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Naturalmente existe uma troca de informação entre cientistas no sentido de explorarem melhor toda a sua produção científica ligada à pesca. Esta encontra- se mais distante do mundo prático dos pescadores, pois é utilizada uma linguagem muito específica. Segundo Diniz (1994) há que compreender o processo de produção científica através do enquadramento dos seus rituais. Estando um dos rituais relacionado com a linguagem e com a forma da escrita associada ao contexto da produtividade influente no texto científico.

Para compreender o seu funcionamento, enquanto indústria científica, assume- se a ciência como um esforço colectivo onde o trabalho realizado por um conjunto de investigadores beneficia a entrada para outras linhas de produção especializada (Franck: 1999). Esta produção é canalizada através de publicações que estabelecem a propriedade intelectual do autor. Este tipo de informação é “exigida” pelos interessados num assunto específico. Considera-se uma forma de competir pela atenção, pois o sucesso da ciência é recompensado por esse mesmo interesse evidenciado por outrem.

Assim sendo, os autores não publicam somente pelo seu próprio interesse mas também pelo que é útil aos outros (Franck: 1999), adicionando reconhecimento e reputação ao valor científico dos textos para futuras intervenções no processo de aceitação na comunidade científica, visto que “o que aumenta a reputação dos cientistas é a sua aceitação na comunidade científica. Ser citado é ser usado” (Diniz: 1994, 4). Espera-se então do cientista a sua aceitação na comunidade científica através das citações feitas e de quando é citado, de quem o lê e quem ele lê.

Outra forma de evidenciar o trabalho e/ou carreira dos cientistas passa pela participação em conferências, apresentação de posters, de partilha em sessões científicas ou ser membro de um comité científico (Rowley-Jolivet, 2002).

A questão das conferências como apresentações orais onde é divulgado trabalho recente ou em curso, torna-se a categoria mais importante. A própria

dimensão visual torna-se um factor a ter em conta na representação não-verbal do conhecimento e da sua forma de o expressar conjuntamente com outras formas de discurso da pesquisa científica. Rowley-Jolivet dá um exemplo claro do que pode acontecer numa conferência internacional onde a língua pode ser um obstáculo, mas tendo sempre em atenção a forma como é transmitida a mensagem. “Como um professor universitário de matemática confessou na volta de uma conferência do Japão, “eu não consegui entender o inglês mas consegui seguir a matemática”” (Rowley-Jolivet: 2002, 37).

O exemplo descrito é ideal para questionar até que ponto os investigadores ao realizarem o seu trabalho para a comunidade científica também o fazem para a comunidade piscatória73, que são os utilizadores práticos de parte desse trabalho. Dentro desta comunidade, o assunto pesca é comum, mas a linguagem em si difere da utilizada pelos investigadores. Os modelos teóricos e todas as estatísticas apresentadas não condizem com uma linguagem baseada na experiência da visão e da memória utilizada entre homens do mar.

Ao analisar modelos de estudos teóricos da utilização do conhecimento74 -

science push model (modelo de avanço científico), demand pull model (modelo

de influência de interesses), dissemination model (modelo de disseminação) e

interaction model (modelo de interacção) - percepciona-se uma evolução entre

eles.

O primeiro, o modelo de avanço científico, enfatiza o avanço progressivo em decisões de pesquisa como o factor determinante da utilização do conhecimento, não dando importância à forma de divulgá-la aos potenciais utilizadores.

No modelo de influência de interesses, por iniciativa dos investigadores para com os utilizadores, são estes últimos que definem e questionam aos investigadores o procedimento de investigação que contribui para identificar e resolver de forma alternativa problemas específicos, causando uma

73 Aqui incluem-se não só pescadores como também armadores e produtores 74

Base num estudo realizado sobre a utilização do conhecimento de investigação em ciências sociais, onde referem os principais estudos teóricos da utilização do conhecimento para a ciência em geral.

subutilização do material de pesquisa em detrimento de um interesse organizacional por parte dos utilizadores.

O terceiro, o modelo de disseminação vem colmatar a falha da transmissão de conhecimento através de mecanismos de disseminação para identificar a utilidade que o conhecimento tem para os utilizadores e transferi-lo. A principal falha deste modelo é a pouco ou nenhuma envolvência dos utilizadores na informação transferível e na produção dos resultados de pesquisa.

O último e mais completo, o modelo de interacção, avalia a utilização do conhecimento pela diversidade de contactos informais entre investigadores e utilizadores, mais do que por séries lineares das necessidades de ambos os grupos, identificando a ausência desses contactos como o principal problema da subutilização das decisões de pesquisa. Este modelo dá maior atenção às relações entre investigadores e utilizadores em diferentes etapas da produção de conhecimento, disseminação e utilização.

A adaptação a este tipo de produto passa pelo esforço da realização de relatórios com maior grau de compreensão, de especificar melhor as conclusões e recomendações e tornar os relatórios mais atractivos, tornando o contexto do utilizador mais receptivo à investigação.

Quanto ao contexto do investigador, gira em torno das publicações (como já foi referido), aumentando o seu número também será maior a informação dos resultados disponíveis para uso dos interessados. Para que esse uso do conhecimento seja efectivo é necessário que o investigador saliente nos seus projectos as necessidades dos utilizadores, em vez da prioridade ser apenas o progresso do conhecimento académico.

Analisando estes quatro modelos e formas de adaptação, nota-se que o contexto, quer dos investigadores ou dos utilizadores, influencia mais a utilização do conhecimento do que propriamente os atributos dos produtos de pesquisa.