• No results found

Há um relativo consenso entre os estudiosos que, no contexto atual do processo de globalização, o debate sobre os direitos e deveres da memória relaciona-se inexoravelmente com o tema da identidade, especialmente no caso latino-americano. Imerso em um tempo

177 DIEHL, Aston Antônio. Memória e identidade: perspectiva para a história. In: TEDESCO, João Carlos

(org.). Usos de memórias (política, educação e identidade). Passo Fundo: Editora da UFP, 2002, p. 143- 144.

de mudança, as sociedades latino-americanas têm experimento uma tensão entre homogeneidade e heterogeneidade, na medida em que a heterogeneidade é uma reivindicação e uma característica do discurso da resistência ao projeto homogeneizante. O discurso da resistência de um mundo globalizado contempla, ao mesmo tempo e paradoxalmente, uma homogeneização pós-nacional e um desenvolvimento de identidades mais profundo em seu acentuado localismo. Como ressalta Marta Anico, “face às tendências de homogeneização cultural assiste-se freqüentemente, por parte do poder local, a um resgate do passado, (re)construído pelo presente mediante a patrimonialização dos elementos culturais locais”. As sociedades contemporâneas têm vivido uma amnésia coletiva, pois carecem de uma ligação afetiva às referências do passado, por conta do seu distanciamento e alheamento em relação ao passado178.

A argumentação de que as identidades modernas estão sendo “descentradas”, deslocadas ou fragmentadas traz consigo o debate o impacto da globalização sobre a questão da identidade. Têm-se não mais a experiência de identidade unificada e estável, mas de muitas identidades, no mais das vezes contraditórias, senão inconstantes. Ao colocar em evidência a multiplicidade de referentes para se pensar os dilemas postos pela “mundialização” da cultura, a desterritorialização, por ela ocasionada, provocou um intenso embate de identidades dentro de um cenário de inquietações políticas.

Neste sentido, o “processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais aberto, variável e problemático”. Esta idéia motivou Stuart Hall a propor que a identidade tornou-se uma “festa móvel”, na medida em que ela é formada e transformada continuamente em relação aos modos pelos quais somos representados e tratados nos sistemas culturais que nos circundam. Seu argumento é que precisamos historicizar e, conseqüentemente, desnaturalizar as identidades nacionais, na medida em que “são formadas e transformadas dentro de e em relação à representação”. Portanto, a nação “não é somente uma entidade política, mas algo que produz significados -

178 ANICO, Marta. PATRIMÓNIO, TURISMO E POLÍTICAS CULTURAIS AUTÁRQUICAS.

CONFLITUALIDADE OU CONVERGÊNCIA DE INTERESSES? In: IV CONGRESO VIRTUAL DE

ANTROPOLOGÍA Y ARQUEOLOGÍA NAyA. Octubre del 2004. Capturado no endereço eletrônico http://www.naya.org.ar/congreso2004/autores.htm.

um sistema de representação cultural”, isto é, “uma nação é uma comunidade

simbólica”179.

De todas as identidades coletivas partilhadas, a identidade nacional é talvez a mais importante e inclusiva, pois, ainda que outros tipos de identidade coletiva - de classe, de gênero, de religião etc. - possam influenciar sua direção, raramente conseguem debilitar a identidade nacional180.

Ana Pratesi chama-nos a atenção de que, ao nível de nação, memória e história estão ligadas a construção de identidade nacional e que nela se integram continuidades temporais e, fundamentalmente, as fraturas que transformam as práticas sociais e as consciências coletivas. Essa história construtora de identidade é concebida por um sujeito que a realiza desde uma posição,

“(...) integrando el pasado a un presente que se prolonga hacia el porvenir a través de proyectos utópicos transmitidos a través de retóricas que fundamentan y legitiman intereses, expectativas, exclusiones o incorporaciones de sectores sociales dentro de la totalidad político-jurídico-administrativa que se reconoce como nación” 181.

Como já ressaltara Renan, o mais importante na construção de um projeto nacional é o esquecimento ao invés da lembrança. Portanto, os usos do esquecimento fundamentam uma memória possível de acordo com o projeto político-ideológico. Em suas palavras, “A

essência de uma nação é que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum e também que tenham esquecido muitas coisas”182.

