5. User testing
5.3 Observational studies
5.3.5 Observational studies: Conclusions and re ections
Se o capital social, enquanto conjunto possível ou efectivo de recursos ligados à participação em redes sociais duradouras de conhecimento e reconhecimento, é, de facto, um capital de base relacional,88 diz preponderantemente respeito a relações sociais que não se regem pelas regras de troca no campo das relações explicitamente económicas. É isso que quer dizer “relações de conhecimento e reconhecimento” (concomitantemente materiais e simbólicas, instrumentais e expressivas), construtoras da identidade solidária de um grupo. Para que possamos falar de um capital com autonomia face ao capital económico, as transferências e trocas de recursos que nele ocorrem não podem ser levadas a cabo sob a égide da pura instrumentalidade monetarizada. Se assim fosse tratar-se-ia de apenas de comércio e não de um sistema de favorecimento, por vezes tão vincado que pode suspender a retribuição, mesmo a adiada e difusa, transformando-a em puro favor.
As lógicas preponderantes do capital social são as da dádiva, não as da dívida.89 Nas primeiras a temporalidade da prática é eliminada, ou seja, a sincronização da troca não se verifica. É este mecanismo que permite a desconsideração (“misrecognition”) da troca enquanto tal – o lapso temporal (Bourdieu 1997c: 122 e ss.), maxime o adiamento sine die, permite transmutar aquilo que seria uma dívida, em termos mercantis, em gratidão (Bourdieu 1986b: 54 col. 1), ou seja reconhecimento solidário, que pode dar origem, além de demonstrações de respeito, a novas transferências de recursos (a contra-dádiva, entendida não como pagamento, mas como demonstração de reconhecimento). Como diz Caillé (2006: 14):
“… ce qui interdit aux théorisations issues du modèle économique (et donc utilitariste) de bien comprendre ce point, c‟est qu‟il y a généralement un „retour‟ des pratiques ou des représentations anti-utilitaristes. Le don appelle en effet le contre-don, et ce dernier est souvent au rendez-vous. D‟où la tentation irrésistible chez les esprits façonnés par le modèle économique et l‟axiomatique de l‟intérêt d‟en déduire que le don n‟a été fait qu‟en vue du contre-don et que l‟utilitaire constitue donc la vérité cachée de l‟anti-utilitarisme”.
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Capital relacional podia, aliás, ser uma boa opção de substituição da problemática expressão “capital social”. Boltanski (1973: 10) fala, antes da definição de Bourdieu em 1980, de um “capital de relações”. Lima (1999: 357) fala, a par dos capitais económico e simbólico, de “capital relacional”. Substituir o qualificativo “social” pelo de “relacional” poderia, além de afastar confusões com outras definições, nomeadamente de Coleman e Putnam, contribuir para desmistificar a ideia de que o capital económico não é uma relação social (ver Fine 2000, sobre o problema de colocar em paralelo social e económico como qualificativo para formas de capital, ou sobre a questão geral de separar a economia do social).
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Não quer isto dizer, nomeadamente para redes de menor solidariedade (ou seja, menor nível de conhecimento e reconhecimento grupal) ou para redes onde o volume de recursos disponíveis seja globalmente menor, que não possam existir misturas variáveis das duas lógicas. Trata-se de uma questão de grau.
É certo que autores como Portes (2000a: 138) falam das motivações altruístas e instrumentais dos dadores (que, no seu pensamento, são a fonte dos benefícios do capital social), persistindo na confusão, de raiz colemaniana e putnamiana, entre capital social e características de colectivos, confundindo eventuais motivações com confiança generalizada e obediência a regras – os exemplos que apresenta não respeitam a relações pessoalizadas, mas sim a modalidades de solidariedade universal (para com estranhos ou o colectivo generalizado), ou mesmo à „caridade‟ abstracta, e à troca contabilística sustentada por forte coerção normativa grupal (Portes 2000a: 140). Tal confusão deve-se à sua persistência em incluir dimensões colemanianas na análise, nomeadamente pensando o capital social como função de controlo social nos laços comunitários (Portes 2000a: 140-142).90
As outras duas funções que apresenta para o capital social são o apoio familiar e os benefícios extraídos através de redes exteriores à família, defendendo mesmo que a “função que se atribui de forma mais comum ao capital social é, sem dúvida, a que este desempenha enquanto fonte de benefícios mediados por redes exteriores à família mais próxima” (Portes 2000a: 143). Considerando, aliás, que “Esta definição é a que mais se aproxima da de Bourdieu (1979; 1980), para quem o apoio familiar ao desenvolvimento da criança é uma fonte de capital cultural, ao passo que o capital social se refere a recursos a que se acede mediante pertença a redes” (Portes 2000a: 143).
