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3.3 Datainnsamlingen

3.3.2 Spørsmålene

A concentração estava marcada para as 10h, em frente à Câmara Municipal dos Vereadores. Aos poucos, se via chegar mais e mais carroças e carrinhos58. Pareciam vir de tudo que é lugar e, apesar de terem um determinado padrão comum em sua estrutura, os diferentes materiais utilizados em suas construção, as diversas cores, as placas e os enfeites variados davam um certo espírito alegórico e carnavalesco àquele conjunto de artefatos móveis. Às 11h, a animação já estava bem elevada. As carroças iam se concentrando cada vez mais e seu número já ultrapassava os quarenta. A presença de um carro de som, que continuamente tocava algumas músicas de ritmo popular, como xote, vanerão e marchinhas, e

58 Tanto carrinhos quanto carroças referem-se aos veículos de trabalho utilizados pelos catadores de São Paulo. Em quase toda a cidade, com exceção de alguns poucos espaços urbanos localizados na periferia, estes artefatos são movidos à tração humana e suportam o peso da carga apenas em um eixo com duas rodas. Algumas carroças, devido à sua estrutura e ao material utilizado, permitem carregar cerca de 800kg. O carrinho, principal instrumento de trabalho para a grande maioria dos catadores da cidade, é, ao mesmo tempo, vetor de deslocamento, transporte para o material coletado e ‘casa ambulante’ para aqueles que vivem nas ruas. Os nomes deste artefato variam de acordo com as cidades e as regiões do país, contudo, pelo fato de aqui em São Paulo, carrinhos e carroças serem usados, ambos quase como sinônimos, tratarei aqui os dois termos como intercambiáveis.

que falavam sobre os catadores, imprimia sonoridade a toda aquela efervescência. As pessoas cantavam e dançavam, outras se cumprimentavam e conversavam. Muitas bandeiras e placas coloridas despontavam nas mãos dos manifestantes. Havia também uma composição muito própria, no que se refere ao figurino de alguns atores. Tal fato era notado através das camisas e macacões coloridos, com o nome das respectivas cooperativas, que grupos de pessoas trajavam. A maneira como aquelas vestes ali se realizavam era nitidamente outra da cotidiana. O uniforme de trabalho diário ali, naquele momento, se metamorfoseava em outra coisa. Ao ser incorporado naquele contexto vivo e festivo, o uniforme habitual transformava-se em símbolo de orgulho e altivez. Toda aquela gente junta e animada, como um quadro composto por coloridos emblemas em movimento, manifestava uma afirmação positiva por estar ali. A inquietação e a empolgação eram expressões marcantes. Sem sombra de dúvida, este não era um momento qualquer.

Definitivamente, para aquelas pessoas este era um dia muito especial. Ele fora definido três anos atrás, em 2001, na “Primeira Marcha da População de Rua e dos Catadores de Materiais Recicláveis”. Pelo fato do final da marcha ter se realizado no dia 7 de junho, este foi escolhido como o dia de mobilização nacional do movimento. Foi acordado, desde então, que em todo país os catadores organizados praticariam manifestações públicas, como forma de luta pelos desafios locais (MNCR, 2005).

E o desafio que os catadores de São Paulo então enfrentavam era o já citado projeto de Lei 171. As críticas à lei eram várias e foram formalizadas em um documento escrito pelo próprio MNCR. Neste documento, dizia-se que antes de se tomar qualquer atitude política, seria necessário haver uma discussão do poder público com a categoria de trabalhadores que são objeto desta lei. Afirmava-se, também, que o credenciamento proposto e as regras deles decorrentes fortaleceriam apenas os atravessadores, já que os catadores não possuem condição de honrar com as despesas de novos carrinhos padronizados. Outra crítica foi de que a lei proposta teria repercussões extremamente negativas e potencialmente excludentes para os catadores individuais e não organizados, e que às vezes nem possuem carrinhos para trabalhar. Este perfil de catador, marcado pela rua, que muitas vezes se encontra submetido aos atravessadores e que historicamente utiliza o centro da cidade como espaço de trabalho, seria o mais atingido com a implementação desta lei. Por último, o MNCR repudiava terminantemente a obrigatoriedade, proposta pelo projeto, da publicidade veiculada nos carrinhos dos catadores.