Mas como se constroem as identidades ao produzirem significados sobre a “nação” com a qual podemos nos identificar? A memória coletiva de uma nação contemporânea se desenvolve não apenas através da produção de textos históricos que investigam o passado,

179 HALL, Stuart. A Questão da Identidade Cultural. Campinas/SP: IFCH/UNICAMP, nº 18, dezembro de

1995 (Textos Didáticos), p. 11-12 e 38.

180 SMITH, Anthony D. Identidade Nacional. Lisboa: Gradiva, 1997 (Coleção Trajetos), p. 176.

181 PRATESI, Ana. ANTROPOLOGÍA, HISTORIA y MEMORIA SOCIAL. In: Actas del Primer Congreso

Sudamericano de Historia. Museo de Historia, Universidad Autónoma Gabriel René Moreno - Instituto

Panamericano de Historia y Geografía (IPGH), 2004. (ISBN: 99905-0-518-7).

182 RENAN, Ernest. Qu’est-ce qu’une nation? Capturado no endereço eletrônico :

mas também através de uma série de rituais que colocam o passado ao alcance da maior parte de uma população. Os significados da nação encontram-se contidos nas histórias e imagens que são construídas sobre a nação, bem como nas memórias que conectam seu presente com seu passado. Então, a identidade é uma construção que se narra, estabelecendo-se acontecimentos fundadores. Os livros escolares e os museus, assim como os rituais cívicos e os discursos políticos, foram durante muito tempo os dispositivos com que se formulou a identidade de cada nação e se consagrou sua retórica narrativa183.

Ulpiano Menezes destaca que

“A memória nacional é o caldo de cultura, por excelência, para a formulação e desenvolvimento da identidade nacional, das ideologias da cultura nacional e, portanto, para o conhecimento histórico desses fenômenos. Daí ser a questão da identidade nacional, em sua natureza problemática, o tema melhor estudado dentre todos os que se referem à memória social”184.

Mas não se pode esquecer que a memória nacional é constituída por diferentes, que freqüentemente se opõem, memórias que, a despeito de suas rivalidades, constroem denominadores comuns que superam, ao nível simbólico, as diferenças sociais e políticas para se criar uma comunidade imaginada. Assim, é necessário enfatizar a interação entre a memória oficial e outras memórias no âmbito da sociedade, ou seja, pensar a sociedade e a cultura como entidades globais, onde memórias distintas interagem. É interessante realçar, pois, que as tradições nacionais imprimem na memória um desenvolvimento desigual, pois o indivíduo muitas vezes não percebe o caráter fundamental que tem uma determinada manifestação social. Como ressalta Myriam S. dos Santos,

“As formas pelas quais os indivíduos constroem suas imagens e as relacionam à imagem da nação são múltiplas e diferenciadas. Os diversos grupos sociais estão constantemente negociando suas próprias memórias, histórias e tradições com o

183 BARRERA, José Carlos Bermejo. La historia, la memoria y el olvido. In: BARRERA, José Carlos

Bermejo & MONROY, Pedro Andrés Piedras. Genealogía de la História: Ensayos de Historia Teórica III. Madrid: Akal, 1999, p. 198-199.

184 MENESES, Ulpiano Bezerra de. A História, Cativa da Memória? Para um mapeamento da memória no

discurso oficial da nação. Como há interesses e grupos em conflito em uma sociedade, e cada qual tem sua própria imagem a defender, a história que é acatada e imortalizada nas instituições oficiais da memória é resultado de lutas pelo poder”185.

