Como vimos anteriormente, o teatro e a poética anchietana eram cunhados pela Cosmogonia Universalista - utilizando os termos de Karnal (op. cit.: 225) – e representados por obras em português, castelhano e tupi. Para fins da doutrina moral jesuítica, os termos e neologismos em tupi eram dispostos em uma sintaxe e em um fluxo de discurso ibéricos, podendo-se afirmar que o único elemento preservado como familiar aos nativos eram a maioria das palavras, mas não todas.
Os “línguas” viriam com a firme intenção de tomar o lugar dos pajés e caraíbas, senhores da fala e das aldeias até então. Tanto os primeiros quanto os últimos tinham em suas oratórias o instrumento de coerção. Entretanto, a estética e a fluência dos discursos de brancos e de indígenas eram também distintos, tanto um quanto o outro sendo realizados em tupi.
Para identificarmos algumas dessas distinções entre o discurso tupi e o discurso em português, tomaremos como ponto de partida o trabalho de Crofts (1974), que retrata algumas peculiaridades da narrativa em língua munduruku, língua do tronco lingüístico
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tupi.
Devido às especificidades da língua, a autora descreve algumas complexidades sociolingüísticas na eventual tradução para o português em narrativa natural. Entre elas temos:
1) Repetição na narrativa.
Na língua munduruku é comum a ocorrência de repetições ao se descrever um processo qualquer com a finalidade de intensificar a ênfase ou tornar a narrativa mais viva, o que não ocorre com português:
“Aoyø wexik daidadam ku dag.. Iop pima i'uk put cebe ip iõm cæcã'øm puye. Ibapuk acã opop. Iop cæcã. Imånpuye aoyø be i'uk put. Iõm’øm puye.” tradução literal:
“As mulheres plantam as batatas nas roças. Podem arrancar quando ficam bem maduras porque não estão muito fundas. Ficam na superfície. São bem maduras. Por isso, as mulheres podem arrancá-las. Porque não estão fundas na terra..”
2) Pronome versus substantivo
Ao contrário do português, é comum na narrativa munduruku ocorrerem repetições de substantivos:
“Kokok dace ma. Kokok pit soat pupum: sapokay, wasø, xegemo dak. Soat pupum kokok. Ibubum i’o am. Xipat gu jæjã ma kokok....”
tradução literal:
“O gavião pequeno é mesmo gavião. Mas o gavião pequeno pega tudo: galinha, pássaro e calanguinho. O gavião pequeno pega tudo. O gavião pega para comer. O gavião pequeno é muito ruim (...).”
3) Orações citadoras
É comum na língua munduruku a existência de orações citadoras, tais como a colocação da frase 'ele disse' antes ou depois de uma citação, recurso não tão comum em português:
— Cu pin tu ån garimpo be? — io’e owebe. Ÿebuje oce:
— Hm hm. Cu pin õn — i oce. — Soat gsu bit cuy etujowat — io'e. tradução literal:
Daí ele me levou ao padre.
– Você quer ir à mineração? ele me disse. Agora eu disse:
– Sim, quero ir – eu disse.
– Então, não leve tudo – ele disse.
Analogamente, podemos encontrar os mesmos aspectos em um dos raros escritos em tupi, de autoria de um indígena alfabetizado. Trata-se da carta132 datada de 1645 de Diogo Camarão133 a seu primo, Pedro Poty, e nela podem-se identificar as mesmas ocorrências sociolingüísticas da narrativa em munduruku que, conseqüentemente, são estranhas ao discurso da língua portuguesa. Nota-se em seu texto: 134
132
tradução da carta na integra: “Ao Senhor capitão Pedro Potí, Nosso Senhor Deus dê a ti uma boa vida. Antes de veres esta minha carta, eis que eu estou muito feliz, perguntando por todas as vossas boas coisas, eu também não estando mal, com efeito, para vos fazer as coisas, as coisas que vós desejais. Para fazer as coisas, enviei esses meus soldados aí, perto dos teus caminhos, para vossa saída, dizendo: - Ide para ver evacuar os altibaixos." Mandei o capitão Diogo da Costa, dizendo "prendei alguns homens ou algumas mulheres para que converseis. Dizei a eles: "-Eis que viemos para vos retirar. Conversai com eles primeiro; depois de conversar com eles, que os envieis para reconhecer os altibaixos pantanosos."
Como coisa sabida do Senhor Deus, Nosso Senhor, estas minhas palavras envio a ti, senhor Pedro Pofi. Porque (é que) eu sou a parte boa de tua família? Vem para sair do que é parecido ao fogo do diabo. Saibas que és cristão! Por que queres fazer perder verdadeiramente tua vida como cristão? Por que queres verdadeiramente fazer perder teu estado de filho do Senhor Deus? Que queres fazer verdadeiramente? Sem saber os fatos, tu, na verdade, estás querendo muitíssimo perder-te a ti mesmo. Quantos cristãos perdidos viste? O cristão é o que não se perde. Por que, sendo cristãos, não são bons, fazendo-os perder o Senhor Deus? Eis que aqui estamos, querendo vossa retirada, conforme as palavras do senhor capitão-mor Antônio Felipe Camarão, e também conforme as palavras do chefe de todos os brancos.
