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Desenvolvemos, além dos instrumentos projetivos citados, entrevistas na instituição com a coordenadora e com as monitoras responsáveis pelos cuidados dos gêmeos, as quais serão descritas no capítulo V, a fim de ampliarmos nossa compreensão nos estudos de casos dos irmãos. Também realizamos o estudo documental, que refere-se às consultas que efetivamos nos prontuários dos gêmeos, disponibilizados no próprio abrigo, contendo dados acerca do histórico familiar e relatórios emitidos pela instituição ao Juiz da Vara da Infância e do Adolescente da região em que se encontra

localizado o abrigo, além da conduta de acompanhamento dos casos, que também serão transcritos sinteticamente no Capítulo V e a íntegra, nos anexos.

Pensamos em nos ater, para esta explanação, ao campo das entrevistas desenvolvidas no abrigo. Consideramos, além da perspectiva de

compilação de dados sobre os gêmeos,112 também a possibilidade de

acessarmos as peculiaridades do aspecto relacional dos irmãos com o contexto institucional, de forma a constituir uma visão totalizadora das crianças e suas relações, complementando assim nossa investigação.

Ao pensarmos em investigar o campo relacional que circunscreve os gêmeos e a instituição propriamente dita, agregando os integrantes desse âmbito, conduzimo-nos primariamente pelo conceito de concepção de homem, à luz dos pensamentos de Bleger (1989). Diz o autor (idem:19):

Há uma permanente e estreita relação entre indivíduo e sociedade e só se pode compreender um pelo outro; como seres humanos, dependemos em alto grau da natureza, de nossos semelhantes e da organização social para satisfazer necessidades.

Seguimos com Bleger (ibidem:17-18):

Inclusive, a partir do ponto de vista de seu desenvolvimento biológico a partir da vida intra-uterina, o ser humano vive numa intensa e profunda compenetração com a vida de outros seres humanos, numa verdadeira situação simbiótica, e a investigação recai no complexo processo de aculturação pelo qual se passa dessa condição indivisa, primitivamente não diferenciada, à condição de indivíduo e pessoa.

Bleger (ibidem:20) atesta a impossibilidade de conceber o ser humano sem conexão com a natureza e seu meio social e estabelece sua condição de ser concreto, o que esclarece que significa pertencer a determinada cultura, grupo, e que ao estabelecer a condição de pertencer a um determinado grupo não se apresenta casualmente, mas sim, por outro lado, “que integra seu ser

112 Os gêmeos se encontram em abrigamento antes de completarem o primeiro ano de vida e, no decorrer deste estudo, estavam com cinco anos de idade, tendo permanecido durante todos esses anos no mesmo abrigo. Tanto a coordenadora como as monitoras cuidadoras de ambos permanecem no abrigo desde a entrada dos gêmeos na instituição e acompanharam todo o período inicial de crescimento dos irmãos.

e sua personalidade: não se deve estudar a consciência ou a atenção in abstracto e sim a conduta concreta de tal indivíduo ou de tal grupo, em tais considerações concretas e num dado momento”.

Considera ainda o autor (ibidem) que, pela condição de ser social, o homem está em constante interação com os demais indivíduos, o qual atribui a essa organização de experiências o conjunto das relações sociais, e a esse conjunto, aquele que vem preconizar o ser humano em sua personalidade.

Sintetiza Bleger (idem) que, por ser o meio ambiente do ser humano um ambiente social, provêm deste último os estímulos fundamentais para a organização de suas condições psicológicas.

Aiello-Vaisberg & Machado (2004:105) articulam, com vasta compreensão, as concepções blegerianas atreladas aos pensamentos winnicottianos. Incluímos a ênfase dada pelas autoras ao aspecto da coexistência humana por estarmos engajados nessa contextualização. Assim, nos valemos das importantes compreensões das autoras.

A interlocução é norteada pela concepção de que o ser humano, desde seu princípio existencial, está inter-relacionado com outro ser humano, assim representado pela mãe, que diretamente ou indiretamente vem a transmitir os costumes, a cultura da sociedade em que vive.

Assim como Bleger conceitua que o ser humano vive desde a vida intra-uterina numa profunda compenetração com a vida de um outro ser humano, o que o torna desde o início um ser social, Winnicott também conceitualiza a importância da presença de um ambiente suficientemente bom inicial como facilitador ao desenvolvimento das potencialidades da saúde do bebê, assim sustentado por uma relação natural, verdadeira e fusional com outro ser humano, prioritariamente a mãe.

Além de se propagar essa intencionalidade, consideravelmente importante da interação com outro ser humano para o desenvolvimento maturativo, Winnicott (1951/1975) apresenta o espaço potencial intermediário entre a percepção e a apercepção, aquilo que é subjetivamente concebido e o que é objetivamente percebido, a realidade compartilhada,

como fruto da experiência ilusória, afirmando o autor (idem:15) ser, esta última, “a raiz natural do agrupamento entre seres humanos”.

Valemo-nos também das contribuições de Santiago (1984) ao contextualizar a importância do estudo das interações da criança com o grupo que pertence; no caso, a autora cita o familiar como investigação necessária na composição do diagnóstico, pois diz Santiago (idem:74) que:

[...] negar que os tipos de vinculação estabelecidos no processo de desenvolvimento possam cristalizar certas condutas normais ou patológicas que os indivíduos apresentam, seria negar a importância da própria vida de relação que é comum aos seres humanos.

Outro aspecto importante para o desenvolvimento de entrevistas complementares na tarefa diagnóstica é pronunciado por Santiago (idem:75) ao explicar que o emprego dessas entrevistas pode vir a ampliar os conhecimentos acerca das conexões e dos aprofundamentos resultantes do pensamento clínico do profissional, na medida em que facilita a exclusão de algumas hipóteses levantadas inicialmente, como também a formulação de outras no decorrer do processo diagnóstico.

Prosseguindo com as idéias de Santiago (ibidem), a autora ressalta com propriedade que o processo de investigação diagnóstica, quando realizado em âmbito institucional, assume características particulares, o que determina que o “psicólogo deverá então recorrer a modelos alternativos que levem em conta as peculiaridades da clientela e da própria instituição, sem perder de vista a qualidade de seu trabalho”.

Dessa forma, ampliamos nossa investigação com a realização de entrevistas complementares, especificamente com o corpo funcional do abrigo, justamente pela concepção do campo da coexistência entre os seres humanos, pois pela ação do abrigamento os gêmeos inseriram-se no contexto institucional como campo relacional de suas experiências, no percurso desde o início de vida até o presente momento da realização deste estudo.

Assim, finalizamos este capítulo considerando que a análise das entrevistas complementares e o estudo documental dos gêmeos contribuíram

para o melhor entendimento e enriquecimento de nossa compreensão dos dinamismos intrapsíquicos de ambos, além de contemplarmos o valor do diagnóstico compreensivo e interventivo, utilizado com base no encontro inter-humano, destacando o brincar como experiência singularmente criativa para o avanço do desenvolvimento psíquico.

“O desenvolvimento do ser humano é um processo contínuo. Tal como no desenvolvimento do corpo, assim também no da personalidade e no da capacidade de relações. Nenhuma fase

pode ser suprimida ou impedida sem efeitos perniciosos.”

WINNICOTT (1947), 1982, p. 95.