Tal projeto de lei não havia sido feito pela nova gestão municipal, contudo era em direção a esta que os manifestantes teriam de se voltar, pois este só poderia ser vetado pela

assinatura do prefeito José Serra. Como a prefeitura, mesmo recebendo diversas cartas, mensagens e dizeres contrários à lei, havia silenciado em relação ao caso, foi resolvido que em São Paulo o tema do dia de mobilização nacional dos catadores seria a luta pelo veto deste projeto de lei. O ato público foi organizado visando fundamentalmente chamar a atenção do Estado para as questões que este projeto de lei colocava em jogo. Por isso mesmo, a mobilização iniciar-se-ia na mesma Câmara onde a lei fora proposta e terminaria em frente à sede da prefeitura, instituição que poderia dar fim ao indesejado projeto. A manifestação que agora se via, tinha sido organizada pelo MNCR, sendo que este recebeu o apoio de outras organizações atuantes no centro, como o Fórum Lixo & Cidadania, a OAF e a Rede Rua. Estavam lá presentes outros atores sociais, representantes de diversas cooperativas de catadores, do Fórum das Organizações que trabalham com a População em Situação de Rua e do Fórum da População em Situação de Rua de São Paulo.

Ao colocar-se em movimento, aquele aglomerado de pessoas foi se transformando paulatinamente em uma grande e chamativa comitiva. A rua agora se tornava cenário de um teatro em movimento. Na frente ia o carro de som, do sindicato dos comerciários do Estado de São Paulo, puxando o hino nacional dos catadores de materiais recicláveis. Este hino pouco tinha de imponência e grandiosidade, pois por ser em ritmo de xote, transmitia muito mais animação do que reverência. No entorno do carro muitas pessoas, caminhando a pé, levantando placas e bandeiras em mãos, cantavam e dançavam a música. Contudo, de toda aquela parafernália o mais impressionante, o que mais se destacava, aquilo que era mais espetacular era o longuíssimo cortejo. Já se somavam então cerca de sessenta carroças, que em fila atrás do carro de som assemelhavam-se, e em muito, a um verdadeiro desfile em pleno centro de São Paulo.

E o desfile era grande, tomava toda extensão do viaduto da Nove de Julho. Enquanto na frente, o carro de som já ia saindo do viaduto e tornando à direita, a cauda alongada do enorme cortejo ainda sequer tinha adentrado completamente no trecho. Além de tomar metade do amplo viaduto, aquele teatro de rua, seguido por inúmeras carroças e carrinhos, o fazia na direção contrária dos carros que vagarosamente cruzavam ao lado do espetáculo. O trajeto da manifestação na direção da prefeitura, na contra mão da avenida, em alto som e em alta voz. Todo aquele trabalho de figuração rompia com o sentido cotidiano da rua, deslocava-o, estranhava-o. Aquela comprida fila de artefatos em movimento, puxados por homens e mulheres, era algo que chamava a atenção, atraía os olhares do público. Naquele momento, regras (como as de trânsito) foram temporariamente suspensas, a rua deixava de ser o espaço

do ordinário para metamorfosear-se em espaço do extraordinário. A rua, agora, transformava- se em cena de uma enunciação performática.

Chocava os transeuntes a quantidade de carroças seguindo em linha, muitas delas decoradas com bandeiras e cartazes com dizeres de contestação e enfrentamento. Muitos destes dizeres estavam acompanhados com uma referência à cidade, região, bairro, cooperativa ou instituição de origem e isso permitia também notar a grande heterogeneidade dos lugares, referências e personagens ali presentes. As frases e palavras pronunciadas e anunciadas ao público eram diversas e possuíam um caráter eminentemente político. Os gritos de guerra, as palavras lançadas ao espaço público da rua eram palavras de combate: “Catador organizado jamais será pisado”. Nas placas que os manifestantes carregavam, exprimiam-se conflitos e contradições que, antes latentes, eram agora manifestos: “Mileano limpando a cidade. Cadê o pagamento? Catador Boracéia”. “Catador: um profissional que limpa a cidade, ajuda a natureza e a prefeitura retirando toneladas de resíduos por dia. Coopamare”. “Prefeito, reconheça nossa categoria profissional. Cooperativa da Granja Julieta”.

