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3. Metode

3.4 Intervju

Tardiamente, se comparados aos movimentos desenvolvidos no Uruguai e Argentina, acontece a intelectual chilena que é marcada por características radicais. Essa tendência radical se expressa nas ideias socialistas que apontam para a superação com o utopismo, graças à relação com a incipiente luta de classes.

Em 1850 é formada, por iniciativa de Sebastião Arcos e Francisco Bilbao a “Sociedade da Igualdade” com a intenção de agregar intelectuais e o povo excluído da vida política. Com sentimento parecido ao da “Jovem Argentina”, o juramento exige de seus afilhados:

I Reconhecéis la soberania de larazón, como autoridad de autoridades??

II Reconocéis la soberania del pueblo como base de toda política?

III Reconocéis el amor y la fraternidad universal como vida moral? (RAMA, 1996, p140).

Mas ao contrário dos argentinos, o caráter da “Sociedade Igualitária” se pauta na ação junto à população. Conclama a juventude a ir conhecer os bairros distantes, conhecer os hospitais e a vida dos pobres chilenos. Destacam no seu plano de ação a construção de escolas gratuitas e Bancos para os proletários.

O seu periódico “Amigo del Pueblo” publica textos sobre a conjuntura chilena e traduz textos do Abade Felicité Lamannais, abre filiais em várias cidades e supera mil filiados, tornando-se agremiação com uma influência política real. O cenário conjuntural do Chile é tenso. A derrota por fraude eleitoral do candidato liberal Loncomilla para Manuel Montt, representante da aristocracia agrária e da Igreja católica, abre sucessivos movimentos insurrecionais. A “Sociedade Igualitária” participa de levante derrotado em São Felipe, o que leva o governo a coloca-la na ilegalidade e exilar Bilbao e Arcos.

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Ambos virão a falecer no exílio, mesmo com a derrubada do governo despótico de Mont e o processo de anistia estabelecido em 1862, uma vez que o repatriamento não foi estendido a Arcos e Bibao.

É muito conhecido desse movimento a Carta de Arcos à Bilbao, que é citada como o “Manifesto Comunista chileno”. (idem pXLII)

Na, Arcos apresenta os motivos de sua prisão e narra com agudez os elementos constitutivos da conjuntura chilena, se dirige à população chilena - aos mineiros, artesões, capitalistas, lavradores e camponeses, convocando-os à revolução, e aponta na conjuntura quais seriam as mudanças a serem realizadas pela tempestade revolucionária e quais as pilastras de construção de um novo Chile. (ARCOS, 1996, p143)

Ele faz uma divisão concreta entre pobres e ricos, identificando os primeiros como atores do processo de mudança e os últimos como os herdeiros dos hábitos culturais despóticos nascidos na corte de Madri. (idem p147-148)

Arcos indica os pontos que devem ser alterados na Constituição e na Sociedade e sua Cultura. Expõe com clareza quais seriam as reformas sociais e os agentes dessa mudança, a seu ver, os imigrantes estrangeiros, pois trariam novos hábitos educacionais, técnicas de trabalho e de asseio, o que elevaria a consciência chilena ao nível da civilização. Expõe sua fé no republicanismo radical e na democracia como elemento condutor de boas leis e do bom governo, propõe uma nova assembleia constituinte e conclama o povo ao grito de guerra dos revolucionários descamisados franceses “Pan e Liberdad” (idem p.164)

As análises desses dois intelectuais chilenos surpreendem pelo radicalismo de suas ideias e práticas. Ainda jovem, em 1842, Francisco Bilbao se une a “Sociedade da Literatura”, mesmo período do surgimento da Universidade do Chile. Publicou seu primeiro livro em 1844, “La Sociabilidad Chilena”, cujo conteúdo é uma crítica radical às instituições religiosas, às oligarquias agrárias e declara estar em curso uma contra-revolução no país. Os setores conservadores promoveram uma comoção contra o livro, condenando a ser queimado em praça pública por pressão da Igreja.

