O religioso Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra (1882-1942) foi importante personagem da Igreja Católica no Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nasceu na cidade do Espírito Santo do Pinhal, no Estado de São Paulo, em 1882. Ingressou no Seminário Menor Diocesano de São Paulo em 1894, e devido ao seu aproveitamento nos estudos, foi estudar filosofia na Itália, na Universidade Gregoriana de Roma. Após ter sido ordenado sacerdote e ter obtido o título de Doutor da Igreja, voltou ao Brasil em 1904 e passou a exercer o sacerdócio na Paróquia de Santa Cecília, em São Paulo, Capital.
Em 1910 foi sagrado bispo auxiliar do Rio de Janeiro e em 1916, atendendo a um convite do cardeal Joaquim Arcoverde, assumiu a arquidiocese de Olinda e Recife, em Pernambuco, onde trabalhou ativamente na pastoral e evangelização das comunidades. Procurava sempre incrementar a participação dos católicos na vida social e política do país. Por ocasião da sua posse como arcebispo metropolitano de Olinda, ainda em 1916, Dom Sebastião Leme redigiu uma Carta Pastoral dirigida aos seus diocesanos, apresentando as seguintes ponderações:
[...] “Na verdade, nós católicos somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. Não é católica a Lei que nos rege. Da nossa fé prescindem os depositários da autoridade. [...] Leigas são as nossas escolas, leigo o Ensino. [...] Enfim, na engrenagem do Brasil oficial não vemos uma só manifestação de vida católica. [...] Somos, pois, uma maioria ineficiente. Eis o grande mal.” 43
Foi com base nessas constatações que Dom Sebastião Leme lançou os fundamentos para um programa de reivindicações a serem alcançadas por meio da mobilização dos católicos.
Dom Sebastião Leme voltou ao Rio de Janeiro em 1921 com as funções de arcebispo coadjutor, e em julho de 1930 foi elevado a Cardeal pelo papa Pio XI. Após o falecimento do cardeal Arcoverde, assumiu a arquidiocese do Rio de Janeiro. O cardeal Leme lutou para combater o anticlericalismo que existia nos meios intelectuais e políticos daquela época, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Seu intenso trabalho religioso de evangelização também procurava defender o catolicismo. Apesar do reconhecimento, por parte do governo, de que o catolicismo era a religião com maior contingente de fiéis seguidores, mostraram-se infrutíferas as tentativas de conseguir que o ensino religioso fosse obrigatório nas escolas públicas. A Igreja queria ser reconhecida publicamente como a Instituição que representava a maioria dos brasileiros na sua crença religiosa e o clero desejava usar as estruturas do Estado para expandir a sua influência. O Cardeal Leme conseguiu organizar o clero e movimentar os católicos, criando associações católicas e até jornais, como A Gazeta do Povo.
A estátua do Cristo Redentor, erigida no cimo da montanha do Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro, foi inaugurada em 12 de outubro de 1931. Dom Leme promoveu uma grande movimentação de leigos, nessa ocasião, a exemplo do que já havia feito no mês de maio desse mesmo ano, em uma concentração envolvendo clérigos e fiéis, sob a invocação de Nossa Senhora Aparecida. 44
Os jornais do Rio de Janeiro publicaram com destaque notícias sobre todas as solenidades ocorridas na inauguração.
