Para Comblin, o Padre Ibiapina sofreu várias injustiças durante a vida: a morte de parentes, como o pai e o irmão, devido uma revolução, a traição da noiva, as afrontas da lei como advogado e juiz e a corrupção da política como deputado. Estes fatos ajudaram a transformar este sacerdote em um exemplo de missionário, incansável, insistente pela causa dos pobres no sertão nordestino. Sobre o Padre Ibiapina, Comblin declara:
―Renunciou à vida de advogado. Era mais um fracasso, dessa vez a carreira de advogado. Antes experimentou o fracasso na carreira de juiz e na carreira de deputado. E, ainda teve o noivado fracassado... Foram muitos os fracassos em poucos anos. Em todos esses fracassos, a sua intransigência, a sua inflexibilidade moral e a impetuosidade do seu caráter tiveram grande influência. Será que sua vida seria de puros fracassos? Nunca aprenderia a arte de viver no meio deste mundo com os seus vícios e abusos? Na realidade, Pereirinha ainda não havia descoberto a sua verdadeira vocação‖59.
Com suas preleções, persistência e atitudes concretas em beneficio do povo, desafiava as pessoas a serem ajudadoras contínuas das obras desenvolvidas para auxiliar os mais necessitados das cidades pelas quais o padre passava. Era considerado por Comblin um dos maiores missionários do nordeste, pela distância percorrida e pelas obras realizadas. Acredita-se por essas atitudes de Ibiapina que Comblin foi influenciado e sua vida não foi mais a mesma, pedindo assim para ser enterrado ao lado do tumulo deste homem destemido, por isso, é importante citar alguns passos da sua vida e notar as inter-relações com a vida do Padre José Comblin.
O Padre José Antônio de Maria Ibiapina nasceu em um sítio de Ibiapina, no município de Sobral, Ceará, no dia 5 de Agosto de 1806; era o terceiro filho de Francisco Miguel e Tereza Maria de Jesus. Ainda criança, a família se mudou para Icó, onde seu pai exerceu o ofício de escrivão no tabelião da cidade e ali ficou até 1819. Neste tempo, a família mudou para Crato em consequência da transferência do pai. Nesta cidade, o vigário descobriu a vocação sacerdotal de Ibiapina e investiu na vida do garoto para estudar latim em outra cidade, e com 17 anos, Ibiapina seguiu para Olinda destinado ao seminário e ao sacerdócio.
Comblin relata que Ibiapina ficou no seminário de Olinda somente de 1823 a 1825 por não encontrar lá o que desejava:
―Permaneceu pouco tempo no seminário de Olinda. Os motivos não aparecem claramente. A crônica das Casas de Caridades diz: ―não encontrando, porém, naquele templo de virtude e das ciências e moralidade a religiosidade que esperava, demorou-se pouco e passou-se para o ―Convento da Madre de Deus.‖ Deve ter passado um pouco mais de um ano no Convento, em Recife‖. Aí estavam os padres oratorianos, que deixaram no jovem uma impressão profunda. De fato, há entre a espiritualidade dessa congregação e a espiritualidade de Padre Ibiapina claras afinidades. A espiritualidade oratoriana é prática e concreta. Exalta o serviço em favor do próximo. A espiritualidade de Padre Ibiapina é feita de serviço prático, de atividades incessantes. Nos seus escritos, o vício que mais condena é a preguiça, e a sua maior exortação é para pessoa ficar sempre ocupada com o serviço ao próximo, quando não está em oração‖60.
A influência e a disciplina ensinada por esses padres oratorianos iriam acompanhar Ibiapina por sua vida inteira, e essa experiência chama a atenção de Comblin, em consequência da espiritualidade e por não estar somente na casa de oração, mas que deveria praticar o aprendido entre as pessoas necessitadas.
Seu pai teve parte ativa na revolução de 1824, conhecida como Confederação do Equador61, e foi fuzilado. O seu irmão mais velho, pela mesma razão, foi preso na ilha de Fernando de Noronha, onde morreu misteriosamente. Assim, Ibiapina teve que voltar para o Ceará e assumir a família; nesse tempo, a mãe faleceu de parto prematuro. Ibiapina transferiu- se para Recife juntamente com os irmãos órfãos, deste modo, os parentes mais próximos ajudariam a cuidar e Ibiapina poderia voltar a seus estudos no mosteiro de São Bento. Esforço tremendo de um rapaz novo, mas que mostra nas palavras de Comblin os vínculos fraternos e a dedicação pela família. Porém, nota-se também a profunda injustiça da sociedade brasileira da época, formando assim, em Ibiapina, um lutador por uma sociedade diferente, onde reinasse o império da lei e da justiça.
