5. Reisevaner
5.3. Spørreundersøkelse på Vikhammer holdeplass
É comum identificar no cotidiano hospitalar crianças sendo assistidas com qualidade técnica e de alta complexidade, sendo tratadas adequadamente sob a ótica terapêutica e, ao mesmo tempo, vivenciando situações desconfortáveis. Não raro, no hospital, temos crianças assustadas, irritadas com as rotinas do cotidiano hospitalar; há falta de privacidade e de atividades lúdicas; alimentação que não se adequa às suas preferências nutricionais; excesso de barulho, iluminação incômoda e desconforto térmico; espaços inadequados para espera do atendimento; estrutura física inapropriada para atendimento às crianças; dificuldade de acesso aos serviços; lacunas na comunicação; profissionais insatisfeitos, desmotivados, relapsos, descompromissados, acomodados, sem capacitação técnica; quantidade insuficiente de pessoas para atender às crianças e seus acompanhantes; entraves no processo de atendimento, entre outros. Esses aspectos, em geral, promovem estresse à criança e ao seu acompanhante, podendo interferir na recuperação da saúde da criança e levando ao agravamento de um quadro já instalado (ALVES; DESLANDES; MITRE, 2009; COLLET; OLIVEIRA; VIEIRA, 2010b; MORSCH; ARAGÃO, 2008; SOARES; VIEIRA, 2004).
O sistema de saúde não pode se manter inerte diante desta realidade. O movimento necessário para mudar a lógica da atenção centrada na doença não passa só pela incorporação
de um novo entendimento acerca dos pacientes e de suas vivências, mas de uma mudança da cultura organizacional, a qual concentra as relações de saber-poder, de gênero e status social. Esses fatores são capazes de estimular determinadas formas de relacionamento entre os atores nas instituições (ALVES; DESLANDES; MITRE, 2009), os quais são considerados inapropriados para a conquista da integralidade do cuidar. É fundamental sensibilizar os membros da equipe multiprofissional para transformar o momento terapêutico em um momento único de contato e diálogo, da fusão de horizontes, tornando-o um encontro cuidador (AYRES, 2007).
O Ministério da Saúde (MS) reconhece esta realidade e vem buscando qualificar os serviços de saúde, de forma a que percebam os usuários (externos e internos) do sistema como seres humanos dotados de aspectos físicos, sociais, e psicológicos que precisam ser respeitados. No ano de 2001 instituiu-se o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH), intencionando melhorar a qualidade dos hospitais públicos do Brasil que integram a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2001). Para tal, utiliza-se a seguinte definição:
A humanização é entendida como valor, na medida em que resgata a vida humana. Esse valor é definido em função de seu caráter complementar aos aspectos técnicos científicos que privilegiam a objetividade, generalidade, causalidade e a especificação do saber. Assim, humanizar é resgatar o respeito à vida humana levando-se em conta as circunstâncias sociais, éticas, educacionais e psíquicas presentes em todo relacionamento humano (BRASIL, 2001).
Em 2003 o MS trata a humanização não como um programa, mas passa a reconhecê-la como Política Nacional, o HumanizaSUS. Essa Política fundamenta-se na valorização da dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão (BRASIL, 2003).
Dentre outras diretrizes, o MS enfatiza que a Humanização deve ser vista como política que transversaliza todo sistema: das rotinas nos serviços às instâncias e estratégias de gestão, criando operações capazes de fomentar trocas solidárias, em redes multiprofissionais e interdisciplinares; implicando gestores, profissionais e usuários em processos humanizados de produção dos serviços, a partir de novas formas de pensar e cuidar da saúde, e de enfrentar seus agravos. As diretrizes requerem que haja apropriação dos processos de trabalho, por
gestores, profissionais e usuários, com base em uma ética de coimplicação na produção dos saberes, das práticas e das relações no campo da saúde, por meio do aumento do grau de comunicação, de colaboração e de compartilhamento entre esses atores, nas diferentes ações e instâncias gestoras do SUS (SOUZA; MENDES, 2009).
Seria imprescindível compreender o trabalho em saúde como, fundamentalmente, trabalho afetivo, de produção de afetos e de modos de afetar e ser afetado pelo outro na criação de redes sociais, de formas de vida (biopoder), de novas subjetividades e sociabilidades. Assim, o acolhimento corresponderia, sobretudo, à disposição ético política ao outro, fazendo da clínica, enquanto plano cuja potência permite escutar, cartografar e construir formas de intervenção (MENDES, 2007 apud SOUZA; MENDES, 2009), um operador privilegiado no processo diagnóstico e de resolução de problemas de saúde, pois é no âmbito da clínica - se entendida de maneira ampliada - que são trabalhados o vínculo terapêutico e a escuta aos sujeitos, a partir dos quais se potencializam condições de compreensão e de interpretação das demandas pessoais, comunitárias e sociais no campo da saúde (SOUZA; MENDES, 2009).