“A semana do monumento a Cristo Redentor, que se ergue no alto do Corcovado, constituindo-se a maior estátua do mundo, encerrou-se ontem.” [...] “A despeito da chuva que durante todo o dia caiu sobre esta Capital, as solenidades da bênção da estátua e da Missa Campal no Stadium do Fluminense nada perderam da
sua pompa litúrgica. O povo compareceu a ambas sem que o mau tempo lhe arrefecesse o entusiasmo com que nesses últimos oito dias vem participando das festas realizadas aqui desde o dia 4 corrente.” [...] “ O ato culminante de domingo foi a Hora Santa do Brasil, realizada na Matriz de Sant’Anna.” [...] “Pela cúpula, de espaço a espaço, panejavam-se bandeiras do Vaticano e do Brasil. Bem ao centro, via-se uma grande coroa dourada, forrada de púrpura. Desprendiam-se dela quatro fitas largas de cor vermelha, descendo até ao meio de quatro colunas. Simbolizava essa coroa a realeza de Cristo entre os homens. O povo se comprimia nas partes laterais e ao fundo, no recinto da igreja.” [...] “Quinze minutos depois das dezesseis horas dava entrada no templo o Cardeal Legado [Dom Sebastião Leme]. Sua Eminência dirigiu-se à capela-mor, ocupando depois das orações a curul 45 cardinalícia que lhe fora destinada.” [...] Diário de Notícias, 13 de outubro de 1931. 46
“Trafegaram pela manhã quatro trens especiais [na Estrada do Corcovado] destinados respectivamente ao transporte do chefe do governo [Getúlio Vargas] e membros da administração, do Cardeal Dom Leme, prelados e figuras do clero, da imprensa e dos convidados especiais.” [...] “Houve inicialmente a bênção do monumento, cerimônia em que oficiou o Cardeal Dom Leme, seguindo-se a Missa Solene celebrada por Dom Aloísio Masella, Núncio Apostólico.” [...] “Dom Sebastião Leme leu na cerimônia
45 Cadeira especial para grandes dignatários.
46Apud J. M. Weguelin, “Cristo Redentor”, O Rio de Janeiro através dos Jornais, 1931, pp. 2-3;
uma bula declarando enthronizada a imagem de Cristo no Brasil.”
A Noite, 12 de outubro de 1931. 47
Ao que parece, essa intensificação do trabalho pastoral de Dom Leme visava não apenas lutar contra o anticlericalismo, difundir a fé católica e organizar o clero, mas também, pela manifestação de força, colaborar e ao mesmo tempo pressionar o governo para conseguir benefícios, recuperar e consolidar a imagem e a influência da Igreja Católica junto à sociedade.
A Igreja Católica no Brasil tinha a preocupação de reconquistar o poder, a influência e o espaço perdidos no cenário nacional, depois do Decreto de 1890, do governo republicano provisório, que promoveu a separação definitiva entre Igreja e Estado e estabeleceu um Estado republicano laico. Dom Leme organizou em 1933 e dirigiu a Liga Eleitoral Católica – LEC, associação civil de âmbito nacional, cujo objetivo era apoiar candidatos de diversos partidos que concordassem com seu programa, na eleição para a Assembléia Nacional Constituinte, marcada para o mesmo ano. Ele também moveu intensa campanha contra as pretensões do pedagogo Anísio Teixeira à frente da Secretaria de Educação do Distrito Federal, durante a gestão de Pedro Ernesto Batista na prefeitura do Distrito Federal. Anísio Teixeira era alinhado ao Movimento da Escola Nova e defendia um ensino público gratuito e laico, o que contrariava o projeto educacional da Igreja Católica, que apoiava o ensino religioso nas escolas públicas. O afastamento de Anísio Teixeira da Secretaria ocorreu após ter sido acusado de envolvimento na “Intentona Comunista” de 1935. O cônego Olímpio de Melo, que era apoiado por Dom Sebastião Leme, substituiu Pedro Ernesto Batista na prefeitura do Distrito Federal e instituiu o ensino religioso nas escolas públicas da capital federal, a cidade do Rio de Janeiro.
Pode-se dizer que a estratégia proposta pela hierarquia católica no Brasil era uma conduta de aceitação da situação pública, sem questionar a sua legitimidade. Ela
47 Apud J. M. Weguelin, “Cristo Redentor”, O Rio de Janeiro através dos Jornais, 1931, p.3;
respeitava o governo porque este era o detentor da autoridade e responsável pelo bem comum, mas sempre lutava para obter condições de vida mais cristãs para o Brasil.
Os jesuítas, assim como outras ordens religiosas, tomavam conhecimento da luta, da postura religiosa, das obras e dos movimentos religiosos promovidos pelo cardeal Dom Leme e os apoiavam integralmente. Apesar desses movimentos não serem uma novidade, uma vez que desde o ano de 1871 já existia o “Apostolado da Oração” e desde 1909 existiam as “Congregações Marianas”, havia uma diferença, pois além do aspecto religioso, social e doutrinário, os movimentos promovidos por Dom Leme tinham também o objetivo de conseguir formar grupos de pressão que poderiam fazer renascer a prática religiosa na vida pública. A partir disso, a estratégia era usar o poder para promover a influência da Igreja.