Não podemos senão discordar vincadamente deste lapsus calami de Portes. Em relação ao segundo aspecto, em que refere o apoio familiar dando como exemplo o apoio familiar ao desenvolvimento da criança, não podemos a este último restringir o primeiro. A educação e criação de crianças não podem ser incluídas na definição de apoio familiar dado pelos seus progenitores ou in loco parentis. A dependência das crianças em relação aos adultos, enquanto não têm autonomia, representa um estádio da sua socialização (e sim, também uma fonte de capital cultural), ou seja, da sua constituição enquanto agente específico.91 Mas as crianças não permanecem crianças. A problemática do apoio familiar
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Não que os dois processos não se possam articular, mas que não devem ser analiticamente confundidos. Mais uma vez se verifica aqui confusão entre capital social e redes sociais (“o controlo social e os laços sociais comunitários”; Portes 2000a
: 142), afirmando-se que redes de fraco controlo social são redes de fraco capital social. Foi no seguimento de uma linha de raciocínio como esta que Coleman veio a desenvolver um discurso moralista conservador sobre o enfraquecimento das instituições familiares e comunitárias religiosas. Putnam generalizou tal tese quase até ao nível de um enfraquecimento da „sociedade‟.
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É claro que a autonomia é progressiva. Quer isto dizer que, nos processos de transição para a vida adulta, muitos das práticas dos progenitores em relação à descendência são também elas, progressivamente, de apoio.
coloca-se preponderantemente entre agentes individuais relativamente autónomos, 92 pertencentes a um mesmo grupo de parentesco.
Neste sentido não é certo que se possa afirmar sobre a conceptualização de Bourdieu em torno do capital social que se destinava preponderantemente às redes exteriores à família. Não só no seu artigo inicial (Bourdieu1980a) grande parte dos exemplos que explora são familiares, como veio a reiterar a centralidade da família nos processos de capital social (Bourdieu 1984ª: 56). Field (2008: 20), nas críticas que faz a Bourdieu, é mesmo da opinião de que dá excessiva ênfase ao capital social baseado no parentesco.
Não quer isto dizer, obviamente, que o capital social possa ser reduzido às solidariedades familiares. Mas quer isto dizer que é nessas solidariedades que, em maior força, encontraremos as lógicas de gratuitidade que consubstanciam a transferência de recursos sem lugar a pagamento. De facto, mesmo a terminologia da troca utilitarista, ainda que podendo descrever muitas das formas de interacção, mesmo entre pessoas próximas (como amigos), não descreve bem relacionamentos familiares e de parentesco (Hofferth, Boisjoly & G. J. Duncan 1999), que se orientam mais, particularmente na ligação entre progenitores e sua descendência, segundo o “fundamental axiom which I call the axiom of prescriptive altruism or, more briefly, of amity” (Fortes 1969: 251). É claro que, mesmo em redes de gratuitidade tendencial, o nível dessa gratuitidade dependerá dos recursos disponíveis por parte dos dadores, ou seja, de quão estão dispostos ou são capazes de sacrificar dos recursos próprios em prol de outrem.
Quer isto dizer que o capital social será mais forte (ou, pura e simplesmente, mais efectivo) em relações de “laços fortes” do que de “laços fracos”, já que estas últimas, podendo também estar envolvidas em processos de transferência de recursos ou de oportunidades para a sua obtenção (por exemplo através de informação ou recomendação), serão mais passíveis de retorno obrigatório (ainda que em espécie não equivalente ou directamente fungível) ou mesmo pagamento (ainda que não agendado, suspenso até cobrança eventual, mas não anulado).
A temática do capital social não deve ser, assim, confundida com a das redes de interesses que, mesmo na ilegalidade ou clandestinidade, funcionam não só segundo uma lógica organizacional de interdependência impessoal, mas também segundo o princípio Assim, em fases transitórias, muitas das estratégias familiares implicam uma mescla complexa entre práticas de socialização e práticas de apoio.
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Sendo certo que os critérios da autonomia (residencial, conjugal, sexual, financeira, jurídica, etc.) são historicamente variáveis.
explícito, que assegura aliás a mobilização para a acção dos seus membros, da retribuição relativamente proporcional.
