A concentração estava marcada para as 9h em frente à Catedral da Sé. Eram umas 9h30 e já tinham chegado algumas carroças. Ao aproximar-se do agrupamento de pessoas, recebi um papelzinho escrito “Carta Aberta à População”, que dizia: “Nós catadores e catadoras da cidade de São Paulo, vimos mostrar a toda sociedade nossa indignação quanto às ações da Prefeitura de São Paulo em relação à categoria dos catadores. Esta prefeitura vem apreendendo nossos materiais recicláveis e proibindo nosso trabalho com agressões e ameaças”. Contava um pouco sobre o Movimento e mais ao longo da carta era possível ler: “Somos uma categoria, que gera economia de energia, matéria prima para a indústria, benefício para o meio ambiente com a coleta de parte dos resíduos sólidos produzidos na cidade, dando vida útil aos aterros sanitários. Esse trabalho é realizado gratuitamente, muitas vezes sem a infra-estrutura do poder público, enquanto a Prefeitura paga para empresas privadas cerca de 90 reais por tonelada coletada”.
O principal motivo da manifestação foi chamar a atenção do poder público para os catadores. Muitas carroças estavam sendo impedidas de circular pela cidade e foram
apreendidas pela polícia e pela fiscalização. Outra crítica à prefeitura era de que se queria que os catadores fossem reconhecidos como uma categoria de trabalho e incluídos no programa de coleta seletiva, já que eram mais de 20 mil em toda cidade e estes eram responsáveis por quase 90% do material reciclável coletado.
Momento de concentração em frente à Catedral da Sé.
Foto: Daniel De Lucca Reis Costa
Em verdade tinham poucas pessoas naquele evento. Comparado com o anterior, este era bem menor. Havia lideranças do MNCR e catadores provenientes de cooperativas de outras regiões da cidade e até mesmo de outras cidades, como Baixada Santista, Ourinhos e Avaré. Contudo, estavam presentes não só figuras ligadas ao movimento dos catadores. Também estavam ali pessoas ligadas ao MNPR, como Anderson e Sebastião, sendo que este último chegou comentando que a falta de organização impediu a impossibilidade de uma maior mobilização coletiva para o evento. Encontrei também alguns participantes do Fórum Centro Vivo e de outras organizações atuantes no centro de São Paulo.
Foi aberta uma grande bandeira do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e deixada na escadaria da Catedral da Sé, para dar mais visibilidade ao
símbolo. Todos aqueles badulaques de manifestações estavam mais uma vez presentes. Placas, bandeiras e faixas com vários dizeres: “Abaixo a repressão, catador é profissão”, “Coleta seletiva feita pelos catadores já”. Alguns dizeres enfatizavam aquelas dificuldades vividas cotidianamente que ali podiam ser exprimidas publicamente: “Cada carroça tem seu peso. E a discriminação, quanto pesa?” Outros escritos demonstravam alianças: “Catadores e Povo da Rua unidos na luta popular”. Até mesmo as alianças com os objetos, no enfrentamento e na luta da vida ordinária, também eram expostas: “A carroça é a extensão da luta pela sobrevivência”.
O carro de som era, de novo, o do Sindicato dos Comerciários do Estado de São Paulo. E no som rolava o cd do MNCR. Todas as músicas possuíam um caráter popular, tinha de xote até hip hop, e as letras falavam sobre a vida do catador. Ao som da música, muitas pessoas dançavam e brincavam. Ao perguntar para Anderson sobre o carro de som do sindicato, ele explicou: “Depois do massacre do Povo do Povo da Rua, os comerciários do Centro foram muito criticados e a partir disso começaram a apoiar os dois movimentos”. Também fiquei sabendo posteriormente que o lanche, servido no final do “Dia de Luta”, foi uma doação do mesmo sindicato.
Enquanto a concentração permanecia na Sé esperando mais pessoas chegarem, uma equipe de reportagem do SBT aparece e começa a filmar e entrevistar vários catadores. Logo após, chegam mais repórteres para registrar aquele teatro, um da rádio Record e outro do Diário de São Paulo. Distribuem-se pelo púbico, fotografam placas e claro que preferem entrevistar aqueles que estavam com suas carroças, pois deste modo a imagem registrada seria a de um catador mais “autêntico”.
O aglomerado de pessoas, carroças, carro de som, placas e bandeirolas do MNCR começam a se locomover em conjunto. E a movimentação é feita de maneira ordenada, com a bandeira grande do movimento na frente e o resto da comitiva, com o carro de som, atrás. A marcha tinha inicialmente a proposta de chegar à sede da Prefeitura pela XV de Novembro, mas como os coordenadores não conseguiram a autorização da CET para o carro de som subir no calçadão, seguiram o caminho da rua mesmo.
