• No results found

CHAPTER 6. BLOWOUTS

6.2 REPORTED BLOWOUTS & WELL INCIDENTS

6.2.3 Snorre A – 2004

Esta dimensão expressa a idéia e o reconhecimento de que o professor não é só aquele que transmite conhecimentos, que forma e que educa, mas também aquele que aprende na sua relação com o aluno e com sua profissão. Ensinar e aprender são dimensões distintas e complementares que fazem parte do ser e do estar na profissão.

Essa dimensão da representação aponta para o fato de que os professores rejeitam a idéia de que o professor é o dono do saber, aquele que controla o conhecimento e é responsável pela sua transmissão. Aponta, também, para o reconhecimento do aluno como portador de conhecimento e de saber, capaz de influir no seu aprendizado e no próprio aprendizado do professor. Ensinar pressupõe um processo de troca constante entre professor e aluno. O professor sai do seu pedestal de dono do saber e reconhece que o conhecimento exige uma troca constante entre os atores do ato educativo. “Eu achava que o professor era o dono do saber. Mas depois que eu vi que não, que a gente vai aprendendo junto com... As crianças também passam muito pra nós, a gente aprende muito com eles” (Professora Amarílis).

Aqui aparece o reconhecimento de que o aluno é portador de conhecimento e, portanto, precisa ser ouvido e considerado. O professor precisa estar aberto a esse conhecimento e precisa considerá-lo. O saber do aluno vem de sua experiência, embora ainda pouca, e do que aprendeu ao longo da vida. Ele traz para a escola esse saber e o professor precisa estar disposto a ouvir o aluno, considerar o que ele tem a dizer. “A gente vai de acordo com os conhecimentos deles também, com o que eles trazem, as informações deles, e a gente vai renovando” (Professora Amarílis).

Ouvir o aluno e considerar as sua experiências de vida aparecem mesmo como técnicas utilizadas pelos professores para trabalhar em sala de aula. A professora Amarílis inicia sempre um novo conteúdo a partir da vivência de seus alunos. Para ela fica mais fácil. Se não for dessa maneira, se chegar com tudo pronto, eles não prestam atenção. Mas “[...] quando a gente vai de acordo com o que eles vivenciam aí é mais fácil”. A professora Margarida aprendeu a considerar o que ela chama de ‘o conhecimento prévio do aluno’ sobre determinado tipo de conteúdo. Esse conhecimento, na sua maneira de compreender, tem origem naquilo que os alunos aprendem através da televisão uma vez que seus pais são geralmente analfabetos e de pouca informação. Sendo assim, “Eu começo a sondar o que eles já têm de conhecimento daquele assunto. Ah, professora, eu vi isso no Fantástico, eu vi falar isso em tal programa de televisão” (Professora Margarida). De uma maneira ou de outra, os professores estão dispostos a ouvir seus alunos, a considerar os seus saberes e a aprender com eles. “Se eu puder ajudar eu ajudo orientando, se eu não puder eu, deixo ele me ajudar, porque muitas vezes o aluno ensina a professora” (Professora Jade). Ela aprende através dele, de suas experiências e de suas condições de vida. No contato diário com o aluno aprendem a conhecer a condição social e humana de seus alunos, as suas idiossincrasias. Esse conhecimento lhes permite pensar sobre si mesmas e sobre as suas condições de vida e existência e refletir sobre sua condição de mãe e de mulher. As experiências de vida ajudam a compor as experiências profissionais. As experiências de vida acumuladas na profissão ajudam a compor e a refletir sobre a vida que se desenrola para além dos muros escolares. O trânsito entre o lar e a escola permanece aberto.

A formação assemelha-se a um processo de socialização, no decurso do qual os contextos familiares, escolares e profissionais constituem lugares de regulação de processos específicos que se enredam uns nos outros, dando uma forma original a cada história de vida (DOMINICÉ, 1988. p. 60).

Considerar que o aluno é detentor de conhecimento e, assim, estar disposto a ouvi-lo e mesmo aprender nessa relação, é um indicativo da influência de processos formativos em sua maneira de compreender a profissão. Desde a primeira metade do século XX, com o movimento renovador da Escola Nova, o discurso a respeito da relação professor/aluno tem se modificado. Da pedagogia tradicional, centrada na figura

do professor como autoridade do ensino, o discurso se deslocou, na pedagogia renovada progressista, para a formação da imagem do professor como auxiliar do desenvolvimento da criança, um facilitador do processo. As pedagogias progressistas (LIBÂNEO, 1984), por sua vez, acentuaram a relação de troca entre o professor e o aluno, considerando o lugar social de ambos. Com suas variações, a idéia de que o professor é um orientador, que deve considerar a experiência individual e de vida social do seu aluno, que está numa relação de aprendizagem mútua com ele e com a atividade de ensino, permaneceu como elemento importante nos programas de formação docente, passando a compor o universo representacional dos professores. O discurso desses professores, que em tempo recente concluíram o curso de Pedagogia, reflete essa orientação. Após cursar Pedagogia, a professora Margarida reconhece que “[...] eu mesmo, eu to vendo que eu não sou só um professor, mas sim um facilitador da aprendizagem daquele aluno”.

