempenham cada um uma atividade: atividade de construção por parte de A e atividade de reconstrução por parte de B” (GRIZE, 1996, p. 68). O locutor “A” constrói uma representação discursiva do assunto em função da finalidade, dos pré- construídos culturais e das representações que possui sobre ele mesmo, sobre o tema e sobre o interlocutor. O locutor “B”, por sua vez, reconstrói essa esquematização que lhe é proposta em função da esquematização, da finalidade, das representações e dos pré-construídos culturais.

Entretanto, segundo adverte Adam (2013), deve-se considerar que a reconstrução que “B” faz da esquematização proposta por “A” pode não ter a mesma forma, porque os interlocutores são seres distintos, reais e únicos e a comunicação não é um processo simétrico, há uma série de fatores que tomam parte desse processo e que o determinam. A assimetria entre “A” e “B” se deve ao fato de que a finalidade de “A” é diferente da finalidade de “B”, visto que “A”, no esquema apresentado anteriormente, é aquele que toma a iniciativa do ato de comunicação, de modo que “B” está restrito ao que “A” lhe propôs.

Convém ainda esclarecer que as representações devem ser distinguidas das imagens dos diferentes componentes propostos na esquematização acima. O próprio Grize (1990, p. 33) sublinha esta distinção nos seguintes termos: “(…) je réservele terme d‟image pour ce que propose la schématisation elle-même. Dans ma terminologie, orateur et auditeur ont des représentations et le discours propose des images15". Assim, de um ponto de vista discursivo, toda esquematização – entendamos toda representação – sugere a construção de três tipos de imagens: do locutor (Im(A)), do tema tratado em seu discurso (Im(T)) e do interlocutor ao qual o locutor se dirige (Im(B)).

Estas três imagens são retomadas por Rodrigues, Passeggi e Silva Neto (2010) como representações de três instâncias do discurso: o enunciador, o ouvinte ou o leitor e o tema ou assunto tratado. Em Queiroz (2013), esses conceitos são adaptados da seguinte forma: imagem do locutor para a noção de representação discursiva de si, imagem do interlocutor para a noção de representação discursiva do alocutário e imagem do tema tratado para a representação discursiva do tema ou do assunto tratado.

15 “(...) reservo o termo imagem para o que propõe o próprio esquema. Na minha terminologia, orador e auditor têm representações e o discurso propõe imagens”.

A representação discursiva de si compreende a imagem que o locutor (ou o enunciador) faz de si mesmo em seu discurso. Trata-se do conceito retórico de ethos, segundo o qual todo ato de tomar a palavra implica a construção discursiva, deliberada ou não, de uma imagem de si, no intuito de garantir e assegurar o sucesso do empreendimento oratório. Segundo Amossy (2013), a construção dessa imagem não se faz por meio de um autorretrato feito pelo locutor, pelo detalhamento de suas qualidades e características físicas ou porque ele fale explicitamente de si, mas que seu estilo, suas crenças implícitas são suficientes para construir a representação da pessoa do locutor. Como diz Barthes (1975, p. 203), é como se o orador enunciasse uma informação e, ao mesmo tempo, ele dissesse: “eu sou isto aqui e não sou aquilo lá”.

De acordo com Grize (1996), para que o locutor construa as suas esquematizações (isto é, as representações discursivas de si), ele precisa também pensar no seu possível alocutário. Por isso, dizemos que os discursos constroem representações discursivas que o locutor faz de seu interlocutor (ou do ouvinte- leitor). Por sua vez, o alocutário interpreta a esquematização que é construída pelo locutor, tendo em vista as suas competências linguístico-discursivas e culturais, de acordo com os seus objetivos (PASSEGGI, 2001). Ora, assim, locutor e alocutário (ou enunciador e ouvinte-leitor) compreendem instâncias fundamentais no processo de construção dos textos e no funcionamento dos discursos.

Finalmente, dizemos que o locutor também constrói representações discursivas do tema ou do assunto tratado em seu texto-discurso. Como salienta Passeggi (2001, p. 249-250), “as imagens do tema tratado constituem o conteúdo manifesto da esquematização e remetem diretamente às operações lógico- discursivas de sua construção”. Os recursos linguístico-discursivos mobilizados pelo locutor para construir e estruturar o texto de seu discurso (no plano sintático e no plano semântico) não possibilitam apenas o repasse de informações, mas também a construção de representações discursivas do assunto tratado, de objetos de discursos que são tematizados.

Dos três tipos expostos acima, interessa-nos, em nossa pesquisa, de modo particular, este último tipo de construção de representações discursivas, porque, como dito na introdução desta tese, na análise do corpus de nossa investigação nos detemos especificamente à construção de representações discursivas sobre

Lampião e seu bando, que se configuram como assuntos, como tema tratado nas notícias analisadas. Como já dito, nos interessa observar como são textualmente construídas as representações discursivas de Lampião e seu bando de cangaceiros em notícias do século vinte, tomando como plano de fundo o acontecimento da incursão do bando à cidade Mossoró, em junto de 1927.