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Model Parameters

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6.3 Model Parameters

Contudo, as próprias matemáticas, e qualquer outra ciência, não são capazes de “dar conta” integralmente do sujeito. Pois o sujeito é inconsciente, e o inconsciente é “um nome para a separação irredutível entre identidade subjetiva e consciência” (BADIOU, 1997, p. 37). O sujeito não é o sujeito da consciência, porque é diagonal às orientações no pensamento (orientações construtível, genérica e transcendental), as quais se estabelecem inconscientemente ao tentarmos resolver a errância do excesso quantitativo entre a situação e o estado da situação. Errância, da qual, Badiou nos fala em O ser e o evento (1996) e sobre a qual escrevemos no primeiro capítulo desta tese. Elas se estabelecem no ponto real desse excesso errante, o qual indica simplesmente que sempre há submúltiplos que, embora incluídos numa situação, não são nela numeráveis como termos da situação.

Perguntemos: que é uma experiência de angústia desorganizadora do estado de consciência, portanto, do pensamento, senão que uma experiência afetiva de real? “Afetiva” no sentido de “ser afetado por (algo)”. O ponto real do excesso errante a que Badiou se refere não seria esse “ponto” que para nossos pacientes – estejam eles em posição neurótica ou psicótica – surge como experiência afetiva de incontornável angústia? Pois são raros os momentos em que se obtém de tal experiência, assim desorganizadora, uma sublimação ou um encontro amoroso feliz105.

105 É o próprio Badiou (2012) quem nos diz, em um livro escrito em parceria com E. Roudinesco, que, como filósofo, estudioso das matemáticas, escritor de teatro e romances, sujeito amoroso e ativista político, não

Em Freud (1915/1980, p. 176-177), os afetos (ao lado do representante ideativo) são os representantes psíquicos da pulsão. São também a expressão da quantidade de energia pulsional. Eles têm como destinos possíveis a supressão, a transformação em quota qualitativamente diferente, ou a transformação em angústia. Freud, fiel à verdade do que o afetava e à proposta de dar àquilo (a Isso) um tratamento científico, fez, ao longo de sua obra, um trabalho gigantesco de tentar resolver o problema dos afetos, fosse no plano pessoal (autoanálise), clínico (elaborações sobre a transferência106) ou teórico. Neste último plano, ele o fez desde o

Projeto para uma psicologia científica, de 1895, até à Conferência XXXII (“Angústia e vida

pulsional”), de 1933, passando, especialmente, pelos textos da metapsicologia – dos quais destacamos, “As pulsões e seus destinos”, “Recalque” e “O inconsciente” – e por “Inibições, sintomas e angústia”, de 1926.

Essa energia pulsional quantitativa que aqui estamos pareando à errância do excesso quantitativo postulada por Badiou (1996) é passível de ser contornada, mas não resolvida, justamente quando se pensa construtivelmente (as representações “razoáveis” deixando fora da conta os indiscerníveis), transcendentalmente (forma de pensamento para a qual haveria um múltiplo representativo que, fixando um ponto de parada da errância do pensamento, daria um fecho às multiplicidades), ou, ainda, genericamente (com o pensamento genérico chega-se ao mistério do excesso quantitativo do ser, mas ele não será resolvido107).

As ciências, como todos os campos onde sujeitos aparecem, não são capazes de abranger o sujeito singular engajado em algum procedimento específico de verdade, pois não está sob seus domínios o passo que só o sujeito pode dar para se colocar no processo de uma verdade. No caso de uma psicanálise seus desdobramentos podem forçar o sujeito, ou seja, levá-lo ao ponto-limite de dar o passo, mas não ao ponto de dar o passo por ele próprio.

considerou ser necessário se submeter a um processo analítico para lidar com sua própria angústia: “Minha emancipação pessoal... passou pelo ativismo político, pelo encontro amoroso, pela escrita teatral e romanesca, pelo gosto pelos formalismos matemáticos, tudo isso reunido, afinal, na filosofia. Não julguei necessário acrescentar a essas experiências uma análise. Acho que, como o próprio Lacan, sempre considerei que só cabe se engajar num tratamento analítico quando nos sentimos afetados por sintomas que introduzem em nossa vida impotência e sofrimento excessivos. Sendo suportável o sofrimento, por assim dizer, normal, o único motivo para buscar uma análise seria o de me tornar psicanalista. Por minha parte, engajado numa lógica política coerente, ativando simbolizações filosóficas multifacetadas e, principalmente, sendo feliz na existência, considerei poder perfeitamente não assumir um tratamento” (BADIOU & ROUDINESCO, 2012, p. 33).

106 “As reações do analista ao analisando são formalizadas [por Freud na década de 1910] nos termos de uma contratransferência... A partir da inserção da contratransferência no repertório conceitual da experiência psicanalítica demanda-se do analista uma postura: ou bem, este tenta chegar ao domínio de suas motivações inconscientes e, por conseguinte, de seus investimentos afetivos submetendo-se a uma experiência de análise, ou bem ele as utiliza em nome de sua técnica” (HERZOG, MAGALHÃES & GONDAR, s/d).

107 “Nesta via o mistério do excesso será não reduzido, mas alcançado. Será conhecida sua origem, que é que o anonimato das partes está forçosamente além das distinções das pertenças” (BADIOU, 1996, p. 226-227).

A ontologia (matemática) não é capaz de fechar “o hiato sem medida que há entre a pertença e a inclusão” (BADIOU, 1996, p. 334), mesmo se, na sua práxis, conscientemente ou não, ela procure lidar com os excessos quantitativos como se fossem passíveis de ciframento. Tal incapacidade, na matemática,é uma consequência de haver “uma interferência textual entre o dizível do ser-enquanto-ser e o não-ente em que se origina o sujeito. Essa interferência resulta de que o sujeito deve poder ser, ainda que ele dependa do evento, o qual pertence a ‘o-que-não- é-o-ser-enquanto-ser’” (BADIOU, 1996, p. 334).

Diremos de outro modo (e ao modo freudiano): ali onde toda forma de cálculo encontra uma aporia, um sujeito pode advir. Pois o forçamento é obra do sujeito. “O impasse do ser, que faz errar sem medida, o excesso quantitativo do estado, é, na verdade, o passe do sujeito... Todo sujeito passa à força num ponto em que a língua falha, e em que a ideia se interrompe” (BADIOU, 1996, p. 335).

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