Ao ser mais vincado nas relações de laços fortes, o capital social está mais presente, portanto, nas redes de tipo “bonding” e não nas de tipo “bridging”, emulando as primeiras, quase que poderíamos dizer, situações de solidariedade mecânica e as segundas de solidariedade orgânica (para utilizar as clássicas expressões de Durkheim).93 Acentuando esta força dos laços fortes de tipo familiar, Moerbeek & Flap (2008), ainda que não rejeitando completamente os efeitos dos laços fracos, demonstraram que o prestígio e recursos herdados (do pai, nomeadamente) são mais importante que, por exemplo, o percurso escolar para explicar o volume e qualidade do capital social que se possui. Também Edwards (2004) acentua que o trabalho de Bourdieu se foca nas relações familiares, vendo a família como o meio através dos quais, por via em grande medida dos efeitos que designa como capital social, um vasto espectro de recursos e capitais são transmitidos através das gerações (ver também Allatt 1993). De facto, as redes familiares, ao serem de tipo “bonding”, providenciam (Miyata, Ikeda & Kobayashi 2008: 232) “the kind of assistance and support that comes from affection, willingness to help, and considerable knowledge of one another”.
Tal não nos deve, contudo ter uma visão idílica dos relacionamentos familiares e da família. Esta é atravessada por múltiplas formas de violência (Dias 2004), como estruturada por marcadas desigualdades de género (Connel 1996; Skeggs 1997; Bourdieu 1999). A família e o parentesco, ao serem, em grande parte, processos institucionalizados de forte partilha material e simbólica centrais na reprodução social (mesmo que internamente desiguais), permitem que os seus membros possam eventualmente aceder ou usufruir de parte significativa dos recursos possuídos em rede. Para mais, reforçando a comunalidade material e simbólica, bem como a ocultação do carácter material das trocas materiais (não utilitárias) e sua transmutação em identidade e partilha simbólicas, deparamo-nos com a preponderância da emocionalidade nas relações familiares contemporâneas.94 Este construir e percepcionar das relações familiares como sendo, essencialmente, emocionais, reforça não apenas a força dos
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Muito particularmente o Livro I – “La Fonction de la Division du Travail” (Durkheim 2008 [1893]: 54-206). 94
É claro que “nem tudo é emoção no âmbito das relações familiares. Com elas coexistem questões de trabalho, de obrigação, de interesse. No entanto, o que verificamos é que é a emoção a linguagem através da qual são mediatizadas a maior parte das outras relações familiares” (Lima 1993: 92). A construção cultural da família implica que todo o trabalho e apoio seja entendido como „amor‟ e não como obrigação, ora esse amor (real pela crença sentida da sua realidade) reproduz materialmente a família. As pessoas não actuam por causa das lógicas “objectivas” das redes ou sistemas de parentesco, mas por causa da sua interioridade cultural e socialmente moldada (Lima 1993: 93) – neste caso uma necessidade emocionalmente construída para a solidariedade.
laços, mas igualmente a gratuitidade das dádivas – entendidas e vividas como dádivas de amor.
Os grupos ou redes de ligações solidárias não se constituem exclusivamente, para todo o sempre, através de um acto inicial de instituição,95 mas antes através de um trabalho de instauração e de manutenção permanentes, que é necessário para produzir e reproduzir as ligações duráveis e úteis, próprias à obtenção de ganhos materiais e simbólicos. A solidariedade das trocas produz a solidariedade do grupo, que é condição de existência e perpetuação do grupo. Podemos desta feita deduzir que as trocas serão tanto mais solidárias, e tanto mais solidário será o grupo (ou, pelo menos, as ligações entre alguns dos elementos da configuração relacional que constitui o grupo), quanto mais se derem numa lógica de gratuitidade (oficial, ao menos), ou seja, quanto mais qualquer dádiva providenciada pela rede a um dos seus integrantes esteja desligada da obrigação de contra-dádiva a prazo certo e em espécie equivalente (o que constituiria um pagamento que anularia o carácter solidário da dádiva e do grupo), evitando a queda numa lógica contabilística que ameaçaria a motivação desinteressada nas trocas.96
Assim, a gratuitidade das dádivas e trocas não se coloca da mesma maneira para todos os tipos de grupo ou redes sociais, dependendo da proximidade material, simbólica e emocional entre os seus elementos. Essa gratuitidade será tanto maior não só quanto maior for a comunalidade material e proximidade emocional do grupo, mas também e particularmente quanto maior for a categorização e identidade simbólica desse grupo, que o institui como grupo (de preferência restrito e com fronteiras relativamente bem definidas, que impedem que qualquer um possa reivindicar pertença) ao qual o agente pertence obrigatoriamente – o exemplo maior será, mais uma vez, a família.