Em 1828, José Antônio ingressou na Faculdade de Direito no mosteiro de São Bento decidido a ser advogado, deixando assim, o sacerdócio. Em 1832 iniciou sua carreira de leigo no mundo jurídico e exerceu a advocacia durante 12 anos. Comblin declara que não tem nenhuma explicação sobre o Padre ter deixado o estudo sacerdotal para assumir outra carreira:
―José Antônio Pereira Ibiapina tem 26 anos. Torna-se bacharel. No fundo, não sabemos por que não chegou a completar os estudos do seminário e a se ordenar. Os documentos não nos fornecem nenhuma explicação‖62.
Após abandonar sua carreira pública, por ter perdido a causa de um amigo que para ele era causa ganha, fechou o seu escritório e passou três anos em retiro espiritual, meditação e exercícios de piedade. Essas atitudes de renúncia e de severidade para com ele mesmo sempre foram uma marca na vida deste futuro sacerdote, e também marcaram a vida de Comblin, pelas decisões sinceras tomadas por Ibiapina. Essa experiência de
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A Confederação do Equador é o nome com que se tornou conhecido o movimento revolucionário que eclodiu em Pernambuco em 1824. Os pernambucanos, que sete anos antes, no reinado de D. João VI, haviam tentado implantar uma república autônoma, pretendiam dessa vez executar um plano mais amplo e audacioso, reunindo todas as províncias do Norte e Nordeste do país. Pernambuco se encontrava conflagrado desde o ano anterior, quando se tornou irremediável o rompimento com o governo imperial. O carmelita Joaquim do Amor Divino publicava em seu jornal as bases de um pacto social com uma clara mensagem abolicionista e exigindo uma constituinte inspirada nas luzes do século.
silêncio e solidão serviu para avaliar todo seu passado, de tantas e variadas vicitudes, e para programar o futuro que se abria num horizonte amplo de vocação cristã, no desejo de colaborar, diz Araújo, na construção do Reino de Deus.63 No princípio de Junho de 1853, estando ele em Recife, com 46 anos, foi aceito para ser ordenado, porém Dom João Perdigão teve resistência em consequência da exigência de Ibiapina de não passar por nenhum exame. Este episódio foi o questionamento que Ibiapina esperava para tomar a decisão e aconteceu em uma conversa com Américo Militão na casa do futuro padre, conforme relatado abaixo:
―...Doutor, o senhor nesta vida assim... por que não se ordena? Pois não é melhor?
- Sr. Américo, respondeu-me ele depois de uma pequena pausa, o Sr. foi mandado hoje aqui pela providência. Saiba que em meu espírito há muita luta com essa ideia e esse é o meu maior desejo, mas eu não me achava com coragem de me abrir com ninguém, porque então é que diriam que eu estava maluco. Uma vez que me fala nisso, faça ver o Sr. Dom João que quero ordenar-me, mas não me sujeito a exame nenhum. Se for possível assim, muito bem. Do contrário, nada se fará. Entretanto peço- lhe o maior segredo em tudo isto‖64.
Nota-se também o temor a Deus e o respeito para tomar a decisão que seria para o resto de sua vida; seu ministério seria com os sofridos. Parece que os fatos da vida de Ibiapina, sua espera, e seu desprendimento embutiram em Comblin o desejo de imitá-lo.
Em Julho de 1853, Ibiapina foi convidado para ser Vigário Geral e provisor do bispado por Dom João, convite que aceitou por mera obediência. Nesta mesma época, teve o desejo de viver em estado de pobreza e inteiramente dedicado ao ministério e resolveu doar as suas últimas posses que se resumia a ações da companhia de água Beberibe, que foi doada para uma das irmãs, e os livros de direito, que foram encaminhados para seu amigo Américo Militão.
63 ARAÚJO, F. Sadoc de. Padre Ibiapina peregrino da caridade. São Paulo: Edições Paulinas, 1996, pg. 260. 64 Ibidem pg. 268.
