4. Development
4.2 Sound and music design
O cientista político Robert Putnam é o grande responsável pela presente popularização da expressão capital social, sendo considerado por muitos o maior expoente da teoria do capital
social (Newton 1999: 3; Häkli & Minca 2009: 1). Retirando o conceito a Coleman, que aponta como sua principal fonte (Routledge & Amsberg 2003: 168), acentuará o seu carácter societal, adoptando uma visão macro-social e territorializada e ignorando a distinção bourdieusiana entre recursos e seus possuidores (Cannone 2009: 46). Alargando a herança de Coleman, a do capital social como quase sinónimo para a coesão grupal com efeitos „positivos‟, para lá dos grupos fechados e trabalhando sobre o empenhamento e participação cívicas (Boggs 2001), Putnam defende uma definição de capital social que quase o equivale a associativismo produtor de confiança generalizada, civismo e desenvolvimento sócio-económico (Cannone 2009: 46; Portes 2000a: 149).31 Assim, capital social em Putnam, continuando, tal como em Coleman, a ser uma propriedade dos colectivos humanos, refere-se à existência numa determinada sociedade de redes sociais („fechadas‟ ou „abertas‟, mas particularmente estas últimas) em conjunção com as normas de reciprocidade e de confiança que supostamente delas resultam. Putnam definiu capital social (Portes 2000a: 149; Newton 1999: 3) como o conjunto de propriedades da vida ou organização social (redes, confiança e normas), que podem aumentar a eficiência da sociedade ao permitirem que os seus participantes ajam conjuntamente de forma efectiva com vista à obtenção de objectivos partilhados.32
A mobilização e redefinição do conceito operadas por Putnam iniciaram-se com o seu trabalho sobre democracia e tradições cívicas em Itália (Putnam, Leonardi & Nanetti 1993), onde argumentou, nomeadamente para dar conta das diferenças de desenvolvimento entre o norte e o sul desse país, que o capital social (na sua definição) seria central para a existência de níveis elevados de desempenho das instituições políticas e económicas e para a manutenção da democracia. As diferenças regionais que constatou dever-se-iam, assim, a
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Em Putnam a indefinição do conceito de capital social enquanto, pura e simplesmente, participação cívica ou como “connections among individuals – social networks and the norms of reciprocity and trustworthiness that arise from them” (Magee 2008: 311), é permanente. Tal é patente quando nos diz: “Whereas physical capital refers to physical objects and human capital refers to the properties of individuals, social capital refers to connections among individuals – social networks and the norms of reciprocity and trustworthiness that arise from them. In that sense social capital is closely related to what some have called „civic virtue‟. The difference is that „social capital‟ calls attention to the fact that civic virtue is most powerful when embedded in a sense network of reciprocal social relations. A society of many virtuous but isolated individuals is not necessarily rich in social capital” (Putnam 2000: 19).
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Nas definições originais, capital social é: “features of social organizations, such as trust, norms and networks, that can improve the efficiency of society by facilitating coordinated actions” (Putnam, Leonardi & Nanetti 1993: 167); “features of social life – networks, norms and trust – that enable participants to act together more effectively to pursue shared objectives” (Putnam 1995: 664-665).
maiores níveis de capital social no norte italiano do que no sul (G. L. H. Svendsen & G. T. Svendsen 2004: 250 e ss.). Tal conceptualização veio a prolongar-se com o seu estudo sobre o que denominou de declínio do capital social nos Estados Unidos da América desde os anos 50 do século XX – o famoso “Bowling Alone” (Putnam 1995 & 2000, para o artigo e para o livro, respectivamente). Neste argumentou que se tinha verificado uma redução em todas as formas de relacionamento ou ligação social33 e que tal estaria a minar a participação cívica activa que uma forte democracia exigiria dos seus cidadãos.
Ao contrário de Coleman, que visualizava o declínio do capital social (na sua acepção de coesão social) como resultado quase exclusivo da desagregação comunitária (devido à erosão da família tradicional e da diminuição da força de organizações de enquadramento e controle social e moral, como as igrejas), Putnam apontou como principal razão para tal declínio o suposto individualismo crescente dos tempos de lazer devido aos consumos televisivos e utilização da internet (G. L. H. Svendsen & G. T. Svendsen 2004: 250), embora não deixe de perfilhar parte do conservadorismo do primeiro (Perret 2006: 306).
