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Vainfas, Ronaldo. op. cit. p. 25. 149

O termo “eucaristia” provém da expressão grega “eu – khariz - esthai” que significa “demonstrar gratidão” ou “reconhecimento”. Não podemos negar que, sob a definição de “reconhecimento”, eucaristia e antropofagia têm significados e finalidades análogas. Na antropofagia indígena, a ingestão do corpo do inimigo capturado servia menos à saciedade alimentar dos indivíduos de uma aldeia do que à incorporação das qualidades do sacrificado. Era através do aniquilamento do contrário, em procedimento ritualístico e a subseqüente ingestão de seu corpo, que os indígenas incorporavam a “essência” do inimigo a suas próprias pessoas.

O ciclo do processo antropofágico era previsível a todos das aldeias: os que estavam prestes a serem sacrificados já tinham matado, devorado muitos adversários e teriam sido vingados pelos seus parentes vivos. Constata-se uma absoluta cumplicidade entre vítimas e executores: a situação de um justificava a ação do outro.

É nesta organização social inter-tribal que o inimigo não se configura necessariamente como um elemento negativo à comunidade. Ao contrário disso, ele torna-se fator de renovação do caráter individual daqueles que ingerem sua carne e, conseqüentemente, adquirem o valor simbólico de elementos positivos, tais como coragem e bravura.

É através desse processo que identificamos o “reconhecimento” do status (benéfico) daquele que tem seu corpo e seu sangue ingeridos.

Este reconhecimento é também firmado na eucaristia da Igreja Católica, através do ato de ingerir o corpo e o sangue de Jesus, transubstanciados no pão e no vinho. Contudo, a antropofagia indígena não foi, em nenhum momento, o ponto de partida para que Anchieta, em seus procedimentos catequéticos, introduzisse o conceito da eucaristia. Ao contrário disso, a antropofagia foi veementemente repugnada em seus escritos:

“O piedoso Mem de Sá, desejou depois disto ver adorado o Senhor do céu, do mar e da terra e venerado nas plagas do Sul o nome de Cristo. Resolve impor leis aos índios que vivem quais feras e refrear seus bárbaros costumes. Logo desterra

a antropofagia cruel: não permite mais que movidos de gula infrene bebam o sangue fraterno,

nem mais se violem os santos direitos da mãe natureza e as leis do Criador. Para logo o ignóbil vulgacho a quem movia ora ambição mal inspirada

ora verdadeiro terror, pôs-se a espalhar estes rumores: “que novo governador é este? com que direito posterga as leis antigas e tenta impor novos costumes

novas normas de vida a indômitas gentes? Poderá ele agora persuadir a povos selvagens tratados de aliança? deixará a raça brasílica de comer carne humana, banindo do seio de seus filhos ódios cruéis e guerras antigas?

Pois se o prazer destes bárbaros, justamente nisso consiste, atirar-se sempre em novas e ferozes batalhas,

provocar os outros à guerra em que sempre viveram, rasgar-lhes com as unhas a carne, e piores que tigres, fincar os dentes em lanhos palpitantes de vida:

devem agora aprender a esquecer seus furores, criar almas meigas e corações de cordeiro? Acaso não voltará sobre nós o feroz inimigo

todas as iras e todos os braços devastando a cidade, se faltarem outros em que saciem a sede de sangue?” 150

Aqui, sugerimos que Anchieta poderia ter se valido de uma releitura do ritual tradicional para inserir o ritual eucarístico, da mesma forma que se apropriou de outros símbolos da cultura indígena, traduzindo-os em novos significados. Mas, como bem se nota na passagem acima, a interpretação do ritual canibalístico dos silvícolas feita pelo jesuíta de

150

Anchieta, Pe.Joseph de, De Gestis Mendi de Saa, Introdução, versão e notas do Pe. Armando Cardoso, S.J., São Paulo, Edições Loyola, 1986. vv. 303-330.

forma alguma concluía que aquela prática era positiva, relegando-a condição de ato profano.

Se, na perspectiva cultural indígena, a antropofagia configurava-se como um rito que almejava a renovação de virtudes humanas provenientes da ingestão do corpo do inimigo, parece-nos que, dentro desta mesma perspectiva, a crucificação de Cristo não satisfaria a uma lógica comportamental que teria sentido aos nativos, pois não havia ocorrido um aproveitamento das virtudes do sacrificado.

A eventual ingestão do corpo de Cristo – a qual aqui chamaremos de “teofagia”151 - poderia sim, ao nosso ver, satisfazer a lógica indígena da dinâmica de incorporação de qualidades do outro.

