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Configuração local de um procedimento genérico em que uma verdade se sustenta (BADIOU, 1996, p. 307), o sujeito é raro, é rigorosamente singular e é qualificado (“qualificado”, porque nem todo humano se faz um sujeito, posto que sujeito é sujeito de uma verdade, e há os que, das verdades, nada querem saber). O sujeito é a incorporação de um evento a uma situação. Mais especificamente, ele é a juntura de um evento a um procedimento de
fidelidade (BADIOU, 1996, p. 193) quando uma verdade o captura. Tentaremos esclarecer esses conceitos tomando como situação-exemplo a autoanálise de Freud e a verdade dos desejos inconscientes, incestuosos e parricidas metaforizados na narrativa sobre o Édipo.
A persistência do sujeito Freud em sustentar a verdade do inconsciente pode ser percebida logo no início de sua obra, em sua disposição à autoanálise (procedimento que ele considerou impossível, mas, contraditoriamente, realizado97). Iniciada em torno de 1890, a autoanálise consistiu num longo, meticuloso e aguçado auto-escrutínio, no qual foram investigados desejos e emoções que ajudaram Freud a reconstruir os primeiros anos de sua vida. Os métodos usados foram a livre-associação, a observação de lembranças e de lapsos e, principalmente, a análise de seus próprios sonhos (GAY, 1989). O que esse trabalho produziu em Freud, até 1897, na forma de intensas variações de humor, frustrações, desagrados, dor e resistências, mas também na forma de sua persistência e de sua inteligência qualificada foi, no plano pessoal, o reconhecimento de impulsos ocultados sob as lembranças, como a de uma babá católica, lembranças da visão do corpo seminu de sua mãe e desejos de morte contra o irmão mais novo. No plano teórico, produziu o abandono da teoria da sedução e a postulação da universalidade do complexo de Édipo: “Agora tudo se encaixava. Ele reconhecia que sua lembrança de paixão pela mãe e ciúmes do pai era mais do que uma idiossincrasia pessoal... A relação edipiana da criança com os pais era um acontecimento generalizado na primeira infância” (GAY, 1989, p. 106).
Se no meio daquela densa e elaborada trama, houve um instante em que uma verdade (a do complexo edipiano) capturou Freud – a verdade já instava (pedia reconhecimento) até que finalmente eclodiu –, propomos que tal instante tenha sido coincidente à descrição que ele fez, para o amigo W. Fliess, de algo específico ocorrido em outubro de 1897: “o clarão de um relâmpago iluminou as ligações e me permite entender o que se passara antes, como uma preparação para o presente” (FREUD citado por GAY, 1989, p. 106). Diremos que essa figura de linguagem, o “relâmpago”, é o nome que traduz o evento que suspendeu Freud e que o fidelizou à sua verdade edipiana, até então, inconsciente. Como assinala o biógrafo, outras descobertas importantes povoaram, depois, aqueles dias: a origem do sentimento inconsciente de culpa, as fases do desenvolvimento psicossexual, os romances familiares, a natureza dos lapsos etc. Ou seja, Freud começou a desdobrar a verdade edipiana em outras, e a conectá-las, por sua vez, a mais outras situações.
Vimos no capítulo anterior, na seção sobre o sítio eventural, que o evento é uma exceção sustentada cegamente por um sujeito (cegamente refere-se, aqui, à apresentação sem-sentido do próprio evento para o sujeito), exceção à qual ele se mantém fiel, porque intui haver ali uma verdade (um indiscernível), porém, promissora de um sentido. Podemos propor que, na elaboração do Édipo feita através de sua autoanálise, a verdade a que Freud se fidelizou a partir do evento cujo nome dado por ele foi “relâmpago” (o relâmpago de seu insight), foi a verdade da descoberta de seu complexo edipiano, do qual ele extraiu um enunciado a ser investigado em seus pacientes.
O evento se prenunciava nos meses anteriores, quando ele estivera cegado pelo sem- sentido de estar “estagnado”, experimentando preguiça e um “arrastar-se à toa”, alternado com “ser puxado à força através de todo o seu passado” (GAY, 1989, p. 105-106). Tais sensações, experimentadas como um desconforto da consciência, eram o que do evento e da verdade ligadas a ele se prenunciava (assim como quando estamos prestes a descobrir em um filme de suspense, algo inédito, mas que em nossa consciência ainda não reconhecemos, e do qual só quase-percebemos pistas, e pelo que ficamos justamente em suspenso olhando para a tela e aguardando).
