2 Termer – Historikk, definisjonsinnhold og bruk
2.3 Soloterrorisme
Após a presente exposição sobre o modo como a hipótese da pulsão de morte introduz limitações no princípio do prazer e, consequentemente, no prin- cípio de realidade, podemos voltar ao nosso objetivo inicial de avaliar as conse- quências éticas da descoberta freudiana. Lacan nos fornece as indicações de que os parâmetros para se progredir nesse domínio se articulariam “por meio de uma orientação do referenciamento do homem em relação ao real” e que, para se con- ceber isso, seria preciso ainda “ver o que ocorreu no intervalo entre Aristóteles e Freud”46.
Sem se interessar exatamente pelo desenvolvimento histórico, Lacan re- conhece aí um corte, um evento com implicações revolucionárias. Mas, antes de situá-lo, seria oportuno extrair desses dois pontos extremos uma comparação. Ao de� nir o “princípio de realidade” freudiano como um aparelho de reti� cação res- ponsável por uma atividade de retorno e retenção, Lacan se pergunta se a aposta num princípio reti� cador não seria próximo daquilo que se lê na Ética a Nicômaco47. A� nal, não é difícil de reconhecer em Aristóteles uma indicação, semelhante àque- la que de� nirá o príncipio de realidade em Freud, de que um prazer postergado, mesmo que cause uma dor momentânea, pode permitir o acesso a um bem maior e mais duradouro. Para Aristóteles a questão seria, propriamente, saber reconhe- cer entre as escolhas aquela capaz de levar ao verdadeiro bem. O problema é jus-
46 LACAN. O seminário, livro VII: a ética da psicanálise, p. 21. 47 Cf. LACAN. O seminário, livro VII: a ética da psicanálise, p. 41.
tamente que, em Freud, esse princípio reti� cador, o princípio de realidade, falha diante de algo que não é acessível aos processos do pensamento.
Se, desde a primeira tópica freudiana, o princípio de realidade e os disposi- tivos representacionais do pensamento coerente (processo secundário) apresen- tavam uma atuação modesta no sentido de diminuir o sofrimento, percebemos a di� culdade agravante, revelada pela segunda tópica, em relação à realidade precá- ria e à incapacidade do aparelho psíquico de lidar com esse resto não simbolizável que aparece como compulsão à repetição a serviço da pulsão de morte.
Mas, voltando agora ao que teria ocorrido no intervalo entre Aristóteles e Freud, Lacan destaca o declínio da “função do mestre” e a conversão, ou reversão utilitarista, do início do século XIX, que pressupõe não só o corte da revolução cien- tí� ca, com sua recusa da imutabilidade das “ideias eternas”, mas também a rejeição, por princípio, da � gura do antigo sábio supostamente capaz de conhecer o bem – ou, ao menos, a rejeição do conhecimento de um bem que não seja prosaico e referido a um cálculo estritamente instrumental.48
Assim, percebemos por que Lacan se preocupa em salientar, desde o princí- pio, que o verdadeiro desa� o seria seguir, com Freud, toda uma exploração da ética incidindo não sobre o domínio do ideal, mas, ao contrário, sobre um aprofundamen- to da noção de real.49 Nesse ponto, segundo Lacan, encontraríamos um traço bastan- te distintivo do projeto de Freud também em relação aos idealistas da tradição � lo- só� ca, pois, se os idealistas não contestam exatamente a chamada realidade, acabam por domá-la, já que encontram em nós mesmos uma medida para ela. A posição de Freud, por outro lado, não seria tão reconfortante, pois, ao perceber como é precário o acesso à “realidade”, compreendeu por que seus mandamentos são tão tirânicos.50 Mas será que podemos supor que Lacan pretende extrair disso a conclusão de que a ética da psicanálise deveria se fundar numa tirania da “realidade”? A� - nal, Lacan estaria convencido de que essa tirania fosse su� ciente para justi� car um ataque à ética do idealismo alemão, desprezando as considerações consequentes sobre a fragilidade de uma ética fundada num fato empírico existente?
Penso não ser esse o caso. Ao contrário, além de encontrarmos no Seminário
VII a sugestão de que é exatamente a ausência de ontologia na obra de Freud que
exige a construção de uma ética freudiana, Lacan a� rmaria, alguns anos mais tarde, no seu Seminário XI: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, que “o esta- tuto do inconsciente é ético, e não ôntico”51.
48 Cf. LACAN. O seminário, livro VII: a ética da psicanálise, p. 21. 49 Ibidem. p.21.
50 Cf. Ibidem. p. 43.
Mas de que real estaria Lacan falando, então?
É nesse ponto, e não propriamente na defesa do bem empírico capaz de servir ao maior número de pessoas, que a referência ao utilitarismo faz sentido para a psicanálise. Com Jeremy Bentham aprenderíamos a situar o real, por oposição ao
� ctitious, no centro da discussão ética.
A recuperação de Bentham por Lacan é um bom exemplo da maneira como Lacan freqüentemente faz uso de instrumentos � losó� cos para restabelecer o cam- po psicanalítico, tendo essa prática também consequências na renovação de ques- tões � losó� cas aparentemente estabelecidas. Nesse caso, especi� camente, vere- mos que há toda uma problemática ontológica a ser reavaliada a partir de uma recuperação proveitosa da “Teoria das � cções” de Jeremy Bentham.
Lacan lembra que em Bentham o � ctitious está longe de ser o ilusório ou enganador. O termo não poderia ser propriamente traduzido por � ctício, a menos que entendêssemos que “toda verdade tem uma estrutura de � cção”52.