Francisco Bilbao exila-se na Europa, participa da revolução francesa de 1848, conhece pessoalmente Edgar Quinet, Jules Michelet e o Abade Lamannais, de quem sofreu forte influência. (SCHEIDT, 2010, p.52)

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De volta da Europa, funda junto com Santiago Arcos a “Sociedade Igualitária” e teve importante participação na tentativa revolucionária armada em São Felipe. Sua obra política e elaboração teórica evoluem do liberalismo radical ao socialismo. (idem p. 54)

Sua abordagem do processo revolucionário chileno denota que a fundação do Chile, enquanto país independente, herdou da Espanha uma cultura e um atraso relacionados com a idade média, caracterizado pelo feudalismo. Este passado bárbaro era representado em toda a sua força pelo papel da igreja católica, identificada com a aristocracia agrária e com o sustentáculo ideológico da monarquia espanhola. (IDEM p.56)

A legitimidade da colonização havia constituído uma “creencia”, baseada no atraso e na ignorância dos povos rurais. Para alterar esse quadro seria necessária a edificação de um novo conjunto de ideias, hábitos e mentalidades calcados na vida urbana. Esse futuro estaria sendo gestado nas idéias iluministas que edificariam o republicanismo, a igualdade social, o liberalismo e a democracia através da ruptura com o passado colonial (Idem p.57).

Sua ideia central é que a revolução americana e as idéias defendidas por Simon Bolivar e o Genaral O’Higgins iniciaram uma mudança de estrutura, com a construção de novas instituições e a ruptura com o passado colonial. Porém, enfatiza que estas foram bloqueadas pela ausência de bases sociais. Essa ausência possibilitou que a nova mentalidade não se materializasse e que mantivesse a antiga mentalidade organizada e disseminada pela ação conservadora dos governantes.

Isso abriu espaço para a destruição do republicanismo, com o ascenso de despotismos e da contra-revolução, que apontavam para a restauração da ordem colonial, agora sem a metrópole.

Bilbao acreditava que os pilares dessa volta ao passado estava assentada nas bases rurais, ignorantes e isoladas, que tinham uma vida pacata e tradicional; tendo como horizonte aquilo que foi difundido pela Igreja católica e pela Coroa de Espanha. Esse humos adubava os fundamentos para a contra-revolução.

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Dessa forma, Bilbao entenderá que essas bases compunham a barbárie e que a cidade, a vida difundida através das inovações tecnológicas, do comércio e das artes era a modernização e representava a civilização1.

Bilbao antecipou-se ao debate colocado por outros setores de esquerda sobre dois pontos. Foi o primeiro intelectual a fazer uma distinção entre América do Norte e do Sul. Até então o conceito América era identificado com todo o continente, com o republicanismo, a conquista de democracia e a Europa era vista como despótica e monárquica. Isso ocorre após a guerra entre Estados Unidos e México, quando mais de um terço do território mexicano foi anexado ao vizinho do norte.

O que levou que considerasse que a ação dos Estados Unidos não visava o bem comum do continente. Observou que os Estados Unidos tinha interesses distintos dos demais países da América e que tal qual a Rússia, buscava dominar o mundo. (SHEIDT, 2010, p.61)

Ele observa, ao contrário de quase todos intelectuais de seu tempo, que a ação dos estadunidenses visava subordinar o restante do continente aos seus interesses e denuncia o individualismo político dos EUA.

O intelectual chileno teceu críticas duras à questão nacional e à fragmentação em várias nações, pois via nessa divisão um fator importante na perda de capacidade material e aumento da pobreza, o que colocaria em desvantagem o Sul em relação ao Norte. Dessa forma conclama a realização de um congresso Americano para reunir os países do Sul, sugerindo como meio de edificação da nação americana a Confederação dos Países do Sul. Visava, com isso tanto afirmar a nação sul-americana como única, capaz de barrar a dominação que se desenhava pela ação dos Estados Unidos. (idem p.63)