Aspecto que não poderia ser deixado de lado também se refere à ausência de acompanhamento ou um acompanhamento ineficaz.
Esses fatos aconteceram durante o período da pesquisa, sobretudo com os pacientes internados na enfermaria de transição na qual dividi as observações com a clínica ortopédica durante o primeiro mês de pesquisa.
Em geral os casos de falta de acompanhantes totalizaram seis casos durante o período de pesquisa na instituição, todos em caráter permanente e com ausências de visitas. São homens entre 25 e 60 anos, provedores únicos do sustento do lar. Apenas um caso de falta de acompanhante é relatado por uma mulher.
Sozinhos, esses sujeitos desde o início de nossos contatos foram muito abertos ao diálogo e exposição de suas vivências naquele local. São uníssonos ao falar da falta que faz alguém ao seu lado para passar o tempo e ajudar na realização de atividades básicas.
Afirmam que por não ter quem “corra atrás para agilizar” os processos na instituição ou vigie as ações dos profissionais, perdem oportunidades de realização dos procedimentos que
esperam para outro paciente, cujo acompanhante pela insistência frente a médicos e outros profissionais acabam conseguindo a favor de seu paciente.
Quanto à questão da inoperância ou ineficiência do acompanhante surgiu em dois casos específicos, um acompanhado mais de perto por se tratar de Brigite, acompanhante da cunhada na enfermaria 20 e o outro Francisco, acompanhando o pai na enfermaria 16 e cujo conhecimento me veio amplamente através de conversas informais.
O primeiro caso refere-se a Brigite já apresentada anteriormente. Ambas casadas e com filhos desde o início reclamam de deixar de lado as atribuições familiares em razão de um tratamento médico que já perdura por dois anos. Entretanto essa é a primeira vez que Brigite atua na função. Com 36 anos essa acompanhante em diversos momentos entrou em conflito com profissionais qual seja porteiros, assistentes sociais e enfermeiros por suas saídas constantes e modo de vestir.
Na enfermaria, pouco a vi atuando nos cuidados a seu paciente, salvo para pegar água e levar até o banheiro. Sempre se recusou a dar banho, trocar fraldas e era relutante até quando necessitava chamar a enfermeira para administrar as medicações ou troca de soro.
Todavia sua inoperância tornou-se aguda quando da ausência das demais acompanhantes da enfermaria, uma de alta e a outra para esperar pelo chamado de cirurgia em casa. Eram as acompanhantes dessas demais pacientes que sustentaram, apesar de toda reclamação diária, a situação entre Brigite e Sônia. Bastaram dois dias de ausência das demais para que a relação entre ambas passasse de conflito velado a explícito, gerando inclusive discussão que presenciei e descrevo abaixo:
Sônia: Brigite preciso ir no banheiro. Brigite (lixando as unhas): Já vai!
<Sônia me olha com descontentamento.> Sônia: mulher tô apertada.
Brigite: Aff Maria tenha calma, custa esperar ajeitar a unha quebrada?
<Levanta, pega a cadeira de rodas e empurrando bruscamente bate na perna a ser tratada de Sônia, que se põe aos prantos.>
Sônia: Mulher eu não sou bicho não se não quer cuidar de mim diga, agora não faça isso não.
Brigite: desculpa mulher, foi sem querer.
<A discussão chama atenção da enfermeira que adentra a enfermaria perguntando o que ocorre>
Sônia: Deixe!!!! Enfermeira me leve no banheiro por favor. Enfermeira: E sua acompanhante pode não?
Enfermeira: Votz!
Brigite: Mulher deixe de marmota, ingrata!
<enfermeira pedi minha ajuda para colocá-la na cadeira e a leva ao banheiro. Na volta a colocamos de volta na cama, onde ainda aos prantos Sônia continua.> Sônia: Ela fica de cara feia pra mim, ela acha que estou aqui porque quero? Do mesmo jeito que ela ta perdendo tempo aqui eu também tô.
Brigite: mulher né isso não, só que você tem que aprender a esperar, sou sua escrava não.
