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A mediação pedagógica é decisiva na formação e ação do professor, e nas interações estabelecidas por ele, o que favorece aprendizagem de todos os envolvidos em um processo educativo.
Imbernón (2000, p.85), ao elencar aspetos educacionais atuais, destaca o docente como gestor e mediador da aprendizagem:
um meio social baseado na informação e nas comunicações; a tendência a que tudo seja planejado; uma situação de crise em relação ao que se deve aprender e/ou ensinar em um mundo onde imperam a incerteza e a mudança vertiginosa; o novo papel do educador como gestor e mediador de aprendizagem.
O conceito de mediação, para Sacristán (2000), transpõe a relação professor- aluno, e ganha a dimensão de estar entre o currículo e os alunos. Reconhecer essa perspectiva de mediação é refletir sobre mais um aspecto da formação de professores, ou seja, na configuração da profissionalização e na competência técnica e pedagógica dos docentes. A mediação não é apenas a intervenção direta sobre o currículo, mas, sobretudo, é a relação entre os alunos e o currículo, pensada e viabilizada pelo educador. O mesmo tem compromisso com a seleção de conteúdos para um determinado grupo de alunos, a escolha dos meios mais adequados a serem utilizados e aspectos mais relevantes a serem avaliados. O professor meramente executor de diretrizes é um professor desprofissionalizado.
O mesmo destaca a mediação do professor nas propostas curriculares como decisiva para que se compreenda por que os estudantes diferem no que aprendem e nas atitudes para com o que aprenderam. O professor é mediador entre o currículo e o aluno a partir da significação do currículo e do conhecimento para ele; em outras palavras, o professor traz significados adquiridos durante sua formação e de sua experiência sobre elementos curriculares (conteúdos, habilidades, orientações metodológicas, pautas de avaliação...). Qualquer inovação que se proponha influenciará sua formação, segurança e controle. Porém, na assimilação do novo, há também um processo de acomodação entre a proposta e o que já faz parte da formação e experiência docente. Por isso, a concepção de currículo como um projeto na ação, pautado em situações problema, envolve dilemas e dissonâncias em relação ao professor, mas a resolução de problemas pode gerar um currículo novo e adaptado ao contexto e às pessoas. Aproveitar os momentos de ruptura é evitar a tendência reprodutora do currículo.
Partindo de conceituações teóricas, analisa-se o termo mediação pedagógica que aparece inúmeras vezes nos diálogos, nas entrevistas e respostas aos questionários dos sujeitos da pesquisa. Este termo parece estar incorporado às
práticas docentes de muitos professores, como algo realmente vivido e concebido como tal. Seguem alguns momentos em que o termo é utilizado na fala dos sujeitos:
Primeiro as oficinas eram propostas pelo professor, depois passou a ser proposta pelos alunos que convidavam professores para fazer a mediação pedagógica. E atualmente, em mais um momento de transição, visa-se um diálogo entre estudantes e professores para fazer esse processo de construção da atividade.
Essa é a fala de um professor que atua no grupo das Interações Culturais e Humanísticas, e participou desde a concepção das ICHs até o momento atual, em que professores, técnicos, alunos e comunidade se reúnem para trocar saberes- fazeres que fazem parte da vida social e cultural. Nessa interação entre pessoas, a mediação pedagógica se destaca como atitude docente, como afirma Masetto (2003, p.48),
A interação professor-aluno, tanto individualmente quanto com o grupo, se destaca como fundamental no processo de aprendizagem e se manifesta na atitude de mediação pedagógica por parte do professor, na atitude de parceria e corresponsabilidade pelo processo de aprendizagem entre aluno e professor e na aceitação de uma relação entre adultos assumida por professor e aluno.
Quando indagado sobre o processo de integração de novos professores no Projeto Litoral, o gestor entrevistado relata que:
o processo de integração de servidores docentes e técnicos e dos discentes segue uma proposta dialética, de um desvelar de tudo, advinda do campo marxista. Há uma caminhada do conhecer para compreender, compreender para propor, propor para agir. O professor tem um ano para fazer esta caminhada, antes de um ano não é atribuída nenhuma atividade para ele a não ser a que ele próprio decida assumir. Há professores que ficam ansiosos porque não há nenhuma incumbência diretamente atribuída a eles e outros ‘se deitam nas cordas’ porque não têm nada para eles fazerem e necessitam de uma mediação da direção. O professor visita as quinze câmaras antes de escolher as câmaras das quais vai participar. Ele participa com outros professores de atividades das ICHs e dos PAs, dos Projetos Institucionais e dos FTPs. Há todo um acolhimento para ele perceber a fundamentação teórica que tem no Projeto Litoral. Há professores que assumem tudo, se envolvem em tudo, dizem que é tudo o que eles procuraram na vida, um ano depois já estão desistindo, porque eles não perceberam que é uma caminhada de longo prazo, não é uma ‘corrida de 100 metros’, é uma caminhada de vida, é uma opção de vida.
O termo mediação aparece na fala do sujeito entrevistado para expressar o momento em que conversa com o docente em dúvida com relação às suas ações frente à proposta educacional emancipatória. A mediação difere de uma orientação, pois orientar significa dar a direção, mas mediar é acolher as dúvidas e angústias pessoais e facilitar que o outro encontre sua direção.