Tal como Coleman, Putnam demonstra uma preocupação não só com a existência ou não de capital social (numa sociedade em geral ou em comunidades específicas), mas também com a questão de saber qual o tipo de organização social que mais favoreceria a sua existência (ou seja, a participação cívica). Para tal introduz a distinção entre capital social “bonding” e “bridging” (Fischer 2005: 160). O primeiro refere-se a redes sociais fechadas e homogéneas (mais coesas), enquanto o segundo se refere a redes sociais abertas e socialmente heterogéneas (menos coesas). Ambos os tipos de capital social reforçar-se-iam mutuamente e ambos seriam necessários para a eficiência e democraticidade das sociedades.34
Desde a publicação de “Bowling Alone”, Putnam tem-se envolvido em investigação comparativa sobre o capital social de diferentes países (Putnam 2002), bem como em esforços vários com o objectivo político de aumentar o capital social na sociedade norte-americana (Putnam, Feldstein & Cohen 2003).
O seu trabalho, ao mesmo tempo que encontrado largas audiências, académicas e políticas, e sido objecto de vastos elogios, tem também sido alvo de críticas cerradas. Estas críticas centram-se em dois aspectos gerais (Portes 2000a: 150): o primeiro tem a ver com a
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Embora tal declínio não deva ser entendido como uma espécie de “fall from grace”, mas como uma “relatively recent reversal of social trends” (Fischer 2005: 155).
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Gunnar L. H. Svendsen (2006) aponta como, em contextos sociais concretos, existem sempre mesclas complexas entre capital social “bonding” e “bridging”, embora se possa analisar a prevalência de um ou de outro.
validade das suas conclusões empíricas sobre o suposto declínio da participação cívica; o segundo tem a ver com os aspectos teóricos e normativos do seu conceito de capital social.
Em relação ao primeiro aspecto, Arneil (2006), por exemplo, argumenta que Putnam tem tendencialmente uma visão idílica das comunidades passadas,35 passando em branco o facto de que eram atravessadas por fortes desigualdades, não só de classe, mas de género e étnicas, e que o presente não é de colapso da participação, mas antes de alteração das formas de participação, as quais são ignoradas ou desclassificadas por Putnam. Fischer (2005), por seu lado, argumenta que Putnam se concentra excessivamente nas formas organizacionais formais das redes sociais e presta pouca atenção a redes inter-pessoais informais, bem como negligencia o aparecimento de novas modalidades de mobilização, participação e organização – online ou não. G. L. H. Svendsen & G. T. Svendsen (2004: 254 e ss.), seguindo Portes (2000b), acusam a abordagem macro-histórica de Putnam de excessiva simplificação dos dados históricos, pelo seu foco unilateral nos efeitos positivos que derivam de uma reserva de capital social ao nível macro-social. Argumentam igualmente que essa simplificação é baseada numa subestimação geral do facto de que o capital social numa população não só está desigualmente distribuído, mas também varia em qualidade. Assim uma população pode conter formas de cooperação em rede quer socialmente benéficas quer destrutivas, ou seja, capital social „positivo‟ ou „negativo‟.
As críticas mais relevantes são aquelas que se focam nos aspectos propriamente conceptuais da expressão. Fischer (2005: 157), referindo-se à acepção putnamiana, considera que a utilização da expressão capital social é mesmo desnecessária, já que “clearer and simpler terms – such as membership, family, sociability and trust – serve perfectly well”.36 De facto, a crítica central de que Putnam é objecto diz respeito à confusão entre dimensões que pode ser encontrada no seu conceito de capital social, já que nele estão emaranhadas, de
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De resto, tal como Coleman (Field 2008: 30). 36
Fischer (2005: 157) continua, afirmando que “Putnam implicitly recognizes the problem when he switches to other metaphors to describe types of „social capital‟: „bridging‟ and „bonding‟. These are both terms much more suited to modify the metaphor of „ties‟ than that of capital. „Social capitalism‟ has expanded in all directions like a swamp in wet weather. Glaeser et al. (2000, p. 3), for example write that „individual social capital (is) a person‟s social characteristics – including social skills, charisma, and the size of his Rolodex – which enables him to reap market and non-market returns from interactions with others‟. This is not much different from saying that social capital is everything psychological and sociological about a person”.
forma pouco clara e vaga,37 as normas,38 a confiança, as redes (particularmente as associações voluntárias) e a eficiência de funcionamento da sociedade (Newton 1999: 3¸ Lin & Erickson 2008b: 1). Portes (2000a: 150) vai ainda mais longe e afirma que o capital social na definição de Putnam, em que é medido pelo “nível de envolvimento associativo e de comportamento participativo” bem como pela confiança nas autoridades políticas e apresentado como panaceia para todos os males sociais, é uma noção logicamente circular e tautológica, que confunde causa e efeito e que apenas acaba por dizer que as sociedades com virtude cívica (civilidade pública) são as melhores (Portes 2000a: 151).