Nesse processo de melhor compreensão do lugar do aluno enquanto aprendiz, e maior respeito aos conhecimentos prévios dos mesmos, as professoras reafirmam a dimensão do cuidar e do respeitar o outro, dando ênfase à relação entre a pessoa do professor e a pessoa do aluno. No entanto, desaparece de suas falas a importância da aquisição do conhecimento sistematizado como caminho para alternativas melhores de vida e de compreensão do mundo. Mais ainda, elas parecem não saber bem como esse processo pode ocorrer ou como elas próprias podem desencadeá-lo. Parece ocorrer uma dicotomização do papel do professor: ou ele é um cuidador da criança, ou um transmissor de conhecimento, demonstrando a dificuldade de imbricamento dos dois papéis. Voltemos à experiência da professora Jade e sua aluna com dificuldade de leitura. Quando a aluna, finalmente, consegue ler e, na sua inocência infantil, pergunta se sabe realmente e como foi que aprendeu, a professora lhe diz “Eu não sei Diana, você aprendeu”.

Já dissemos anteriormente que o ingresso na docência aparece, para esses professores, como uma possibilidade de ampliar e mesmo adquirir capital cultural. Essa aquisição aparece, também, na forma de aprendizado formal. O trabalho lhes abre a possibilidade de aprender com o ofício e com os processos de formação continuada que a profissão lhes oferece. A docência exige aprendizado constante e possibilita condições para esse aprendizado.

Os encontros pedagógicos mensais, os cursos de aperfeiçoamento e os seminários de educação municipal aparecem como espaços de aprendizado da profissão.

As exigências colocadas pela profissão e as possibilidades de aperfeiçoamento oferecidas são elementos que indicam que o professor nunca está pronto e precisa aprender constantemente. O professor que aprende reconhece as próprias fragilidades e limitações no desempenho do seu trabalho e busca a sua superação. Reconhece a importância dos saberes acumulados na experiência, mas julga necessário dispor de novos saberes para lidar com a complexidade crescente da profissão. Para a professora Diamante seria preciso “[...] investir mais nos professores, com relação a cursos de aperfeiçoamento, passaria a atualizá-los cada vez mais, pois sei que ficam muitas coisas a desejar”. Já a professora Dália acredita que para melhorar o desempenho e a qualidade do trabalho é preciso “Que continuem investindo na qualificação do professor”. O fato de o professor não se considerar pronto e estar sempre na necessidade de uma formação contínua e incessante aparece como fruto de uma negociação com os discursos técnico- científicos que propugnam essa necessidade e com os discursos oficiais que transformam palavras em exigências profissionais. Ambos acabam por naturalizar tais necessidades, transformando-as em virtudes.

O professor aprende, também, com o próprio trabalho e no local de trabalho. Embora reconheçam a necessidade de formação especializada, é na sala de aula e na experiência do dia a dia que aprendem o ofício. É preciso estar aberto e disposto a aprender, uma vez que o professor nunca está pronto. “A gente tá sempre aprendendo” (Professora Amarílis). As estratégias para lidar com os alunos, com os pais desses alunos e com as dificuldades enfrentadas no dia a dia de trabalho, por exemplo, refletem esse aprendizado. “É certo que nós não dispomos de recursos adequados ou condições desejáveis. No entanto, a experiência em sala de aula vem ultrapassando obstáculos [...]” (Professora Rubelita). Muitas dessas estratégias têm suas raízes nos saberes de formação, é bem verdade, mas é no local de trabalho que aprendem a profissão. É aí que os saberes da formação são negociados com os saberes da experiência, conformando maneiras de ser e estar na profissão.

O local de trabalho é, também, o lugar de aprender com o outro ou com os outros coletivamente. No discurso dos professores, a equipe de trabalho, quando existe e é “unida” e tem “compromisso”, se constitui numa verdadeira rede de ajuda e aprendizado da profissão. “Na medida do possível sempre que preciso estamos debatendo os nossos problemas do dia a dia para desenvolver melhor as nossas atividades”, diz a professora Pérola. Quando não é a solidão de se trabalhar sem apoio ou quando as companheiras de trabalho não se integram num trabalho coletivo – no qual

não se aprende ou se aprende o que não se deve aprender – é no apoio dos outros que os professores buscam ajuda. E nessa relação aprendem juntos a lidar com a profissão e a enfrentar os seus dilemas.