Conjugando solidariedade material, proximidade emocional e identidade simbólica prescritiva, podemos pressupor que será nas relações de parentesco e família que encontraremos um maior nível de gratuitidade, até porque, no âmbito pelo menos do parentesco e famílias ocidentais (Lima 1993), estas fundamentam-se numa metáfora do
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Este acto de instituição é, no caso dos grupos familiares, representado pela definição genealógica das relações de parentesco (Bourdieu 1980ª: 2 col. 2). Note-se, no entanto que tal não respeita, necessariamente, a longas linhagens nobilitantes ou aristocráticas, mas sim, igualmente e talvez até preponderantemente na maioria dos casos, à memória próxima da progenitura (pais e avós, por exemplo) e aos laços colaterais que essa progenitura próxima produziu.
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Não quer isto dizer que não possam existir contabilidades ocultas, ou sequer que o receptor da dádiva não fique devedor (pelo menos em reconhecimento) em relação ao prestador e que este não adquira poder sobre aquele (não necessariamente sentido como imposição ou dependência, mas como gratidão e, até, amor).
sangue (que constrói a obrigatoriedade de pertença),97 expressa através das emoções (que ocultam a obrigatoriedade da pertença em afinidade electiva), que denegam o carácter material dos grupos familiares.98 A gratuitidade será crescentemente menor quanto mais o grupo ou rede existir apenas debaixo da égide da afinidade electiva, sem obrigatoriedade de pertença, ainda que essa afinidade seja expressa em fortes termos emocionais (os amigos, por exemplo). Fora da afinidade electiva emocional,99 a gratuitidade será ainda menor, passando pelos meros conhecidos (no trabalho, na vizinhança, em todos os locais que se frequenta, os amigos dos amigos, etc.) e grupos formalmente constituídos e organizados (mesmo que clandestinamente, como nas redes de crime organizado) com interesses explícitos de intervenção, lucro e reivindicação (como partidos, sindicatos, empresas, organizações e colectividades várias), até aos estranhos.100
A família e o parentesco, que só alcançam pleno sentido face aos seus usos e entendimentos contextuais (Leach 1961), devem então ser analisados internamente. Ou seja, não podemos subsumir essas categorias como agentes colectivos, 101 mas antes como
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“Através desta ideia [o sangue] atribui-se uma causa natural à imposição cultural de as relações entre parentes serem pautadas pela afectividade, pela generosidade e pela solidariedade” (Lima 1993: 91).
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É claro que não estamos a dizer que as relações emocionais devam ser reduzidas à sua função na continuidade e reprodução material dos grupos sociais. Field (2008: 20) critica bem Bourdieu quando este tende a dar como única explicação para as relações de afecto o facto de que dão durabilidade às relações de apoio e solidariedade. A emocionalidade pode ter autonomia relativa face a estes processos e assentar igualmente em bases de interacção inter-individual.
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O que não quer dizer que a amizade, por exemplo, não seja estruturada por um forte processo de homofilia social (Bidart 1997), ou seja, de encontro entre agentes relativamente semelhantes socialmente.
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Esta noção da variabilidade em grau da gratuitidade das transferências pode também ser, de algum modo, encontrada em (Glanville & Bienenstock 2009), quando afirmam que o capital social deve ser visto como uma realidade contínua de redes, confiança e recursos ao longo da qual as formas de capital social variaram. O problema central desta tentativa de conceptualização é que não destrinça bem entre as diferentes conceptualizações proposta (Bourdieu, Coleman e Putnam), persistindo, mais uma vez, na confusão e mescla de dimensões. A questão da gratuitidade articula-se com a da reciprocidade (mesmo que diferida). Receber apoio de outrem é algo positivamente influenciado pela reciprocidade, ou seja, pela ajuda ou solidariedade (qualquer espécie, incluindo “moral”) que se presta a outrem, como sugerido pelas teorias das relações sociais cooperativas (Lévi-Strauss 1949, Gouldner 1960), e corroborado pelos estudos que demonstram que quem mais recebe é quem mais dá (Kholi 1999, Komter 2007). Não se deve é confundir características de certas redes (gratuitidade, reciprocidade, confiança, etc.), ou mesmo as próprias redes, com os efeitos que podemos designar por capital social.
