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2.5 Forebygging og håndtering

2.5.6 Sosial kompetanse

Temos a categoria mulher desconstruída. Temos o gênero sendo o sexo e vise versa. Outros processos de produção de subjetividades que transbordam por meios das agendas feministas, teóricas, ativistas e tantas outras categorias. E eis que há um tópico que nomeio de Mulheres: as cuidadoras?. O que houve em todo esse processo de mutação da linguagem, dos discursos acadêmicos, das teorias [...] desconstrução dos gêneros que não se encaixou nesse aspecto do meu estudo? O que se pode refletir e analisar desse contexto de observação?

É sabido que há homens como cuidadores, no entanto não houve, salvo o caso de José, a percepção deste no campo pesquisado.

Dentre as diferenciações destinadas aos gêneros ou sexos o cuidado é uma especificidade da mulher ou do sexo feminino. À mulher é esperado que cuide do lar, do marido, da prole. E quando necessitar do pai, da mãe, dela e do marido.

Isso não quer dizer que esteja sempre nas mãos dela, há rupturas nas normas de gênero e essas fronteiras são rompidas. Mas no caso da minha pesquisa em específico não ficou perceptível esse rompimento. Como afirmei antes, os meus sujeitos de pesquisa foram em sua maioria mulheres.

Percebi ao longo da pesquisa, que essa mulher localizada no contexto nacional e regional, não incorporou certas identidades e subjetividades dos processos acima citados. Isso decorre do fato de ver tais processos como deturpadores do que é ser mulher ou homem.

O que temos por mulher na nossa sociedade e cultura é decorrente de uma série de processos. E esses processos de socialização, inculcamento, incorporação de um suposto habitus de gênero se dão de formas diversificadas. Dependem do espaço que emergem, ou seja, a compreensão da categoria mulher não ocorre da mesma forma.

A imagem do feminino na modernidade foi modificada pela expressão de uma nova corporeidade, que tem como consequência uma ameaça às fronteiras entre os gêneros. A mulher

nesse novo espaço passa a ser vista sob o ângulo do ser traiçoeiro, pérfido, enganador, dominador, ameaçador. Essa “nova” mulher não é incorporada, a maior das vezes por regiões como o Nordeste historicamente tradicionalista em diversos costumes.

Sobre a visão acerca da mulher em início do século XX no Nordeste Durval Muniz de Albuquerque Júnior comenta

[...] estive a observar as silhuetas da moda feminina de outono. E cheguei a conclusão de que as mulheres estão cada vez mais rapazes. A moda deste outubro de ligeiras névoas douradas é, como tem sido sempre desde 1914, acentuadamente “garçoniere”, audaciosamente masculina, e, quando resolve a feminizar-se, falo com um paroxismo doentio e com uma incidência vizinha da imprudência [...] as minhas atenções fixaram-se numa rapariga alta, loira, sem ancas, duma distinção seca, de um perfil arguto e cortante, trinta anos, aquilina, quase bonita, que, quando se sentava, mostrava a perna até o joelho, e que, monóculo na órbita, conversava, fumando [...] (ALBUQUERQUE JUNIOR, apud. DANTAS, 2003, p. 45).

É necessário situar que o Nordeste não existia enquanto região até fins do século XIX. Tudo era Norte. Ele passa a existir através do empreendimento do Movimento Regionalista e Tradicionalista (que tem como precursor Gilberto Freire) que visava frear os avanços da modernidade. Para tanto cria-se um espaço e suas figuras típicas (homens – cabra-macho e mulheres – mulheres-machos, mas passivas frente a atuação masculina).

Adquire-se, portanto, uma identidade para sujeitos. E tais identidades são incorporadas e admitidas como naturais, logo a sua mutabilidade se coloca de forma custosa. Há um rompimento nas fronteiras nacionais e um fluxo de processos na produção das identidades, no entanto esses processos não são vistos como sociais e culturais, e que por isso dificultam esse lugar de mulher enquanto acompanhante e cuidadora.

Vê-se que hoje a modernidade propõe uma mulher atuante, que trabalha, que adia o casamento e os filhos. Ela por vezes passa a ocupar o lugar que é tido como exclusivo do homem, o espaço público, o que, no entanto por vezes também não ocorre sem ônus sociais nessa porção de sociedade. Se a mulher ocupa o espaço público a sociedade/cultura desviriliza-se. Dessa forma, com o iminente declínio da sociedade dita patriarcal34, há, consequentemente, um declínio

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Relativo ao exercício da autoridade, do prestígio e da explicitação do poder na figura paterna, o que desencadeia nos traços definidores do monopólio do mando. Sobre as sociedades ditas patriarcais. Ver: ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A feminização da sociedade. In: Nordestino: uma invenção do falo - Uma história do gênero masculino. Maceió. Edições Catavento, 2003.

da autoridade que está transfigurada na personagem do homem e, principalmente da hierarquia social, que estabelecia os papéis de homens e mulheres na sociedade.