Sônia: Deus me livre de tu!
<Com raiva Brigite sai da enfermaria e não volta até minha saída> Rosa para Sônia: Calma fia, tudo no tempo de Deus.
Toda essa discussão resultou no pedido por parte do hospital de saída da acompanhante Brigite sob a alegação de estar prejudicando a paciente.
O caso Francisco é ainda mais emblemático. Em nossos poucos contatos, Francisco aparentava uma relação distante com seu paciente. Homem rude, sequer conversava com o pai, paciente que acompanhava a dois dias na instituição, após um acidente enquanto consertava o telhado de casa.
Francisco em momento algum mostrou interesse em participar de qualquer atividade naquela instituição, tampouco em relação a essa pesquisa. Porém seu caso, embora não seja ele um dos sujeitos diretos na pesquisa é importante porque vem de encontro com as postulações da Política Nacional de Humanização, assim como aspectos observáveis na pesquisa, a importância desses sujeitos acompanhantes no processo de cuidado.
Sempre sentado assistindo televisão, Francisco é um caso típico de inoperância por omissão de conhecimentos. Nunca antes houvera acompanhado alguém em um processo de internação e mesmo orientado por outros acompanhantes, aparentava sempre estar à espera da atuação do profissional de enfermagem, que diante do caos e não observância do acompanhante acabava deixando o paciente a revelia da sorte.
É apenas no quarto dia de internação que o mau cheiro do paciente de Francisco chama atenção da enfermagem. Realizado apenas uma troca de fralda o senhor de 83 anos encontrava-se desnutrido e desidratado, não conseguia engolir. Com um quadro clínico crítico do paciente, Francisco tem a atenção chamada pela enfermeira, que sem levar em conta a realidade e experiência (ou falta dela) desse sujeito, impõe duras críticas e juízos de valor a Francisco que irritado com a enfermeira se diz ofendido assinando compulsoriamente a alta de seu pai, que veio a falecer de infecção generalizada cinco dias após saída da instituição.
O profissional que atestou a causa da morte, tal como a enfermeira da instituição campo de pesquisa, impôs severas acusações a Francisco e num contexto extra hospitalar aos demais envolvidos no processo de cuidados do idoso, inclusive os chamando de assassinos, o que indubitavelmente gerou perturbações no seio familiar e social da família, posto que a opinião do profissional de saúde, ultrapassando as paredes do hospital e representando juízo de verdade para a pequena cidade em que moram no interior do Estado, gerou além de comoção um estigma a família que pouco ou nada poderia fazer.
Por tudo apresentado e sendo o acompanhante peça indispensável ao bem cuidar, esses casos nos mostram que bem acompanhar é muito mais do que sentimento de afetividade entre as partes, a facilitação de uma adaptação ou relações familiares. Por vezes remetem a uma obrigatoriedade as quais os indivíduos por razões inúmeras não querem ou não estão aptos a desenvolver.
O caso de Brigite não é apenas um em que as pessoas não se sentem confortáveis em deixar suas rotinas diárias para se enclausurar junto a outra em um processo de hospitalização, sendo bastante comum tal postura, sobretudo naqueles mais jovens que de modo geral buscam mais da vida, afinal “há tanta vida lá fora”.
Quanto a Francisco longe de ser caso isolado, o não conhecimento no processo de acompanhamento é algo recorrente nos processos de internação. O descompasso entre o que a lei preconiza e a realidade dos sujeitos que acompanham é indiscutível e cabe ao profissional de saúde ponderar as diferenças entre os sujeitos de modo a humanizar a atenção não só a pacientes, mas também aqueles que os acompanha, posto que, ao contrário dos profissionais em momento algum, sujeitos como Francisco ou tanto outros tiveram treinamentos específicos ou formação profissional para lhe dar com a situação de doença. Se para esses profissionais a rotina é algo desgastante e embrutecedor imagine lhe dar com algo totalmente atípico de sua realidade sem sequer nenhum auxílio ou compreensão.
