3. Results
3.1. SNP marker segregation in different horse breeds
Autores que, ao longo dos anos, vêm estudando as comunicações e expressões da criança têm reconhecido a importância do jogo e do brinquedo
na análise infantil e, como expressivo valor diagnóstico, na compreensão das expressões de conflitos e vivências psíquicas do universo infantil.
Aberastury (1982) cita Freud89 como pioneiro das bases da técnica do
jogo lúdico ao analisar o brincar de um menino que fazia aparecer e desaparecer um carretel como tentativa de elaboração das angústias frente à separação de sua mãe.
Simon (1986:8-9) versa sobre as importantes contribuições de Klein, que identificou o brinquedo como o modo expressivo natural infantil e afirmou que a brincadeira pode expressar os processos mais profundos inconscientes do universo psíquico da criança, cujo dinamismo se assemelha aos dos sonhos, sendo utilizados os processos psíquicos desvendados por Freud90 para a condução da descoberta de sentido oculto intrínseco no
brincar da criança.
Ao preconizar que a “linguagem lúdica” é semelhante à “linguagem dos sonhos”, Simon (idem:35) retrata, segundo os paradigmas kleinianos, que pelo brincar a criança traduz simbolicamente fantasias, desejos e experiências vividas, e que, portanto, as maneiras de brincar, bem como a troca de um brinquedo por outro, não são frutos do acaso e sim efeito do determinismo inconsciente.
Aberastury (1982:48-49) enfatiza o brinquedo como “uma ponte entre a fantasia e a realidade”, além de permitir vencer o medo dos perigos do mundo interno. Ao retratar o jogo, destaca como seu funcionamento a elaboração das situações traumáticas para o ego, “cumprindo uma função catártica e de assimilação por meio da repetição dos fatos cotidianos e das trocas de papéis, por exemplo, fazendo ativo o que foi sofrido passivamente”.
Ressaltamos que a observação da primeira hora de jogo como método diagnóstico foi apresentada por Aberastury (idem:112): “comprovei que a criança nos comunica, desde a primeira hora, qual é a sua fantasia inconsciente sobre a enfermidade ou conflito pelo qual é trazido ao tratamento e, na maior parte dos casos, sua fantasia inconsciente de cura”.
89 FREUD, S. (1920) Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1975. 90 FREUD, S. (1900) Interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1972.
A autora (p. 52) afirma ainda que a gravidade do caso pode ser avaliada segundo a construção do jogo desenvolvido pela criança.
Aberastury (ibidem) explica essa comunicação da criança tão efetiva sobre a fantasia inconsciente de enfermidade e a de cura logo no primeiro contato com o psicólogo, em razão do temor de que ele repita com ela a conduta negativa dos objetos originários que possam ter provocado sua perturbação; concomitantemente, expressa o desejo de que o psicólogo possa ajudá-la a melhorar.
Quanto à postura do psicólogo em interação com a criança, Aberastury (ibidem:108) adverte − o que muito se aproxima do apresentado no tópico anterior − que, para analisar uma criança, não basta ter somente o conhecimento da teoria e da técnica em si, mas “ter algo do prazer que sente a criança ao brincar, manter algo da ingenuidade, da fantasia e da capacidade de assombro, que são inerentes á infância [...] o que considero não se pode transmitir nem ensinar, mas sim desenvolver notavelmente com a análise individual do psicanalista”.
Sigal et al. (2001:207) dedicaram-se à compreensão da hora de jogo diagnóstica e também salientaram que, embora seja oferecida a possibilidade de brincar num contexto particular, com um enquadramento que agrega limitação de espaço e tempo, com finalidades explicitadas, o jogo é assim estruturado a partir dos aspectos internos da personalidade da criança: “nesta situação, expressa somente um segmento de seu repertório de condutas, reatualizando no aqui e agora um conjunto de fantasias e de relações de objeto que irão se sobrepor ao campo de estímulo”.