É necessário neste debate sobre o discurso nacional contemporâneo no Brasil trazer à baila a inclusão do tema da “cidadania” dos distintos sujeitos sociais no sentido do direito à narração, ou seja, à memória e ao esquecimento. Nesta proposta, a história deve ser escrita não como a história de uns silenciando a história dos outros, mas a história resultante de uma negociação, na medida em que “o elemento básico sobre o qual se constrói tanto o discurso da nação, quanto aquele sobre a nação (...) é a possessão de um patrimônio comum resultante da negociação em torno do esquecimento realizado ou cuja realização tenha sido decidida por um determinada comunidade”186. Isto se relaciona inexoravelmente aos problemas da construção de uma memória democrática, como é o caso do desafio da seleção, pois não é possível recordar todas as histórias de todos os setores para se chegar a uma perspectiva democrática da memória nacional. Contudo, há que se lutar contra o discurso nacional homogeneizador e autoritário, construindo “múltiplos cenários da memória nacional como um lugar, ‘onde diferentes concepções de nação disputam e negociam entre si’, ou seja, para onde convergem os múltiplos cenários da memória presentes na nação”187. Ora, aqui a história é tomada como produto da conversação, isto é, uma conversação entre os múltiplos atores ou enunciadores da memória nacional.

É neste sentido que a memória pode ser tratada como assunto público, na medida em que se trata a memória coletiva – “um público com memória” – no contexto de uma interação de uma diversidade de interesses e concepções de mundo. Como ressalta Jeffrey K. Olick,

185 SANTOS, Myriam Sepúlveda dos. Entre o Tronco e os Atabaques: A Representação do Negro nos Museus

Brasileiros. In: Colóquio Internacional O Projeto UNESCO no Brasil: uma volta crítica ao campo 50

anos depois. 12 a 14 de janeiro de 2004. Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

Capturado no endereço eletrônico em 2004: http://www.ceao.ufba.br/unesco/13paper-myrian.htm#_ftnref10.

186 ACHUGAR, Hugo. A nação entre o esquecimento e a memória: uma narrativa democrática da nação. In: Lugar Comum: Estudos de Mídia, Cultura e Democracia. Rio de Janeiro, NPCOM/UFRJ, nº 7,

janeiro/abril de 1999, pp. 165-181[p. 171-172].

“Para que haja uma memória coletiva, antes devem agrupar-se diferentes memórias; as histórias das sociedades tradicionais não constituem uma memória coletiva neste sentido, já que sempre estão ali e são as mesmas para todos. O problema que delineia a memória coletiva é, portanto, sinônimo do problema da identidade coletiva em uma sociedade complexa, e, ao menos nas sociedades democráticas, essa coletividade se dá na esfera pública, em que se juntam o privado e o oficial e adotam novas formas, sendo a norma a controvérsia”188.

Paralelamente à intencionalidade, característica marcante da fenomenologia da memória, também não podemos esquecer do caráter contraditório e da indefinição do destino da memória, pois, ao mesmo tempo, em que temos uma subvalorização do passado, no sentido de que a tradição em geral perde o caráter normativo para o futuro, experimenta- se um revigoramento da nostalgia, com a expansão dos lugares de memória e o incremento das atividades turísticas em museus e parques temáticos189.

Outra estratégia discursiva da narrativa da nação é aquilo que Hobsbawm e Ranger chamaram de “invenção das tradições”. Eles entendem por "tradição inventada" o conjunto de práticas normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Assim, toda tradição inventada utiliza, na medida do possível, a história como legitimadora das ações e como cimento da coesão grupal. Os historiadores, quaisquer que sejam seus objetivos, estão envolvidos neste processo, uma vez que eles contribuem, conscientemente ou não, para a criação, demolição e reestruturação de imagens do passado que pertencem não só ao mundo da investigação especializada, mas também à esfera pública onde o homem atua como ser político. Eles devem estar atentos a esta dimensão de suas atividades. A propósito, as "tradições inventadas" são altamente aplicáveis no caso de uma inovação histórica comparativamente recente, a "nação" e seus fenômenos associados:

188 OLICK, Jeffrey K. Memoria colectiva y diferenciación cronológica. In: BUSTILLO, Josefina Cuesta (ed.). Ayer. Madrid: Marcial Pons/Asociación de Historia Contemporánea, n. 32, 1998 (número especial Memoria e

Historia), p. 139.