Acreditamos que a lacuna existente entre antropofagia e teofagia no universo interpretativo do indígena pôde ser, em partes, preenchida pela exortação da eucaristia, que aponta para a “teofagia”. Se o índio devesse abandonar a prática de devorar o inimigo, ele passaria a ingerir o corpo de Jesus Cristo, transubstanciado em hóstia e cauim, este último também consumido nos rituais antropofágicos.

Anchieta assim prega em seu Diálogo da Fé: 152

M Aé serãne hóstia pupé Jesú Cristo rekóu? D Ipupé.

M Ybákpe oekó jákatúpe? D Ijákatú.

(M E, porventura, na hóstia está Jesus Cristo? D Nela está.

M Igualmente como está no céu? D Igualmente.)

151

teofagia: termo extraído do debate “Antropofagia e Teofagia” - realizado por Dietmar Kamper, Birke Mersmann e Haroldo de Campos, em 2 de abril de 2001, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) – sobre as narrativas de Hans Staden enquanto prisioneiro dos índios tupinambás em 1554.

152

Anchieta, Pr. José de. Diálogo da Fé. Introdução histórico-literária e notas do Pe. Armando Cardoso, S. J., São Paulo, Loyola, 1988. p. 140-141.

M Ipupépe iTupã rekóu, seté, iánga abé? D Ipupé.

M Osepiákpasé? D Ndosepiáki.

(M Nela está sua divindade, seu corpo e sua alma? D Nela estão.

M A gente o vê? D Não o vê.)

M Mbaé añótépe asé osepiák? D Akó miapé puéra ñó.

M Aépe miapé jýba rupíbé ipupé sekóu? D Aáni.

(M Mas o que somente a gente vê? D Só a que era pão.

M E cozido o pão, logo está nele? D Não.)

M Mbaéreme etépe?

D Supíri janondé, iárybo Jandé Jára Jesu Cristo ñeénguéra abaré saángiré é. M Ndeiteé nipó asé imoetébo, oendypyãéybo oína, opotiá resé opoáopoá? D Ndeiteé nipó.

(M Quando verdadeiramente?

D Antes de o levantar, só depois de o padre pronunciar sobre ele as antigas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.

M Por isso mesmo a gente o adora, ponde-se de joelhos e batendo, batendo no peito?

M Aépe hóstia pyseõgetáetáreme ipyseõbuéra jabiõ Jandé Jesú Cristo rekõu?

D Íjabiõ sekóu.

M Akó oetépenduára pupé oekó jákatúnépe? D Ojákatúñé.

(M E se partir a hóstia em muitas, muitas partes, em cada uma da partes Nosso Senhor Jesus Cristo está?

D Em cada uma está.

M Está [em cada parte] exatamente como [estava] naquele inteiro? D Exatamente.)

M Mbaépe asé oimoeté, abaré calix rupíreme, akó itákamusí anópe? D Aáni; Jandé Jára Jesú Cristo ruguý ipupé oikóbae aé.

M Kauĩ aé ruã tépe guá onóngipupé?

D Kauĩ biã, aujé Ñandé Jára Jesú Cristo ñeénguéra abaré saángreme suguýramo sekóu.

(M Que venera a gente, quando o padre ergue o cálix, é esse vaso de metal somente?

D Não; mas o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que está mesmo nele. M Mas não foi vinho mesmo que nele puseram?

D Embora vinho, logo ao pronunciar o padre as antigas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, tornou-se seu sangue.)

M Suguý añópe ipupé sekóu?

D Nda suguý añó ruã, seté abé, iánga, [abé] iTupã abé, hóstia pupé oekó jákatú. M Aémo paé kauĩ jasoára tykýtykýreme, itykýtykýra jabiõ Cristo Jandé Jára rekóumo?

D Ijabiõ sekóumo.

D Não está o seu sangue, o seu corpo também, a sua alma, a sua divindade também, exatamente como está na hóstia.

M E se esse vinho estivesse como se fossem muitas gotas, Cristo Nosso Senhor estaria em cada gota?

D Em cada uma estaria.)

São nesses termos que a antropofagia deveria ceder espaço à “teofagia”, embora em nenhum momento Anchieta relacionou uma prática à outra. Contudo, concluímos que no imaginário indígena o referencial para a eucaristia era o próprio significado do ritual antropofágico, pois Anchieta em sua pregação resgatava elementos inerentes à cultura local – como o “kauĩ”, consumido nos rituais e o corpo de ”Tupã”, representado pela hóstia que mesmo dividida, preservava seu valor simbólico.

Em última análise, se Anchieta foi bem sucedido em termos de conseguir transmitir em língua tupi o “procedimento”, não se pode ter certeza que a tradução da “relevância” deste procedimento tenha sido eficiente na esfera do imaginário dos silvícolas.

Capítulo III – Anchieta e as traduções catequéticas ao redor do mundo