As autoras (idem:208-209) reconhecem e abarcam que na atividade lúdica o brinquedo é o mediador, expressando as vivências da criança. Contemplam ainda a singularidade de cada hora diagnóstica, mesmo que ocorra mais de uma, sustentada por um vínculo transferencial breve, “cujo objetivo é o conhecimento e a compreensão da criança”.
Sigal et al. (ibidem) também observam a ampliação e a diversidade do campo transferencial pela inclusão dos brinquedos como meio de comunicação, como objetos intermediários, em que a criança pode depositar sentimentos resultantes de vínculos com aspectos de sua interioridade; a
tarefa do psicólogo é recuperar esse material apresentado para integrá-lo na totalidade do processo diagnóstico.
Safra (1984:59), ao abordar a condução da análise do jogo pelo psicólogo, muito contribui quando propõe que, do ponto de vista psicopatológico, devem-se notar os mecanismos defensivos mais utilizados pela criança durante a atividade lúdica, além das ansiedades e angústias predominantes, das formas de relações objetais e das fantasias inconscientes expressadas para a composição do quadro nosográfico do caso.
Objetivamos contextualizar como, inicialmente, o brinquedo e a atividade lúdica eram vistos, pela unicidade, como formas exclusivas de comunicação, assim como é a verbalização para os adultos.
Prosseguimos apresentando um enfoque diferenciado do brincar, que muito apreciamos e utilizamos em nossa prática clínica. As contribuições de Winnicott, acerca da necessidade de considerar o próprio brincar em si mesmo como meio facilitador ao desenvolvimento emocional, registraram a crescente inovação dos estudos dos fundamentos psicológicos, que têm sido amplamente abarcados pela clínica psicanalítica contemporânea.
Apresentamos, a seguir, um recorte da literatura winnicottiana que trata das considerações sobre o brincar, pois julgamos que muito enriquecerá nossa explanação.
É bom recordar que o brincar é por si mesmo uma terapia. Conseguir que as crianças possam brincar é em si mesmo uma psicoterapia que possui aplicação imediata e universal, e inclui o estabelecimento de uma atitude social positiva com respeito ao brincar. Esta atitude deve incluir o reconhecimento de que o brincar é sempre passível de tornar- se assustador. Os jogos e sua organização devem ser encarados como parte de uma tentativa de prevenir o aspecto assustador do brincar [...] Brincar como uma experiência, sempre uma experiência criativa, uma experiência na continuidade espaço-tempo, uma forma básica de viver (WINNICOTT, 1968/1975:74-75).
Aiello-Vaisberg (2004), autora a que muito nos remetemos, esclarece, com propriedade, que o brincar para aquela criança que requer tratamento psicológico o psicólogo deve fornecer cuidados especiais vislumbrando
condições adequadas para seu desenvolvimento, norteando como questão nuclear a provisão de um ambiente terapêutico suficientemente bom. A autora elucida (idem:176):
No oferecimento de uma situação terapêutica que apresente características que imitem, simbolicamente, o ambiente natural fornecedor do desenvolvimento psicológico humano, isto é, um meio em que a criança se sinta verdadeiramente reconhecida, apoiada, não-invadida, encorajada a se expressar e compreendida.
O que convém assinalar novamente é que esse ambiente suficientemente bom descrito pela autora é proporcionado pelo psicólogo, incluindo tanto seu preparo teórico como sua experiência clínica e, principalmente, sua análise pessoal, pois sem essas condições de preparo o profissional não alcançará as condições necessárias para o acolhimento das angústias da criança.
Aiello-Vaisberg (idem:177) destaca o sentido de acolhimento proposto às angústias despertadas pela criança como condição favorável, pois caso o psicólogo não se apresente nessa condição poderá minimizá-las defensivamente ou, aumentá-las ansiosamente ou, ainda, acolhê-las falsamente, o que não redundará em nenhum ganho terapêutico.
