Como a consciência que as sociedades têm de sua história, de sua identidade, não se exprime apenas através das narrativas sobre o passado, há outras dimensões que exprimem a mesma vivacidade – festas e comemorações -, constituindo-se em focos essenciais que contribuem para a constituição da consciência histórica, tão importante que as instituições se esforçam para controlá-los207. Deste modo, a história da memória é também a história de sua transmissão, tornando possível o estudo das comemorações, na medida em que constituem um laboratório de análise do duplo jogo entre presente-passado, entre história e memória, entre o atual e o rememorado. A comemoração é uma reescritura da história e não só remete a um fato, mas também a sua interpretação, no mais das vezes com um objetivo didático. Neste sentido, uma de suas funções é organizar a memória coletiva208.
Apesar da existência de comemorações ritualizadas, celebrações religiosas e festas fazerem parte da vida no mundo antigo e medieval, foi no final do século XVIII que emergiu a forma moderna de comemoração. Nestas comemorações cívicas em honra dos “grandes homens” (ou dos “grandes acontecimentos”), temos uma liturgia de fundo
206 NORA, Pierre. La aventura de Les lieux de mémoire. In: BUSTILLO, Josefina Cuesta (ed.). Ayer. Madrid:
Marcial Pons/Asociación de Historia Contemporánea, n. 32, 1998 (número especial Memoria e Historia), p. 25.
207 FERRO, Marc. Festas e comemorações. In: A História Vigiada. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 54. 208 CUESTA, Josefina. Historia del presente. Madrid: Eudema, 1993, p. 62.
historicista, onde, influenciado pelas concepções evolucionistas da história, o futuro será o desenvolvimento das potencialidades do passado. Assim, o paradigma dos “grandes mortos” funcionaria como “farol” a sinalizar o devir histórico. Nas palavras de Fernando Catroga, “se a educação do presente devia ser sobredeterminada pela ideia de futuro, as novas necessidades de legitimação do poder, em sociedades que, por um lado, tendiam a isolar os indivíduos, mas, por outro, procuravam instituí-los como cidadãos, exigiam o seu enraizamento no passado modelar, pois, como o próprio momento revolucionário por excelência (a Revolução Francesa) havia compreendido, a mobilização da memória dos mortos era decisiva para a solidificação dos elos sociais entre os vivos”. Assim, o poder político, principalmente a partir de meados do século XIX, procurou ritualizar a história, na medida em que os Estados-Nação “apoiaram o desenvolvimento de uma religiosidade cívica que teve nas comemorações um dos seus ritos essenciais que funcionavam como um complemento de um sucedâneo das religiões tradicionais”209.
Para este historiador português, as comemorações possuem, ao mesmo tempo, um certo conteúdo nostálgico e regressivo, mas também o passado aparece como “arquétipo” ao presente e ao futuro, “pelo que, embora o rito insinue uma concepção repetitiva e cíclica, o seu significado último é sobredeterminado pela crença na irreversibilidade do tempo”. Ao aproximar as comemorações e a escrita historicista da história, este autor assevera que elas são práticas de re-presentação e “põem em cena uma previsão ao contrário que procura confirmar, no passado, a direcção do porvir”210.
A comemoração de um evento fundador para a nação tem um papel importante para explicar a sede de História atualmente existente, na medida em que a História relaciona-se à possibilidade de se preencher uma lacuna que se abriu entre o passado e o futuro. O presente interpõe questões que não podemos responder e o futuro é incerto, apesar das expectativas nele depositadas. Proveniente do latim commemorare, que significa trazer à memória, fazer recordar, lembrar junto, comemoração pode ser definida “como uma acção de falar ou escrever sobre recordações bem como a reencenação formal do passado a que
209 CATROGA, Fernando. Ritualizações da História. In: TORGAL, Luís Reis, MENDES, José Amado e
CATROGA, Fernando. História da História em Portugal (Séculos XIX-XX). Da Historiografia à
memória Histórica. Lisboa: Temas e Debates, 1998, pp. 222-223.
geralmente nos referimos quando usamos a palavra”211. É sob ambos os aspectos que se demarca na memória coletiva aquilo que deve ser lembrado, daquilo que deve ser esquecido, através da comemoração. O que reitera que debater sobre memória, é discutir a disputa em torno do controle do passado. Portanto, uma questão de poder.