Esta visão putnamiana tem dimensões normativas muito explícitas (Häkli & Minca 2009: 1) e, em grande medida, limita-se a tentar explicar os supostos determinantes culturais dos fenómenos políticos e governamentais39 (daí o acento na confiança; Häkli 2009: 23). Cai, aliás, numa noção reificada das geografias da confiança e participação cívica:40 Norte de Itália versus Sul (ou mesmo Europa do Norte versus Europa do Sul), América do Norte versus „América Latina‟, „países católicos‟ versus „protestantes‟, etc. (Häkli 2009: 29).41
Vários autores (Fine 2000; McLean, Schultz & Steger 2002; Cannone 2009) argumentam até que as ideias putnamianas têm servido para legitimar orientações políticas neo-liberais contemporâneas, de desmantelamento do estado providência e diminuição da despesa pública (veja-se a sua adopção pelo Banco Mundial – Grootaert & Bastelaer 2002). A sua rápida aceitação por grande parte da economia académica e institucional, já que o conceito de capital social providenciava uma maneira aparentemente sistemática de tratar o que de „irracional‟ e informal escapava às explicações racionalistas do funcionamento dos
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Embora se pressuponham mutuamente. Autores como Bekkers et al. (2008: 205) argumentam, a contrario de Putnam, que “Membership in voluntary associations tells us very little about the degree of solidarity and cohesion in networks”.
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Embora Putnam tenha vindo a abandonar as normas e a identificar capital social com as redes, dando mais relevo hoje à reciprocidade do que à confiança (Schuller, Baron & Field 2000: 11).
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Ainda que tenha vindo a atenuar o determinismo cultural da sua proposta teórica, salientando como as políticas públicas são um factor central de mudança social (na criação ou destruição de redes sociais), globalmente o pendor culturalista da perspectiva de Putnam (versus, nomeadamente uma visão mais institucionalista) continue marcado (G.L.H. Svendsen & G.T. Svendsen 2004; Abu-El-Haj 1999ª & 1999b). 40
Ver também, associando elevado capital social putnamiano a condições sociais, políticas e económicas: Curtis, Baer & Grabb (2001) a países mais ricos, protestante ou de vincada pluralidade religiosa, com mais longa ou forte tradição de democracia parlamentar, com menos corrupção ou cultura pouco familialista; Costa & Kahn (2001) a países etnicamente homogéneos; Kaasa & Parts (2008) a países do ocidente europeu mais do que do leste; Gesthuizen, Meer & Scheepers (2008) a países de menor desigualdade de rendimentos.
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Sem ter noção que o capital social (na acepção de redes sociais, pelo menos), quando desigualmente distribuído internamente a um contexto regional, pode inclusive potenciar conflitos sociais (Narotzky 2006).
mercados e seus agentes (Cannone 2009: 37), deve-se igualmente ao facto de que quer Coleman quer Putnam empregam uma linguagem conceptual e abordagens metodológicas que não implicam uma reconsideração profunda da ortodoxia económica, antes complementando as suas assumpções ideológicas com uma suposta caução sociológica (Cannone 2009: 39 n. 1). Igualmente, tais teorizações têm sido apropriadas por movimentos políticos e religiosos conservadores para uma defesa de valores tradicionais (da família, da mulher, das comunidades religiosas) enquanto cura para os males sociais (ver, como exemplo, Smidt 2003)
Além das implicações político-ideológicas,42 o desenvolvimento do conceito de capital social por Putnam tornou mais vaga ainda a definição de Coleman (Lin & Erickson 2008b: 3), levando a medidas tão diversas, mas tantas vezes emaranhadas, quanto: participação em associações voluntárias; múltiplos tipos de rede sociais e em diversas dimensões; acessos a recursos disponíveis em redes; ligações sociais tipificadas (pais-filhos; pais-professores, amigos ou pares e a sua influência, etc.); frequência das interacções; relações de apoio; confiança interpessoal ou geral (muitas vezes apenas nas instituições de poder); coesão e integração social, geral ou comunitária; relações e critérios de reciprocidade ou de justiça nas trocas; comportamentos cooperativos; reputação ou status; participação eleitoral; leitura de jornais; etc.