O processo de democratização da sociedade brasileira é vista através da ótica do embaralhamento das verdades existentes para homens e mulheres na sociedade, e com isso haveria um impulso para o nivelamento dos diferentes grupos que dão segmento à sociedade, o que provocaria uma feminização desta.

Aliado aos dois momentos a que o Brasil se encontrava, moderno e tradicional, têm-se os processos de urbanização e industrialização, fruto do surgimento do mundo moderno, os quais seriam os principais responsáveis pelo processo de desvirilização da sociedade. Um processo que ocorre através do afrouxamento dos valores, normas, formas de sociabilidade e sensibilidade que antes eram baseadas nas relações patriarcais, embora isso não indique uma inversão nas hierarquias sociais, mas passa a vigorar como alargamento dessa sociedade para acomodar os novos agentes sociais e suas reivindicações que emergiam dentro do meio urbano e industrial.

E é com a emergente feminização da sociedade, conseguida através do ingresso das mulheres no mercado de trabalho que houve uma série de mudanças na organização das famílias. Essas mudanças só ocorreram porque elas passaram a ter visibilidade na sociedade, pois saem do domínio do lar e passam a ser vistas e ouvidas no domínio público, o lugar por excelência da dominação masculina (Albuquerque Junior, 2003).

Quando as mulheres passam a ocupar o lugar que era de direito exclusivo dos homens, no espaço público, começa a se proliferar ideias e discursos machistas, que consideram essa ascensão uma forma de perda da feminilidade. O que se pretende com esses discursos é a manutenção das práticas femininas no silêncio do lar, o que daria ao mundo moderno a preservação da hierarquia entre os gêneros que assola algumas sociedades ocidentais.

Ora, o mundo moderno é caracterizado pela confusão que a mistura entre os gêneros provoca, formando novos grupos, novas visões sobre as relações entre os gêneros. À vista disso, as formas de se vestir passam a designar um marcador de distinção social, assim como de distinção entre o masculino e o feminino. E, quando a mulher entra no mercado de trabalho, a sociedade esta sofrendo um afrouxamento dos lugares destinados a homens e mulheres, o que dá à mulher a possibilidade da escolha.

No entanto, durante a pesquisa esse embaralhamento das fronteiras em relação aos papéis de homens e mulheres não ficou claro entre os sujeitos da pesquisa. Nele se coloca à mulher o

papel daquela que cuida. E o homem não é bem visto nesse papel, logo é descartado, como aquele que atrapalha.

Eu não sei o que esse homem vem fazer aqui, depois que chega aqui só come a comida do hospital conversa um pouco e dorme. Um banho num dá porque a mãe dela antes de sair já deixa ela pronta. Nem o aparador para ela urinar pega, eu é quem ajudo. Digo mesmo, nunca vi homem cuidar de ninguém de jeito que preste. (Afrodite se referindo a atuação de José nos cuidados de Tereza).

Pelo amor de Deus como você deixa seu pai chegar num estado desse, está podre, fedendo,com uma baita de uma ferida. Você não tem irmã não, homem não sabe cuidar não. (Enfermeira da clínica ortopédica questionando o caso do acompanhante Francisco).

Ora se há um lugar que é de direito da mulher, o lar e, consequentemente o cuidado, quando o homem passa a ocupar esse espaço ele também é freado. Tanto pelo processo de socialização que age nele como no mesmo processo que age entre as mulheres. Veja-se que os ideias de mulher/feminilidade e homem/masculinidade agem através de todos na sociedade.

A passividade e atividade relegada aos sujeitos homens e mulheres se situam nesses espaços de atuação, nesse caso das acompanhantes. A dominação masculina age formando homens e mulheres. Por isso as estruturas que formam um, forma o outro, ou seja, só temos que a mulher é passiva porque ao homem foi fornecido a atividade.

Por conseguinte, essa persistência da figura feminina nos cuidados é fruto de todos desses processos anteriormente citados, como a construção da categoria mulher dentro da agenda feminista, as rupturas dessa construção, os processos de dominação e violência simbólica atribuídos aos gêneros, a manutenção de padrões tradicionais de uma região.

Logo, para pensar em mulher enquanto acompanhante é necessário recorrer a todos esses elementos. É perceber que essa mulher que cuida não é algo natural e sim cultural. E que a percepção da naturalidade da ação é fruto da violência simbólica.

Ainda se trata do elo negativo que associado a positividade do masculino concebido como valor e ideal social, reverberam as atribuições de cultura e realização de transformação aos homens, ao posso que a mulher cabe ações naturais decorrentes da biologização de seus corpos e restrição de atributos reprodutivos.

Este fato é concreto quando da análise dos dados de campo resultantes da pesquisa. As próprias acompanhantes pontuam que suas presenças são necessárias porque a elas cabe suprir as

necessidades de seus pacientes dando-lhes segurança, suporte emocional e cuidados numa espécie de extensão do seio familiar, o que nos remete ao próximo ponto.