dos quartéis no momento
em
que a maior partedoa militares
foi convencida pela tese de Castelo Branco de que era
lícito àsforças
arma
da
s desobedecer, posto que não podiam. servir a umgoverno que
es
tava queb
ran
do a constitucionalidade do pais.
Ouseja, o golpe
não seria um golpe, mas sim um contragolpe para fazer frenteàs
tendên cias inconstitucionais do presidente. Este foi, semdúvida,
o argu mento de autoridade jogado para dentro no sentidode consolidar
uma posição ,a favor da intervenção. Com essa tese não só se sensibilizou aqueles que ainda estavaln reticentes frente ao andamento dos fatos como também se deu novo fôlego aos que pregavam o golpe sem preocupações de maior envergadura quanto às bases del
egitimação
de seus argumentos.
Como se viu até aqui} há uma necessidade enonne de justificar
o
golpe a
partir do fato de que ele atendeu fundamentalmente ao que denominamos "chamamento da sociedade". Não teria sido, portanto, uma intervenção arbitrária ou desprovida dem
otiv
ações legítimas.
Mais
do que isso, na visão de nossos depoentes, o governo militar se manteve com forle apoio da sociedade, apesar das reações de setoresde esquerda, que por sua vez foram combatidos em clima de guerra. Foge ao escopo deste trabalho examinar este ponto, para o qual o material existente é também alentador. Queremos aqui, no entanto, nos fixar no aspecto enunciado de que para a eclosão do golpe as forças armadas foram, na versão dos protagonistas, empurradas pela sociedade. Ao adotar esta tese os militares procuram relevar a condição de parceria que tiveram com a sociedadeJ parceria essa que teria sido rapidamente esquecida a partir do momento em que deixaram o poder.
É
em relação a este aspecto que o tom de mágoa recorrentemente se coloca, como se tivesse havido uma "traição" da sociedade em relação aos seus militares. Depois de deixar o poder eles teriam sido mais lembrados por seus desacertos e desmandos do que por suas realizações: "Eu acho que as Forças Armadas até hoje são ressentidas com a sociedade brasileira. Porque a sociedade nos levou a isso e foi uma das responsáveis pela revolução de 64. E hoje em dia não se causa de nos jogar na cara que somos torturadores, que somos matadores, que somos isso e aquilo ... Acho que há muita injustiça ... Somos ressentidos. A gente afmal entrou nessa luta para livrar o Brasil de concepções que eu acho não se coadunam com a Úldole do brasileiro e por isso somos hoje sistematicamente acusados. Depois, a esquerda invadiu muito a mídia. e fica insistindo nisso ... Isso nos deixou muito magoados. Porque eu só imagÚlo um Exército amado pelo seu povo, porque ele é um instrumento que a sociedade tem para se defender". Esse "patrulhamento brutal" contra OS militares estaria associado à imprensa, mas também aos próprios livros didáticos que veiculariam, particularmente junto aos jovens, visões distorcidas e unilaterais. A partir daí se estariam criando certas visões estig· matizantes sobre determinados atores, que passaram a ser conhe cidos do grande público apenas em função de um aspecto de sua traj etária, quando este se relacionava a um ato de malor repercussão contra as liberdades civis oU a um cargo diretamente associado ao poder militar. Dessa forma, suas biografias pessoais foram em mui tos casos reduzidas a um fato negativo. Assim é que algumas pessoas ficaram indelevelmente marcadas como o "assessor de Médici", o "homem que fechou o Congresso", e assim por diante, não importando que outros cargos ou posições tenham aBBumido em suas vidas públicas. ·0 preço que as Forças Armadas pagaram foi altíssimo. Euposso aferir esse preço por mim mesmO. Porque para a esquerda eu sempre fui um tremendo direitista.
(
••.)