Refletindo sobre as vivências desses sujeitos, tem-se que vivenciam situações por vezes constrangedoras. Os acompanhantes não recebem orientações que seriam primordiais para uma melhor experiência quando se veem imersos no ambiente hospitalar. Ao não terem noção das rotinas, do que ou como proceder e, sobretudo, a quem recorrer nas suas necessidades sentem-se perdidos.
A ausência de relações interpessoais com os profissionais refletem negativamente em suas identidades enunciando esses acompanhantes, diversas vezes, o sentimento de desprezo e desrespeito, ou tal como eles dizem, “como um zé ninguém”.
A discrepância entre o discurso e a realidade longe de melhorias no Sistema, demonstra a invisibilidade desses sujeitos, ou pior ainda, os taxa de incapazes de compreensão.
Mulher , não é assim não. Se o médico lhe responde mal é que ele tem muita coisa ai ele esquece, estressado o pobrezinho. São 40 pacientes para tomar conta e você reclama por causa de um. [olhando para mim] Esse povo é tão assim que não compreende. (Assistente social ao receber reclamação da acompanhante Marta que alega nunca ter atenção quando busca diálogo com os médico).
Aos profissionais, embora tenham se recusado a participar apesar da insistência, os acompanhantes parecem mesmo ser vistos tal qual a fala deles apresenta, cujos acompanhantes são “mão de obra barata por ser de graça e desqualificada”, sobretudo porque dos sujeitos de pesquisa nenhum possui curso de capacitação para cuidados em saúde. Todavia, eles se vêem “obrigados a saber como mover pacientes, administrar o tempo de caída do soro e sua reposição, ministrar remédios orais, trocar e higienizar leitos e paciente, colocar máscaras de oxigênio, desligar equipamentos”, sob pena de constrangimentos se não o fazem corretamente.
Ou seja, apesar de absolutamente necessários a vivência de acompanhamento reflete uma função envolta por ansiedades, medos e expectativas, que demandam tais como os pacientes ou profissionais de saúde, suporte emocional e capacitação para cuidados, o que é totalmente negligenciado na instituição campo de pesquisa.
Os sentimentos desses acompanhantes, quais sejam preocupação para estar alerta e de prontidão sempre, garantir a comunicação entre o doente e os que lhe atende, de ser inconveniente ao buscar algum profissional, necessidade de companhia para compartilhar dores pessoais e responsabilidades do paciente, estresse físico e emocional, culpa pelo “abandono”da rotina de casa, entre outros, em nenhum momento são levados em consideração pelos profissionais como co-responsáveis pelo pleno funcionamento do sistema humanizador, o que sempre os desestimula e em decorrência definham suas ações plenas.
Logo, pela apresentação do que preconiza a fala dos acompanhantes e os dados que observei em campo, os objetivos buscados pelo SUS a respeito da atuação da presença dos acompanhantes estão longe de serem atingidos. Trata-se de uma situação complexa que não passa
só por questões de socialização frente as normas e rotinas institucionais, mas que nos moldes como acontece no campo nos leva a ver tal experiência do acompanhante enquanto agente de terapêutica, mais como negativa que positiva, posto que reflete práticas desumanizadoras e conflituosas que precisam ser mudadas.
Para tanto, se faz necessário que os profissionais adquiram novos hábitos que os auxilie num tratamento mais apropriado as interações humanas com respeito as subjetividades, fazendo- se disponíveis ao diálogo e a uma prática menos robotizada, numa aproximação verídica entre aspectos de cunho “biopsicosocioespirituais”.
Todos esses aspectos acima apresentados não se esgotam nessas análises, além disso há um ponto por eles também apontados que merece uma observação a parte. Essa análise é o que segue no próximo capítulo.
4 (DES) CONSTRUINDO: RELAÇÕES DE GÊNERO, MULHER E CUIDADO
As diferenças de gênero se tornaram extremamente importantes nesta operação anti-política, porque elas são o signo mais proeminente da irresistível hierarquia natural que se deve ser restabelecida no centro da vida diária.
Paul Gilroy