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O que não quer dizer que, por vezes, não possam agir enquanto agentes colectivos. Tal como qualquer organização o pode fazer. Polémicas conceptuais momentaneamente de lado, encontramos autores que analisam, por exemplo, o capital social de organizações (não dentro delas, mas das organizações como agentes colectivos
processos relacionais em que agentes individuais se movem e se relacionam (ver também Singly 1992). Assim, as persistentes relações de apoio que se podem verificar em redes familiares não podem ser ignoradas em investigações sobre o capital social, como se as famílias fossem desconsideradas enquanto redes constituídas por indivíduos com interesses potencialmente divergentes. É porque as relações familiares também podem ser contingentes,102 que a sua não-contingência (ou necessidade, socialmente construída como virtude, com todos os seus correlatos práticos e representacionais) deve ser objecto de questionamento. Como nos diz Lima (1993: 93), é necessário ver “os indivíduos como pessoas e não exclusivamente como parentes”. Como já o dissemos, a questão não é uma de redefinição do conceito de capital social ao ponto de o restringir aos laços fortes (família e, eventualmente, amigos, na maioria dos casos), mas de perceber, contra a maioria das investigações explicitamente sobre o tema, que a maioria do capital social ocorre em redes de laços fortes, a maioria delas familiares e de parentesco restrito. De facto, encontramos uma vasta bibliografia sociológica (ver Vasconcelos 2002a) e antropológica (ver Lima 1993: 91), que demonstra a persistência e recorrência do parentesco e família enquanto fonte de apoio e solidariedade.
É, aliás, interessante verificar, olhando para a bibliografia em língua francesa sobre a solidariedade familiar (de longe a mais abundante e significativa), como a temática do capital social não foi desenvolvida nesse circuito linguístico, nomeadamente em França (Bevort & Lallement 2006b: 19), apesar de o primeiro grande pensador do capital social ter sido francês. É necessário, portanto, integrar as duas linhas de investigação e conceptualização.
Um dos raros exemplos de utilização em francês do conceito de capital social, para lidar directamente com os apoios quotidianos (que demonstram ser essencialmente familiares) envolvidos na manutenção dos agregados domésticos, pode ser encontrado em Degenne, Lebeaux & Lemel (2006). Estes exploram a hipótese, comum na literatura sobre o apoio familiar, das redes de apoio como compensadora das dificuldades e desigualdades económicas com outros agentes), remetendo fortemente para laços formais, ou facilmente objectivados (ver Gabbay & Leenders 2001). A questão é que, ainda que a família possa ter uma organização, não é, na maioria das vezes, uma organização.
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E é claro que muitas vezes o são. O estudo geral do apoio familiar só ficará completo quando complementado não só com o estudo das modalidades de apoio não-familiares (quer pessoalizadas, quer impessoais), mas também com o estudo dos processos de não-apoio familiar (nomeadamente pela ruptura relacional – e aqui referimo-nos preponderantemente a formas de ruptura não-conjugal, como entre progenitores e descendência ou na fratria, já que a ruptura e conflito conjugal estão abundantemente estudados; ver Torres 1996 e Widmer, Kellerhals & Levy 2003, por exemplo).
e sociais (Degenne, Lebeaux & Lemel 2006: 110), verificando que a solidariedade não tem efeitos redistributivos, como já tinha constatado igualmente Déchaux (1994b), embora possam ajudar a melhorar o bem-estar (particularmente dos mais novos ou dos mais velhos – Degenne, Lebeaux & Lemel 2006: 118). Não só demonstram a relação umbilical entre apoio familiar e desigualdade social (de resto, bem conhecida, ver Wall et al. 2001), como demonstram que a primeira se faz segundo lógicas de troca generalizada (e não de troca restrita simétrica), cujo equilíbrio se alcança a nível do grupo (mais na família em linha directa que na restante e na não-família)103 e é muitas vezes diferida geracionalmente (Degenne, Lebeaux & Lemel 2006: 121).
Em contexto de língua inglesa (particularmente norte-americano), ou se ignora a família (muitas vezes ignorando até o apoio enquanto concretização do capital social), ou, não a ignorando, centra-se o olhar nas características organizacionais, relacionais e identitárias da família e não propriamente nos efeitos que podemos designar de capital social. As relações familiares são, obviamente, mais abrangentes que a temática apenas do apoio familiar. Mas, ao centrarem-se os estudos na multidimensionalidade dos laços familiares (ver, por exemplo, Logan & Spitze 1996), descuram os processos que aqui nos interessam. É certo que em contexto europeu, nomeadamente não-anglófono de partida, também encontramos, no que