Em 15 de junho de 1936 foi fundado, no Rio de Janeiro, nos termos da lei civil, o “Grupo de Ação Social”, que passou a atuar na promoção e organização das “Semanas de Ação Social”, em todo o Brasil. 48 A “I Semana de Ação Social” reuniu-se na cidade do Rio de Janeiro, no mês de setembro de 1936. As semanas sociais, como movimento social católico, já existiam na Alemanha, na Áustria, na Suíça e na França. 49 Esse “Grupo de Ação Social” procurava agir em conformidade com a doutrina social da Igreja, e agir o mais imediatamente possível.
A Igreja Católica, no pontificado do Papa Leão XIII (1810-1903) 50, especialmente, vinha dando atenção marcante às questões sociais, pois percebia o crescimento e o avanço das idéias socialistas, anarquistas e anticlericais entre o movimento operário. Com a progressiva perda do poder de influência da Igreja entre a classe trabalhadora, o Papa fez exortações por meio de cartas, sermões e pela publicação, em 1891, da primeira encíclica social, a Rerum Novarum. O principal objetivo dessa encíclica era posicionar-se contra a exploração do operário pelo detentor dos meios de produção, e nela o Papa sugeria a união entre as classes para combater essa situação.
48 A. Calado, Padre Roberto Sabóia de Medeiros – Um dos Grandes Pioneiros do Apostolado Social no Brasil, p. 11. 49 Pe. P. A. Maia S. J., Crônica dos Jesuítas do Brasil Centro Leste, p. 78.
A Igreja Católica no Brasil promovia a contraposição ao comunismo, mas não se inclinava para o integralismo, procurando orientar os católicos a apoiar as autoridades constituídas, para que houvesse a manutenção da ordem social e a preservação do patrimônio ameaçado. 51 A Ação Integralista Brasileira foi um movimento fascista criado em 1932, sob a liderança de Plínio Salgado, e era orientado politicamente para a “direita”. A ideologia e as práticas fascistas não eram estranhas às classes dominantes e seus representantes políticos, mesmo antes da revolução de 1930. Getúlio Vargas, Góes Monteiro e Francisco Campos já haviam se manifestado clara e abertamente como partidários do fascismo. 52
Na primeira metade da década de 1930 criou-se uma elite intelectual leiga que permitiu a rearticulação do discurso da Igreja com a sociedade. No entanto, no Concílio Plenário de 1939, privilegiou-se a hierarquia dos bispos e sacerdotes da Igreja Católica, em detrimento do segmento leigo. Todos os documentos e conclusões deste Concílio foram escritos em latim e não foram traduzidos para a língua portuguesa, o que evidenciava um afastamento ou alienação em relação aos leigos da Igreja no Brasil.
Na Companhia de Jesus, este modelo parece ter permanecido até o ano de 1965, com os jesuítas sendo considerados os únicos sujeitos apostólicos da Companhia, e dessa forma os leigos e o povo, em geral, não passavam de destinatários dos trabalhos doutrinários dos sujeitos apostólicos. A tarefa de ensinar, governar e santificar competia unicamente ao clero, existindo, portanto, um poder sagrado e uma índole secular. Essa postura era usual em toda a Igreja Católica. 53
Após o Concílio Vaticano II em 1965, surgiu um novo paradigma, em que os leigos passaram a ser considerados colaboradores e protagonistas, ou seja, criou-se uma consciência da vocação leiga e um diálogo com a participação dos leigos, que também passaram a dar um testemunho da fé. 54 Houve o reconhecimento de uma diversidade de
51 Pe. P. A. Maia S. J., Crônica dos Jesuítas do Brasil Centro Leste, p. 32.
52 L. A. Cunha, A Universidade Temporã. O Ensino Superior da Colônia à Era de Vargas, p. 214.
53 Pe. J. R. Rohr, S. J., “Novo Sujeito Apostólico e Pedagogia Inaciana” in V. Serafin, org., IV Congresso Inaciano de
Educação, pp. 119-120.
serviços que os leigos podiam oferecer, especialmente na formação e na colaboração apostólica, e criou-se uma força maior nos novos ministérios das pessoas não ordenadas.