Destacamos a considerada observação da autora (ibidem:178) mediante a ênfase contemporânea atribuída ao brincar como papel curativo e facilitador do desenvolvimento emocional, pois inicialmente constituiu-se que a clínica infantil deveria seguir a clínica dos adultos. Perante a inovação winnicottiana do brincar, reconhece-se que os aspectos da clínica infantil deveriam esclarecer toda a clínica dos fundamentos psicológicos, mesmo a dos adultos.
Retornamos a Winnicott, norteador de nossas reflexões, e reproduzimos interessantes observações, à luz de seus pensamentos, referente ao brincar. Escreve Winnicott (s.d./1989/1994:49-50):91
91 O texto original intitula-se “Notas sobre o brinquedo”, publicado em 1989/1994, sendo as observações do autor encontradas em “Idéias de Winnicott”. Como não possuem a referida data, os organizadores dessa coletânea supõem que sejam observações datadas de antes do final da década de 1960, pois, após esse período, Winnicott utiliza a terminologia brincar no lugar de brinquedo.
A característica do brinquedo é o prazer; a satisfação no brinquedo depende do uso de símbolos... a capacidade de brincar é uma conquista no desenvolvimento emocional de toda criança humana; o brinquedo como conquista ou realização no desenvolvimento emocional individual: a) a tendência herdada que impele a criança avante, b) a provisão, no meio ambiente, de condições que atendem às necessidades do bebê...c) o brinquedo começa como símbolo da confiança do bebê e da criança pequena na mãe (ou substituto materno); o brinquedo é uma elaboração imaginativa em torno das funções corporais, relacionamento com objetos e ansiedade; o brinquedo é, primariamente, uma atividade criativa (tal como o sonho) desempenhada, em comparação, o cuidado insuficiente, produzindo uma falta de confiança, faz diminuir a capacidade de brincar; ao lado do elemento essencial, que é o prazer, o brinquedo dá à criança a prática em manipulação de objetos, administração do poder de coordenação, habilidades e julgamentos, controle sobre uma área limitada (embora descubra o campo de ação ilimitada da imaginação).
Nessa extensa citação contemplamos as referências do autor para a importância do brincar a fim de enfatizarmos, além de forma de comunicação infantil dos aspectos psíquicos inconscientes da criança, também a capacidade de poder lidar com a externalidade de forma criativa, o que produzirá um viver criativo, conduzindo, à luz dos pensamentos winnicottianos, à capacidade de se sentir real, de forma que o encontro diagnóstico também pode ser definido como encontro terapêutico.
Outro aspecto importante identificado pelo autor (idem:50) refere-se ao fato de que o brincar, por si mesmo, facilita a administração da agressão e da destrutividade perante a capacidade de simbolização da criança, temas importantíssimos para a constituição do self sob a ótica winnicottiana, pois, no brincar, o objeto pode ser destruído e restaurado, ferido e reparado, sujo e limpo, morto e ressuscitado, conquistando assim a ambivalência em lugar de cisão de objeto.
O autor (ibidem) considera ainda que, sem o brincar, a criança é incapaz de ver o mundo criativamente, o que pode dirigir-se à submissão e futilidade.92 Focaliza que crianças conduzidas por um viver não criativo,
frente à ludicidade, apresentam o fracasso em jogar um jogo, por exemplo,
ou ainda apresentam-se inquietas, privadas, como também no exercício da dominação, em que ela só é capaz de brincar seu próprio jogo, além da perda da capacidade associada à falta de confiança e da ansiedade atrelada à insegurança.
Conferimos, dessa forma, a adequada observação de Aiello-Vaisberg, já citada, de que os princípios da clínica psicológica infantil conduzem aos esclarecimentos de toda clínica psicológica dos adultos.
Logo, incluímos esse recorte da obra winnicottiana a fim de enfocar a importância do brincar para o processo evolutivo do crescimento emocional e, portanto, a singularidade da atividade lúdica se apresenta além dos princípios diagnósticos inerentes, abarcando a capacidade de tornar-se seu desenvolvimento extremamente terapêutico.
