6. Holdninger etter bakgrunnskjennetegn
6.11. Kontakt med innvandrere etter bakgrunnsfaktorer
Em seu trabalho, Fontcuberta promove simulações camufladas para que a
ironia promova essa crítica à fotografia como registro documental da realidade. Seus
projetos, ao longo dos anos, vão além e não se resumem apenas a fotografias, mas
também a esculturas, objetos científicos, textos e desenhos que servem para
legitimar a sua ficção. Assim como Raphaelian, com B.C. Byte Series, Fontcuberta
expõe suas obras inseridas em uma linguagem acadêmica para impressionar o
público em geral ou mesmo seleto, como o dos cientistas.
Desde o início dos anos 80, Fontcuberta vem realizando experiências que
antecipam as variadas formas de manipulação digital, comum com o avanço
tecnológico contínuo, cada vez mais, esgotando o valor indicial impregnado na
cultura da fotografia. Entre a vasta produção do artista, foram selecionados seis
trabalhos que tratam essencialmente da credibilidade fotográfica como um processo
de aprendizado por meio da ironia. Em outras palavras, os projetos visam, por meio
da ironia, questionar a fotografia como captura da realidade e, dessa forma, aguçar
o senso crítico dos espectadores. Dividiu-se a análise
40em dois grupos definidos
como: 1) Contranatureza - Herbarium e Fauna Secreta: exposições fotográficas que,
além de ironizar o efeito audiovisual, oferecem apropriações da linguagem científica,
especificamente de cada tema, com desenhos, mapas, esculturas e esquemas que
tratam da criação artificial de plantas e animais, respectivamente. 2) Avatar -
Sirenas, Sputnik, Miracles & Co. e Deconstructing Osama: com tema e linguagem
mais informais, porém ainda expondo objetos, fotos e textos no formato de museu
com o objetivo de convencer mais pessoas. Vale ressaltar um ponto que os
diferencia do grupo anterior, que é a participação do autor em frente à câmera,
representando personagens ou apenas a si mesmo.
Karl Blossfeldt publicou, em seu livro Urformen der Kunst (1928), um processo
bastante rigoroso de documentação botânica, procurando demonstrar a origem da
inspiração humana para a criação de elementos arquitetônicos art nouveau. No ano
de 1984, Fontcuberta criou
Herbarium, uma exposição (também catálogo) que
seguiu exatamente o rumo contrário, ao exibir, através de detalhes rigorosos e
sistemáticos, por diversas fotos e desenhos de plantas falsas, "construídas", assim
como uma arte decorativa. "Blossfeldt provava que o imaginário provinha da
natureza, enquanto Fontcuberta parte efetivamente de imagens, quer dizer, do
imaginário do seu predecessor." (CHEVRIER, 1998, p.57). De certa forma, o que era
uma fonte de inspiração para Blossfeldt é um resultado para Fontcuberta. O artista
espanhol repensou o trabalho de Blossfeldt e retratou plantas falsas. São esculturas
construídas, basicamente, com restos industriais, ossos, raízes e membros de
animais. Foram fabricadas, ou seja, forjadas para servir como material fotográfico.
Apesar de não serem seres vivos, possuem vida na película a ponto de se fazerem
crer.
40
A análise não segue ordem cronológica, mas uma orientação temática que vai da exploração vegetal, animal, animal/homem, pessoal biográfica. A ordem cronológica dos trabalhos especificamente selecionados é:
Herbarium (1984), Fauna (1987), Sputnik (1997), Sirens (2000), Miracles & Co. (2002), Deconstructing Osama (2007).
Em Herbarium, Fontcuberta assume o papel de um criador genético de espécies da
natureza, de certa forma antecipando-se ao crescente investimento da ciência na
manipulação genética em alimentos e animais
41. De acordo com Flusser, em
Herbarium pode parecer que "o conceito de 'informação' coincidiu tanto no seu
significado biológico como na foto. Fontcuberta parece capaz de lidar com
informação biológica por procedimentos fotográficos" (FLUSSER, 1998).