Todavia, na atualidade há uma crise destas formas tradicionais de se legitimar, reproduzir e representar a memória nacional. As comemorações servem para ritualizar a história, reinventando o passado em busca de uma reatualização da identidade nacional, no sentido da criação de uma solidariedade coletiva. História, memória e mitos são acionados para se definir o quê e quem faz parte de um todo chamado nação. A produção das comemorações serve, assim, para reforçar os mitos e escolher os que melhor funcionam no momento presente, visando a produzir solidariedade social e viabilizar projetos coletivos futuros212.
Assim, a comemoração se insere naquilo que pode ser chamado a “produção social
do passado”, o que a coloca como elemento central da construção da identidade e está
fundada na memória, envolvendo a coordenação das memórias individuais e coletivas, cujos resultados podem parecer consensuais, quando eles de fato são produtos de processos de intensa contestação, luta, e, em alguns casos, de aniquilação213.
Jöel Candau chama a atenção para o fato de que a memória das tragédias pertence ao registro de acontecimentos que contribuem para definir o campo do memorável, na medida em que é uma interpretação, uma leitura da história das tragédias. Deste modo, a identidade historicizada se constitui, em grande medida, apoiando-se sobre a memória das tragédias coletivas. E a força desta memória reside no fato de que os indivíduos e grupos sociais se sentem como guardiões dos acontecimentos traumáticos 214.
Entretanto, José Jobson Arruda alerta-nos de que, em alguns casos como o do V Centenário do “Descobrimento” do Brasil, a comemoração não visa lembrar, mas sim “reificar a permanência, comemora-se, em última instância, o próprio presente”. Segundo
211 FRENTRESS, James & WICKMAN, Chris. Op. cit.,, p. 8.
212 OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Nas comemorações, duas visões opostas. In: Jornal do Brasil. Caderno Idéias
Especial – De Cabral a Cardoso. Identidades. Capturado em 13/5/2000 no endereço eletrônico www.jb.com.br/destaques.500anos/id3ma1.html.
213 FERREIRA, Marieta de Moraes. História Oral, Comemorações e Ética. In: Projeto História. São Paulo,
(15), abril 1997, p. 157; GILLS, John R. – Introduction: Memory and Identity: the history of a relationship. ____ (dir.). Op. Cit., p. 5.
ele, o “reforço do tempo presente significa o esmaecimento da memória, da própria história e, assim, repõe-se, continuamente, uma nova história”215. Portanto, nas comemorações, o evento passado é reorganizado e assimilado ao presente, em sua busca de unificação do presente pelo evento pretérito, reduzindo o passado à sua validação pelo presente.
O contexto pós-moderno de uma “era das comemorações” produz uma revalorização das práticas e usos da memória que a transforma em uma indústria: a obsessão em relembrar o passado tem ocasionado uma verdadeira “inflação” de ocorrências comemorativas. Cada monumento particular pode tornar-se virtualmente inexpressivo dentro do oceano de movimentos comemorativos. Assim, a consciência histórica está em perigo de declínio, o que se deve a “trivialização” dos grandes eventos em virtude da superabundância de memoriais.
Não se percebe aqui um declínio da memória em si, mas da evocação do passado envolto de significado positivo, de uma busca de unidade nacional. Logo, a invenção pública de evocar e encorajar sentimentos de unidade comunitária e nacional, através de comemorações públicas do passado, tornou-se uma ocasião importante para o debate cívico, como uma disputa atual sobre as narrativas do passado.