Neste novo paradigma, é possível diferenciar os seguintes conceitos: o ‘sujeito’ que faz, que realiza, e é capaz de direitos e deveres; o ‘sujeito apostólico’, que exerce atividades relacionadas com o apostolado, e o ‘novo sujeito apostólico’, surgido quando passa a existir uma responsabilidade compartilhada entre jesuítas e leigos.
Além de existir uma valorização da vocação e da missão laical na figura do ‘novo sujeito apostólico’, a sua importância cresce à medida que decresce o contingente dos religiosos da Companhia. Isto fica claro nas palavras do Superior Geral da Companhia de Jesus, Padre Peter Hans Kolvenbach S.J.:
[...] “De um lado, cresce o número de leigos que se interessam vivamente pela via inaciana no seguimento de Jesus Cristo. De outro lado os jesuítas se dão conta, de maneira nova, da força quantitativa e qualitativa deste movimento de leigos, de seu desejo de compartilhar plenamente das riquezas do legado espiritual de Inácio e de seu valor e importância para a missão evangelizadora da Companhia e da Igreja. Vivemos hoje na era do laicato. O Concílio Vaticano II, inspirado pela visão neotestamentária do povo de Deus, aprofundou a vocação e a missão de quantos, pela fé e o batismo, participam da vida e da comunidade cristã. Todos são responsáveis pela edificação da Igreja e o anúncio do Evangelho a todos os povos”. 11 de dezembro de 1992. 55
Essas transformações na Companhia de Jesus apenas demonstram a sua adaptação às condições dos novos tempos e o reconhecimento da necessidade de atualização e de
55 Pe. P. H. Kolvenbach, S. J., Visita do Padre Geral ao Brasil. Alocuções e Homilias, p. 101. No dia 7 de janeiro de
2008 começou, em Roma, a 35ª Congregação Geral da Companhia de Jesus, da qual participaram 225 jesuítas de todo o mundo, para eleger seu novo Superior Geral, sucessor do Pe. Kolvenbach, S. J., que apresentou a sua renúncia no começo da Congregação.
articulação dos propósitos da sua atuação religiosa junto à sociedade. Esta também era a maneira de pensar do Padre Sabóia, que pode ser comprovada no seguinte trecho da carta enviada ao seu pai, José Viriato Sabóia de Medeiros, datada de 17 de novembro de 1938:
[...] “Desde o princípio a atividade jesuítica se caracterizou por uma rigorosa adaptação à realidade. Foi regularizada pela obediência inteligente que coopera com o que manda e foi de uma eficiência surpreendente. Isto tanto na China como no Paraguai; na Europa, em cátedras ou em missões. Venha, pois, o que vier. Por minha parte, estou disposto a não deixar as coisas como as encontrar” [...] “Pede a bênção o filho querido, Roberto.” 56
Nos tempos dos padres jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, no século XVI, o Brasil era uma colônia portuguesa e o apostolado era coerente com a proposta de catequese daquela época. No século XIX, as relações entre Igreja e Estado se encaminhavam para uma completa separação entre o poder temporal e o espiritual. Nas primeiras décadas do século XX, a Igreja Católica no Brasil tinha interesse e preocupação em ampliar a sua área de influência entre as classes dirigentes, latifundiários e plantadores de cana-de-açúcar e café.
Com o desenvolvimento urbano-industrial brasileiro e a crescente participação das massas urbanas no jogo político, a partir de 1930, principalmente, aumentou a pressão das camadas mais baixas da população por maiores oportunidades educacionais. Durante a Primeira República, as escolas técnicas industriais e agrícolas eram destinadas aos desprivilegiados, às crianças pobres, órfãs, abandonadas, como ficava claro nos seus objetivos de “regeneração através do trabalho” 57 Este sistema de educação oferecia aos desprivilegiados uma oportunidade de ascensão social, através de um processo de ‘mobilidade limitada’, já que as escolas técnicas e os cursos normais não permitiam
56 Pe. P. A. Maia, S. J., Introdução aos Excertos das Cartas do Padre Roberto Sabóia de Medeiros, S. J., (1922-1954). 57 J. Nagle, Educação e Sociedade na Primeira República, p. 164.
acesso à universidade. A expansão do sistema educacional se fazia mediante um processo em que a mobilidade social era controlada. 58
Em vários discursos do Presidente Getúlio Vargas, entre 1932 e 1934, ele manifestou a sua preocupação com a instrução profissional e técnica na solução do problema da educação nacional.
