Toda a história do progresso humano pode reduzir-se à luta da ciência contra a superstição.
Gregório Marañón
Inicialmente, na introdução deste trabalho, explicitamos a intenção de investigar os mecanismos cognitivos subjacentes à compreensão de textos narrativos e consolidamos esse propósito a partir de leituras e discussões em torno do tema, constatando que a compreensão da narrativa se dá por representações mentais das pessoas, dos objetos, dos locais, dos eventos e das ações feitas pelo compreendedor no momento em que são descritos em um texto.
Para o desenvolvimento da pesquisa, tínhamos em mente dois questionamentos: como é feito o processamento mental dos eventos narrados? Como as estruturas cognitivas se integram e como se configuram nos diferentes cenários descritos nos eventos narrados? Essas questões fizeram-nos examinar alguns trabalhos realizados na área da Linguística Cognitiva e em estudos com narrativa, com o objetivo de descrever e analisar alguns mecanismos cognitivos de compreensão que atuam na organização formal e significativa da narrativa. Com esse propósito, enfocamos a perspectiva dêitica (ONDE, QUANDO, QUEM), as estruturas cognitivas sociais e corporais (frames e esquemas imagéticos), e os modelos de situação e a simulação mental construídos pelo compreendedor a partir dessas estruturas cognitivas.
Quanto aos questionamentos inquiridos na pesquisa, verificamos que ao longo da investigação foram sendo desvelados. O processamento mental dos eventos narrativos na compreensão da narrativa é construído por estruturas cognitivas (frames, esquemas imagéticos) e pelos modelos de situação que são ativados por pistas linguísticas e monitorados pelo compreendedor por meio dos centros dêiticos. Constatamos que centros dêiticos, esquemas imagéticos e frames se interconectam e permitem a construção de cenários na compreensão de narrativas.
Na construção da representação mental, além de podermos incluir informações organizadas sistematicamente na superfície da narrativa, fornecidas pelas estruturas e expressões linguísticas, podemos ir além do que está explicitamente nela declarado, via mecanismos cognitivos ou informações que se inter-relacionam.
Essas verificações foram constatadas em narrativas que constituíram o corpus da pesquisa, coletado em atividade de sala de aula.
No que diz respeito às análises das narrativas, pelas situações nelas descritas e pela apreciação depreendida, chegamos à compreensão de que o acesso à representação foi permitido pelos domínios cognitivos estabelecidos pelas experiências culturais e sensório- motoras, o que possibilitou que o compreendedor reconhecesse as entidades psicológicas (QUEM) envolvidas na narrativa e as mudanças de tempo (QUANDO) e de lugar (ONDE) ocorridas nos eventos.
As ocorrências dos esquemas imagéticos e frames, acionados simultaneamente, apontaram que essas estruturas são representações das vivências corpóreas afetivas, sensório- motoras e socioculturais, experienciadas em sociedade e que servem de base aos processos conceituais (JOHNSON 1987). Dessa forma, a partir do nosso corpo, conceptualizamos o mundo e as coisas que nos cercam. Além das experiências corpóreas construídas por meio do aparelho sensório-motor, apontamos também as experiências socioculturais, os frames, ambos acionados simultaneamente. Reunindo todas essas constatações, entendemos que as narrativas se organizam a partir de experiências sistematizadas em uma sucessão integrativa de acontecimentos de interesse humano numa sequência espaço-temporal.
Dentre as estruturas cognitivas identificadas nas narrativas, destacamos os esquemas imagéticos ORIGEM/CAMINHO/META, CONTÊINER, PARTE/TODO, ESCALA, CENTRO/PERIFERIA e LIGAÇÃO. Pudemos observar que houve preponderância nos esquemas ORIGEM/CAMINHO/META e CONTÊINER. Justificamos esse registro afirmando que, são esquemas mais recorrentes nas narrativas, visto que temos um evento que ocorre num espaço e um QUEM que se movimenta na narrativa. Quanto aos frames, destacamos cenário e roteiro. Estes tiveram suas presenças marcadas pela associação aos esquemas ORIGEM/CAMINHO/META, CONTÊINER, PARTE/TODO, e por organizarem cenas que possibilitam a construção representação e de simulação mentais. Para tanto, apoiamo-nos nas pistas linguísticas fornecidas pelo texto, nos conhecimentos, tanto do mundo real como de ficção, e no enredo descrito na narrativa. A partir disso, inferimos sobre os personagens, os lugares que possivelmente tenham sido experienciados por eles e construímos os modelos de situação.
A cada evento da narrativa, a partir dos frames, construímos e simulamos diferentes cenários que envolvem pessoas, lugares, tempos e outros fatores mencionados na história que se atualizam de acordo com a localização e os objetivos do protagonista (ZWAAN, 1998).
Dessa forma, vimos que os eventos narrativos são representados mentalmente pelo compreendedor, durante a leitura da história, quando este concebe um centro dêitico (QUEM,
ONDE, QUANDO) e, guiado por ele, assume uma posição no mundo da narrativa, de maneira que aciona conhecimentos prévios, experiências corpóreas, sensório-motores, aplica habilidades cognitivas experienciadas e integra as informações que resultam na compreensão dos eventos narrados e cria modelos de situação.
Pudemos observar também que tanto os frames como os esquemas imagéticos resultam de construções mentais que fazemos a partir de estruturas recorrentes das nossas experiências sensório-motoras. Dessa forma, não podemos deixar essas estruturas cognitivas dissociadas na forma como organizamos e processamos as informações para dar conta da compreensão de como um enunciado é construído.
Diante do exposto, no que concerne ao desenvolvimento da pesquisa, constatamos que os objetivos traçados foram alcançados; a metodologia e o aporte teórico foram, a nosso ver, suficientes e adequados para o que fora proposto. Esses aspectos corroboram a obtenção dos resultados que se mostraram satisfatórios.
Ao esboçar a estruturação espaço-temporal na narrativa e apresentar o centro dêitico como modelo mental que guia e dá acesso à compreensão e à construção de sentido, a pesquisa fornece conhecimentos que possibilitam uma reflexão sobre os processos cognitivos em relação aos estudos de narrativa e, a partir do panorama de análise arrolado, permite um olhar crítico e depurado acerca da construção de modelos de situação e a compreensão de textos narrativos.
Tais considerações, explicitam a relevância da pesquisa de tal maneira que expomos as contribuições encontradas para futuras pesquisas. Ela oferece contribuição quando:
a) Apresenta a importância dos centros dêiticos como elementos norteadores no processo de compreensão de narrativas;
b) Corrobora a postulação de que a compreensão e a construção de sentidos na narrativa passam pelas estruturas cognitivas, quais são esquemas imagéticos e frames; c) Comprova que a estruturação da representação mental vai além da forma sentencial,
seriada, as inferências realizadas têm papel importante.
Sendo assim, acreditamos que a pesquisa contribuirá para estudos de narrativas, que é campo fértil para o entendimento e potencialização da reflexão das coisas que nos cercam. Visto que buscamos descrever como os mecanismos cognitivos permitem desencadear a compreensão da estrutura narrativa.
Considerando que a pesquisa está voltada para a narratividade, um campo vasto para reflexão na temática, consideramos pertinente desenvolver uma nova análise de conhecimento acerca
de como as estruturas cognitivas se integram e se configuram nos diferentes cenários construídos nas narrativas que circulam no meio social, divulgadas no meio midiático, sejam informativas, ficcionais ou de entretenimento. Assim, estaremos caminhando em direção à produção de conhecimento novo, sinalizando que finalizamos este trabalho, mas temos em vista a possibilidade de desdobramentos.
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