• No results found

3. Metode

3.9 Tolkning og analyse

O fracasso das colônias utópicas na Europa faz com que os discípulos dos pensadores Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen busquem ares novos e terras virgens, onde as ideias novas poderiam ser implantadas de formas mais certeira e menos corrompida que no velho continente.

O pensamento socialista então passa a ser difundido no subcontinente sul- americano a partir da década de 1830. Ele será uma consequência direta das ideias que animaram as revoluções de independência e estavam em consonância com as inspirações revolucionárias vindas da França, Inglaterra e, em menor grau, dos Estados Unidos da América.

O movimento político que impulsionou a Revolução Francesa, Inglesa e Estadunidense foi um cenário de disputa entre várias concepções de mundo, indo da reação feudal, passando pelos movimentos hedonistas até as primeiras ideias socialistas. A ala extrema-esquerda do jacobinismo, foi a primeira que tentou expressar ideias socializantes, como bem sinalizou Hobsbawn,

Depois de 1794. ficaria claro para os moderados que o regime jacobino tinha levado a revolução longe demais para os objetivos e comodidades burgueses, exatamente como ficaria claro para os revolucionários que "o sol de

42

1793", se fosse nascer de novo, teria que brilhar sobre uma sociedade não- burguesa. Por outro lado, os jacobinos podiam sustentar o radicalismo porque em sua época não existia uma classe que pudesse fornecer uma solução social coerente como alternativa a deles. Essa classe só surgiu no curso da Revolução Industrial, com o "proletariado" ou, mais precisamente, com as ideologias e movimentos baseados nele.” (HOBSBAWN, 1999, p44)

O pensamento socialista misturara-se-á confusamente com o liberalismo de esquerda, por um lado e, de outro , com uma visão idílica e de sociedade a ser refundada a partir de valores morais e de uma ética militante. Esse movimento será animado por intelectuais da estatura de Saint-Simon, Robert Orwen, Charles Fourier, entre tantos outros que cultivaram esperanças e embalaram vidas e projetos durante a primeira metade do Século XIX. Será através de suas formulações teóricas e de seus movimentos que as ideias socialistas ganharão a América e criarão raízes dentro do continente.

C) - Flora Tristan

A primeira crítica socialista sobre a sociedade-sul americana será formulada por Flora Tristan, importante ativista dos direitos da mulher “e uma feminista antes da existência do movimento” (Konder, 1994.). Flora era filha de um militar peruano, oficial do Exército espanhol que se casara com uma francesa durante o período da Grande Revolução.

Quando Flora tinha apenas três anos de idade, em 1807, falece Mariano Tristan Moscovo, seu pai, e a partir de então sua vida passa por uma profunda reviravolta. As tropas napoleônicas alcançam a Espanha em 1808 e os cidadãos espanhóis têm os bens confiscados na França. Mariano Moscovo e Anne Pierre Laisnay, mãe de Flora, residiam numa casa grande em Paris. A casa é confiscada pelo governo francês e para piorar a situação, o casamento de Mariano e Anne não havia sido autorizado pelo rei de Espanha e tampouco

43

fora regularizado o matrimônio no consulado francês, ou seja, a documentação estava irregular.

Anne e Mariano moravam em Bilbao onde tiveram uma vida pública considerável, figurando entre seu círculo de amizades Simon Bolivar e seu mentor Simon Rodrigues. Após a morte de Mariano e a difícil situação econômica que passava, Anne vê-se obrigada a abandonar a casa, indo morar no campo com duas crianças pequenas.

Com a morte de seu filho mais novo, resolve retornar a Paris com Flora. Mãe e filha se empregam na indústria e pouco depois Flora vai trabalhar no atelier de André François-Chazal, Litógrafo com quem se casará algum tempo depois, tendo três filhos. (KONDER, 1994, p.17)

O casamento acaba não dando certo e impossibilitada de se separar de Chazal, por causa da restauração monárquica que proibira o divórcio, Flora viverá durante boa parte de sua vida adulta em atrito com o marido, que tenta matá-la com dois tiros. Por conta das sequelas desse incidente, Flora falece em 1844.

A partir do segunda metade da década de 1820, Flora vive uma militância ativa em prol da causa da igualdade dos direitos das mulheres, em favor do Socialismo, e será umas das ativistas que aproximará o Socialismo do movimento operário através de sua obra, “União Operária”. Esse texto mereceu a defesa de Marx e Engels no capítulo V da “Sagrada Família” e influenciará a importante obra de Engels, “Situação da Classe Operária na Inglaterra” (KONDER, 1994, p.55). Flora Tristan foi uma das figuras de proa do movimento socialista da primeira metade do Século, manteve contato com Charles Fourier e Robert Owen, entre outros importantes pensadores dessa época.

Sua chegada ao Peru, em 1833, esteve ligada a seu pai e à busca do reconhecimento familiar de sua paternidade e consequentemente de sua herança. O pleito foi impossibilitado pela morte da avó paterna e a recusa de seu tio, Pio Tristan y Moscovo, importante político e militar peruano. Flora faz um relato de sua viagem que será sua primeira obra como escritora e será publicada com o título de “Peregrinações de una Paria”.