Eis que eu estou muito admirado convosco, vendo-vos fugir de nós. Não somos nós vossa família? Por que vós nos odiais? Nós não fizemos nenhuma coisa má para vós. Eia, vós não fizestes nenhuma coisa má para nós. Para aí também vai a ti a carta do Capitão-mor. Para aí também vão algumas cartas do Capitão-mor para Antônio Paraopeba. Oxalá o Senhor Deus entrasse em vossos corações, ó cristãos. E ficaríamos muito felizes, se saísseis, para vos ver sempre. Para aí enviei duas mulheres a vós para levar notícias e para que contem a ti como aqui estou. Vão estas notícias somente. Que estejais vivendo bem. O Senhor Deus esteja convosco. Hoje, 21 de outubro, 1645 anos. Teu primo e teu amigo Sargento-mor Dom Diogo Pinheiro Camarão.
133
Índio petiguar instruído pelos jesuítas na aldeia Meretibi (Pernambuco). 134
1) Repetição na narrativa: trecho 1:
“E-ï-kuab cristão-ramo nde r-ekó. Marã ere-î-mokanhé-motar-eté-katu-pe cristão-
ramo nde r-ekó? Marã ere-î-mokanhé-motar-eté-pe Pa'i Tupã r-a'yr-amo nde rekó? Marã ere-ikó-potar-eté-pe? T-ekó kuab-e'ym-amo, ere-nhe-mokanhé-motar-etékatu, endé anhé, e-îkóbo. Moby-pe cristão-kanhema ere-s-epîa(k)? Karaíba na okanhem- ba'e ruã. Marã-namo, cristão-ramo s-ekó-reme, nd'i katu-i, Pa'i Tupã i mokanhema?”
tradução literal:
(Saibas que és cristão! Por que queres fazer perder verdadeiramente tua vida como
cristão? Por que queres verdadeiramente fazer perder teu estado de filho do Senhor Deus? Que queres fazer verdadeiramente? Sem saber os fatos, tu, na verdade, estás querendo muitíssimo perder-te a ti mesmo. Quantos cristãos perdidos viste? O cristão é o que não se perde. Por que, sendo cristãos, não são bons, fazendo-os perder o Senhor Deus?)
trecho 2:
“Emokúei-pe capitão-mor papera só-û endébe. Emokúeî- -pe Antônio Paraopeba
supé amõ capitão-mor papera só-û. Pa' i Tupã temõ o-iké pe py'a-pe-mo, cristão gûé! A'e-mo pe-sé-me oré r-oryb-eté-mo, pesé-me-mo, memé pe r-epîaka-mo. Emokúei-pe mokõî kunhã a-î-mondó pe'éme, moranduba r-erasóbo, t'o-mombe'u ké xe r-ekó endébe. Aïpó nhõ moranduba só-û”
tradução literal:
(Para aí também vai a ti a carta do Capitão-mor. Para aí também vão algumas cartas do Capitão-mor para Antônio Paraopeba.Oxalá o Senhor Deus entrasse em vossos corações, ó cristãos. E ficaríamos muito felizes, se saísseis, para vos ver sempre. Para aí enviei duas mulheres a vós para levar notícias e para que contem a ti como aqui estou. Vão estas notícias somente.)
Tupi Antigo. São Paulo, Editora Vozes, 1999. p. 530. .
2) Pronome versus substantivo:
“Ao sñor capitão Pedro Potí Iandé Iara Pa'i Tupã t-ekobé-katu t'o-me'eng endébe. Ikó xe papera endé s-epiak' îanondé, xe r-ory-katu `ã, opabenhé pe marane'yma r-esé gúi-porandupa, xe abé `ã na xe maran-i nhé gûi-t-ekóbo, pe'é-me ma'e monhang-ag- úama r-esé, ma'e pe r-emimotara. Ma'e monhang-ag-ûama r-esé, a-î-mondó `ã xe soldados ebapó nde r-apé ypy-pe, pe sema r-esé, "pe-kûãï aguaá mosema r-epîaka", gui-î-abo.”(grifo nosso)
Tradução literal:
(Ao Senhor capitão Pedro Poti Nosso Senhor Deus dê a ti uma boa vida.
Antes de veres esta minha carta, eis que eu estou muito feliz, perguntando por todas as vossas boas coisas, eu também não estando mal, com efeito, para vos fazer as coisas, as coisas que vós desejais. Para fazer as coisas, enviei esses meus soldados aí, perto dos teus caminhos, para vossa saída, dizendo: - Ide para ver retirá-los.)
3) Orações citadoras:
“A-î-mondó capitão Diogo da Costa, "pe-î pysyk abá amõ koîpó kunhã amõ ta pe-î-
mongetá. "-Pe r-enosema ikó oro-îur" pe-îé i xupé. Pe-î-mongetá ranhé. I mongetá roîré, ta pe-î-mondó ãgûa-mongakuapa," gûi-î-abo.”
tradução literal:
(Mandei o capitão Diogo da Costa, dizendo "prendei alguns homens ou algumas mulheres para que converseis. Dizei a eles:"-Eis que viemos para vos retirar. Conversai com eles primeiro; depois de conversar com eles, que os envieis para dar notícia àqueles.)
Apesar do teor da carta de Camarão - impregnada pela cultura européia (note-se “papera”, corruptela da palavra “papel” e “cristão”) - refletir as idéias de um nativo aculturado, podemos identificar um fluxo de discurso característico da oratória tupi e não comum ao português. Se não são línguas tão próximas, apenas pertencentes ao mesmo tronco lingüístico, tanto o munduruku quanto o tupi apresentam semelhanças pelo menos nos três
aspectos explicitados (repetição na narrativa, pronome versus substantivo e orações citadoras). A partir dessa constatação, podemos aventar a hipótese de que não só os conceitos transmitidos pelas obras e traduções de Anchieta eram exógenos á cultura indígena, mas também a forma em que eram transmitidos, restando como familiar ao ouvinte somente a unidade da palavra (quando essa não era transliteração do português nem neologismo).