Em frente à Prefeitura, carroceiro expressa sua relação com instrumento de trabalho.
Foto: Daniel De Lucca Reis Costa
E o microfone não parava de funcionar: “Catador não quer esmola, quer trabalhar”, “Queremos apoio, não a ingerência do poder público”, “Coleta seletiva sem catador, é lixo”, “A Prefeitura não reconhece nosso trabalho, toma nossas carroças e não deixa a gente reciclar. São eles que estão poluindo a cidade e não nós”. Luta-se verbalmente para imprimir novos sentidos às coisas do mundo: “Não queremos ser tratados como lixo, não trabalhamos com lixo, trabalhamos com material reciclável”. E neste processo de negociação dos sentidos, deslocamentos semânticos novamente são operados: “Lixo não é lixo”, “Material reciclável não é sujeira, é recurso, é economia”. Busca-se dar novo status a uma categoria marcada pelo estigma: “O catador deve ser visto não como um marginal, e sim como um profissional, um agente ambiental”, “O catador sabe mais sobre o lixo da cidade do que qualquer técnico em logística da Prefeitura”.
Mais uma vez, como em jogos de linguagem, gritos de guerra e palavras de batalha são os projéteis aqui lançados: “Catador organizado jamais será pisado”. Pretende-se demonstrar a irredutibilidade da enunciação pública: “Com chuva, com vento, não pára o movimento”. Imagens de si são também expressas e impostas: “1, 2, 3, 4, 5, mil, estamos
defendendo a natureza do Brasil”. E do microfone gritam: “Recicla ou não recicla?”. E em coro desarmônico o público responde: “recicla”.
Assim, todo o cortejo ia cantando, dançando, brincando e caminhando pelo centro de cidade. Aquele agrupamento em movimento era como uma retórica ambulante que, ao caminhar, lança discursos, frases e sentidos para todos os lados. Seu trajeto produzia territorialidade, ia balizando o espaço, ia demarcando a paisagem da cidade com todos seus pontos históricos: Catedral da Sé, marco zero, Pátio do Colégio, Ladeira Porto Geral, Mosteiro São Bento, Vale do Anhangabaú, até a Praça Patriarca, onde se via o Viaduto do Chá e a sede da Prefeitura, conhecida também como “prédio do banespinha”. No momento em que passava pela Rua Libero Badaró, aquele chamativo desfile de palavras, pessoas e carroças em ebulição, produziu mais repercussão ainda. No alto corredor de prédios, formado ao longo da rua, pessoas apareciam nas janelas e respondiam com gritos, assovios, palmas e acenos. Aquele alvoroço coletivo, que pelo meio da rua se movia, ganhava a cidade como platéia.
Mais uma vez ao chegar em frente à sede da Prefeitura, o desfile pára. A grande bandeira do movimento é colocada no chão, de maneira a enfatizar sua presença. As carroças procuram lugar para estacionar. As placas e cartazes começam a se ajeitar. É definida uma comissão para ter a audiência com o prefeito, uma audiência que já tinha sido marcada e aceita. A comissão era composta por 4 catadores do comitê da cidade e 1 “companheiro”, Anderson do MNPR, representando os catadores avulsos63. Quando a comissão subiu, eram cerca de meio dia.
Mas o microfone não parava: “Os catadores fazem o serviço que a Prefeitura deveria fazer, não são reconhecidos e ainda são impedidos de trabalhar”, “Todo ano têm uma verba para a coleta seletiva, só que ninguém sabe o que é feito dela”. As críticas eram fortes e se direcionavam justamente ao estabelecimento que se encontrava à frente dos manifestantes. Enquanto isto mais repórteres fotografavam, entrevistavam e filmavam os manifestantes. Outras carroças e carroceiros que passavam por ali, ao verem aquela aglomeração de semelhantes, aproximavam-se para saber do que se passava. Uma hora e meia depois, a comissão desce dizendo que foi aberto um canal de contato com a prefeitura e que esta mesma comissão seria a responsável pela interlocução com o poder público.
63 Ao perguntar para Anderson sobre o porquê dele integrar a comissão, me disse: “Eu não queria subir, o pessoal do Movimento (da população de rua) nem deu autorização, mas como o Bispo (um participante do MNCR) tem ajudado pra caramba a gente, ele insistiu para eu ir por achar importante”.