Por outro lado, em relação aos órgãos de informação, eu paguei também um preço. Não cheguei ao último posto porque me tornei um verdadeiro inimigo dos órgãosde informação. ( ... ) O preço que as Forças Armadas pagaram
é
altíssimo, principalmente porque a maioria nada teve a ver com tudo isso [os excessos] mas ficou bitolada dentro dessa imagem negativa. ( ... ) Isso não acabará tão cedo. Isso terá reflexos por muitos anos e por mui tas gerações. "
Observa-se assim que, por diferentes razões, o legado do golpe está associado a um sentimento de injustiça. Esse sentimento
é
expresso de maneiras variadas, mas de forma geral fica claro que, por razões diversas, os militares passaram a ser mal-interpretados. Os excessos são admitidos como parte de uma estratégia de sobrevi· vência do próprio governo, mas lembra-se, contudo, que não foi o governo quem começou a luta armada. Fazia parte de sua missão extirpar as ideologias extremistas, ainda mais quando a esquerda, a bem da verdade acuada em sua capacidade de reagir pelas regras convencionais do jogo democrático, optou pela violência. Este capítu lo dos governos militares merece uma análise
à
parte. O que nos interessa resgatar aqui são visões e sentimentos elaborados a pos teriori mas que nos ajudarão a recompor um quadro de expectativas e percepções acerca da instituição. Estamos aqui abrindo um espaço para que atores relevantes expressem de que forma se sentem pessoalmente atingidos e de que maneira visualizam os efeitos, antecipados ou não, de sua estada no poder. Nesse sentido, estamos chamando a atenção, nesta parte do trabalho, para um aspecto até aqui pouco explorado pelos analistas: o de que predomina entre os militares (pelo menos entre os nossos entrevistados) um sentimento de incompreensão e de mágoa."É
preciso que a senhora se coloque na posição de injustiçados como todos nós nos sentimos. ( ... ) nós corremos risco de vida enquanto a maioria dormia em casa tranqüi lamente. ( ... ) De uns tempos para cá nos sentimos injustiçados. Certo ou errado, o que interessa é o que se sente e não a verdade."Esta última frase
é
de fato expressiva. Lembrando Barrington Moore J.r., o sentimento de injustiça é uma das características mais marcantes da experiência humana, e normalmente leva ao clamor de vingança. Para este autor, clamor e vingança são os "sentimentos básicos subjacentesà
ira moral e ao sentimento de injustiça. ( ...) A
vingança é possivelmente a forma mais primitiva de ira moral".7 Certamente este sentimento, que segundo Barrington Moore não obedece
à
simples lógica das interpretações racionais, no caso em pautaé
vivenciado particularmente por aqueles que tiveram partici pação direta nos acontecimentos políticos que levaram ao golpe <Vou por aqueles que foram responsáveis pela sustentação do regime militar. Não se pode em absoluto generalizá-lo como sendo umsentimento predominante dentro dos quartéis. A rigor, este trabalho está referenciado apenas a uma amostra, ainda que expressiva, de atores que têm legitimidade para falar sobre experiências do passado em que o poder militar esteve diretamente envolvido. Falam, certa· mente, em nome das forças armadas, tentam universalizar um sentimento que lhes é profundo, mas partem de um referencial particular. Para melhor aquilatar a validade desse entendimento seria necessário ouvir novas gerações de militares. Poder-se-ia assim aferir de que maneira essas percepções são sentidas ou apropriadas, mas esta tarefa não pode ser feita aqui. O que importa por enquanto é o trabalho com este grupo que, aliás, está todo na reserva, mas foi em grande parte responsável por três décadas da política brasileira e inel ui figuras que permanecem respeitadas e vistas como depositá· rias de autoridade moral junto a seus colegas de farda.
Para este grupo, as distorções são inaceitáveis, mesmo porque comprometem toda a instituição. Segundo um deles, "hoje se ensina nas escolas que somos torturadores", e isso "tem trazido a nossa instituição até hoje magoada com a sociedade brasileira. ( ... ) Os militares hoje querem a democracia, mas não fiquem nos cutucando com vara muito curta ... Nós anistiamos todo mundo. Ninguém nos anistiou ainda. O derrotado é terrivelmente ressentido. ( ... ) Eles vivem dizendo que somos torturadores e matadores, quando fizemos isso em nome de coisas grandes". Ou seja, admite·se que houve repressão, que ela foi necessária, mas não se admite que isso seja motivo para denegrir a imagem das forças armadas. Afinal elas não teriam feito nada mais do que cumprir sua missão, o que, no entanto; teria sido entendido como desmando e abuso de poder. Esta incom· preensão dificilmente seria sanada. "As forças armadas estão pagan· do até hoje" um preço alto pela intervenção que fizeram em 64. E ainda segundo o mesmo depoente, "há pessoas totalmente intoxica· das contra os militares", movidas por um "ôdio irracional" e "até perigoso". Isto ocorre porque, na sua visão, são feitas generalizações grotescas que distorcem a história e provocam reduciorusmos inacei· táveis.
