A família compõe-se de um conjunto de pessoas com condições e em posições socialmente reconhecidas, interagindo regular e repetidamente. De acordo com a sua composição, a família pode ser de vários tipos: nuclear, alargada, monoparental, reconstruída, unitária e outros tipos.23,29,47
a) Famílias nucleares
A família nuclear carateriza-se por uma só união entre adultos e um só nível de descendência, isto é, pais/filhos. Não existem linhas colaterais (tios, primos), nem há saltos nas gerações (por exemplo, só avós e netos). É frequente, nas populações envelhecidas, estas famílias serem constituídas apenas por dois elementos – o casal de “meia idade” ou idoso.
20
assiste-se a uma constante diminuição da sua quota no conjunto das tipologias familiares dos países desenvolvidos. Para um número crescente de pessoas e famílias, o casal com um ou mais filhos representa apenas uma fase da vida familiar, de duração autolimitada.
b) Famílias alargadas
As famílias alargadas ou extensas caraterizam-se pela presença de várias gerações – incluiem, frequentemente, a família nuclear, o(s) avó(s) e, por vezes, linhas colaterais, como tios e primos. Tradicionalmente considerava-se estas famílias menos vulneráveis do que outras tipologias familiares. Um dos fatores essenciais na construção sólida e saudável de uma família, e até da própria personalidade de cada um, passa pela transmissão de valores e isto far-se-ia mais facilmente numa família alargada. Também a presença em casa de mais adultos que se apoiariam entre si, repartindo as tarefas domésticas e as inerentes à educação e prestação de cuidados às crianças, com menor sobrecarga de cada um dos membros, resultaria em menor vulnerabilidade da família. Num contexto de urbanização crescente e de envelhecimento da população, quase sempre não é assim. Muitas destas tipologias familiares formam-se, não por opção, mas porque o filho que se casa não tem recursos financeiros que lhe permitam autonomizar-se como família nuclear ou o familiar idoso tornou-se dependente nas atividades da vida diária, sendo acolhido pelos descendentes. Com a entrada de novos elementos, é usual as casas tornarem-se exíguas relativamente ao número de habitantes e a falta de espaço individual pode originar tensões relacionais e atuar como stressor crónico.
No caso do idoso dependente, em vez de mais recursos humanos que se apoiam entre si, assiste-se à sobrecarga do cuidador, geralmente a mulher, que acumula os cuidados aos filhos com os cuidados ao familiar doente, fenómeno que originou a designação de geração sanduíche.48
Outros exemplos de fatores geradores de stress nas famílias alargadas são a competição pela atenção entre membros da família e a indefinição das linhas de autoridade.49
c) Famílias monoparentais
A família monoparental é constituída por um dos pais com o(s) filho(s).
São diversas as causas que podem dar origem a este tipo de tipologia: viuvez, nascimentos fora do casamento, separação, divórcio. Se no passado se tratava sobretudo de famílias compostas de viúvos(as) com filhos, atualmente o grande aumento deve-se sobretudo à separação e divórcio e, em menor medida, a mães solteiras com os seus filhos.
São causa gerais do divórcio: o stress da vida quotidiana; o prolongamento da esperança de vida; a mudança de mentalidades; a alteração das normas jurídicas; a alteração de papéis e a autonomia económica das mulheres.50 Entre as causas próximas do divórcio podem estar, ainda, mudanças geográficas, problemas profissionais, diferentes modelos sociais, incompatibilidade relacional e stress na vida familiar (gerações anteriores, morte de filho ou pai).50
As causas de monoparentalidade mais frequentes nos casos atuais e os critérios para a custódia dos filhos explicam a razão pela qual na grande maioria o progenitor sozinho é a mãe, considerada mais adequada para as tarefas parentais, especialmente quando os filhos são pequenos.27 Mais recentemente, em alguns países, incluindo Portugal, foi instituída a guarda conjunta. No entanto, também neste caso, a residência habitual é a da mãe.