Como estratégia para dar mais credibilidade às fotos, Fontcuberta insere na
exibição textos (ficcionais) que explicam como ele descobriu tamanha coleção de
plantas "desconhecidas". O autor conta
42que em um vale, no norte de Honduras,
denominado de Lancetilla, foi cultivado um exemplar de uma rara planta. A Flor-
cadáver, como afirma Fontcuberta, tem esse nome porque possui um cheiro muito
forte decorrente da carne putreficada e outros excrementos. Além de rara, ela é
única, porque é a maior do mundo e tem um processo de polinização peculiar. Desse
modo, Fontcuberta interessou-se pelo objeto, já que estava escrevendo um livro em
homenagem a Blossfedt e decidiu investigar e fotografar a planta, durante sua
floração, que é um fenômeno raro. Porém, Fontcuberta não conseguiu chegar a
tempo, mas como consolo foi levado a conhecer essas outras fascinantes espécimes
como a Flor Miguera (Figura 53), que, de acordo com Fontcuberta, trata-se de uma
planta em formato de bacia que os franceses chamavam de "herbe du diable". O
nome é devido ao forte odor que exala e vem da frase "Osti le Diable", do Príncipe
da Rochegalant, quando entrou em contato com uma empregada que usou o cheiro
da planta para afastar soldados. A estratégia, além de exibir as fotos das plantas,
recheia a série com textos que atestem a existência dessas espécies. O uso de
nomes reais, como Lancetilla, é deliberadamente manobra para tornar mais crível o
objeto.
41 Cerca de 13 anos depois é anunciada a clonagem do primeiro mamífero. 42 Fotos e textos de todos os projetos estão disponíveis em www.fontcuberta.com.
Figura 54 - Foto da planta Flor Miguera, exposta como verdadeira em Herbarium.
Figura 55 - Instalação no Musée-Château, Annecy, maio de 2008.
Figura 57 - Astrophythu dicotiledoneus
Por meio de um vasto material sistematicamente detalhado e apresentado
(Figura 54) de forma científica, a ironia de Fontcuberta toma corpo ao passo que o
espectador começa a processar as poucas marcações. O trabalho é desenvolvido
dentro de uma estrutura com nomes em latim e negrito, fotos incolores, resgatando
uma linguagem de catálogo. Outra forma de manipulação de Fontcuberta foi inserir
na exposição desenhos e fotografias de plantas realizadas por cientistas como Karl
Blossfeldt. O espectador observa a série de imagens e compreende a exibição como
um estudo geral de botânica, com uma coleta minuciosa de materiais de diversos
estudiosos como Fontcuberta, sem perceber de imediato que trata-se de uma
simulação paródica radical.
Figura 58 - Lavandula angustifolia, produção de Fontcuberta.
O conjunto de ornamentos de Herbarium resulta em um questionamento
sobre, mais uma vez, a ontologia da imagem fotográfica. A apresentação de uma
série de aberrações, no fim das contas, tenta provocar a desconfiança sobre a
perspectiva dos objetos como documento. Há alguns exemplos que ultrapassam a
descrição aplicada por meio do modelo científico como a Lavandula angustifolia
(Figura 57), que é um arranjo de folhas de repolho com uma cabeça de tartaruga ao
meio. Esse destaque alegórico pode resultar na marca mais evidente da ironia
praticada. O espectador, ao percorrer a exibição, aos poucos, vai percebendo que
tudo o que apreciou até então como um relato documental pode ser uma ficção e, a
partir dai compreende a ironia avaliadora: a realidade que as fotografias sugere pode
fazer parte de um mundo fantasioso. Por meio do efeito irônico, Joan Fontcuberta
pretende produzir uma crítica que se opõe ao que a fotografia permite acreditar.
Essa crítica utiliza exatamente os códigos da linguagem fotográfica para promover a
reflexão através da experiência reveladora do efeito simulativo. A problemática
envolve, então, o discurso fotográfico com a produção de registro documental
histórico.
Herbarium quer propor um discurso alternativo de negar qualquer realismo, confiança acrítica, desacreditar e negar a possibilidade da objetividade [...] ironicamente faz com que o espectador, envenene suas certezas e estimula a liberação dos anticorpos correspondentes. (FONTCUBERTA, 1998, p. 54)
Por outro lado, ao contrapor o mimetismo fotográfico, o artista protege as
manifestações não objetivas, ficcionais e, principalmente, abstratas. Ao longo dos
anos, a fotografia auxiliou no desenvolvimento científico, como na botânica,
oferecendo artifícios visuais que o olho não permite observar. Assim, detalhes da
flora foram sendo revelados ao passo do avanço tecnológico do aparato. E,
paralelamente ao registro fotográfico, os modelos de catálogo, necessários para um
estudo como o da botânica, também foram aprimorados. Portanto, Fontcuberta
reinvidica e convoca a fotografia para promover a "liberdade" do abstrato.