Em busca de um sentido para a vida prática, as pessoas, grupos e povos procuram reinventar referenciais esquecidos ou silenciados. Essas memórias subterrâneas conduzem a uma politização da memória, que faz com que se obriguem aos poderes a negociarem a legitimidade destas memórias no conjunto da sociedade, especialmente no que se refere às comemorações e na proliferação de memórias coletivas na mídia. Temos, assim, uma história cada vez mais plural e em constante luta narrativa em torno da nação. Neste sentido, temos as contra-narrativas da nação que continuamente interpelam e rasuram suas fronteiras totalizadoras – tanto reais, quanto conceituais -, perturbando as manobras ideológicas que concebem uma identidade essencialista da nação216. É aqui que surgem questionamentos da memória nacional como unidade, propondo-a como diversidade. Como a memória é, por definição, uma relação passado-presente, sua ação no presente a torna tão importante do ponto de vista político. Numa era de identidades plurais, não se pode perder
215 ARRUDA, José Jobson de Andrade. Comemorar, Celebrar, Refletir: O Trágico V Centenário do
Descobrimento do Brasil. s/d (Texto Digitado), p. 15.
de vista a necessidade de se construir um processo democrático no qual indivíduos e grupos possam discutir, debater e negociar o passado e, através deste processo, definir o futuro217.
David Lowenthal adverte-nos que os objetos da memória são, ao mesmo tempo, passado e presente, na medida em que suas conotações coincidem com as funções modernas. O passado tangível é um fluído constante, que altera, envelhece, renova e sempre interage com o presente. Por outro lado, o autor reitera a dependência da memória coletiva com relação à transmissão entre gerações, em sua tentativa de estabelecer uma continuidade temporal e o compartilhamento de valores entre os membros de determinado grupo social. Para ele, os monumentos e as obras comemorativas embelezam o passado mediante a evocação do esplendor de alguma época ou acontecimento único. Comumente, isto só é possível quando o ato comemorativo pressupõe terminação, isto é, estas evocações são feitas depois do acontecimento, ainda que sua forma e características distintivas possam não parecer em absoluto aquilo que a lembrança queira evocar. O autor alerta que os monumentos comemorativos são muito mais que meros reflexos do que celebram, pois agregam na paisagem uma nova mescla de símbolos funerários e admonitórios, que são inserções animadas pelas novas tecnologias e uma maior consciência histórica. Assim, entre a “proliferação dos passados novos e dos alterados cada vez se torna mais difícil distinguir as relíquias que são originais”218.
Daí Lowenthal considerar que o passado se encontra de tal forma encenado e afastado do momento presente, que é, para as sociedades contemporâneas, “um país
estrangeiro”, consumido e vivido como uma imagem idealizada, romantizada e
neutralizada da história.
Não podemos esquecer também que a mudança pode engendrar a forma de simbiose entre presente e passado, ou de substituição de um pelo outro, onde o presente borra as barreiras da memória e toma posse do espaço simbólico. A reconstituição de identidades sociais e comunitárias se realiza a este preço. Mas, em certas ocasiões, a mudança fica soterrada pelo trabalho simbólico da memória e engendra o efeito de substituição ou de
restituição, principalmente no caso das comemorações, em que se situa na encruzilhada
217 GILLS, John R. – Introduction: Memory and Identity: the history of a relationship. ____ (ed.). Op. Cit., p.
20.
entre a institucionalização e lugar de memória, no duplo jogo entre o presente e o passado - atual e memorizado219.
Atualmente, a comemoração goza de elaborada metodologia para sua análise, aplicada nos estudos de Pierre Nora e G. Namer. Desde a publicação do monumental trabalho organizado pelo primeiro autor, tem se tornado um lugar comum na cultura contemporânea afirmar que vivemos numa “era das comemorações”. Isto pode ser percebido no mundo ocidental, tanto na França desde as comemorações do Bicentenário da Revolução Francesa (1989) e do Maio de 1968, quanto no Brasil, a partir das comemorações do centenário da Abolição da Escravidão, em 1988, e da Proclamação da República, em 1989, o Tricentenário de Zumbi dos Palmares (1995), os Centenários da Guerra de Canudos (1993-1997) e o Quinto Centenário do Brasil (2000).
Pierre Nora lembra-nos que, ao conceder a mesma atenção a comemoração de um grande acontecimento que o acontecimento em si, o trabalho do historiador consiste em por em relevo a construção de uma representação e a formação de um objeto histórico no tempo. Portanto, les lieux de mémoire privilegiam inevitavelmente a dimensão historiográfica220. Veremos que há uma intensa articulação entre as iniciativas comemorativas dos diversos movimentos sociais atuantes na região e mesmo das instituições governamentais com o debate historiográfico sobre o tema da Guerra de Canudos.