Embora critiquem essa imagem que, segundo julgam, foi e está sendo construída acerca dos militares, é bem verdade também que as formas que visualizam para se defender são pouco criativas.
É
como se estivessem acuados frente ao que lhes atribuem, sem con· dições de reagir para impor uma versão mais condizente com seus desejos e avaliações. Perderam a iniciativa e a eficácia na divulgação de uma nova imagem, quer pelo passado, quer em termos de futuro. O "patrulhamento" mencionado por um dos militares entrevistadosainda teria condições de subsistir e de se impor. "A gente não consegue ver até hoje uma notícia positiva sobre as forçss armadas. Querem sempre neutralizar a ação dos militares, não ter mais contatos com os militares etc. Esta é que é a verdade." Para todos os efeitos, a impressão que teria ficado na sociedade é a de um Exército arbitrário e algoz. O lado positivo de
21,
anos de governo não poderia nem ser mencionado. Este é o aspecto central da questão. De fato, o combateà
guerrilha, marca maior da identidade militar em nossos dias segundo nossa amostra, foi apontado como decorrência de uma necessidade imperiosa:'/(
... ) quem partiu para a guerra foi a guerri lha. Mas perante a imprensa, perante os políticos ( ... ) só é culpado quem combateu a guerrilha. ( ... ) todos os fatos que aconteceram no governo militar são interpretados só pelo lado negativo. Ninguém menciona que qualquer governo se defende. ( ... ) qual era o papel do governo? Era cair por causa da guerrilha? O governo não tem o direito de se defender? ( ... ) Agora, essa distorção é uma distorção da impren sa brasileira e de uma grande parte dos políticos".Por estes depoimentos se observa que o ressentimento maior que atinge os militares aqui citados diz respeito ao tratamento que a imprensa e a oposição deram à repressão. A necessidade de fazer uma defesa em relação a esses episódios é sempre mencionada. No entan to, dificilmente se admite que excessos poderiam ser evitados. Sem pre há uma explicação que atribui isso aos subalternos que agiram por conta própria, e dessa forma o Exército, como um todo, não pode ser responsabilizado pelo comportamento de alguns. De outro lado, IDesmo reconhecendo que os excessos existiram e que eles compro meteram e comprometem o nome das forças armadas, não se admite a denúncia e a averiguação desses fatos porque se parte do princípio de que, mesmo agindo mal, os militares que exorbitaram o fizeram dentro de um quadro de cumprimento do dever. A missão foi cumpri da, e este seria o fator mais relevante. Certamente, é este tipo de interpretação que está na origem de um hiato, de um gap, a separar hoje balanços de civis e militares quando o assunto é o desempenho político dos militares no poder.
Para melhor elucidar os termos desta visão, ditada, como vimos, por laivos de mágoa e ressentimento, faz-se necessário também que nos reportemos
à
interpretação que é dada ao processo de abertura. Se há um consenso quanto ao tópico anterior, no sentido de que tanto os mais radicais quanto os mais moderados concordam que o desgaste da instituição militar é evidente, em relação à transição pode-se observar avaliações diferentes. Há uma manifestação uniforme quanto à premência da saída do poder, mas aparecem algumasdivergências em relação à maneira como isso poderia ser feito. Ou
seja, as razões para o esgotamento do poder militar são às vezes distintas. De toda forma, mantém-se uma unidade de discurso que atribui aos próprios militares a iniciativa da transição, bem como a liderança na condução desse processo, embora muitas vezes outros setores tenham tentado ou até mesmo conseguido, para maior desa� grado dos militares, se apropriar desse feito. "Eu acho que a revolução teve certos descaminhos, mas quem abriu as portas para a democra� cia fomos nós. ( ... ) Quem começou a abertura, meio timidamente, mas começou, foi o general Geisel. O emotivo João escancarou e nós concordamos com aquilo. Não são esses heroizinhos de Xambioá que fizeram nada disso. ( ... ) Este país virou democracia porque nós desej á vamos que fosse assim. Porque ninguém tinha força para fazer isso. As diretas na rua, nós deixamos e até incentivamos. ( ... ) não fizemos a revolução para haver um regime ditatorial permanente. ( ... ) E a revolução demorou muito por causa da subversão."