21
Nas famílias reconstruídas pelo menos um dos dois cônjuges provém de um casamento anterior. Se há filhos de uma relação anterior, de um ou dos dois elementos do casal, a situação é bastante complexa: de facto, não só o casal parental e o casal conjugal não coincidem, mas constituem dois núcleos diferentes. Se o outro progenitor ainda estiver vivo e mantiver relações com os filhos, de algum modo estes pertencem também à sua família e “transitam” entre as duas famílias. A própria economia familiar pode ser construída dentro de um sistema de vínculos e recursos referentes a lealdades e obrigações familiares que atravessam os limites da coresidência.27
e) Famílias unitárias
A família unitária é constituída por uma única pessoa, vivendo só ou em casa de estranhos. Entre as pessoas sós, os idosos representam uma parte substancial destes núcleos familiares, sobretudo as idosas viúvas, devido à maior longevidade feminina e à comum diferença de idades entre os géneros por altura do casamento.27
Ao contrário, nas idades jovens e intermédias, estão mais presentes os homens. Esta situação deve-se a modelos culturais de género, sobretudo nos países europeus do sul, que mais facilmente aceitam a saída dos homens de casa por razões que não tenham a ver com o casamento do que a das mulheres. Não obstante, sobretudo nos casos de elevados níveis de escolarização e capital profissional, existe um número crescente de mulheres que valorizam a autonomia e que consideram a identidade pessoal e social uma produção individual, ao invés de uma herança familiar, como outrora, escapando mais facilmente e durante mais tempo à urgência de fundar a sua própria família. Entretanto, frequentemente, estas mulheres optam por viver sós.27
Em idade jovem ou na meia idade, também os casos de separação e divórcio contribuem para a maior representação masculina nas famílias unitárias desses grupos etários - quando há filhos, estes são normalmente confiados à mãe (que forma uma família monoparental), enquanto o pai vai viver sozinho.27
O facto dos processos migratórios envolverem um maior número de homens que de mulheres é outro elemento que explica a maior representação masculina nos núcleos familiares unitários da população em idade ativa.27
É usual atribuir-se uma grande vulnerabilidade às famílias unitárias. Estudos recentes reforçaram essa perceção, demonstrando que não se ser casado é um fator de risco para a saúde. Ao contrário, o casamento tem um efeito protetor da saúde, mais para os homens casados do que para as mulheres. A maior taxa de mortalidade dos solteiros, viúvos e separados é imputada ao isolamento social.51
Contudo, a solidão não é inevitável e as famílias unitárias podem ter uma boa rede de suporte social. Constituindo uma parte substancial deste tipo de famílias, muitos idosos que vivem sós, são-o um pouco menos do ponto de vista das suas relações e vida quotidiana, surgindo como objeto e sujeito de uma densa rede de trocas. São os casos de muitas famílias nucleares que se alargam diária ou periodicamente, não só para acolherem ou cuidarem do idoso, mas também para requisitarem dele alguma ajuda; ou dos idosos que recebem diariamente em sua casa os netos, de quem cuidam enquanto os pais destes trabalham. Assim, os “tetos” que separariam diversas famílias surgem menos evidentes do que seria de esperar.52
f) Outras famílias
Englobam-se em “outras famílias” todas aquelas que não podem ser incluídas nos tipos anteriormente descritos, sendo exemplos deste grupo de famílias: famílias constituídas
22
por avós e netos ou tios e sobrinhos; famílias monoparentais em que houve retorno à família de origem com apagamento das fronteiras entre as diversas gerações; irmandades religiosas; jovens que se juntam para partilhar a habitação e as despesas; casais de homosexuais; famílias de acolhimento; outras. Os modos de constituir família e os seus significados multiplicaram-se. Assim, algumas famílias incluídas nos exemplos dados carecem de legitimização social e legal, sendo no entanto reconhecidas como “família” na prática clínica, tendo em conta alguns dos seus aspetos fundadores e tradicionais: a coabitação, a solidariedade entre conviventes, a cooperação e o empenho recíproco.