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Com a independência, os cabo-verdianos partiram duma situação muito desfavorável para promover o desenvolvimento do seu país devido à escassez de recursos em quase todos os domínios. Para muitos, tratava-se de um país inviável do ponto de vista do desenvolvimento, mas trinta e cinco anos depois, evoluiu para um país menos avançado e, presentemente, para um país de desenvolvimento humano médio, enquanto S. Tomé e Príncipe está enquadrado, em 2011, no grupo dos países de desenvolvimento humano baixo, de acordo com a classificação do PNUD.

S. Tomé e Príncipe tinha, aparentemente, uma situação mais favorável do que Cabo Verde porque era relativamente mais abundante em recursos naturais, mas ao contrário de Cabo Verde, acumulou ao longo dos anos da sua independência resultados decepcionantes em termos de desempenho em matéria de desenvolvimento, como veremos mais adiante.

Cabo Verde, que partiu de uma situação relativamente menos favorável do que S. Tomé e Príncipe, sobretudo em relação aos recursos naturais, acreditou e conseguiu importantes resultados em relação ao seu desempenho em matéria de desenvolvimento. Acreditou nas suas

próprias forças, nos seus valores culturais, no seu talento, capacidade e vontade de vencer e fez importantes progressos. Harrison (2008) afirma que as instituições formais não prevalecem sobre a cultura e considera que a política por si só não tem o poder para determinar o caminho do desenvolvimento das sociedades, senão em articulação com a cultura. Para este autor, é a «visão em relação ao destino» que significa «eu posso influenciar o meu destino», ou seja, eu vou seguir o caminho do progresso, que influencia o desenvolvimento e que contrasta com o «fatalismo» o qual é resistente ao progresso e tem importantes implicações no desempenho do empresariado e, consequentemente, no desenvolvimento.

Cabo Verde apostou num pragmatismo estratégico de valorização das pessoas, investindo maciçamente no ensino e formação profissional, na democracia, e na abertura ao exterior e, particularmente, na inclusão dos cabo-verdianos da diáspora em questões do desenvolvimento. Dos 72 deputados em 2009 (508.759 habitantes, de acordo com INECV, 2010), 6 são da diáspora21, enquanto S. Tomé e Príncipe elege 55 deputados (157.847 habitantes em 2008, cf. INESTP) mas nenhum é da diáspora. Por outro lado, as diferentes associações cabo-verdianas nos países de acolhimento não só prestam apoio aos seus compatriotas nesses países como também mantêm um relacionamento muito estreito com entidades públicas e privadas desses países, funcionando essas associações como um elo de ligação entre os países de acolhimento e Cabo Verde. Este relacionamento tem favorecido a divulgação do país no estrangeiro, o intercâmbio e criação de geminação entre cidades e apoios para o desenvolvimento de Cabo Verde (Espírito Santo, 2009: 175). Além disso, os cabo-verdianos no estrangeiro contribuem com importantes remessas de emigrantes.

De acordo os dados estatísticos do Banco de Cabo Verde, Boletim Económico de Março de 2006, essas remessas foram bem mais importantes e crescentes entre 2000 e 2005 do que a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) ou o investimento directo estrangeiro (IDE). Para Tolentino (2007: 258), elas “são mais fiáveis e amigas das futuras gerações do que a APD e o IDE”. Mas em 2008, as remessas dos emigrantes per capita atingiram 311 USD, o equivalente à 9,7% do PIB (apenas 1,1% do PIB em STP), enquanto IDE representou 13,3% do PIB (PNUD, 2010).

Por conseguinte, as autoridades cabo-verdianas optaram por uma estratégia de valorização e de inclusão das pessoas enquanto os governantes são-tomenses fizeram precisamente o contrário, deixando de fora da vida socioeconómica e política local a sua diáspora.

O individualismo “excessivo”, o egoísmo, a ganância, “o Eu e não o Outro” a “vaidade” (tendência para o exibicionismo), a inveja, a intriga e o espírito de vingança, muitas vezes através da prática do oculto, que caracteriza a cultura do forro são-tomense, não favorecem a criação de uma base social estável geradora de entendimentos em que o diálogo, a integração e a interacção entre os indivíduos e intercâmbio de experiências entre uns e outros constituíssem um objectivo fundamental em torno do qual o desenvolvimento do território pudesse ser encarado como uma prioridade nacional. Servem isso sim para atiçar conflitos internos para alimentar a má governação, corrupção e a generalização de práticas ilícitas. A intriga, mentira e traição constituem outros valores da cultura forra, muito marcante no seio da elite social forra, mormente da elite política. Com base nesse tipo de comportamento, os membros da elite forra procuravam junto do Presidente da República lugar de destaque na administração pública, no governo ou no partido durante o regime do partido único.

Nos meios locais, há quem afirme que as intrigas, mentiras e traição de alguns forros, junto do governador Carlos Gorgulho, estiveram na origem do massacre de “Batepá” em 1953, em que muitos forros foram abatidos, entre os quais quadros importantes.

Ainda hoje, é muito frágil a relação de confiança entre uns e outros porque a fronteira entre a amizade e traição é bastante estreita e nunca se sabe quando um amigo se torna traidor ou o contrário. E num tal contexto é muito difícil esboçar uma linha de rumo credível para o desenvolvimento.

A tudo isto se junta a crença divina para justificar a situação a que se chegou de grande pobreza, miséria, instabilidade política, corrupção e crise geral, o qual tem sido muito instrumentalizado pelo poder político para convencer a população local que as privações em que se vive deriva da vontade de Deus. A expressão “déçu só cu mêcê”, do crioulo local, que, em português, significa “Deus é que determinou”, é muito usual em todo o arquipélago. Esta falsa crença divina conduziu a população a acreditar que os constrangimentos da sua vida são destinados por ordem de Deus e, consequentemente, passou a adoptar uma atitude de fatalidade, conformando-se com a situação de privações em que vive. É frequente ouvirem-se ministros e altos quadros do Estado virem ao público justificar as críticas que lhes são movidas com a expressão: “é meu destino, é destino que Deus me reservou”, que mais não é

do que a instrumentalização da situação para submeter o povo na ignorância, o que desfavorece o desenvolvimento da instrução.

Assim, enquanto os são-tomenses continuam presos a “deçu só cu mêcê”, os cabo-verdianos recorrem à expressão “bô tem qui lutar” (tens que esforçar para vencer) para incentivar os outros a acreditarem que é sempre possível alcançar os objectivos através do trabalho e empenhamento.

Embora os valores culturais aqui referidos não sejam exclusivos dos são-tomenses, são muito marcantes na pequeníssima sociedade são-tomense, e interferem negativamente na valorização da educação e no desenvolvimento do país, contrariamente a Cabo Verde que cedo procurou apostar num sistema de ensino para valorizar os cidadãos e criar condições para alavancar o seu desenvolvimento sustentável.

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