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DEL IV DRIKKESKIKKER BLANT ULIKE GRUPPER AV

Kapittel 19 Noen trekk ved alkoholpolitikken 1973-2004

19.3 Tilgjengeligheten til alkohol

19.3.2 Skjenkesteder

A Religião Doméstica tinha dois enfoques principais, a relação com os deuses e o culto dos antepassados. No que ao primeiro aspecto diz respeito, as fontes permitem-nos perceber quais as divindades a que o crente recorria nas suas condutas religiosas em casa. Esta identificação possibilita não só inferir motivações como, também, reconhecer preferências.

Existem 840 casos543 de presença de divindades544, quer nas decorações isoladas ou nas decorações de estruturas, quer nas diversas designações e tipologias de objectos. Vejamos na tabela e gráfico seguintes quais os deuses e o número de ocorrências respectivo.

Tabela 27 – Os deuses identificados nas fontes materiais

Amon 2 Merseger 3

Amon ou Khunm 1 Mihos 3

Amon, Ptah 1 Montu 1

Amonet 1 Mut 1

Amon-Ré, Hórus 1 Não identificado 3

Anoukit 1 Nefertum 3

Anubis 2 Nehebka 1

Astarte 2 Osíris 65

Aton 28 Osíris ou Khunm 1

Bes 430 Ptah 13

Bes e Taueret 3 Ptah e Sekhemet 1

Bes e Tot 1 Ptah-Sokar-Osíris 4

Hapi 2 Ptaikos 10

Harpócrates 6 Renenutet e Merseger 2

Hathor 70 Renunetet 4

Hathor e Taueret 3 Satet 1

Hat-Mehyt 1 Sekhemet 16

Hórus 8 Sekhemet ou Bastet 2

Ísis 13 Shu 1

Ísis e Hórus 7 Sobek 4

Ísis ou Hathor 1 Taueret 103

Khenetekhetai 1 Tot 10

Khepri e Aha 1 Tot e Min 1

Maat 1 TOTAL 840

543 Consideramos aqui as representações bidimensionais, tridimensionais e inscrições com o nome do deus. 544 Existem também dois casos de presença de divindades em que não é possível fazer uma contabilização das

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Gráfico 13 – Os deuses identificados nas fontes materiais

0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 Bes Taueret Hathor Osíris Aton Sekhemet Isis Ptah Ptaikos Tot Hórus Isis e Hórus Harpócrates Ptah-Sokar-Osíris Renunetet Sobek Bes e Taueret Hathor e Taueret Mihos Não identificado Nefertum Amon Anubis Astarte Hapi Merseger Renenutet e … Sekhemet ou … Amon ou Khunm Amon, Ptah Amonet Amon-Ré, Hórus Anoukit Bes e Tot Hat-Mehyt Ísis ou Hathor Khenetekhetai Khepri e Aha Maat Montu Mut Nehebka Osíris ou Khunm Ptah e Sekhemet Satet Shu Tot e Min

A tabela e o gráfico apresentados acima evidenciam algo que, à partida, seria já expectável: os deuses mais representados são aqueles com uma ligação intrínseca à casa e à vida familiar, principalmente no caso de Bes e Taueret.

O deus Bes destaca-se neste conjunto com 430 ocorrências545 em que está sozinho e quatro acompanhado de outros deuses (Taueret e Tot), o que corresponde a cerca de 52% das presenças de deuses nas fontes materiais, ou seja, Bes está presente em mais de metade dos vestígios em que são referidas divindades.

545 As fontes materiais onde foram identificadas referências ou representações do deus Bes são provenientes de

dezasseis dos trinta povoados (Akoris, Deir el-Medina, el-Ashmunein, Karnak, Kom el-Fakhry, Kom Rabia, Lahun, Medinet Habu, Medinet el-Gurob, Qantir, Saís, Semna, Sesebi, Shalfak, Tell el-Amarna e Tell el- Muqdam) – desde o Império Médio até à Época Baixa. Destes povoados destaca-se Tell el-Amarna onde foram identificados cerca de 85% dos vestígios com presença do deus Bes.