Ibiapina teve uma passagem rápida pelo Seminário de Olinda, onde ficou menos de um ano como professor de Eloquência Sagrada, mas devido à falta de professores, teve que assumir também a cadeira de História Sagrada e Eclesiástica. Durante a permanência no magistério, houve um fato que levaria Ibiapina a mudar seus planos e definitivamente decidir pela vida missionária itinerante entre os pobres e doentes do sertão, como declara F. Araújo:
―Por esse tempo começou a chegar notícia de uma epidemia de cólera- morbo que se alastrava pela Bahia e ameaçava atingir Pernambuco. Para evitar pânico no seio da população, Dom João tomou algumas providências entre elas, a publicação de uma carta pastoral, datada de 18 de setembro de 1855, ordenando preces e atos de penitência para pedir o socorro de Deus e exigir medidas preventivas por parte do governo provincial. Todos os esforços profiláticos não conseguiram impedir que a doença progressivamente fosse se disseminando pelas províncias do Nordeste e dizimasse milhares de pessoas. No fim do ano os jornais locais já estampavam preocupantes estatísticas de centenas de mortos e alguns casos de desespero coletivo em algumas localidades. Nessa triste situação, padre Ibiapina sente-se omisso por não estar ao lado da população que sofre, e resolve decididamente abandonar o magistério e outros afazeres burocráticos para se dedicar inteiramente ao serviço dos doentes e dos pobres‖65.
O pensamento sobre a religião como algo que não é somente de preparação para vida eterna, mas que precisa dar resposta para as necessidades básicas do ser humano na sociedade, seguiu Ibiapina por toda sua vida. Para Comblin:
―Na mente de Ibiapina, a religião devia não somente preparar para a vida eterna os pecadores arrependidos, mas também criar melhores condições de vida, lutando contra o que se chama hoje de pecado social ou estrutural. Tratava-se de mobilizar as energias latentes no povo para responder às necessidades mais urgentes‖66.
O Padre Ibiapina começa sua peregrinação de cooperar no socorro e no desenvolvimento do sertanejo sofrido. Juntamente com essa peregrinação se desfez de tudo
65 Ibidem, pg. 289 e 290.
o que tinha, repartindo com a irmã e os irmãos. Com essa atitude, se coloca na dependência de Deus, se convertendo aos pobres, tendo o desejo de se tornar um deles. Acredita-se que esta atitude desenvolve em Comblin uma sensibilidade para com os pobres ao ponto de estar sempre pronto a viver perto deles.
Os sacramentos, para Ibiapina, andavam junto com as respostas às necessidades básicas do povo (caridade). E assim, ele pode ser considerado um dos maiores missionários do sertão, tanto pela distância por ele percorrida, quanto pelas obras realizadas, conseguindo reunir milhares de trabalhadores e trabalhadoras que, como obras de fé, levantaram edifícios para o serviço do povo. Com o auxílio destas pessoas, Ibiapina construiu 22 casas de caridade para recolher meninas abandonadas, ensinar crianças pobres, recolher e dar atendimento a doentes e oferecer hospedagem aos peregrinos. Além disso, eles construíram açudes, capelas e hospitais. Tudo em 15 anos de ministério árduo e incessante. Comblin diz que a evangelização elaborada por Ibiapina é uma lição para os dias atuais:
―Padre Ibiapina inventou um método missionário muito significativo para os nossos tempos. A evangelização não se faz somente pela administração dos sacramentos, mas também pelo exercício concreto e prático do amor ao próximo. Numa região em que a desigualdade é tão radical e onde ainda há massas rurais e urbanas que vivem de modo muito precário, o exemplo de padre Ibiapina constitui uma lição muito atual‖67.
Em 1883, antes de sua morte, com sua saúde debilitada, lutou para deixar as casas de caridade, como ele chamava, funcionando e, além disso, exortou muitas pessoas no leito de dores e as enfermeiras dos hospitais a continuarem crendo no milagre da restauração da vida e no levantar dos pobres nordestinos. Sempre confiou e mobilizou pessoas para esta grande obra que marcou a vida de alguns padres, entre eles, Comblin. Gisa Maia testemunha sobre essa influência:
―No meio do nosso povo, o Pe. Zé não é apenas respeitado, mas ternamente amado. É o companheiro e o conselheiro como o Pe. Mestre Ibiapina de quem ele tanto ―herdou‖ tantos traços espirituais. Pe. Ibiapina depois de cem anos de morto continua vivo atualíssimo, ele e os que como José Comblin procedem da mesma e boa cepa evangélica são portadores de uma viva esperança para os que mais precisam‖68.