3.4 Going fine-grained
3.4.4 Slovenian and its “degraded” instrumental
Duas décadas depois de seu primeiro emprego por Crick e Lister, o termo adquire um uso oficial e mais amplo no Reino Unido ao fazer parte do relatório final de uma comissão, constituída em 1997 e presidida por Bernard Crick, para sugerir encaminhamentos e orientar a educação para cidadania no Reino Unido, que passou a ser conhecido como “Relatório Crick” (QCA, 1998). Nesse documento que retoma, detalha e revisa a proposta inicial de educação política dos dois autores, o letramento político é a terceira vertente de uma educação para a cidadania eficaz, situando-se ao lado de duas outras que são o envolvimento com a comunidade e a responsabilidade moral e social. Desse modo, o letramento político consiste em “alunos aprendendo sobre e como se tornarem efetivos na vida pública por meio de conhecimento, habilidades e valores” (QCA, 1998, p. 13) 27.
Para entender plenamente a definição dada, vamos explicitar os termos com os quais foi constituída. A começar pela expressão vida pública que é empregada em sentido amplo, referindo-se aos vários aspectos da vida pública que vão desde as questões socioeconômicas contemporâneas até às políticas públicas e às escolhas individuais quanto à inserção no mundo do trabalho, tanto em termos locais quanto nacionais e internacionais. Aqui é importante destacar que o Relatório Crick dá ao letramento político um alcance bem maior do que o tradicional conteúdo das disciplinas de educação política. Ao adotar a expressão vida pública vai-se além de uma educação para a cidadania centrada no funcionamento do Estado e nos direitos e deveres do cidadão para incorporar os vários espaços e tempos em que a política se faz presente na vida das pessoas, como o entendimento do mercado de trabalho e como isso afeta as escolhas de formação profissional, por exemplo. Também vale a pena retomar o texto inicial de Crick e Lister (1978), quando explicitam que política se refere, por um lado, ao conflito de interesses e ideais; e, por outro, à distribuição de poder e à maneira como são acessados os diferentes recursos de uma sociedade, logo a política é parte da experiência humana de viver em sociedade. É por isso que, para os autores, a política está tanto na atuação dos políticos e ativistas profissionais ou política partidária e na
27 Considerando que a definição de letramento político nos dois textos é similar - “um composto de conhecimentos, habilidades e atitudes, que devem ser desenvolvidos integradamente, um condicionando o outro” (Crick e Lister, 1978, p. 37) - e que o uso oficial do termo terminou se sobrepondo nos estudos subsequentes, preferimos explicitar aqui o conceito usado no Relatório Crick, sem deixar de considerar a definição primeira quando necessário.
Ciência Política quanto nas relações sociais que uma pessoa estabelece cotidianamente em sua família, em seu prédio, seu trabalho, em seu círculo de amigos e daí por diante.
Depois, conforme um quadro em que são relacionados os elementos essenciais da proposta de educação para a cidadania do Relatório Crick, identifica-se como conhecimentos e entendimentos a natureza das comunidades democráticas, questões e eventos contemporâneos, a interdependência entre os indivíduos, a Declaração dos Direitos Humanos e suas questões, a natureza da diversidade, da dissenção e do conflito social, questões sobre meio-ambiente e desenvolvimento sustentável, etc, ao lado de conceitos-chaves como democracia e autocracia, direitos e responsabilidades, liberdade e ordem, poder e autoridade, etc. As habilidades e atitudes, por sua vez, consistem em tolerar o ponto de vista dos outros, usar argumentos racionais, reconhecer formas de manipulação e persuasão, usar criticamente a mídia e a tecnologia para obter informações, desenvolver a capacidade de resolver problemas, etc. Os valores e disposições, por fim, compreendem a preocupação com o bem comum, prática da tolerância, iniciativa e esforço individual, disposição para o trabalho cooperativo, coragem para defender um ponto de vista, crença na dignidade e igualdade humana, compromisso com a cidadania ativa, determinação em agir com justiça, etc. Ainda que não exaustiva, a listagem permite entrever como se caracterizam os três elementos básicos do letramento político. Trata-se de conhecimentos, habilidades e valores que, amparados em pressupostos republicanos, como veremos mais adiante, são tomados como fundamentais para o pleno exercício da cidadania em uma democracia participativa.
Finalmente, por aprender sobre e como se tornar efetivo deve-se entender, em primeiro lugar, que esses conhecimentos, habilidades e valores “não devem ser aprendidos como uma lista desencarnada de aspectos, conteúdo e termos, mas sim embutidos em questões, eventos e atividades de relevância e interesse” (QCA, 1988, p. 42), ou seja, busca-se desenvolver a competência dos alunos para que eles pratiquem a cidadania desde a escola. Para isso, sugere-se que o professor explore esses três componentes, abordando com seus alunos questões contemporâneas, preferencialmente temas controversos, levando-os a vivenciar dentro ou fora da sala de aula ações e entendimentos que são fundamentais para o exercício da cidadania na vida adulta. Em segundo lugar, aprender sobre e como se tornar efetivo está diretamente ligado à ideia da participação como o objetivo maior do letramento político, uma vez que, como está explícito no Relatório Crick, o grande benefício do letramento político na escola é
proporcionar o empoderamento dos alunos “para participar efetivamente na sociedade como cidadãos ativos, informados, críticos e responsáveis” (QCA, 1998, p. 9). Tal objetivo se justifica, ainda, porque essa proposta de educação política tem como diagnóstico a apatia, o cinismo e a ignorância dos cidadãos, sobretudo os jovens, a respeito da vida política. Daí a importância para a sociedade de “uma cidadania ativa e politicamente letrada” com os cidadãos convencidos que “podem influenciar o governo e as questões de sua comunidade em todos os níveis” (QCA, 1998, p. 9).
O conceito de letramento político elaborado no Relatório Crick e sua ambiciosa proposta de educação para a cidadania – na abertura do documento está expresso que seus signatários “objetivam não menos que uma transformação da cultura política neste país tanto nacional quanto localmente” (QCA, 1998, p. 7) – foram objetos de várias apreciações28. Uma parte delas se preocupou com os aspectos teóricos e pedagógicos da
proposta que instituía uma nova disciplina no currículo do ensino básico na Inglaterra29.
Outra parte se ocupou prioritariamente das questões contextuais, ideológicas e conceituais30. Independentemente de como a proposta foi analisada, porém, o fato mais
relevante aqui é que a partir dessas discussões o uso da expressão letramento político ganha foro e se legitima como uma nova perspectiva dentro do campo mais amplo da educação política. Nesse sentido, é relevante destacar que, apesar de o Relatório Crick localizar o letramento político como uma das três vertentes da educação para a cidadania nas escolas, o termo logo passa a assumir metonimicamente o conjunto da proposta. É o que se observa, por exemplo, no título de um estudo feito por Maitles: Trinta anos de Ensino de Letramento Político nas Escolas Escocesas: quão efetivos são os Estudos Modernos? (Maitles, 2000), entre vários outros.