A promessa de sentido, intuída em meio ao sem-sentido daquele período, comparece numa carta a Fliess, na qual, referindo-se à autoanálise, Freud escreve: “minha autoanálise, que
considero indispensável para o esclarecimento de todo o problema, tem continuado em sonhos e me oferecido as mais valiosas explicações e pistas” (citado por GAY, 1989, p. 105-106). A fidelidade de Freud à verdade do Édipo está em uma afirmação taxativa sobre seu auto- escrutínio: a autoanálise “precisa ser feita”.
Um procedimento de fidelidade é uma relação funcional com um evento (BADIOU, 1996, p. 188). É uma operação, ou seja, uma estrutura que opera no estado da situação e que se define por esta, por um múltiplo particular (o evento) e por uma regra de conexão (o operador de fidelidade que é um segundo evento necessário para suplementar a situação98). O sujeito é o que liga este operador ao evento. Em nossa proposta, o procedimento de fidelidade foi a autoanálise de Freud. Para falarmos em termos de uma anterioridade lógica de um procedimento de fidelidade em relação a um evento, diremos que o nome do evento é “o relâmpago”, ponto real que o atravessou fazendo furo na situação de suas certezas anteriores (a teoria da sedução)
98 “será preciso admitir que o operador de conexão surge, de fato, como um segundo evento.... é preciso admitir que, além do evento, propriamente dito, há esse outro suplemento à situação que é o operador de fidelidade” (BADIOU, 1996, p. 193),
e das certezas dos saberes instituídos pela medicina e pela psiquiatria de sua época99. E o operador de fidelidade (o segundo evento que ligou Freud ao primeiro), este não é identificável, não há como descrevê-lo, não há como “estatizá-lo”. Isto porque “o operador de conexão não tem nenhuma ligação de princípio com a pertença ou a inclusão. É ele mesmo sui generis, próprio da fidelidade e, consequentemente preso à singularidade eventural” (BADIOU, 1996, p. 191).
Segundo Badiou (1996), a ocorrência do operador de fidelidade indica que quanto mais a fidelidade for real, mais ela será verdadeira e inatribuível a uma função definida do estado da situação. Menos próxima ela estará do estado, e ela será menos institucionalizada. Tal fidelidade organiza na situação uma outra legitimidade de inclusões, construindo uma espécie de “outra situação” (p. 192).
O sujeito é uma quarta via, diferente das três orientações no pensamento já mencionadas no Capítulo 1, e transversal àquelas. Via para a qual “a verdade do impasse ontológico não se deixa apreender nem pensar na imanência à própria ontologia ou à metaontologia especulativa” (BADIOU, 1996, p. 227).
O sujeito não é uma substância. Ele também não é o ser nem é uma função transcendental. Se existe uma matéria do sujeito, ela nada mais é que “os termos submetidos a investigação num momento dado do procedimento genérico” (BADIOU, 1996, p. 309). A essência do sujeito, sua matéria, é o trajeto que liga os termos de uma investigação. Quando falamos de Freud falamos de seu percurso. O percurso de sua teoria. O sujeito Freud é a própria trama de seus conceitos100.
O sujeito é finito. A verdade a que ele permanece fiel é infinita. Uma verdade será eterna (infinita no tempo) na medida em que houver, em sucessivas (e, às vezes, distantes) épocas cronológicas, um sujeito posto a ressuscitá-la, a partir de algo dela. Deste modo, algo de uma verdade que ficara não desenvolvido no trabalho de um sujeito, é ressuscitado a partir do trabalho de outro (o diagnóstico estrutural de Lacan em relação ao trabalho nosográfico de Freud é um exemplo disto).
O discernimento que o sujeito faz numa investigação entre as conexões e desconexões dos múltiplos de uma situação que traga o nome do evento é, segundo Badiou (1996, p. 311),
99 “Punto real como lo vio Lacan, es propriamente ese insensato que, por si miesmo, no mantiene otra relación con el lenguaje que la de hacer en él un agujero” (BADIOU, 2008b, p. 429). Tradução nossa: “Ponto real, como viu Lacan, é propriamente esse sem-sentido que, por si mesmo, não mantém outra relação com a linguagem que a de fazer nela, um furo”. A linguagem, como já veremos, é uma produção do sujeito, da língua-sujeito.
100 O livro de Renato Mezan, Freud: a trama dos conceitos (Perspectiva, 1982) apresenta este sujeito Freud: os conceitos principais da teoria, as relações entre eles, a lógica interna de sua articulação, o mover de seu pensamento.
uma verdade aproximativa. Aproximativa porque os termos investigados estão por vir numa verdade. Quanto a este por vir, o filósofo faz uma importante observação sobre o descrédito ou o ceticismo com que é acolhida, muitas vezes, na história das ciências, uma nova descoberta.
