CHAPTER 4. PHYSICAL WELL BARRIERS
4.3.3 Well Isolation
A escolha do magistério por acaso ou necessidade expressa de maneira mais significativa a condição social desses professores e a necessidade de entrar no mercado de trabalho para fazer frente às lacunas dessa condição. Expressa um não desejo deliberado, uma não escolha. As respostas para essa categoria se referem à falta de opção de trabalho, a uma oportunidade que apareceu por acaso e à necessidade de ajudar a família.
Num município onde as opções de emprego são escassas e a vida no campo é difícil e incerta, sujeita às intermitências do tempo e à escassez de recursos, a profissão docente aparece como uma opção de sobrevivência e, ao mesmo tempo, de distinção social. A entrada para o magistério, além de assegurar recursos materiais num ambiente adverso, possibilita a aquisição e mesmo a ampliação de capital social enquanto pertença a “[...] uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e inter-relacionamento [...]” (BOURDIEU, 1998. p. 67). Em outras palavras, permite a integração desses agentes a um grupo, dotados de propriedades comuns e unidos por relações permanentes e úteis. A profissão docente, afirma Valle, “[...] figura entre as carreiras valorizadas socialmente, porque combina um certo status
profissional com estabilidade de emprego [...], colocando os professores ao abrigo das flutuações do mercado” (VALLE, 2006. p. 181). E pode servir também, segundo a autora, de lugar de passagem, de trampolim para algumas funções administrativas.
Ainda que por acaso ou por forças das circunstâncias, a escolha da docência aparece como produto de um habitus que permite reconhecer o jogo da vida social e nele jogar. Segundo Bueno,
As condutas similares e de certo modo coesas, que são explicitadas quanto à escolha, permite assim supor a mediação de determinados
habitus relacionados aos processos de distribuição social dos
indivíduos, no âmbito do qual se encontra a questão do destino profissional (BUENO citada por SILVA, 2003. p. 74).
Sem investimento em capital escolar (investimento familiar e dos próprios professores), ser professor não passaria de um sonho, um sonho curto diante das crescentes exigências de formação. A professora Magnólia tornou-se professora porque o seu pai investiu em seus estudos, a despeito dos irmãos que não puderam estudar. Seguiram eles a profissão do pai agricultor. Foi preciso também desenvolver estratégias para participar desse jogo com chances de sucesso, ou seja, garantir condições de empregabilidade e de acesso ao mercado de trabalho. Nesse sentido vale o apego às amizades e às influências políticas. Magnólia se apoiou em um antigo professor que lhe estimulou a continuar os estudos e lhe abriu as portas do magistério. Em casos mais extremos, vale mesmo a autoridade materna ou paterna e a pressão familiar para fazer concurso (caminho esse que exige novas estratégias – financeiras, de economia doméstica e de tempo) ou assumir alguma turma deixada por uma professora conhecida.
O caso da professora Estrela mostra bem esse tipo de pressão. Ao dizer dos motivos de sua escolha, a professora admite a força da sua mãe nesse momento. “Na realidade foi por um acaso. Fiz o concurso obrigada pela minha e quando me dei conta tinha passado e estava com uma grande tarefa a ser cumprida. Então era o jeito encarar o que estava por vir”. Embora não quisesse ser, a professora estava apta, dispunha dos capitais necessários para participar do concurso, coisa que os irmãos de Magnólia não possuíam. Por outro lado, sua mãe tinha clareza da oportunidade que o concurso representava e sabia que a filha não podia desperdiçar essa chance. Obrigou-a, como
Estrela afirmou. Usou de sua autoridade como recurso estratégico para garantir o acesso da filha ao mercado de trabalho.
A fala de Margarida é também muito sugestiva. Ela nos mostra o complexo jogo social no interior do qual se deu a sua escolha.
Olhe. Essa profissão eu não escolhi assim... Foi por falta de oportunidade. Porque você sabe, quem mora na zona rural não tem muito o que escolher. Então eu terminei o primeiro grau. Ai, como minha mãe não deixava eu sair pra Campina pra dar continuidade aos estudos... Pra ir pra outra cidade, no Rio de Janeiro ou São Paulo muito pior. Então, naquele tempo era muito fácil a pessoa ser professora. Ai uma colega minha que era diretora da escola, muito conhecida minha, arrumou uma turma aqui bem pertinho e eu comecei a ensinar.