Herbarium propõe um exercício de jogo e liberdade: a capacidade de ultrapassar os limites da realidade e voltar a um estágio primitivo, em que é possível redesenhar nossa conexão emocional, estética e política com o mundo. (FONTCUBERTA, 1998, p. 55)
As fotografias de Joan Fontcuberta, por tentarem abandonar a cientificidade
do retrato objetivo, situam-se em um formato mais "puro" (FLUSSER, 1998), em que
o fotógrafo se aproxima do trabalho do pintor. O projeto Herbarium mostra-se real,
científico, preso a uma nomenclatura, supondo um retrato sério, documental da flora
de Honduras. Todavia, revela-se uma paródia simulativa, livre da ciência, propondo
uma ironia crítica aos meios científicos e de registro.
Em 1987, o biologista Louis Bec juntou-se a Vilém Flusser para realizar o
projeto
Vampyroteuthis infernalis (FLUSSER;BEC, 2011), que é uma ficção
organizada numa linguagem científica. Nesse texto fantasioso, são ilustrados vários
tipos de uma mesma raça de Vampyroteuthis infernalis, que seria um molusco de 30
centímetros que supostamente viveria nas profundezas do oceano. Enquanto Flusser
aborda questões filosóficas, políticas e até religiosas, Bec descreve as variadas
formas do animal. Assim como em Herbarium, o imaginário é inserido num domínio
da ciência, fazendo o conteúdo subverter o formato. As gravuras são organizadas
como um catálogo descritivo de classificação científica: taxonomia, prodótica,
zootipia, taxiopsie, espécie. O desenho (Figura 58) é detalhado com legendas de
cada parte dos membros do animal. E, na mesma página, há a descrição completa
da espécie, além de um suposto selo do Institut Scientifique de Recherche
Paranaturalist, como uma forma de legitimar a ilustração fantasiosa de Bec.
Coincidentemente, no mesmo ano (1987), Joan Fontcuberta e o fotógrafo
Pere Formiguera produziram outro trabalho que teve como foco principal na
discussão entre do limite entre a realidade e a ficção. Eles propugnavam, assim
como em Herbarium, a crítica da "convicção fotográfica"(FONTCUBERTA, 1998).
Primeiramente, os artistas levaram quatro anos para criar o personagem do
professor Peter Ameisenhaufen (Figura 59). De acordo com a narrativa de sua
biografia, que era exibida em todas as instalações do projeto, Ameisenhaufen nasceu
em Munique, no ano de 1895, teve pai caçador e mãe irlandesa e, aos 10 anos, foi
morar na África, quando começou interessar-se pela zoologia. "Quando morriam
alguns daqueles animaizinhos - conta sua irmã - Peter os dissecava e estudava seu
interior"(ARAMATA
apud FONTCUBERTA, 1998, p.189). Peter formou-se pela
Figura 59 - Ilustração de uma das supostas espécies,Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, e tornou-se professor na mesma
instituição. Entre os anos de 1933 e 1950, dedicou-se a viagens ao redor do mundo,
catalogando animais menos conhecidos ou em busca daqueles que fazem parte do
imaginário coletivo, como uma cobra com patas e macacos que voam. Até ficar
doente, e decidiu morar em Glasgow, Escócia, com a esposa. Desde então, passou a
organizar todo o material de animais fantásticos coletado em suas expedições. Até
que em 1955, após excursão solitária, foi dado como desaparecido. Algum tempo
depois, sua casa sofreu incêndio, o que fez perder alguma uma parte do seu
material, mas foi depois reconstruída, permitindo o contato de Fontcuberta com o
estudo que restou. Toda a história é descrita com detalhes. Os acontecimentos,
assim como em um filme, relacionam-se de forma a fazer sentido com o conflito
principal, que é a revelação desse material supostamente esquecido pela ciência.
E para comprovar a suposta existência do acervo de animais peculiares, foi
produzido uma variedade de material. São simulações como: fotografias pessoais e
de animais, mapas, radiografia, textos, vídeos, áudios, instrumentos de laboratório,
correspondências, fichas zoológicas e animais dessecados. Cada objeto é reproduzido
de forma a convencer sobre a existência de Ameisenhaufen. O conjunto é organizado
como uma paródia elaborada dos museus e exposições de centros de ciência natural.
Ao modo de B.C. Byte Series, Fauna Secreta é uma produção que se apropria das
características da investigação científica para expor a ficção. O rigor de detalhes e a
variedade do material são ferramentas utilizadas para compor a estratégia do
Figura 60 - Fotografia produzida por Fontcuberta e Formiguera do Prof.