189 TEDESCO, João Carlos. Nas cercanias da memória: temporalidade, experiência e narração. Passo

o nacionalismo, o Estado nacional, os símbolos nacionais, as interpretações históricas, etc. Todos estes elementos baseiam-se em exercícios de engenharia social muitas vezes deliberados e quase sempre inovadores. Vale lembrar que a história "que se tornou parte do cabedal de conhecimento ou ideologia da nação, Estado ou movimento não corresponde ao que foi realmente conservado na memória popular, mas àquilo que foi selecionado, escrito, descrito, popularizado e institucionalizado por quem estava encarregado de fazê-lo"190. Dentro da parafernália montada pelas nações modernas, pode-se observar um papel importante das tradições inventadas na vida dos cidadãos, incluindo desde as formas sistemáticas de socialização como o aparelho escolar até a veiculação de tais elementos através dos "media". Hobsbawm considera que o objetivo e a característica das "tradições", inclusive as inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição191.

Dialogando com Hobsbawm, Celso Castro propõe que, ao invés de “invenção das

tradições”, talvez fosse mais adequado falar em “tradição da invenção”, na medida em que

os “elementos simbólicos são permanentemente reinventados e atualizados em diferentes contextos históricos”. Mas, ao mesmo tempo, “existe o esforço cultural de ‘cristalizá-los’, tornando-os reconhecíveis para os indivíduos. Essa dialética de invenção e convenção é um processo sempre inacabado”192.

Inclusive, Peter Burke sugere, ao invés de “invenção”, a idéia de “reconstrução” das tradições, na medida em que a liberdade, a criatividade e a invenção têm limites, sendo moldadas por contingências culturais, sociais e materiais. Ao enfatizar a criatividade humana, especialmente a criatividade coletiva, a vontade das pessoas de modificar tanto seus entornos quanto suas identidades, imaginando-os de novas formas, a idéia de “reconstrução” evidencia que o mundo cultural pode ser considerado um processo de criação contínua, ou recriação constante193.

Então, o importante é realçar que a tradição pode ser pensada como um espaço vital da cultura por enfatizar que ela tem pouco a ver com a mera persistência das velhas formas,

190 HOBSBAWM, Eric & RANGER, Terence (orgs.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e

Terra, 1984, p. 9 e 21-22.

191 Idem, p. 10.

192 CASTRO, Celso. A Invenção do Exército. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002, p. 11 (Coleção

Descobrindo o Brasil).

193 BURKE, Peter. Bricolagem de tradições. In: Folha de São Paulo. Mais! São Paulo, 18 de março de 2001,

mas está relacionada às formas de associação e articulação dos elementos que devem ser incorporados ou não a ela. Isto porque as culturas e identidades nacionais não são de fato

unificadas, pois se deve pensá-las “como constitutivas de um dispositivo discursivo que

representa a diferença como unidade ou identidade”. Contudo, as culturas nacionais “são entrecruzadas por divisões e diferenças internas profundas, e ‘unificadas’ apenas através do exercício de formas diferentes de poder cultural”194.

Alguns autores propõem que o processo de globalização em curso indica tanto a redução do poder do Estado-nação como o enfraquecimento da identidade nacional. Em seu lugar, emergem a sociedade e às identidades regionais e locais. A tendência à substituição do mito nacional por uma memória baseada na reivindicação patrimonial conduz à fragmentação da memória, onde cada região, cada localidade, cada grupo étnico ou racial reclama o seu direito à memória195.

Creio que é necessário matizar essa afirmação, em vista de que o caráter histórico e processual das identidades coletivas leva aos pesquisadores a perceberem que, na história do tempo presente, encontramos, por uma parte, processos de construção de identidades locais e regionais que persistem e se (re)inventam. Por outra parte, ele é estruturado por identidades nacionais que, mesmo na globalização, continuam a possuir relevância enquanto instâncias definidoras da cidadania.