Quando o gestor entrevistado é questionado sobre as etapas de elaboração, implantação, avaliação e replanejamento do Projeto, aparece, mais vezes, o termo mediação:
A avaliação e o planejamento que se faz anualmente, todos participam, e servem para repensar o projeto politico pedagógico; por isso é um espaço de formação. Assim como o conselho semanal é aberto para falas longas e informes, para todos que querem participar, inclusive pessoas externas. Os professores aqui aprendem nessa caminhada aprendendo uns com os outros. Um dos desafios é manter os eixos integrados para o desenvolvimento de todas as propostas. O professor, pela sua caminhada pode se sentir mais confortável nas FTPs, em sala desenvolvendo módulos. Mas o professor precisa atuar na mediação dos projetos e nas oficinais, além da mediação nos FTPs.
Nesse contexto, mediação é tarefa docente nos três eixos curriculares constituintes do Projeto Litoral. Mediar é atitude primordial nos módulos dos Fundamentos Teórico-Práticos, nas oficinas das Interações Culturais e Humanísticas e nos Projetos de Aprendizagem. Mediar, nesses momentos é, conforme Masetto (2011), propor objetivos de aprendizado, mediar experiências e sistematização do conhecimento, planejar situações de aprendizagem, agir em parceria e corresponsabilidade com os alunos, articular os espaços e tempos educacionais, coarticular a experiência coletiva de construção da formação profissional.
E quando o docente é questionado sobre como as atividades formativas dos três eixos curriculares contribuem na sua formação continuada, ele responde:
no espaço dos Fundamentos Teórico-práticos [FTP]: ocasiões de construção e socialização do conhecimento junto aos alunos, através de seminários de discussão e reflexão sobre o conhecimento elaborado, seminários sobre questões de reconhecimento local com participação da comunidade, nas atividades de construção dos portifólios de aprendizagem dos alunos em cada etapa de síntese de módulos ou projetos, e nas atividades de investigação e extensão. No espaço dos Projetos de Aprendizagem [PA]: processo de
construção dos Projetos de aprendizagem, trabalho este que pressupõe alinhamento à ideia/temática dos alunos, exigindo abertura teórica e aprendizagem constante para auxiliar os educandos na referida construção, nas trocas com colegas docentes sobre temáticas que fogem ao seu escopo de conhecimento – bibliografias e experiências. No espaço das Interações Culturais e Humanísticas [ICH]: interação propiciada entre professores e educandos, numa inédita relação dialógica e não hierarquizada de compartilhamento de saberes, proposição das oficinas e trabalhos de interação cultural e humanística com os membros da comunidade que participam deste espaço, para além da comunidade acadêmica, busca de saberes-fazeres que auxiliem na mediação do espaço (S5).
O termo mediação aparece como uma atitude docente frente a um espaço de aprendizagem, no caso as Interações Culturais e Humanísticas, sendo tarefa docente buscar saberes e fazeres, que não sejam simplesmente transmitidos, mas sobretudo, que auxiliem pessoas nesse espaço interativo e formativo.
Em Masetto (2010, p.175), mediação pedagógica é conceito de destaque na educação superior, pois a entende como:
a atitude, o comportamento do professor que se coloca como um facilitador e incentivador ou motivador da aprendizagem, que se apresenta com a disposição de ser uma ponte entre o aprendiz e sua aprendizagem.
Para o autor (2010, p.174-5), a interação professor-aluno se manifesta na atitude de mediação pedagógica por parte do docente, na atitude de parceria e corresponsabilidade pelo processo de aprendizagem entre aluno e professor e em uma relação educativa entre adultos. Neste contexto, o autor elenca características da mediação pedagógica, que são: dialogar sobre o que ocorre no momento da aula; trocar experiências; debater dúvidas, questões, problemas; apresentar perguntas orientadoras; auxiliar o aluno quando ele não consegue seguir sozinho; garantir a dinâmica do processo de aprendizagem; propor situações-problema e desafios; desencadear e incentivar reflexões; relacionar aprendizagem e realidade; conectar conhecimento, adquirido e novos conceitos; colocar o aluno diante de questões éticas e conflituosas; desenvolver crítica; incentivar que o aluno use e domine novas tecnologias e que não seja comandado por elas; e que comunique seu conhecimento.
Fagundes (2009) defende que professores, de forma geral, formaram-se sob a forte tradição da educação, na qual a universidade foi e, em muitos lugares, ainda
é considerada a principal produtora de conhecimentos, tendo na figura do professor o fiel transmissor e, cabendo ao acadêmico, o papel de depositário e/ou de
reprodutor de um conhecimento técnico e pragmático. Nesse contexto, a mediação é outro modo de se colocar frente ao processo de aprendizagem, em uma perspectiva dialética, em que a negação do que é posto dá lugar à construção de novas sínteses.
Por fim, mediação não é simplesmente um termo que busca o equilíbrio e a homogeneidade na construção do conhecimento e sim, como conceitua Almeida (2001), busca diferença, crítica e um necessário desequilíbrio:
Esta negação recíproca não permite que a mediação, quando entendida em uma relação dialética, acolha ideias que tenham por base a igualdade, a homogeneidade, a aproximação ou o equilíbrio; ao contrário, ela tem por referência a diferença, a heterogeneidade, a repulsão e o desequilíbrio (ALMEIDA, 2001, p. 50).