Ameisenhaufen, que, na verdade, é um modelo argentino, amigo dos artistas.
contrato de veridicção (GREIMAS, 2008), ou seja, para construir uma verdade. A
descrição recorre às formalidades científicas, como Bec fez em
Vampyroteuthis
infernalis. Para cada criatura é fornecida a informação de taxonomia, a forma de
captura, morfologia e hábitos, como em um zoológico. Uma das legendas diz:
"Solenoglypha Polipodida. Morfologia: uma mistura entre um réptil e um pássaro que não voa. Hábitos: extremamente agressiva e venenosa. Caça para alimentar-se, mas também por prazer. Quando se depara com a presa, se ergue completamente, imóvel e emite um som agudo paralisando o inimigo. Diferente de outros répteis, Solenoglypha Polipodida não descansa após comer. Ao contrário, ela prossegue na caça até defecar."(PANICHI, 2005)
As fotografias, em sua maioria, não são manipulações como a fotomontagem.
Desse modo, para produzirem o seu referente, que são animais inusitados, os
artistas fizeram uso da contribuição de um profissional em taxidermia. Membros de
animais dissecados eram colados a outros de forma a compor uma nova criatura. A
partir daí, são fotografados e o resultado sofre mais alguns efeitos estéticos para que
pareçam envelhecidos ou que exibam marcas de uso contínuo. Como é o caso da
Solenoglypha Polipodida (Figura 61), uma serpente com patas de ave; seria uma
mistura de réptil com pássaro. Com a fotografia do animal in loco, é exibida uma
radiografia (Figura 60), com anotações e desenhos (à mão) do Prof. Ameisenhaufen
com as características do animal.
Figura 61 - Foto da "radiografia"da serpente com patas.
Figura 63 - Desenho que apresenta detalhes anatômicos da criatura.
Figura 62 - Solenoglypha Polipodida
Figura 64 - Prof. Ameisenhaufen com o Centaurus Neandertalensis.
Figura 65 - Descrição e esboço do Thresquelonia Atis.
Figura 67 - Instalação no Museu-Châteu Annecy, 2008.
A fim de provocar uma discussão sobre os conceitos de ciência e arte,
questionar as fontes de conhecimento como a investigação científica e retomar a
crítica à fotografia como registro do real, Fontcuberta e Formiguera produziram uma
simulação paródica radical por meio da criação de um personagem; de vários
elementos para compor uma cenário habitual das ciências naturais e comprovar a
realidade criada. Desse modo, os indícios absorvidos pelos espectadores são
contrariados pela decepção irônica, estimulando a crítica.
No conjunto fabricado de animais para servir de evidências da pesquisa do
Prof. Ameisenhaufen, percebe-se a divisão em três grupos: criaturas produzidas a
partir de seres mitológicos ou do imaginário; criaturas resultantes de deformações de
animais existentes; seres compostos da junção de animais.
O primeiro grupo de animais, decorrentes estas de manifestações folclóricas,
mitos ou até seres da produção fictícia popular, resulta nas marcas mais evidentes
da ironia. "A morfologia de alguns de nossas criaturas foram tiradas dos modelos de
figuras mitológicas clássicas ou extraordinárias quimeras" - afirma Joan Fontcuberta
(1998, p.110). Um dos animais estudados por Ameisenhaufen foi o El gran guardiá
del Bé Total (Figura 67), que é um unicórnio, personagem mitológico tão retratado
no Renascimento. Pelo fato de ser facilmente reconhecido como um personagem
ficcional, traz dúvidas com relação à veracidade das peças apresentadas. Outros dois
animais do material revelado fazem referência a personagens do imaginário coletivo,
que já tiveram a sua imagem demasiadamente popularizada como criação
fantasiosa: Cercophitecus Icarocornu (Figura 68) e Aerofants (Figura 69). Trata-se o
primeiro de um macaco com chifre de unicórnio e asas com penas. A sua figura é
semelhante, portanto alusiva, aos "Macacos Alados" que fazem parte da novela "O
maravilhoso mágico de Oz", tão conhecida mundialmente. O
Aerofants, incrível
elefante voador, inicia o processo de suspeita da ironia. Todavia, também há um
personagem popular, o Dumbo, um elefante que voa. A diferença está nas asas. O
Dumbo, criação de Walt Disney, voa devido às suas enormes orelhas. A verdade é
que a semelhança faz com que o espectador, mesmo inserido num ambiente de
museu, com todos os materiais científicos expostos, consiga fazer a relação com a
ficção, que logo poderá perceber a ironia proposta pela paródia simulativa. Outra
pista da simulação consiste no toque de humor como a descrição do Pirafagus
Catalanae, que é uma espécie de dragão, mas com características únicas. Ele pode
cozinhar sua comida com seu fogo, inala e expira as chamas, emite gases gástricos
que inflamam em contato com a atmosfera e, às vezes, até perde o controle das
mesmas: "[...] em situações extremas, ele perde todo o controle de seu fogo oral,
corre para o rio ou lago mais próximo submerge completamente para abafar as
chamas " (FONTCUBERTA, 1998, p.125). Essas marcações são limitadas se
comparadas ao grande cenário com fotos, vídeos, registros sonoros, documentos
montados para comprovarem a veracidade do estudo. Desse modo, a simulação é
radical, porque não permite uma apreensão da ironia logo de início
43.