O capital social tornou-se, assim, numa espécie de sinónimo para tudo o que não pode ser definido (bem ou mal) como um comportamento racional levado a cabo por agentes económicos utilitaristas (Fine 2000: 40-52). Tornou-se, enfim, sinónimo de „social‟, 43 numa acepção reducionista dessa realidade, que a coloca, como fenómeno acantonado, à margem da economia, que seria, assim, não-social (Fine 2000: 25-39).
1.3.3. Desenvolvimentos
Muitas têm sido as reformulações conceptuais no seguimento dos trabalhos de Bourdieu, Coleman e Putnam.44 Algumas destas decorrem preponderantemente do trabalho de um desses autores seminais. Outras balanceiam uma mescla entre alguns deles. De uma forma
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Portes (2000ª: 152) chega mesmo a dizer que “sair em defesa do comunitarismo é legítimo enquanto posição política; mas não constitui boa ciência social”.
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Veja-se a definição dada pelo Banco Mundial (citada em Claridge 2004): “Social capital refers to the institutions, relationships, and norms that shape the quality and quantity of a society's social interactions. Social capital is not just the sum of the institutions which underpin a society – it is the glue that holds them together” (The World Bank 1999)”.
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geral são os contributos de Putnam e de Coleman aqueles que mais impacto tiveram (Field 2008: 22), quedando-se as referências a Bourdieu por um papel lateral ou mesmo de mera evocação de auctoritas científica, quantas vezes para caucionar reflexões de sentido contrário à sua (Fine 2000: 105).
Tal como encontramos antecedentes para o uso da expressão capital social, encontramos igualmente autores coetâneos de Coleman, até mesmo ligeiramente anteriores, a utilizarem a expressão em sentidos metafóricos que remetem consideravelmente para as dimensões de coesão social que defendeu. É o caso de Schlicht (1984), que, apesar de não avançar com uma definição formal, apresenta já a ideia de que os actores retiram recursos das redes sociais a que pertencem (Frank & Yasumoto 1998: 645), enfatizando o valor de ordens organizacional e morais enquanto formas de capital social.45 Na mesma altura, Useem & Karabel (1986), no seu estudo sobre as carreiras profissionais de directores de empresas, chamavam atenção para os efeitos positivos do que denominaram de capital social, definido no seu estudo como tendo origem em famílias de „classe alta‟ e remetendo para as dimensões não económicas desses contextos familiares (de socialização, valores, coesão e redes de inter-conhecimento).
Já no seguimento de Coleman, Boxman, P. M. De Graaf & Flap (1991), no trabalho em que procuraram demonstrar que o nível salarial dos gestores holandeses dependia de factores não estritamente qualificacionais e profissionais (ver também N. D. De Graaf & Flap 1988), chamaram atenção para os efeitos do capital social, definido como “the number of people who can be expected to provide support and the resources those people have at their disposal” (Boxman, P. M. De Graaf & Flap 1991: 52).46 Também Loury retomou a ideia, definindo-a, desta feita, como “naturally occurring social relationships among persons which promote or assist the acquisition of skills and traits valued in the marketplace” e articulando-a, mais uma vez, com os processos de manutenção da desigualdade social (Loury 1992: 100). Schiff, na linguagem economicista que é a sua, definiu capital social como “the set of elements of the social structure that affects relations among people and are inputs or arguments of the production and/or utility function” (Schiff 1992: 160/161). Baker (1990:619)
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Nas suas palavras (Schlicht 1984: 62): “It is obviously very important for the efficiency of any economic system that people obey the rules even if unobserved since this saves control costs, and their desire to appear to themselves as law-abiding citizens is a very important economic asset and can be considered as a kind of social capital – one might speak of „moral capital‟ just in the same sense as von Weizsacker speaks of the „organizational capital‟ of a society as embodying the value of the organizational structures present within an economy.”