Prosseguimos, assim, destacando alguns trabalhos, em nosso meio, que se utilizaram da técnica da atividade lúdica, tanto o ludodiagnóstico como a ludoterapia.93
Menichetti (2003) estudou a atividade lúdica no contexto do psicodiagnóstico compreensivo propondo para a interpretação dessa técnica o referencial de análise do procedimento de desenhos-estórias, elaborado por Tardivo (1985). A pesquisa objetivou instrumentalizar a atividade lúdica e promover sua maior utilização e compreensão, tanto no desenvolvimento de pesquisas científicas como para os psicólogos e estudantes que iniciam a prática clínica.
A autora (idem) desenvolveu seu estudo com quatro crianças de cinco a sete anos e analisou os dados obtidos nas entrevistas com os pais, na atividade lúdica e nos desenhos-estórias.
Menichetti (ibidem) verificou que as crianças interagiram com a atividade lúdica, exploraram o material disponível e brincaram com ele, além de apresentarem material clínico significativo e vínculos com a pesquisadora. Concluiu a autora que as análises efetuadas segundo o referencial proposto demonstraram a utilidade da atividade lúdica como instrumento de avaliação, além de enfatizar que tanto o procedimento de desenhos-estórias
93 Diferenciamos somente por definir a ludoterapia como a composição do tratamento psicológico infantil estabelecido.
como a atividade lúdica possuem características semelhantes, pois possibilitam uma situação livre, na qual o sujeito pode se expressar e revelar aspectos de sua personalidade.
A autora inclui ainda, em sua conclusão, o registro de que a atividade lúdica também comportou um fator terapêutico além dos aspectos avaliativos, o que concorda com o pensamento de Winnicott sobre o brincar, como apontamos anteriormente, além de afirmar a importância de um setting acolhedor para o par psicólogo-criança no tocante à elaboração de conflitos.
Considerou valiosa a contribuição da atividade lúdica para a compreensão clínica como um todo, revelando-se um procedimento relevante para a elucidação de dinamismos da personalidade e como facilitador de contato com a criança.
Sei (2004) desenvolveu seu estudo por meio do emprego da técnica de ludoterapia com uma criança abrigada, retirada de seu lar por denúncias de violência física. As sessões ludoterapêuticas foram desenvolvidas na própria instituição-abrigo, com uma freqüência de três vezes semanais, no período de novembro de 2001 a fevereiro de 2003, totalizando 106 sessões de atendimentos.
A autora desenvolveu as sessões ludoterapêuticas sustentadas na perspectiva winnicottiana do desenvolvimento emocional, atrelando a compreensão teórica à prática clínica, em que identificou os avanços, a reconstrução da constituição emocional da criança, por meio de seu brincar, segundo os paradigmas winnicottianos sobre o processo maturativo do desenvolvimento psíquico.
Contemplou a importância da atividade lúdica como possibilidade de elaboração das vivências emocionais da criança, em que seu brincar, sustentado pela provisão ambiental oferecida pela pesquisadora, favoreceu seu crescimento emocional, apresentando aspectos mais integrados na criança.
A autora concluiu que a criança, por meio da atividade lúdica, sustentada pela experiência de vivenciar um ambiente não intrusivo, acolhedor e atento a suas necessidades num interjogo suficientemente bom
com a pesquisadora, pôde se desenvolver emocionalmente, elaborando vivências traumáticas, no sentido de alcançar uma maior integração de sua personalidade, mesmo em um setting diferenciado, como é o caso de atendimentos psicológicos realizados em âmbito institucional, o qual referendamos anteriormente.
Assim, verificamos que a autora contemplou o brincar, no enfoque terapêutico, como facilitador ao desenvolvimento emocional da criança.
Partimos assim, tendo dialogado sobre a importância da atividade lúdica, do brincar, à exposição do segundo instrumento utilizado neste estudo: o procedimento de desenhos-estórias.