“A instrução que precisamos desenvolver, até o limite extremo das nossas possibilidades, é a profissional e técnica. Sem ela, sobretudo na época caracterizada pelo predomínio da máquina, é impossível o trabalho organizado.” 59
As condições sociais vigentes nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, em especial, que pertencem à Província jesuíta do Centro-Leste, são de fundamental importância para a pesquisa proposta neste trabalho. Elas se revestem de uma significação muito especial, pois forneceram à Companhia de Jesus os rumos de sua atuação na missão de propagar a fé através da ação social e da criação de instituições educacionais, que foram seus empreendimentos relevantes nessa Província.
A espinha dorsal da atuação de qualquer ordem religiosa cristã funda-se nas diretrizes da Santa Madre Igreja. A opção pelos pobres feita por Ela confirma e reforça o empenho da Companhia de Jesus no serviço da fé e promoção da justiça. Para os jesuítas, além de se tratar de uma opção fundada no Evangelho, baseia-se também nos Exercícios Espirituais de Santo Ignácio de Loyola, nas Constituições da Companhia de Jesus e nos exemplos anteriores da prática pastoral ministrada pelos primeiros jesuítas. 60
Na 28ª Congregação Geral da Companhia de Jesus, realizada em 1938, foi dada muita importância às concentrações operárias e camponesas e à formação da mentalidade religiosa e social dos alunos dos colégios jesuítas, baseada no “Paradigma Pedagógico Inaciano”. Foram discutidas e incentivadas as criações de “Centros de Ação Social” no
58 A. C. Oliven, “Sistemas de Educação e Modelos de Mobilidade Social: Os Casos da Inglaterra, Estados Unidos e
Brasil”, p. 116.
59 G. Vargas, A Nova Política do Brasil, p. 119.
Brasil, pois já existiam centros sociais similares em outros países, tais como a Social
Order, nos Estados Unidos da América, fundada em janeiro de 1889, a Action Populaire, fundada na França em 1903 e o “Fomento Social”, fundado na Espanha.
Com o início do processo de industrialização no Brasil, os centros urbanos cresceram e uma das conseqüências desse processo foi o aumento da quantidade de famílias que viviam em situação miserável e do número de trabalhadores que não ganhavam o necessário para o seu sustento e o de sua família. Enquanto esse fenômeno ocorria na região sudeste do Brasil, ocorria um êxodo rural nas demais regiões, com a expulsão de trabalhadores de suas terras, motivada pela seca ou pela expansão dos latifúndios. Esses trabalhadores sem terra migravam para as cidades, buscando melhores condições de sobrevivência e de trabalho. Assim, iam engrossando a quantidade de favelas e de cortiços, de pessoas desempregadas, com pouca ou nenhuma qualificação para o trabalho, fixadas em sua maioria nas periferias das cidades, longe dos locais de trabalho, com transporte insuficiente e sem condições de acesso aos escassos e deficientes serviços públicos disponíveis, tais como saúde, educação e assistência social.
A hierarquia da Igreja Católica percebeu que, ao lado de iniciativas individuais de cunho caritativo, era necessária a fundação de instituições que dessem assistência a estes grupos de pessoas carentes, com os propósitos de amenizar a situação de pobreza e contribuir para manter a ordem social e política, ameaçadas pelas idéias revolucionárias dos socialistas e comunistas. Tais idéias alastravam-se entre os operários das indústrias na primeira metade do século XX, que foi marcada pela ascensão e crescente demanda do movimento operário urbano, exigindo respostas do Estado e dos empresários às suas reivindicações. Esse ambiente social, em que o Padre Sabóia viveu, proporcionou-lhe as condições necessárias para que exercesse a sua ação social.
No período compreendido entre os anos de 1946 a 1956, diversos documentos importantes foram divulgados pela Companhia de Jesus, versando sobre o apostolado social. Entre eles é significativo o documento “Instrução sobre o Apostolado Social”, divulgado no ano de 1949, que mostra a necessidade do apostolado social diante da expansão do comunismo ateu e das injustiças do liberalismo econômico. 61
Além de tratar da miserável condição espiritual e material das massas proletárias,