Anthony D. Smith afirma que a nova cultura global é universal e intemporal e, sendo eclética, é indiferente ao local e ao tempo. É fluída e informe. A cultura pós-moderna cosmopolita foi transportada para todo o mundo pelos meios de comunicação social e pelas telecomunicações. Uma de suas características é não ostentar história e os temas populares utilizados “são extraídos para a decoração superficial de uma cultura técnica orientada para o presente e para o futuro”. Contudo, as tradições necessitam de uma ressonância popular e isto só ocorrerá se houver um passado perceptível, étnico ou nacional. Deste modo, reitera- se o papel central da memória no forjar de identidades e culturas,

“que é a razão pela qual os temas, as ideias e os estilos básicos do cosmopolitismo pós-moderno são de origem popular ou nacional. (...) Não existe

194 HALL, Stuart. A Questão da Identidade Cultural, p. 48.

195 PRADO, Roberto Vila de. Las identidades colectivas entre la construcción y la desconstrucción. In: Revista de Humanidades y Ciencias Sociales. Santa Cruz de la Sierra : Universidad Autónoma Gabriel

qualquer ‘identidade em formação’ global; uma cultura global apenas poderia ser uma construção destituída de memória ou uma desintegração nos seus elementos nacionais constituintes. Mas uma cultura destituída de memória é uma contradição; qualquer tentativa para criar uma cultura global deste gênero acentuaria simplesmente a pluralidade de identidades e memórias populares, pilhadas de forma a constituir este bricolage gigante”196.

Partindo da premissa fundamental de que a natureza objetiva das relações de dominação-subordinação não pode ser separada das representações sociais não-materiais que delas são feitas, proponho realçar o papel da memória no estabelecimento de consensos e conflitos no âmbito do imaginário social e como a produção da memória intervém na construção da identidade social e individual de uma coletividade.

Antes de tudo, e posto que a identidade se baseia na memória, não se pode esquecer do caráter seletivo da memória, pois a memória ao reconstruir fatos passados não é fiel ao que aconteceu, mas sempre elabora a partir de experiências novas e distintas. A história da memória expõe, deste modo, a articulação de uma percepção particular do passado com o contexto social, através de um universo simbólico compartilhado. A memória é incluída no âmbito de determinada cultura constituída por práticas comuns e representações197.

As noções de construção, seleção, de registro, de significado, de criação e de consciência subjetiva fazem parte do relacionamento entre memória e identidade, revelando uma dimensão eminentemente dinâmica em que há um esforço não só de seleção, mas de reinterpretação sucessiva do passado. Isto implica que a imagem que o indivíduo tem de si é, ao mesmo tempo, produto de sua experiência social e das formas de mediação simbólica dessa experiência. Percebe-se cada vez mais que os elementos mediadores da memória sejam objetais, de consciência coletiva e individual, de políticas de lembrança e esquecimento servem de base para a cultura e a identidade198.

Então, como uma “chave da consciência”, Mnesmosine é um recurso essencial para se pensar a identidade, na medida em que, ao mesmo tempo, a memória nos molda e nós a

196 SMITH, Anthony D. Op. cit., p. 194-195.

197 CONFINO, Alon. Collective Memory and Cultural History : Problems of Method. The American Historical Review. Volume 102, Issue 5 (Dec., 1997), p. 1399.

198 TEDESCO, João Carlos. Nas cercanias da memória: temporalidade, experiência e narração. Passo

modelamos. É através da dialética entre memória e identidade em que se adaptam uma a outra, fecundando-se mutuamente, fundindo e refundindo que se produz uma trajetória de vida, uma história, um mito, um relato. Ao final, é claro, só resta o esquecimento, o que reitera o pressuposto de que memória e esquecimento são condições de possibilidades de um para o outro199.

De fato, memória e identidade são indissociáveis, pois, ao mesmo tempo, em que a memória participa da construção da identidade, ela também molda aquilo que deve ser lembrado pelo indivíduo, ao enfatizar certos aspectos particulares do passado em detrimento de outros. No campo das lutas sociais, é importante ressaltar que a memória é uma construção política, em virtude da sua capacidade em conformar comportamentos coletivos e identidades sociais. Daí o historiador estar imerso em semelhante tarefa política, pois cabe-nos gerir a memória social e enquanto trabalhador da memória devemos levar em conta que a memória não só constrói a identidade, mas perfila e determina o ser, seu modo de existência e as pautas de comportamento.

Entretanto, não se pode esquecer que a estreita relação entre memória coletiva e identidade implica também em confrontos na reconstrução do passado, tendo em vista a