Uma vez que o sujeito gera nomes dependentes de uma verdade por vir a aparecer, numa situação assim, uma testemunha exterior ao procedimento de verdade considerará que os nomes apresentados no presente são “vazios” (no sentido de desimportantes ou de “sem sentido”). Os nomes que o sujeito introduz parecerão ao observador externo desinteressado, ou interessado apenas em desqualificá-lo, uma língua “arbitrária e sem conteúdo. É por isso que... uma revolução científica é acolhida com ceticismo... Os nomes que o sujeito gera – ou, antes, compõe – estão pendentes, quanto à sua significação, do por vir de uma verdade” (BADIOU, 1996, p. 312).
Pensemos no desprezo e nos ataques que a comunidade médica científica lançou inicialmente a Freud, quando de seus primeiros comunicados psicanalíticos. Por exemplo: em 21 de abril de 1896, ao apresentar sua “teoria da sedução” para um grupo restrito de especialistas nos desvios da vida erótica (grupo que incluía o renomado Richard von Krafft-Ebing), Freud incluiu a ideia de que as origens da histeria poderiam ser localizadas no abuso sexual sofrido na infância, e o acolhimento foi “gélido”, conforme seu parecer. E Krafft-Ebing deu um veredito desapontador: “Parece um conto de fadas científico” (GAY, 1989, p.100). O renomado pesquisador foi aquele observador externo para o qual as ideias de Freud (e seus conceitos) não poderiam mesmo ser portadoras de sentido.
Mas qual será o critério de veridicidade daquilo que um sujeito pronuncia? Entra em questão o que Badiou (1996) chama de lei fundamental do sujeito, qual seja:
uma lei do futuro do presente. Esta lei é a seguinte: se um enunciado da língua-sujeito é tal que ele terá sido verídico para uma situação de que adveio uma verdade, é porque existe um termo da situação que ao mesmo tempo pertence a essa verdade (pertence à parte genérica que é essa verdade) e mantém com os nomes postos em jogo no enunciado uma relação particular. Esta relação depende dos determinantes enciclopédicos da situação (do saber) (p. 314).
Exemplifiquemos. Se de Freud (“língua-sujeito”), um enunciado seu, dito no futuro do presente (“toda criança terá experimentado desejos incestuosos”), tiver sido verídico para uma situação (a autoanálise) de que adveio uma verdade (“se eu quis vê-la nua, é porque eu teria desejado minha mãe”), poder-se-á dizer que tal veridicidade (a própria frase construída a
posteriori) advêm de uma verdade (ter desejado a mãe), uma vez que existe ao menos um termo da situação (um termo da situação de sua autoanálise: a lembrança da visão do corpo seminu de sua mãe), que, ao mesmo tempo pertence a essa verdade (“ver o corpo da mãe” pertenceu na
experiência do garoto Freud a “ter desejado a mãe”) e mantém com os nomes postos em jogo no enunciado inicial (“criança” e “desejos incestuosos”) uma relação dependente dos determinantes enciclopédicos da situação (determinantes sabidos por ele a partir da situação que foi sua autoanálise. “Sabidos” porque enciclopédicos101).
O leitor terá percebido que apesar da diferença de tempos verbais entre o enunciado do sujeito (“toda criança terá experimentado desejos incestuosos” – futuro do presente) e o enunciado sobre uma verdade suposta (“teria eu desejado minha mãe” – futuro do pretérito composto), no homem Freud (datado e biografado), a lei fundamental do sujeito foi a mesma daquele que enunciou um postulado científico. Pois, como escreve Badiou (1996), um enunciado científico é hipotético e é obrigado a se referir apenas ao que a situação de sua investigação apresenta, no entanto, ligando-se ao futuro do pretérito da existência de um indiscernível (tempo verbal do enunciado científico)102. Então vejamos: tendo partido de sua história pessoal (de suas particularidades) e da descoberta em si mesmo de desejos inconscientes, Freud postulou que tais desejos (inclusive edipianos) seriam verificáveis universalmente. Seriam, portanto, uma verdade científica.
Como o autor explica (BADIOU, 1996, p. 314), no curso desse processo/procedimento de verdade, basta que o sujeito comprove a existência de um termo ligado ao enunciado em questão por uma relação que seja, ela mesma, discernível na situação (citamos a visão que Freud diz ter tido do corpo seminu de sua mãe), para que sua pertença à verdade (à parte indiscernível que é o ser-múltiplo de uma verdade) imponha na nova situação, a veridicidade do enunciado inicial. No caso de Freud, o “um termo” foi a visão que ele diz ter experimentado do corpo seminu de sua mãe, e a “nova situação” foi tudo o que se seguiu à descoberta do complexo de Édipo - tanto para ele, em sua autoanálise, quanto para seus pacientes e para a cultura ocidental. A relação implicada na lei fundamental do sujeito é uma relação de forçamento, a qual tem uma versão na ciência matemática de Cohen ao modo de uma técnica. “Cohen estabelece o esquema ontológico da relação entre o indiscernível e o indecidível. Ele nos mostra, assim, que a existência de um sujeito é compatível com a ontologia” (BADIOU, 1996, p. 321).
