2.5 The social planner problem
2.5.2 Solving the social planner problem
Os sujeitos da pesquisa mostraram a grande inserção na mídia televisiva de programas destinados a discutir a questão da saúde.
Eu só assisto jornal e Silvio Santos. Novela eu não assisto[...]. E às vezes, um programa tem um médico né, depois de Ana Maria Braga, aí tem um médico. Às vezes, quando eu tô trabalhando que tem uma horinha vaga, às vezes, eu dou uma olhadinha, mas é muito difícil, porque a gente que trabalha né!? Não pode estar assistindo televisão, dá pra ver a televisão, mas de passagem (ENT 7, p.14). Não, eu não gosto não. Minha menina é quem gosta. Às vezes ela liga aí diz “Mãe, ligue aí a televisão e bote aí no canal 7, tá passando um negócio da saúde”. “Eu não quero escutar isso não!” [eu respondo]. Aí ela briga comigo, ela tem raiva “Mulher, escute aí que tá passando um bocado de coisa boa,
ensinando as coisas boa, escute aí”. “Mulher eu não tenho tempo não” [eu respondo] (ENT 10, p.25).
Sempre eu assisto de manhãzinha, antes de trabalhar. Tem um canal que sempre passa alguma coisa de saúde. Inclusive esses casos que eu citei. Aí eles vêm falando, aí isso vem gerando outros casos e eles vão falando (Ent 11, p. 30). Rapaz, a saúde hoje, a mídia, quer dizer, a Record agora tem um programa “E aí Dr?”, à tarde, que é um programa muito bom. Na Globo, tem um programa, umas 10 horas da manhã também que é muito bom sobre saúde. E são coisas que as pessoas,é, trabalham com estatística, pessoas com professores que estudaram, é muito bom, é só o povão saber aproveitar. A verdade tá aí, agora, se a pessoa deixa de assistir um programa desse e vai assistir um desenho animado, aí infelizmente ele não pode aprender. Mas a mídia tá informando, tá sendo muito importante pra o governo e pra nação (ENT 13, p. 32).
Tem nas quartas feiras, passa no 13 pra banda de Natal, que eles falam sobre saúde, como é que a pessoa deve cuidar da diabetes, doença dos ossos, doença disso, doença daquilo. Dá aquelas orientações (ENT 18, p. 57). E – Já assisti já. Acho muito bom esclarecer para a população. Tanto a questão... até mesmo o fantástico também é show de bola. Nessa série que passa falando de hipertensão, sobre diabetes, sobre osteoporose, é... às vezes no Jornal Hoje, falando sobre alimentação, atividade física, são programas assim que chamam nossa atenção como população e alertam a nós para os riscos que podem ocasionar caso a gente continue na vida sedentária.
P – E as notícias que geralmente passam nos jornais sobre saúde, o que é que geralmente você vê nos jornais sobre saúde?
E – Alimentação! [risos]. É, alimentação, mais alimentação (ENT 19, p. 61).
Por esses relatos, a questão da saúde tal como é traduzida pela mídia televisiva se expressa de duas formas: mediante a difusão do “caos da saúde pública” e através da ideia de “hábitos saudáveis” com foco na alimentação e na atividade física. Enquanto o referido “caos” é matéria recorrente em diversos jornais, os hábitos saudáveis são objeto de discussão dos programas televisivos especificamente criados em torno da questão da saúde.
Na construção midiática do caos da saúde pública, quanto se trata do SUS, apresenta-se o que há de ruim e esconde-se o que há de bom. Contrariamente, ao tratar dos serviços privados, estes são, em geral, apresentados naquilo que detêm de positivo, enquanto suas limitações são ocultadas. Nesse cenário, não é dada ao usuário a possibilidade de uma compreensão mais ampla, que permita articular as conexões entre o público e o privado, e menos ainda a relação mais ampla entre saúde e sociedade.
Quanto aos programas televisivos dedicados a discutir a questão da saúde, percebeu-se são vários e que integram a programação de diversas emissoras de televisão. “Manha Maior” (RedeTV), “Bem-Estar” (Globo) e “E aí Dr?” (Record) são apenas alguns dos programas televisivos de abrangência nacional cuja audiência por
parte dos entrevistados foi constatada durante a pesquisa. As emissoras locais também têm seus programas televisivos com esse caráter, são eles: “Vida e Saúde” (TV Cabo Mossoró – TCM) e, mais recentemente, o programa “Saúde em Foco” (TV Mossoró).
Fica evidente, pelo exposto, que a mídia é um importante sujeito que transita no cenário da saúde, atuando, em geral, na formação de opinião das pessoas quanto à sua própria saúde e às ações e serviços disponíveis no meio social. Ao fazer isso, carrega interesses políticos e econômicos não anunciados, ao mesmo tempo em que vão construindo concepções de saúde e de doença hegemônicos, ou seja, com foco na doença e em sua prevenção, passíveis de solução pela via do mercado, centrados na figura do médico especialista, reforçando a ideia da saúde como uma questão individual a ser enfrentada por cada um.
7 NECESSIDADES DE SAÚDE NA VOZ DE MORADORES DE COMUNIDADES PERIFÉRICAS DE MOSSORÓ
As falas dos moradores evidenciaram um conjunto de necessidades de saúde que serão, a partir de agora, descritas e analisadas. São elas: necessidades de produtos e serviços biomédicos, necessidade de ter dinheiro para consumir produtos e serviços biomédicos, necessidades de consumir alimentos, necessidade de ter hábitos saudáveis e necessidade de ser bem atendido nos serviços de saúde.
Convém esclarecer que as referidas necessidades foram expressas pelos sujeitos da pesquisa como aquilo que eles e/ou suas famílias e/ou suas comunidades precisam para ter saúde. Nesse sentido, constituem necessidades conscientes desses sujeitos. Esta questão é sumariamente importante para explicitar o recorte metodológico a partir do qual se chegou a tais necessidades.
Embora o conjunto do material empírico permita, ao pesquisador, elencar um rol de necessidades que não foram explicitamente manifestas pelos sujeitos da pesquisa, as mesmas não se tornaram objeto de análise nesta investigação. Isto porque, dado o referencial teórico da pesquisa (Teoria das Necessidades em Marx de Agnes Heller), optou-se por identificar e analisar as necessidades de saúde conscientes, ou seja, aquelas referidas, expressas pelas pessoas.
A análise que segue trata, portanto, de necessidades de saúde evidenciadas nas vozes dos sujeitos da pesquisa que, mediante exame, foram organizadas em cinco grandes conjuntos de necessidades. A análise feita em cada uma delas exigiu a diversificação das estratégias metodológicas, conduzindo a pesquisas documentais e à exploração, na literatura científica, dos temas correspondentes às necessidades levantadas.
No interior de cada uma das necessidades apresentadas na exposição que segue, optou-se por apresentar em bloco as falas dos sujeitos da pesquisa referidas a cada uma das necessidades para, em seguida, empreender o movimento reflexivo em busca de compreensão e crítica das mesmas.