As críticas a João Figueiredo são, aliás, uma constante, princi palmente na apreciação dos representantes das posições mais radi cais. Freqüentemente lembram que com o último presidente militar não houve abertura, e sim "arrombamento" das instituições. Mas as críticas partem também dos mais moderados, que ressaltam a inca� pacidade administrativa do presidente e sua falta de tino político. Para um dos depoentes, Figueiredo foi "o grande traidor da revolução e dos revolucionários", não só por sua incompetência, mas principal� mente porque se dispôs a compor com a classe política e aceitou mesmo a passagem do poder para o civil que fosse escolhido pelos partidos. "A revolução errou no dia em que o Médici escolheu Geisel,
(
... ) que trouxe junto com ele um grupo que iria destruir a revolu<;ão.(
... ) A revolução foi destruída no momento em que começou a compo sição com os políticos." Dentro desta visão, nenhum político e até mesmo nenhum civil mereceriam coIÚiança, mormente porque a transição foi feita sem controle, permitindo a reentrada em cena de antigas lideranças.É
nesse sentido que se referem ao "8lTombamen to» que teria tomado o lugar da abertura. As críticas são dirigidas especialmente aos políticos: "política é palavrão". Não se visualizava no quadro de lideranças civis da época qualquer alternativa capaz de dar seguimento aos projetos dos militares nem de se impor moral mente na sociedade. Este tipo de interpretação é bem mais freqüente entre aqueles que, de alguma forma, estiveram envolvidos com o sistema de informações, certamente o grupo que mais teria a perder com uma transferência de poder. "Se você analisasse o quadro político e o quadro da elite brasileira daquela época, ia ter uma grandedificuldade de escolher, pensadamente, um candidato civil. ( ... ) Era tudo muito conturbado, muito difícil. Governar este país é muito difícil.' As contradições aparecem com freqüência, pois embora se aceite que deveria haver Uma retirada do poder não se aceita que tivesse sido daquela maneira. A corrente mais radical desqualifica a capacidade dos civis para assumirem funções de governo e, dentro desta lógica, a transição foi um arrranjo mal elaborado. Isto porque permitiu que, graças à anistia, todos os políticos se apresentassem em condições de igualdade na competição pelo poder.
É
bom lembrar a esse respeito que a anistia é também, para os radicais, um tema de difícil aceitação, mormente porque apareceu como uma imposição civil frente aos militares. "Quando o Golbery começou a se expandir nesse campo da anistia, ele conversava muito com os políticos. ( ... ) Os políticos começaram a querer tomar nas mãos as rédeas da anistia. Então, o assunto saiu do ãmbito estritamente privado do Palácio para o Congresso e dali se espalhou. E a coisa começou, mais ou menos, a se inverter: parecia que a iniciativa de tudo estava sendo do Congresso, do povo, da sociedade, e não do presidente Geisel, que foi realmente quem tomou a iniciativa.» Dessa maneira, além de criticarem a anistia por seu excesso de liberalidade, ainda teriam que se defrontar com a versão que desqualifica o papel do governo militar na sua concessão. As liberalidades são apontadas como um falta de critério na concessão da anistia: "( ... ) a anistia não deveria ter sido feita como foi. ( ... ) deveria ser ampla( ... ). Mas se uma pessoa foi cassada por crime comum provado, por exemplo, por ter morto uma pessoa indevidamente, como fica? ( ... ) Esses podiam ser anistiados, mas não com o retorno de todos os seus direitos políticos". Na opinião de um outro entrevistado deveria haver mais critério e um escalonrunento. "Eu pensava que as pessoas que se envolveram. muito deveriam ter ficado um pouquinho para depois. ( ... ) Eu achava que a anistia era fatal ( ... ) mas achava que o general Golbery exagerav.a um pouco. ( ... ) a coisa devia ter sido feita mais escalona damente. Eu achava, por exemplo, que nas eleições que iam se processar em1982,
determinados individuos que tinham se envolvi do demasiadamente em problemas com o Estado, como Leonel Bri zola e outros desse tipo, deviam ser contidos sté um ponto em que não pudessem mais se candidatar naquela ocasião. Futuramente talvez. Mas ali estava muito cedo, porque eles vinham do exterior com idéias ainda revanchistas."Por estes trechos fica claro, embora se aceite que o regime militar teria que se lançar a uma transição para o governo civil, o ceticismo com que essa hipótese é tratada. Há que lembrar que, sintomatica-