Os anseios e dificuldades enfrentadas diariamente podiam agora, mesmo que momentaneamente, tornarem-se públicas: “Estão querendo tirar o meu carrinho da rua”. “Queremos ter o direito de continuar a limpar a nossa cidade. Sim ao veto”. “Deixe-nos Trabalhar”. “Queremos continuar nosso trabalho em paz. Cooperativa da Granja Viana”. “Todos têm direito a um trabalho mesmo que seja puxando carroça na rua. Casa de Oração”. Reivindicações são expressas. “Justiça para os carroceiros. MNCR”. “Trabalho, moradia, dignidade e respeito”. “Queremos organização, não exclusão. Catador Boracéia”. Sonhos e projetos são anunciados: “Catadores por um mundo melhor. Avaré”. Neste momento de estranhamento e suspensão dos sentidos ordinários, até mesmo nomes consagrados e respeitados, como o do antagonista, poderiam virar motivo de brincadeira: “Estão serrando nossas vidas”, e assim, a própria imagem do poder era satirizada.

Nas placas, através do traço, da escrita e do desenho, expunham-se publicamente potenciais conflitos entre visões de mundo, representações antagônicas e oposições prenhes de dramas sociais: “Coleta seletiva sem catador é lixo”. “Políticas públicas, queremos ter voz. Coopamare”. “Senhor prefeito, não queremos esmola, queremos trabalho. Povo da rua”. Até mesmo classificações tão comuns são questionadas: “Lixo não é lixo”. Afirmações positivas são feitas: “Catador é profissão. MNCR”.

Quando a comitiva, depois de atravessar em desfile a Praça Ramos e o Viaduto do Chá, chegou à frente à sede da prefeitura, qual foi a decepção em saber que o prefeito, alvo de todo aquele alvoroço coletivo, não estava presente. Aquele mundaréu de carroças, que havia

fechado o trânsito do centro da cidade para chegar até ali, agora mal cabia em frente à prefeitura junto com os manifestantes. Estes diziam que o prefeito, sabendo com antecedência da mobilização que buscava interpelá-lo, havia estrategicamente evitado dar as caras por ali. Mesmo assim, o drama persistia. No carro de som, continuamente se afirmava a causa do ato público: “A prefeitura quer atrapalhar o nosso trabalho, mas não vamos deixar isso acontecer”. Pelas caixas de som, foi afirmado que não se ia sair da frente da prefeitura enquanto esta não se comprometesse em vetar o projeto de lei. A pressão foi aumentando e os gritos de guerra não pararam: “Catador organizado, jamais será pisado”. Em alguns momentos, lá em cima do caminhão de som, gritavam: “Recicla ou não recicla?” E lá embaixo, os manifestantes respondiam: “Recicla!”.

Momento de pressão na Praça Patriarca em frente à Prefeitura de São Paulo.

Fonte: arquivo do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis

Em frente à entrada da prefeitura, Sebastião Nicomendes, um dos integrantes do recém criado MNPR, estava todo paramentado e levantava em haste aquilo que parecia ser um emblema, uma espécie de símbolo da população de rua. Enrolado em um cobertor escuro e vestindo havaianas, Tião, como era também conhecido, segurava e balançava um longo

pedaço de pau com algumas coisas amarradas em sua extremidade superior: um saco plástico negro destes de lixo doméstico, uma garrafa de refrigerante pet vazia e três bandeirinhas do Brasil. Com esta simples composição, Sebastião parecia querer expressar uma certa especificidade da rua. Ao conversar com ele, me disse: “essa é a bandeira da rua que eu fiz para hoje”.

Já eram cerca de 14h quando, depois de muita pressão, assessores do prefeito aceitaram dialogar com uma comissão formada por catadores de materiais recicláveis e alguns técnicos de apoio59. Depois que a comissão de delegados entrou na prefeitura, as pessoas que ali estavam ficaram mais acomodadas, mas não por isso menos tensas. A manifestação só foi se dispersar uma hora e meia depois, às 15h30, quando os assessores deram certeza de que o prefeito receberia em mãos o documento entregue pelo MNCR e daria fim ao silêncio em relação à lei.. Cerca de dez dias depois do evento, foi anunciado o veto do projeto de lei 171 pelo Prefeito José Serra.