Para articular os elementos plásticos e compor cada cena, cada espaço plástico, o artista necessita combinar um conjunto de signos entre si, para que se transformem em composição e em obra. São esses elementos plásticos que, organizados, definem e caracterizam as imagens enquanto formas visuais. Os procedimentos de organização, no seu conjunto, definem e caracterizam as imagens, ou os espaços plásticos da obra – espaços abstratos, compostos dos seguintes aspectos:
a) superfície da imagem, bem como a sua organização, ou seja, as relações de equilíbrio entre as partes que compõem o todo ou o modo de organizar e relacionar as partes;
b) gama de valores ou contrastes de luz de cada parte do todo; c) gama de cores e suas relações de contrastes e;
d) elementos gráficos e a matéria da própria imagem ou aquilo que pode permitir o reconhecimento temporal da obra.
O modo de organização do espaço plástico decorre da ação da percepção, associada às regras que regem a linguagem. A percepção do artista capta a matéria por meio das impressões que tem do ambiente e as traduz em desenhos, compostos pelas figuras, narrados graficamente no papel e subjetivamente. A matéria do ambiente é vista nos desenhos pelas personagens e ambientes que compõem os cenários, a exemplo da figura do Juiz da cidade de
Goiás (Figuras 38 e 40). Para realizar os esboços das obras, DJ Oliveira recorre aos recursos
da gramática para dar corpo à idéia em forma de composição.
A função dos elementos construtivos é de coordenação e organização dos artifícios e informações, colocados em ação pelo artista para construir plasticamente o espaço da obra. É a partir da organização desses elementos que se constrói a imagem, mas é também através do uso dos princípios compositivos, e do modo de perceber o espaço que DJ Oliveira atualiza os modos de construção do espaço da obra já estabelecidos pela tradição. Os fundamentos sintáticos são necessários à alfabetização visual, nos quais se sustenta a criação.
Os fundamentos sintáticos são indispensáveis à criação da obra, uma vez que são eles os responsáveis pela sustentação da mensagem visual. São parte das estratégias da comunicação visual, sintetizando-se naquilo que é denominado por Farias (1999, p. 185)
“substância básica daquilo que vemos”. Contudo, o resultado da aplicação da sintaxe faz-se visível pela obra, ao mostrar através dela os aspectos citados antes (a, b, c e d).. Mas para corporificar os gestos gráficos em esboços o artista necessita dos elementos visuais. São eles: ponto, linha, forma, direção, tom, cor, textura, dimensão, escala e movimento. Esses elementos, quando organizados, dão origem à imagem, a exemplo das Figuras 38, 39, 41, 42, 43, 46 e 47. Essas obras revelam as habilidades do artista em utilizar os elementos visuais de construção nas linguagens da pintura e da gravura.
Na pintura (Figura 39), DJ Oliveira faz uso das linhas para dar contorno à forma e direcionar os objetos na composição. Recorre às cores, em diversos tons: amarelo, laranja, vermelho, azul e preto para dar graduações e significar espaços e figuração, para conferir dramaticidade ao contexto. DJ Oliveira busca dar sentido ao diferentes espaços do quadro. Na pintura a cor é o destaque. Pelos deferentes espaços e formas revela as dimensões de cada espaço e figura, bem como movimento dentro da cena.
Na gravura, diferentemente da pintura que é realçada pelas cores, cada espaço é destacado pelos tons negros, derivados do pigmento preto, que se agarra às ranhuras da chapa de ferro, gravada pelo ácido nítrico. Com as texturas em águas-tinta, destaca os diferentes planos do quadro. Os tons em negro dão vida e drama à cena do juiz, contornado pelas linhas das águas-forte. Com as linhas, indica os movimentos do juiz, cuja figura, caminhando da direita para a esquerda do quadro, revela pelos tons em preto o seu estado psicológico.
Com texturas resultantes das águas-tinta, DJ Oliveira faz sobressair na cena a personagem do juiz, não na condição de um ser inatingível, ou da visão distorcida, de supremacia, que a profissão caracteriza. DJ Oliveira mostra pela aparência caída dos ombros que a personagem tem sentimentos humanos e que ela também parece padecer com suas angústias.
É importante esclarecer que nem sempre os elementos visuais se fazem presentes simultaneamente numa composição, mas são as formas de organização do espaço plástico. As informações são coletadas no espaço de ação, no ambiente da cidade, e transformadas pela aplicação da sintaxe, gramática própria da criação das artes plásticas, ou princípios de construção do espaço abstrato. São esses mecanismos de construção adotados pelo artista que se procura conhecer através da Crítica Genética. Na análise, deseja-se verificar a importância deles no processo de organização da obra.
Em DJ Oliveira, o desenho surge com meio para registrar formas de pensamento materialmente. Para significar as idéias, dar sentido aos elementos visuais e transformar o desenho em esboço e em obra, DJ Oliveira precisa organizar os elementos visuais no espaço do papel. Necessita fazer os desenhos e organizá-los em composições harmoniosas. A forma de organização plástica, às vezes, se inicia pelas experimentações gráficas denominada croquis e culmina nos esboços, os quais são desenhos transformados em obras. A elaboração deles não segue um padrão único de composição ou estilo. No começo de sua carreira, DJ Oliveira organiza o espaço plástico com o uso da perspectiva e, posteriormente, pela linha de
referência, traço a partir do qual se desencadeia a organização do espaço da obra.
O modo de organização do espaço plástico, em DJ Oliveira, se evidencia, no processo de criação dele, pela aplicação da perspectiva para simular efeitos de profundidade no espaço da obra. Esse modo de construção do espaço da obra revela-se como sua verdade inicial para representar o espaço. A partir desse modo de construção, ele experimenta um outro modo de representação do espaço da obra. Propõe uma nova forma, que é a representação bidimensional. É por meio dessas experimentações que ele aprende a construir e se reconstrói na sua experiência.
O espaço do papel se apresenta no processo de criação como o local onde o artista realiza os experimentos, evidencia-se como suporte sobre o qual ele exercita a prática criadora. Torna-se o lugar onde os dados são coordenados, artifícios e informações são arquitetados pelo artista. Porém, o modo de operação, bem como os mecanismos de organização do espaço da obra surgem, se desenvolvem e se modificam durante o processo, não se limitam a um único procedimento de construção. Várias tendências de criação e recursos de organização se deixam mostrar pelo processo do artista, sobre os quais se falará depois.
A organização do espaço plástico se apresenta como um dos esforços do artista para encontrar a sua maneira de representação, porque ele não adota modelos de criação prontos, ou fórmulas preestabelecidas. Tenta no decorrer de seu percurso produtivo encontrar, pela experiência, adaptar e ajustar os procedimentos às suas necessidades expressivas e comunicacionais.
O esforço em criar e ajustar procedimentos construtivos a seu gosto indica a preocupação do artista de conseguir formas próprias para resolver os problemas da criação e se canaliza para um modo particular de representação conforme mostram o esboço da Figura
48, a gravura da Figura 49, o esboço da Figura 50, a pintura da Figura 51. Nos esboços (Figuras 48 e 50) e na obra em gravura (Figuras 49 e 57), nota-se a perspectiva, mas na pintura (Figura 51) a sua presença já não parece mais tão importante, pois o planejamento do espaço da obra já aponta para a bidimensionalidade.
A forma construtiva do artista se torna evidente pela unidade dos procedimentos no decorrer do processo que leva à obra e em determinadas situações criadoras. A tendência de organização do espaço plástico tende a causar um efeito sensível e psicológico no espectador.
2. 2 Procedimentos de construção do espaço da obra pelo uso da perspectiva