Por outro lado, este autor reafirma que os usos sociais da memória são mais diversos e variados que as lógicas identitárias. Assim, se exige para analisá-las o reconhecimento de que a memória nacional não é uma experiência definitiva, um repertório fechado, mais um campo de forças em perpétua elaboração e em constante remanejamento. Isto pode nos ajudar a compreender a crise do modelo clássico de comemoração, que supunha uma soberania impessoal e afirmativa da Nação, da República, do Estado. Este modelo repousa na busca da unidade de uma história, baseando-se sobre uma ordem e uma hierarquia. Portanto, uma memória nacional unitária. Segundo Nora, a sua liberação inaugurou uma
219 BUSTILLO, Josefina Cuesta. Memoria e historia. Un estado de la cuestión. In : BUSTILLO, Josefina
Cuesta (ed.). Ayer. Madrid: Marcial Pons/Asociación de Historia Contemporánea, n. 32, 1998 (número especial Memoria e Historia), p. 207.
220 NORA, Pierre. La aventura de Les lieux de mémoire. In: BUSTILLO, Josefina Cuesta (ed.). Ayer. Madrid:
Marcial Pons/Asociación de Historia Contemporánea, n. 32, 1998 (número especial Memoria e Historia), p. 22.
batalha de memórias, o que ocasionou a politização da comemoração. Este fato foi particularmente responsável pela proliferação das comemorações, transformando, de fato, o sistema por inteiro, laicizando-o e democratizando-o. Há uma dupla conseqüência e de sentido inverso: de um lado, o código e o significado da comemoração passou para grupos particulares, partidos, sindicatos e associações, com todos os conflitos internos e as contestações inevitáveis que eles pressupõem na organização da cerimônia em si; de outro, ao contrário, a manifestação nacional tornou-se menos a expressão militante da unidade de um grupo que a unidade conflituosa de todos os grupos no interior da democracia. O autor arremata dizendo que as comemorações contemporâneas tornaram-se doravante “lugares de memória” e os “lugares de memória” se saturaram de comemorações: a reaproximação, por fim, se impôs no mundo contemporâneo221.
Já G. Namer enfatiza a dimensão etnográfica ao propor que nas comemorações, expressões fortemente teatralizadas, vários elementos são possíveis de análise: o lugar, o cenário, a representação ou teatralização - com seus gestos, gritos e aplausos, o minuto de silêncio, a manifestação ou os símbolos -, o tempo e a reescritura da história que toda comemoração significa. A propósito, a comemoração torna-se mais real e mais intensa que o comemorado e o passado revivido torna-se mais atual do que o passado em si. Assim, a cerimônia é contada em um presente metafísico, tendo o fato como um culto re-presentado, vivido novamente, mas que também nele tenha existido um tempo e espaço privilegiados. Neste sentido, os rituais provocam efeitos não somente na ocasião em que se realizam, mas também possuem a capacidade de oferecer valor e sentido para aqueles que tomam parte do mesmo. Portanto, “numa comemoração há mais símbolos a decifrar que lembranças a
comemorar”222.
Contrariamente às interpretações que valorizam o papel da escrita e dos materiais simbólicos enquanto suportes da memória social, P. Connerton propõe que as imagens e o conhecimento do passado são transmitidos e conservados como memórias-hábito, através de cerimônias comemorativas e das práticas cotidianas. Sua tese é que a memória performativa encontra-se, de fato, mais difundida nas cerimônias comemorativas, que são
221 NORA, Pierre. L’ ére de la commémoration. In: NORA, Pierre (dir.). Les Lieux de Mémoire (Les Frances). v. 3. Paris: Gallimard, 1997, p. 4694 e 4688.
222 BUSTILLO, Josefina Cuesta. Memoria e historia. Un estado de la cuestión. In : BUSTILLO, Josefina
Cuesta (ed.). Op. cit., p. 209; TROVATTO, Cármen. A Tradição Euclidiana: Uma ponte entre a história e
altamente representacionais. E se ela é corporal, há um aspecto negligenciado nas análises da memória social: a memória social corporal.
