8.1CONCLUSÕES
Este estudo contribui para a caracterização do efeito dos incêndios florestais nas propriedades hidráulicas dos solos e na curva número, para uma melhor compreensão da relação entre um incêndio e o regime de cheias pós-incêndio e também do efeito que a erosão localizada, junto a um pilar de uma ponte, tem sobre o comportamento estrutural da mesma.
No que se refere à caracterização do efeito dos incêndios florestais sobre as propriedades hidráulicas dos solos, este estudo permitiu verificar que, num incêndio, com o aumento da quantidade de material combustível, das temperaturas registadas no solo e do tempo de exposição às mesmas, aumenta a quantidade de cinza depositada sobre a superfície do solo e, consequentemente diminui da taxa de infiltração potencial, sendo este efeito mais acentuado em solos de textura arenosa e faz-se sentir com menor intensidade nos solos de textura argilosa.
Com base nos ensaios realizados no laboratório, em solos de textura arenosa franca, verifica- -se que a condutividade hidráulica, sorvidade e potencial do solo tendem a diminuir com o aumento da carga de material combustível e consequente intensidade do incêndio.
É de notar que os modelos de Philips e Green-Ampt mostram ser válidos para cenários pós- incêndio, desde que os valores de condutividade hidráulica, sorvidade, potencial, teor de água inicial e porosidade sejam previamente corrigidos.
Com base em ensaios laboratoriais verificou-se que os valores de CN aumentam com a intensidade do incêndio, sendo este efeito mais significativo nos solos de textura arenosa do que nos solos de textura argilosa.
A modificação nos valores de CN com base no efeito do incêndio sobre a condutividade hidráulica do solo, contempla o efeito do calor, deposição de cinzas e presença de compostos voláteis no solo, contudo não considera as alterações dos usos do solo e coberto vegetal, causados pelo incêndio.
No que se refere à relação entre a ocorrência de um incêndio florestal e o regime de cheias pós-incêndio, verifica-se que através do índice diference Normalized Burn Ratio (dNBR) obtido com base em imagens LANDSAT 7, a recuperação das zonas afetadas pelo incêndio de Catraia durante os anos de 2012 a 2014 é mais rápida no primeiro ano, tendendo a abrandar, o que faz com que as condições pré-incêndio sejam repostas após um número elevado de anos. De qualquer modo em 2014 constatou-se que deixaram de existir áreas com classificação de severidade alta (dNBR4).
As sub-bacias hidrográficas mais atingidas pelo incêndio foram Alportel2, MJudeu e Alportel1. Nestas sub-bacias a taxa de incremento do caudal de ponta de cheia para Tr100 face à
condição pré-incêndio foi de 15%, 15% e 20% em 2012, 6%, 6% e 8% em 2013. Em 2014 as diferenças face a 2013 são muito pequenas. Para Tr10 as diferenças são maiores,
28%, 28% e 33% em 2012 e de 10%, 10% e 14% em 2013. Em 2014 é de esperar uma pequena redução face ao ano anterior.
As sub-bacias hidrográficas ASeca e Séqua praticamente não foram afetadas pelo incêndio, fazendo com que o incremento do caudal de ponta de cheia, pós-incêndio, face ao que seria sentir em cenário pré-incêndio, seja atenuado.
O efeito do incêndio na resposta hidrológica das sub-bacias hidrográficas é mais acentuado para precipitações mais frequentes e com menor intensidade. Na precipitação com Tr100 a
relação Pe/P é muito elevada mesmo no cenário pré-incêndio e apresenta capacidade limitada
de aumentar apesar das alterações provocadas pelo incêndio nos solos e no coberto vegetal. Relativamente ao efeito da erosão localizada em pilares de pontes verifica-se que este afeta o comportamento estrutural de pontes, sendo de esperar um agravamento em cenário pós- incêndio.
Os resultados obtidos demonstram que o descalçamento de apenas uma pequena parte da sapata do pilar leva a incremento exponencial do momento fletor existente. Este incremento é alterado à medida que se vão retirando as molas dos alinhamentos, ou seja, à medida que se vai simulando o descalçamento gradual da sapata, verificando-se também um aumento gradual do assentamento vertical do respetivo pilar, bem como, da rotação da sapata.
É de notar também que, à medida que a sapata começa a perder o ser confinamento pelo solo, ou seja, à medida que vai sofrendo erosão, os momentos nos apoios a meio vão da estrutura aumentam abruptamente, potenciando assim o colapso da estrutura, uma vez que em projeto, as armaduras da ponte, não são dimensionadas, contabilizando esta situação de descalçamento da fundação.
Após o descalçamento total da sapata, ou seja, quando a mesma perde a totalidade das molas, o respetivo pilar fica suspenso, daí o aumento abruto verificado dos momentos fletores na estrutura, levando a mesma ao colapso. No entanto, esta situação é irreal, uma vez que, para uma situação anterior, em que a sapata estivesse parcialmente descalça, a estrutura já teria colapsado.
8.2TRABALHO FUTURO
No que refere ao trabalho futuro para o contínuo desenvolvimento do estudo, recomendam- se as seguintes linhas:
i) É necessário um número superior de ensaios laboratoriais, considerando uma maior diversidade de solos e de materiais combustíveis, para se obter uma previsão mais correta da variação da capacidade de infiltração potencial do solo, devido aos incêndios florestais. ii) Com vista à calibração do modelo hidrológico da bacia hidrográfica é necessário a análise comparativa entre os hidrogramas de cheia simulados e hidrogramas de cheia observados num conjunto de bacias hidrográficas onde ocorreu um incêndio recentemente.
iii) A profundidade da cavidade de erosão junto a um pilar complexo obtida pela aplicação do HEC-18 fornece um valor máximo estimado em que a aferição do próprio modelo se baseou num conjunto limitado de ensaios físicos que tendem a cobrir um leque muito vasto de situações. Face a estas limitações é recomendável que seja realizado um ensaio físico em laboratório, com vista à obtenção da profundidade de erosão localizada junto de um pilar complexo com a geometria considerada no capítulo 7 e comparar a previsão obtida pela aplicação do HEC-18 com os resultados observados em laboratório.
iv) Realizar um modelo estrutural que tenha em conta as características do solo em que a estrutura está assente, ou seja, tratando o mesmo como um solo anisótropo, diferenciando o seu comportamento vertical e horizontalmente.