101 Vimos no primeiro capítulo que as enciclopédias são o lugar das veridicidades. Os determinantes enciclopédicos são os da situação de um saber instituído e corrente, por exemplo, numa tradição específica de pesquisa científica. Determinantes do que um paradigma faz vigir como saber instituído ou estatizado, às vezes, por longos períodos históricos.
102 É que sobre uma verdade, um indiscernível, só se pode fazer uma aposta: “Uma verdade é sempre indiscernível” (BADIOU, 1996, p. 393).E ainda: um sujeito é aquele que se serve dos nomes para fazer hipóteses sobre a verdade (BADIOU, 1996, p. 312).
Pareceu-nos surpreendente que a matemática contemporânea admita a possibilidade da existência de um sujeito103. Não se trata do sujeito psicológico – aquele dos projetos científicos wundtiano, skineriano, gestaltista etc., decorrentes da “crise da subjetividade privatizada” e apresentados por Figueiredo e Santi (2007) – mas, sim, se trata do sujeito enquanto elemento de ligação de um evento a um procedimento de fidelidade, pensável em termos lógicos (lógico- matemáticos).
O exemplo que Badiou (1994) nos dá, alguns anos depois de O ser e o evento, é o de Galileu: “Galileu pôde levantar a hipótese de que a natureza toda está escrita em linguagem matemática; o que é a hipótese de uma física completa104. Baseado nessa antecipação, ele força
o adversário aristotélico a abandonar a própria posição” (p. 48).
Se Galileu força a tradição aristotélica a aceitar sua hipótese da natureza escrita em caracteres matemáticos, por analogia, assim também vemos Freud fazendo uma aposta e forçando a ciência mais tradicional de sua época (que ele nomeava como “ciência oficial”) a reconhecer a existência de indiscerníveis que teimavam em bater na sua porta e na porta daquela ciência (por exemplo, através da apresentação dos sintomas histéricos que ocorriam nas pacientes).
Diante dos impasses da clínica (“mas de onde vêm esses sintomas histéricos?”) aconteceu como se Freud dissesse: “Sim. Não sei do que se trata. Não está em minha consciência nem na consciência dela a resposta. Então, deve existir um outro ‘lugar’ diferente do da minha consciência e da consciência dela, um lugar não anatomicamente localizável, que
corresponda ao que acontece no corpo da paciente e que responda à minha indagação. A partir de um conhecimento provável sobre ‘ele’ (o ‘lugar’) farei frente a esses sintomas. Mas, como não estou só nessa tarefa, dependo de que a paciente me dê elementos para compreender em sua história vivida (ou vivida como um desejo dela, do qual também ela nada sabe) o/s elemento/s que determinou/determinaram o surgimento de seus sintomas. Eu pedirei que ela fale tudo que vier ao seu pensamento, sem restrições. Assim, pedindo a ela, eu o forçarei (‘ele’, aquele ‘lugar’) a apresentar-se”.
Estamos aventando a hipótese (trata-se de uma hipótese) de que, com seu método, Freud nos permitiria pensar o que há de matematizável, portanto cientificizável na psicanálise,
103 “Tudo o que do sujeito é seu ser – mas um sujeito não é seu ser – é identificável por seu traço na juntura do indiscernível e do indecidível, que os matemáticos, por uma inspiração sem dúvida feliz, circunscreveram cegamente sob o nome de forçamento” (BADIOU, 1996, p. 335).
104 Física completa, no sentido anteriormente explicado pelo autor, como sendo um conjunto genérico, ao mesmo tempo infinito e indistinto.
considerando-se que a “regra fundamental” de livre-associação, ao produzir um forçamento, seria, talvez, um equivalente da técnica do forçamento de Paul Cohen.
Nossa hipótese é puramente intuitiva (no sentido simples do termo “intuição”: hipótese baseada na suposição de uma verdade referente a alguma situação, das quais – suposição e situação – ainda faltam elementos para compreendê-las e para demonstrá-las). Pois não somos matemáticos. Seria uma impostura nos arriscarmos, aqui, a discorrer sobre a técnica de P. Cohen. Remetemos o leitor às Meditações 33, 34 e 36 de Badiou (1996) em O ser e o evento para uma aproximação a algo tão complexo. Porém, como o tema nos interessa, deixaremos para a oportunidade de uma futura pesquisa o estudo daquela matemática em relação com a prática psicanalítica.