Sua mãe não lhe permitiu maior investimento educacional. Temia a distância e houve uma época em que a mulher não precisava mesmo de muito estudo. Mas ela já havia concluído o 1º grau, o suficiente na época para ser professora. Na verdade, não tinha mesmo muita opção, diz ela. Por outro lado, a estratégia de conseguir uma colocação, uma turma para lecionar, pela amizade e pelo conhecimento, poderia resolver o problema, e ainda melhor, perto de casa. A estratégia surtiu efeito. Na época era fácil, diz Margarida. Não precisava fazer concurso, nem ter pedagógico ou curso superior. Além do mais, ela conhecia o secretário de educação que tinha sido diretor da escola onde ela havia estudado. “Ai eu não tive dificuldade pra arrumar essa turma. Me encaixei e fui logo contratada pela prefeitura”, conclui.
A escolha da profissão docente aparece, nesse caso, como uma oportunidade, como uma oportunidade num mundo de poucas opções, como estratégia para conservar ou mesmo adquirir uma nova posição social. O ingresso nesse grupo profissional e não em outro qualquer é produto do lugar social que ocupam e do jogo que é aí jogado, da incorporação das regras desse jogo na forma de habitus. Segundo Bourdieu, a avaliação subjetiva das chances de sucesso de uma ação contextualizada (como a escolha da profissão, por exemplo) faz intervir
[...] todo um corpo de sabedoria semiformal, ditados, lugares comuns, preceitos éticos [...] e, mais profundamente, princípios inconscientes de ethos, disposição geral e transponível que, sendo o produto de um aprendizado dominado por um tipo determinado de regularidades objetivas, determina as condutas “razoáveis” ou “absurdas” (as loucuras) para qualquer agente submetido a essas regularidades (BOURDIEU, 1983d, p. 62-63)
O caso da professora Amarílis é bem parecido. Ela havia estudado até a 8ª série e havia feito um concurso para telefonista. Antes de assumir a nova função, surgiu uma vaga de professora em sua comunidade e ela assumiu a turma. “Eu tinha feito o concurso pra telefonista e lá não tinha. Quando surgiu uma vaga para telefonista, que botaram um telefone lá, ai eu já tava como professora e não quis mais sair”. O jogo da vida social está presente, por intermédio do habitus enquanto sentido do jogo, nessas estratégias. “Os grandes negociadores são aqueles que sabem tirar o melhor partido de tudo isso” (BOURDIEU, 2004b. p. 89). Amarílis afirma que nunca pensou em ser professora, que esse era um sonho de sua mãe, não seu. Que o único incentivo para elas ser professora vinha mesmo de sua mãe. “Acho que era o sonho dela ser e não teve chance, e aí ela... Era a minha mãe quem me incentivava mais, não tinha outras pessoas não”.
A escolha da profissão é produto das estratégias (individuais, familiares) utilizadas no jogo da vida social. Uma atitude, uma conduta razoavelmente ajustada à situação. Sem capital econômico e cultural suficiente que permita aos nossos agentes alçar vôos mais altos (ser médico, advogado, ou dentista) uma boa estratégia de reprodução biológica e social é ingressar na profissão docente. Esta garante capital econômico compatível com a manutenção de sua posição social (e mesmo a possibilidade de ascensão em alguns casos), permite a integração desses agentes em um grupo e, portanto, garante a eles uma identidade profissional e reconhecimento, ampliando o seu capital social, além de possibilitar a ampliação de seu capital cultural através dos processos de formação continuada a que estão sujeitos.
A professora Lis reconhece que a sua escolha profissional possibilitou a ela ampliar o seu capital cultural. A muito afastada de qualquer processo formativo sistemático, ela admite que “[...] através da minha profissão tive mais oportunidade de estudar”. Uma outra professora admite que o ingresso na profissão possibilitou a ela cursar o ensino superior e concluir o Curso de Pedagogia. Isso ampliou seu capital
cultural – “Estudei aqueles livros de 0 a 6 anos de psicologia, Piaget, Paulo Freire, essas coisas foram mudando a minha vida, como mulher, como profissional, como mãe, foi tudo”. Uma recompensa certamente. É preciso mesmo saber tirar o melhor proveito neste jogo difícil.