A humanização deve ser entendida não apenas como uma ajuda humanitária, mas como um ato de respeito, ética e cidadania, o que dentro de uma instituição de saúde pode ser representado por estreitamento de vínculos entre as pessoas para viabilizarem a solução de problemas e construção de corresponsabilidades, contribuindo para a satisfação das necessidades singulares de cada pessoa envolvida no processo de cuidar, sejam elas crianças, familiares, profissionais de saúde ou pessoal de apoio. Busca encontrar no trabalho coletivo a direção para execução de um Sistema Único de Saúde acolhedor e resolutivo.
Ademais, quando os sujeitos são crianças com câncer, uma doença tão traumática para todos que se encontram envolvidos com o tratamento, desde os profissionais às crianças e suas famílias, a humanização passa a ser tão fundamental quanto as medicações para que se ultrapasse as diferentes fases que a doença determina, com uma qualidade de vida digna, com o respeito à condição do ser criança.
A corresponsabilidade citada anteriormente refere-se à construção de parcerias entre profissionais de saúde e usuários, elaborando alternativas para a condução de um caminho e considerando valores culturais dos diferentes coletivos. Proporciona, por meio dos espaços
coletivos, a manifestação do saber do outro, permite entender que o ser humano é um ser dependente de suas redes (ALVES; DESLANDES; MITRE, 2009).
O acolhimento e a autonomia são imprescindíveis para se praticar um trabalho dito humanizado, por isso são norteadores da PNH, considerados dispositivos que promovem mudanças concretas nos processos de trabalho e gestão dos serviços. O acolhimento envolve a observação e escuta atenta, capaz de perceber as diversas demandas, por meio da comunicação verbal e não verbal. É um princípio voltado para a reflexão das práticas de saúde, pois reconhece o outro em suas diferenças a partir de um compromisso de responsabilização no encontro terapêutico (BRASIL, 2006).
A autonomia refere-se à capacidade de decisão dos envolvidos no processo de cuidar, ocorre baseada em informações, diálogo e valorização da rede de relações que permeiam os indivíduos. Portanto, está diretamente ligada à qualidade da comunicação entre os atores e em especial às informações recebidas durante o encontro terapêutico. É na medida em que paciente e acompanhante disponibilizam e compreendem o contexto em que estão inseridos, que a autonomia de ambos pode ser exercida de forma mais plena. Compartilhar informações necessárias que envolvem o tratamento permite estabelecer uma participação construtiva no processo terapêutico, possibilitando aos sujeitos a manifestação de sua capacidade protagonista (ALVES; DESLANDES; MITRE, 2009).
Em outras palavras, o acolhimento é, sem dúvida, o princípio base da humanização que vai além da forma como os profissionais são cortezes com os pacientes e a presença de um ambiente decorado e higienizado. O acolhimento possibilita a construção de relações mais dialógicas, pode facilitar a produção de vínculos, entendendo o usuário como capaz de exercer sua autonomia e sua capacidade protagonista, compartilhando a responsabilidade pelo cuidado (ALVES; DESLANDES; MITRE, 2009).
De acordo com a PNH o ser humano deve ser visto em sua condição, simultaneamente, complexa, exuberante e problemática, sobretudo em relação aos processos de saúde/doença (SOUZA; MENDES, 2009). Se este ser humano é uma criança, suas características devem ser valorizadas, mesmo que o seu mundo seja diferente do mundo dos profissionais e gestores. A infância de crianças com câncer é afetada em todos os aspectos pela necessidade de tratamento agressivo e prolongado, implicando diretamente no comprometimento de seu desenvolvimento enquanto ser social que necessita ter uma vida sem
sofrimento, dor, medo e angústia. Para isso os profissionais e os gestores da saúde precisam buscar formas diferentes de oferecer o cuidado, trazendo para o cotidiano assistencial recursos próprios do mundo infantil, de forma a possibilitar que as crianças sejam protagonistas do seu tratamento em uma atmosfera o mais próximo possível de uma vida saudável. A humanização hospitalar tem reflexo direto na construção da biografia das crianças com câncer e por isso tem um significado imensurável para a vida delas.
Enfatiza-se que, a partir da compreensão da perspectiva das crianças, é possível construir relações em saúde que não sejam pautadas pelo assujeitamento e pelo controle, e apostar na capacidade delas de expressar, criar e reinventar normas que possibilitem a administração, de forma autônoma, da sua margem de risco na vida, ampliando as capacidades de enfrentamento da doença junto às relações que lhe são mais importantes (ALVES; DESLANDES; MITRE, 2009).
O alcance da humanização do cuidado na atenção à saúde infantil depende da escuta das crianças, esta parcela da população deve ser ouvida e, por isso, o desenvolvimento deste estudo se mostra premente, pois por meio de suas falas poderão ser criadas estratégias para humanizar a assistência de serviços de atendimento à saúde infantil, em especial, na oncologia. Considerar o que interpõe as relações no ambiente da sala de quimioterapia é o caminho para canalizar força para a produção de subjetividades protagonistas e responsáveis pelo cuidado. Alves, Deslandes e Mitre (2009) concordam com a necessidade de desenvolvimento de oportunidades e espaços para valorizar a percepção das crianças, argumentando que a expressão delas pode fornecer valiosos subsídios para que as práticas em saúde possam ser repensadas em prol de uma assistência mais integral e acolhedora.