O texto, por sua crítica à avareza de seu tio, foi queimado em praça pública em Arequipa e só conseguiu ser publicado no Peru em 1946. Para além do relato pessoal, o texto traz passagens importantes sobre as elites dominantes

44

peruanas e a mentalidade política de sua época, destacando a situação indígena, as classes populares e o papel da Igreja e da Escravidão.

Dessa maneira, ao observar a população de Arequipa, faz um recorte social entre “Classes, Raças e Costumes”, percebe que metade da população é composta por índios, outra parte de negros e mestiços e a minoria é branca. Em seu relato observa: “En el Peru, como em toda la América el origem europeo es el gran título de nobreza” (TRISTAN, 1996, p31). Também comenta que o escravo é a igualdade da desgraça. Seu relato também trás comentários sobre a instabilidade política reinante no Peru, onde três presidentes se sucederam em golpes e contra golpes (TRISTAN, 1996, p.33-34). Todos com fraseologia patriótica e popular e não deixa de notar que as classes dominantes almejam o Estado como um grande butim.

Também lembra que os governantes e as classes dominantes não tem qualquer preocupação séria com a instrução das classes desfavorecidas e se realmente houvesse a intenção de construir um futuro, o investimento teria de mirar os mais pobres. Também nota um conluio entre os interesses das classes dominantes e a políticas do Estado. Escreve sobre, os latifundiários e a Igreja, e a apropriação que o bispado fazia dos fundos destinados ao auxílio dos mais pobres. (Idem p 52)

Detém-se no cenário da guerra ao observar o papel das mulheres indígenas “las rabonas” que marcham junto aos exércitos. Elas são a vanguarda da infantaria, marcham à frente dos soldados e chegam antes ao campo de batalha, organizam as barracas, as vestimentas dos soldados, as armas. Não têm soldo, vivem da pilhagem.

Cada soldado pode ter quantas rabonas possa sustentar, alguns chegam a ter quatro. Salienta que não são casadas, são livres, “são criaturas à margem de tudo” vivem do que conseguem carregar e se pergunta, se as mulheres dos países avançados não poderiam vir a servir os exércitos se tivessem a mesma educação que os homens (Idemp.49-50).

Igualmente observa que o papel da religião e de suas instituições é contraditória;, ao mesmo tempo que expressa uma promessa aos pobres, acumula e age em favor dos mais privilegiados. Comenta a respeito do descontentamento que o bispo de então gerava em setores do próprio clero,

45

levando a que setores dissidentes manifestem-se através de atos políticos e imprensas alternativas.

Flora Tristan ao sair de Arequipa segue para Lima, na capital, onde detém-se nos hábitos das classes dominantes distantes da população e europeizadas. Visita o Parlamento e percebe que os discursos destoam profundamente da prática. Enquanto os parlamentares fazem loas a República sua prática visa o benefício próprio. (Idem p68)

Ao analisar a guerra civil entre as duas principais frações oligárquicas, comenta que se trata de que uma contenta entre grupos que buscam transformar o Estado para sua pilhagem. O diálogo quanto à Escravidão, feita com um senhor de escravo, é com certeza o ponto alto do texto. Nele, Flora Tristan se opõe à Escravidão e debate os valores do trabalho livre, o qual é contestado pelo latifundiário. Um debate tenso e vivo em que a socialista Flora Tristan esgrima com toda a sua arte, valorizando o trabalho livre e a criatividade que nasce com a liberdade humana.

Noutra parte do texto, narra a visita a uma negra presa, que teria deixado seu filho morrer de fome para evitar que crescesse como escravo. Repara com tristeza que no semblante da negra há uma altivez invicta em meio ao suplício. (idem p352)

No fim da viagem ao Peru, Flora Tristan vê-se por conta de seu primo militar, Barão Althus, numa entremanhas de uma quartelada, quando conhece um belo homem, comandante de tropas de nome Escudero, com quem começa a se encontrar frequentemente. Observa que ele reunia capacidade e inteligência para figurar num golpe de estado e proporcionar os modelos distributivos da sociedade que imaginava.

Nesse instante, imagina que seja capaz de entrar na política e na revolução social em curso, tal qual Mariscala Doña Francisca Zubiaca Gamarra, esposa do presidente peruano Augustin Gamarra, que liderou as tropas à vitória enquanto seu marido encontrava-se preso. (KONDER, 1994, p46)

Emilia Romero, tradutora e introdutora da obra de Flora Tristan no Peru, observa que enquanto a maior utopista peruana seguiu conhecida e famosa na Europa, sua obra “Peregrinações de uma Párea” foi queimada em praça pública e só foi publicada no Peru em 1946. Jorge Basadre relata que Tristan foi respeitosa com os peruanos e com o Peru, foi elogiosa com os pobres,

46

índios e negros escravos e miseráveis. Suas críticas se destinaram aos setores de cima da sociedade, em especial aos grupos dominantes na política e na igreja. (RAMA,1986, pXXVIII).