Deste modo, o autor estabelece um fecundo questionamento da análise halbwachsiana de transmissão da memória coletiva, na medida em que seu argumento é que, se a memória social existe, é provável que a encontremos nas cerimônias comemorativas, mas estas provam sê-lo apenas por serem performativas. Então, ele procura “mostrar que existe uma inércia nas estruturas sociais que não é explicada de forma adequada por qualquer das ortodoxias correntes sobre o que é uma estrutura social”. A propósito, é necessário para a transmissão e conservação da memória dos grupos que aquilo que é recordado nas cerimônias comemorativas seja algo mais do que uma variante coletivamente organizada da memória pessoal e cognitiva, “pois, se as cerimônias devem funcionar para os que nelas participam, se devem ser persuasivas para eles, então esses participantes não devem ser apenas cognitivamente competentes para executarem a performance: devem estar a ela habituados, e esta habituação deve ser localizada (...) no substrato corporal da representação” 223.
Por outro lado, Connerton afirma que uma das dificuldades de se estudar as cerimônias comemorativas é a tendência a ignorar-se a importância existente nas ações que são explicitamente reencenações de ações anteriores ou prototípicas. É exatamente aqui que reside a diferença das cerimônias comemorativas, na medida em que se referem a pessoas e a acontecimentos prototípicos, quer se considere que estes têm uma existência histórica ou mítica. Assim, os ritos desse gênero possuem uma outra característica particular que é a
reencenação ritual, sendo que ela é fundamental para a configuração da memória
comunitária224.
Também Franklin R. Ankersmit elabora interessantes reflexões sobre o significado das comemorações no tempo atual, mostrando que a comemoração não somente mostra-nos como percebemos o passado, mas que é também um depósito, até aqui ignorado, de evidência sobre o passado em si. No que se refere às relações entre comemoração e escrita histórica, ele propõe que a segunda adiciona nosso conhecimento do passado, enquanto que a comemoração alarga o passado em si. Não existe modo mais apropriado para expressar
223 CONNERTON, Paul. Como as sociedades recordam. 2ª edição. Oeiras: Celta, 1999, p. 5 e 81. 224 Idem, p. 70-71.
esta diferença entre escrita histórica, de um lado, e comemoração, de outro, que afirmar que escrita histórica pode dar-nos um entendimento do passado, enquanto que comemoração quer dar-nos o passado em si.
O autor tenta explicar o dilúvio de comemorações desencadeado com os bicentenários da Revolução Americana e da Revolução Francesa, propondo que, em primeiro lugar, a comemoração nos provoca uma certa “trivialização” do passado. A escrita da história tradicional invariavelmente procura transcender a pessoa ou grupo orientando concepções do passado. Todavia, sempre se visa alguma verdade histórica eterna e intersubjetiva. Já a comemoração não objetiva a verdade e a profundidade histórica e o seu conteúdo é superficial. Em segundo lugar, ele afirma que a comemoração re-acentua o lugar do sujeito histórico. A escrita histórica tradicional sempre requer que o historiador se abstenha de seus escritos. Mas isto é diferente por completo nas comemorações: é que nós comemoramos alguma coisa e comemoramos o passado somente porque o que é comemorado significa algo para nós.
As comemorações exemplificam o que pode descrito como “a privatização do
passado”, segundo o argumento de F. Ankermist. O passado político e nacional está
“morto”, e tem sido agora reposto através de muitos relacionamentos individuais com o passado de indivíduos e de grupos de indivíduos. Isto têm implicações para a comemoração em si: as comemorações originadas ou estimuladas pelo centro político perderão mais e mais seu poder sobre as pessoas, enquanto a periferia será o lugar natural de todo desejo comemorativo. O que ocasiona uma vitória parcial do passado em si sobre a escrita histórica225.
Mas talvez o mais importante no contexto atual de numa sociedade democrática seja “publicizar” e não “privatizar” as memórias e identidades de todos os grupos sociais e minorias, para que cada um deles possa conhecer e respeitar as outras versões do passado,