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acentuou igualmente a obtenção de recursos através das redes sociais, definindo capital social como um “resource that actors derive from specific social structures and then use to pursue their interests; it is created by changes in the relationship among actors”. Posteriormente, Belliveau, O'Reilly & Wade (1996: 1572), acentuando a homogeneidade social das redes onde o capital social emerge,47 definiram-no como “an individual's personal network and elite institutional affiliations”. Friedman & Krackhardt (1997: 319) definiram-no, por sua vez, como “the standing one has in a social organization and the concurrent ability to draw on that standing to influence actions of others in the organization”.
Todas estas definições de capital social, que não esgotam, de resto, o rastrear exaustivo de todas as utilizações da expressão, ainda que remetendo sempre para os contextos relacionais dos agentes sociais, prosseguiram com a amálgama de múltiplas dimensões que encontrávamos já em Coleman. Após o trabalho de Putnam, depois da primeira metade dos anos 90 do século passado, tal confusão e indefinição conceptual aumentará ainda mais.
Assim, Brehm & Rahn (1997: 999) ainda definem capital social, mesmo acentuando as dimensões de acção colectiva, por relação às redes sociais, como “'the web of cooperative relationships between citizens that facilitate resolution of collective action problems”. Knoke (1999: 18) também o faz, ainda que acentue dimensões de redes organizacionais, como “'the process by which social actors create and mobilize their network connections within and between organizations to gain access to other social actors' resources'”.
Já Fukuyama, por sua vez e numa acepção claramente mais putnamiana, centra-se particularmente em normas e valores (Adam & Roncevic 2003), praticamente identificando o capital social com a confiança que permitiria a cooperação, definindo-o como “the ability of people to work together for common purposes in groups and organizations” (Fukuyama 1995: 10).48 Tal é igualmente a estratégia conceptual de Inglehart (1997: 188), que define capital social como uma cultura de “trust and tolerance, in which extensive networks of voluntary associations emerge” (ver também Inglehart 2003).
As dimensões de confiança e cooperação estão, de resto presentes numa miríade de outros autores. Thomas (1996: 11), por exemplo, equaciona capital social como “those voluntary means and processes developed within civil society which promote development for the collective whole”. Tal é igualmente o caso de Woolcock (1998: 153), que define capital social como “the information, trust, and norms of reciprocity inhering in one's social
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Nas suas palavras (Belliveau, O'Reilly & Wade 1996: 1572): “social capital can be viewed as based on social similarity, the shared affiliations or activities that indicate how one knows someone”.
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networks'”. Woolcock, aliás, desenvolveria a distinção putnamiana entre capital social „bonding‟ e „bridging‟, aos quais acrescenta o „linking‟ (referente a ligações, distantes e fracas, entre estranhos por via das suas participações em redes; Field 2008: 46). Famoso pelo seu trabalho para o Banco Mundial, Woolcock defendeu que, sem os dois últimos tipos de capital social, as sociedades não „avançam‟ (Woolcock 2001).
Ao mesmo tempo que tais definições se expandiam, encontramos autores como Nahapiet & Ghoshal que aderem a uma posição mais próxima de Bourdieu, quando definem capital social como “the sum of the actual and potential resources embedded within, available through, and derived from the network of relationships possessed by an individual or social unit. Social capital thus comprises both the network and the assets that may be mobilized through that network” (Nahapiet & Ghoshal 1998: 243).
A reavaliação levada a cabo por Foley & Edwards (1997 & 1999) vai no sentido de defender o que apelidam de conceptualizações contextuais de capital social, como acesso a recursos em redes sociais, e que os trabalhos sobre a confiança social generalizada são irrelevantes para esta discussão.
Afastando-se da herança putnamiana e combinando Bourdieu49 com Coleman em torno de uma análise das redes e dos recursos (que há muito desenvolviam), pontuam quatro autores marcantes: Ronald Burt, Nan Lin, Mark Granovetter e Alejandro Portes.
Quer Burt, quer Lin, que de resto desenvolvem trabalho conjunto (ver, por exemplo, Lin, Cook & Burt 2008), privilegiaram diferentes perspectivas do que Cannone (2009: 46) apelida de “network based utilitarian approach”.
Burt, célebre proponente da teoria dos buracos estruturais, começa por definir capital social como “friends, colleagues, and more general contacts through whom you receive opportunities to use your financial and human capital” (Burt 1992: 9). Mas o seu acento não se situa tanto na questão do acesso a redes sociais e aos seus recursos, privilegiando acima de tudo a descrição e funcionamento da estrutura social das redes enquanto capital social. Esta