43
Joan Fontcuberta, em entrevista (disponível em:< http://www.youtube.com/watch?v=TGQ-00vkXzA>) diz que seu trabalho funciona como um despertador que em dado momento dispara e o espectador percebe o truque. No entanto, há o risco de não percebê-lo. Um exemplo, que ele mesmo conta, é o livro que produziu para Fauna
Secreta. Trata-se de uma produção que "imita os livros acadêmicos, os livros de edições universitárias,
deliberadamente composto de um papel barato, desenho pobre, baixa qualidade de impressão...Estes livros em nenhum momento explicam que se trata de um objeto artístico e se apresenta dentro de um âmbito biólogico em qualquer caso científico. Muitos desses livros foram parar em universidades e centros culturais. E me causa grande satisfação quando os vejo não numa área de arte ou fotografia, mas numa área de ciências, morfologia."
Figura 68 - El gran guardiá del Bé Total
Figura 69 - À esquerda, a forja de um macaco com chifres, o Cercophitecus Icarocornu. À direita, representação (Anton Loeb) dos "Macacos Alados" da obra "O maravilhoso mágico de Oz", que se assemelham aos macacos de Fauna Secreta.
Figura 70 - À esquerda, Aerofants de Fauna Secreta. À direita, o popular elefante voador, Dumbo, de Walt Disney.
O objetivo de Fontcuberta e Formiguera é propor, por meio da ironia ativada
pela simulação, uma reflexão sobre a credibilidade fotográfica assim como em
Herbarium. No entanto, considerando a longa lista de material que teve que forjar
(radiografias, objetos de laboratórios, animais dessecados, fotos, vídeos, áudios,
etc), Fauna Secreta é uma produção mais complexa e, portanto, tem objetivos mais
audaciosos que envolvem o questionamento da ciência como conhecimento. É muito
provável que o espectador que se descobre manipulado pela ironia de Fauna Secreta
perceba como é frágil a fonte de informação, mesmo quando ela é, habitualmente,
crível como nos museus onde a exposição se instalou. Toda suposição que o
observador tem de fenômenos, como animais desconhecidos, é fruto da autoridade
de livros, professores e instituições como a escola e o museu. Os dados agrupados
num formato característico de zoológicos e museus de ciência natural são elementos
que fazem o "crer verdadeiro" (GREIMAS, 2008) se consumar. Os animais expostos
em Fauna Secreta tornam-se reais porque foram fotografados, tendo em vista a
habitual crença da fotografia como análogo absoluto. Essa condição histórica da
fotografia move trabalhos como Fauna Secreta a praticar a crítica de simulação
paródica radical.
Fontcuberta, como teórico, explica que o indivíduo já não pode receber
informação alguma sem a mediação de um canal ou de um código e que todos estão
à mercê das características dessas mídias. "Se as expectativas referentes à 'verdade'
e 'realidade' são condicionadas em aceitar uma mídia específica, teremos que reduzir
nossa
geral
habilidade
para
diferenciar
'realidade'
e
'código
de
comunicação'".(FONTCUBERTA, 1998, p.208). A mídia específica, neste caso, é a
fotografia. E, ao tirar o véu da analogia por meio da ironia, o indivíduo tem mais
competência para questionar a própria mídia.
Nossa proposta era confrontar o espectador com o poder das fontes emissoras de informação e a influência dos recursos utilizados. Problematizar, em suma, tanto a fotografia e o museu, que se originou em ambos os casos a satisfazer os desejos de descrição empírica, registro da natureza e das taxonomias incontáveis de sua diversidade (FONTCUBERTA, 1998, p.137).