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Sogn og Fjordane

In document Sogn og Fjordane (sider 24-29)

Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão. (Mateus 7, 3-5).

Basta uma leve acuidade psíquica, ou um automonitoramento considerável, para que observemos, dentro de nós mesmos, o fluxo natural da projeção da sombra no próximo. Interpretamos, fazemos conjecturas de uma determinada realidade e, logo depois, batemos o martelo, avalisamos e registramos em cartório a nossa fantasia, muitas vezes sem nos preocuparmos se elas têm fundamento ou não. Tratando-se a projeção da sombra de um mecanismo de defesa inconsciente, natural, tendemos a nos identificar com ele, mesmo porque empurramos o lixo, sem culpa nenhuma, para o jardim do vizinho. Na questão do narcisismo perverso, tal mecanismo é potencializado a um nível que pode ser considerado patológico. Quando desenvolvemos um amadurecimento psíquico mais relevante, tendemos a nos deparar com nosso próprio lixo.

Marie-France Hirigoyen99, estudiosa do abuso moral, explica a relação de

projeção, interdependência e de medo entre o agressor e a sua vítima:

Por um fenômeno de projeção, o ódio do agressor está na medida do ódio que ele imagina que sua vítima lhe devota. Ele a vê como um monstro destruidor, violento, nefasto. Na realidade, a vítima, nesse estágio, não chega a experimentar nem ódio nem raiva – o que, no entanto, lhe permitiria proteger-se. O agressor lhe atribui uma intencionalidade malévola e se antecipa, agredindo-a primeiro. A vítima é, de qualquer forma, culpada, permanentemente, do delito de intenção.

Esse ódio, projetado no outro, é, para o perverso narcisista, um meio de se proteger de perturbações maiores que poderiam ocorrer, de ser levado à psicose.

[...] O mundo do perverso narcisista está separado em bom e mau. Não faz bem [para a vítima] ficar do lado mau. A separação ou o distanciamento [entre vítima e agressor] não vem, de modo algum, amainar esse ódio. Nesse processo, um tem medo do outro. (HIRIGOYEN, 2001, p. 133).

Lowen parece concordar com a autora no que tange à visão unilateral do indivíduo em desordem narcisista: se eu sou o bom, o outro é, necessariamente, o mau. Ele explica:

Quando uma pessoa é identificada com uma imagem, ela vê a outra como uma imagem que, em muitos casos, representa algum aspecto rejeitado do self. O narcisismo divide a realidade de um indivíduo em aspectos aceitos e rejeitados, sendo esses últimos projetados, portanto, em outros. [...] Se a imagem narcisista é de dureza e vigor, a pessoa projetará, em outros, uma imagem de vulnerabilidade e fragilidade, que deve ser destruída. (LOWEN, 1993, p. 55).

A dinâmica narcisista perversa pode ser entendida como oposta à espiritualidade. O narcisista perverso encarrega-se de minar a alma dos seus interlocutores. Ele danifica a alma como um vírus pode danificar o disco rígido de um computador. Aquele que se relaciona com ele está vulnerável não só aos seus ataques de fúria narcísica (que são o ódio arcaico direcionado à sua vítima, sem o

99 Marie-France Hirigoyen é psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta de família. Formada em vitimologia na

França e nos EUA, é autora de Assédio moral: a violência perversa no cotidiano e Mal-Estar no trabalho, entre outros livros.

filtro do ego que organiza a boa agressividade em nome da construção de uma relação ou de um plano), mas a uma série de mensagens subliminares que desqualificam o objeto em seus pontos mais sensíveis. O sadismo é a deformação mais danosa das dinâmicas narcisistas.

Atendi um adolescente, filho de pais separados, que, certa vez, sonhou que seu pênis tinha uma ferida. No sonho, ele escutava a voz de um primo, que também convivia com o seu pai, que dizia: “Todos foram machucados, mas você foi o mais ferido”. O sonho evidenciava que os ataques de fúria narcísica de seu pai o haviam atingido no próprio falo, símbolo de vida, potência e criatividade. Seu pai era um narcisista perverso, do qual ele foi se afastando conforme sua análise ia progredindo. Quando ele tirava notas baixas ou namorava alguém que o pai desaprovava, por exemplo, recebia sermões que o denegriam, assim como denegriam sua mãe e a família dela. O que quero enfatizar é a desordem mental que os ataques sádicos de seu pai causavam em meu paciente: ele passou a sofrer de ansiedade e depressão e, a cada vez que encontrava com seu pai (duas vezes por semana, dormia na cada dele), chegava à sessão de análise mais deprimido e desorientado. Juntos, observávamos seus sonhos, nos quais se constelava100 o

Arquétipo do Pai Terrível. Ele se conscientizou que a raiva que sentia do pai era saudável e necessária para a sua sobrevivência psicológica. Passou a não dormir mais na casa do pai e a enfrentá-lo toda vez que era agredido. Felizmente, seu pai, ainda assim, manteve-o no tratamento – isso geralmente não acontece. Munido de sua própria agressividade, mesmo com o princípio paterno enfraquecido e outras sequelas, esse filho de pai perverso conseguiu completar os estudos e defender-se de seu complexo paterno negativo.

Tempos depois, atendi um jovem de dezesseis anos, que era filho de uma mãe narcisista pouco empática. O menino estava com sua autoestima minguada. A sua mãe interna estava inoperante, pois ele não se cuidava. Ao acordar, já fumava um cigarro comum e, em seguida, acendia um cigarro de maconha, à qual estava adicto. As representações que a mãe nutria a respeito do menino eram carregadas da projeção de sua sombra. Ele era o bode expiatório de sua família. O aspecto mais problemático de sua análise era resgatar a imago materna positiva que a mãe biológica havia suprimido, o que o levara a um complexo materno negativo. Na

100

De acordo com Schwartz-Salant, “sempre que ocorre uma forte reação emocional com relação a uma pessoa ou situação, um complexo foi constelado (ativado)”. (SCHWARTZ-SALANT, 1982, p. 242).

escola, ele era perseguido101 pelo fato de ser desalinhado, falar para dentro e

encarnar o próprio patinho feio, reproduzindo a situação familiar (mais especificamente, o complexo materno). A maconha o acalmava e o mantinha relaxado – fazia as vezes de um leite materno. Recebi a transferência positiva de um pai bom e de uma mãe boa. Ele estava muito acuado no começo da análise, mas conseguiu mudar de colégio, diminuiu sensivelmente o consumo de maconha e passou a enfrentar o mundo, coisa que não conseguia antes.

Comentei brevemente esses dois casos, com a intenção de ilustrar que as dinâmicas narcisistas de pais perversos criam fendas psíquicas mais graves do que podemos supor, desenvolvendo complexos negativos que enfraquecem o complexo do ego, provavelmente por toda uma vida. Lowen comenta a perpetuação da luta pelo poder, típica do narcisismo:

A ênfase no poder dos pais leva inevitavelmente à rebelião ou submissão dos filhos. A submissão encobre rebeldia e hostilidade íntimas. A criança que se submete aprende que as relações são governadas pelo poder, o que prepara o terreno para uma luta pelo poder quando adulta. (LOWEN, 1993, p. 81).

Muitas vezes, gerações futuras recebem a carga de um perverso narcisista, pois, como se sabe, o malefício psicológico não se atém a uma única geração. A transformação narcísica de casos de abuso moral pode ter um bom prognóstico, mas as feridas da alma são profundas e seu tratamento é longo.

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