Bentham teria chegado à noção de � cção analisando, sobretudo, algumas entidades necessárias ao discurso jurídico, que, no entanto, não possuem nenhu- ma realidade substancial. Direitos e deveres são pressuposições necessárias, ape- sar de serem entidades � ccionais.53 O conhecimento da lei, por exemplo, é uma � cção sem a qual o Direito não funciona. Outras noções igualmente importantes como a de “contrato social” e a de “pessoa jurídica” apresentam um estatuto onto- lógico não menos problemático.
Bentham analisou como são criadas as � cções e estabeleceu uma distinção entre os tipos de entidades � ccionais anteriormente apontadas e outras entidades fabulosas, como, por exemplo, anjos e demônios.54 As noções jurídicas, apesar de serem � ccionais, não têm nada de imaginário. Um “contrato” me obriga a efetuar um certo número de atos concretos e me vincula a um outro numa relação de res- ponsabilidades. As � cções são inerentes ao discurso. Segundo Bentham, é “à lin- guagem, então – e somente à linguagem – que as entidades � ccionais devem sua existência; sua impossível, ainda que indispensável, existência”55.
Desse modo, apesar da pretensão empirista inicialmente apresentada de analisar as entidades ditas existentes de modo a reconduzi-las à percepção de um “corpo real” testemunhada pelos sentidos56, Bentham esbarrou numa di� culdade
52 LACAN. O seminário, livro VII: a ética da psicanálise, p. 22. 53 Cf. BENTHAM. Théorie des Fictions, p. 258 et seq.
54 Cf. BENTHAM. Théorie des Fictions, p. 58. Remetemos ainda o leitor ao comentário de Zizek que sugere
que Bentham, com essa distinção, teria produzido avant la lettre a distinção lacaniana entre simbólico e imaginário. Cf. ZIZEK. Subversions du sujet, p. 93.
55 No original: “To language, then – to language alone – it is, that � ctitious entities owe their existence;
their impossible, yet indispensable, existence.” BENTHAM. Théorie des Fictions, p. 54.
da própria linguagem. As entidades � ccionais não podem ser simplesmente des- cartadas para que se possa permanecer apenas com o suposto fato real. Apesar de serem criadas e nomeadas pelo espírito humano, as entidades � ccionais são capa- zes de produzir uma série de efeitos na realidade, incluindo o prazer e a dor.57 Por- tanto, o fato de terem sido criadas pela linguagem não diminui sua importância. É impossível falar sem fazer uso de entidades � ccionais e, olhando mais a fundo, a questão não se restringe somente às noções jurídicas, pois diz respeito também a uma propensão inerente à linguagem de substancializar propriedades e proces- sos ligados às coisas que originalmente não têm nenhum status real. É o caso, por exemplo, de chamar de “� uxo d’água” a observação da água no leito de um rio. As entidades � ccionais seriam, portanto, “essa sorte de objetos que, em toda lingua- gem, por razões de discurso, devem ser ditas existentes”58.
Para Lacan, as descobertas de Bentham impunham uma nova postura no modo de se encarar a realidade. Bentham tinha chegado a isso por uma via indi- reta. Ele pretendia isolar a verdade de nossa apreensão empírica, mas descobriu que aquilo que chamamos de realidade é algo simbolicamente constituído. Sem o discurso, a realidade perde consistência. No limite, no momento em que subtraio dela todas as � cções, a própria realidade perde sua consistência discursiva. É por isso que o � ctitious não poderia ser traduzido por � ctício, a menos que entendês- semos que “toda a verdade tem estrutura de � cção”. Tal conclusão levaria Lacan a situar toda a experiência freudiana num movimento de báscula entre � cção e real.
O real nesse contexto não seria exatamente o que se pode perceber com a ajuda dos sentidos, mas aquilo que é impossível de simbolizar, ou o que não se submete à “virtualização”. Ele coincidiria com o ponto irredutível à tradução com- pleta do inconsciente para torná-lo consciente de que falava Freud em 1920, ao in- troduzir o conceito de pulsão de morte como algo “Além do princípio do prazer”.59 Por outro lado, “em Freud, a característica do prazer, como dimensão do que encadeia o homem, encontra-se totalmente no lado do � ctício. O � ctício, efetiva- mente, não é, por essência, o que é enganador, mas, propriamente falando, o que chamamos de simbólico”60.
Isso nos leva de volta ao objetivo fundamental do Seminário VII, que é de-
57 Cf. BENTHAM. Théorie des Fictions, p. 100.
58 No original: “those sorts of objects which in every language must, for the purpose of discourse, be
spoken of as existing”. BENTHAM. Théorie des Fictions, p. 56.
59 Freud relata como, após vinte e cinco anos de prática, ele haveria de se deparar com este limite que
não pode ser reintegrado ao campo do sentido. Segundo ele, “o objetivo que [antes] fora estabelecido – que o inconsciente deve tornar-se consciente – não era completamente atingível”, pois “o paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha reprimido, e o que não lhe é possível recordar, pode ser exatamente a parte essencial”. Cf. FREUD. Além do princípio do prazer. In: Edição standard. v. XVIII. p. 31.
monstrar “que a lei moral, o mandamento moral, ou mesmo a presença da instância moral é aquilo por meio do qual o real se apresenta na prática analítica estruturada pelo simbólico” 61. Vimos que a pulsão de morte se a� rma contra o prazer, o que apro- xima seu modo de atuação àquele da lei moral. Observamos também, a propósito da pulsão de morte, que esse mecanismo que funciona além do princípio do prazer não chega a ser simbolizado. Resta saber se podemos isolar a ação desse mecanismo na produção de resultados morais. Assim, a demonstração de� nitiva da tese de Lacan e de seus embasamentos supõe que a situemos no contexto dos paradoxos da consci- ência moral, revelados por Freud, a partir da virada da segunda tópica.