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Este deus é identificado na decoração de sete altares (Box Bed)546 de Deir el-Medina e na parede de uma casa de Tell el-Amarna547, em duas estatuetas, uma estela, um descanso de cabeça, trinta e uma figuras e modelos548, 378 peças de joalharia e amuletos549 (amuletos, contas, anéis, e escaravelho), dez peças de cerâmica550 e uma placa decorada.

Esta esmagadora representatividade do deus Bes ficará, certamente, a dever-se ao facto desta ser a divindade mais completa no que à protecção da casa e da família diz respeito. É uma divindade de múltiplas facetas que, estando todas relacionadas com a vida doméstica e familiar, dão resposta a diferentes ameaças.

Bes, deus com corpo de anão, pernas arqueadas e rosto leonino, tem uma imagem simultaneamente cómica e aterradora. Mas esta aparência grotesca esconde uma divindade de natureza benigna e responde, desde logo, a uma finalidade: assustar / afastar os maus espíritos ou demónios que podiam atacar a casa ou um seu habitante, em particular durante o sono. Bes não só protegia o lar como guardava a noite dos seus habitantes afastando os espíritos causadores de pesadelos. Esta função é facilmente identificada pela presença deste deus na decoração de descansos de cabeça como é o caso do exemplar identificado em Medinet Habu551. Dois exemplares de Deir el-Medina estão decorados um com um génio armado com facas e outro com uma figura com um corpo semelhante ao do deus Bes mas com cabeça de crocodilo, também armado com facas. Em ambos os casos existe a possibilidade da figura representada ser efectivamente o deus Bes. A presença das facas, um acessório comum na representação deste deus, reforçava o seu poder na luta contra as forças maléficas.

O nome do deus, bs em egípcio552, que significa guardar/proteger, reflecte claramente a função deste deus, e esta protecção é efectiva não só sobre os tais maus espíritos ou demónios, mas também contra os animais perigosos que os feitiços revelam ser uma ameaça do quotidiano. Contudo, a sua função principal, a sua actuação fulcral, ocorre ao nível da protecção da mulher e da criança, mais concretamente durante a gravidez, o parto, a amamentação e a infância. Sendo momentos particularmente arriscados da vida familiar a presença do deus Bes, por exemplo, através de amuletos, era uma garantia de segurança. O recurso a este deus no momento do parto é também visível nas fontes textuais, como patente,

546 Ver anexo 5.2, Figs. 63 a 65. 547 Ver anexo 5.3, Fig.100. 548 Ver anexo 5.4.2, Fig. 194. 549 Ver anexo 5.4.1, Figs. 113 a 115. 550 Ver anexo 5.4.5, Fig. 267. 551 Ver anexo 5.4.6, Fig. 274.

552 Cf. J. C. Sales, As divindades egípcias. Uma chave para a compreensão do Egipto antigo, Lisboa, Editorial

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por exemplo, num feitiço do P. Leiden I 348 associado à protecção do parto onde o deus é identificado através de uma estatueta de um anão de barro: “I am Horus. I came down from

the desert being thirsty, on a shout. I found somebody calling who stood weeping. His wife was nearing her time. I made the calling one stop his weeping. The wife of the man had cried for a statuette of a dwarf of clay: ‘Come, let somebody betake himself to Hathor, the lady of Dendera. Let her amulet of health be fetched for you, that she may cause the one in childbirth to give birth!’ This spell is to be said [...] times [...] over leaves of [...], placed on the head of the woman who is suffering from it.”553

Não directamente identificados como representando o deus Bes, os suportes ou pedestais de Lahun e Kom el-Fakhry554, representam anões com um corpo muito semelhante ao desta divindade, mas com a diferença que, nestes casos, o rosto é humano e no caso do deus Bes é leonino. É, assim, uma possibilidade que estes exemplares de equipamento ritual doméstico fossem uma representação de Bes e, como tal, mais uma presença deste deus nas casas egípcias.

Deste modo, Bes estava presente nos momentos mais sérios da vida familiar. Contudo, este deus, tinha também uma faceta mais descontraída e social uma vez que era também o patrono da música, da dança, da sexualidade e do divertimento no geral. Bes era, em cada casa, associado não só à diversão como à própria vida mais íntima do casal. Não é de estranhar, portanto, vê-lo ser representado a dançar e com instrumentos musicais.

O deus Bes era, em síntese, uma divindade que cuidava de toda a família e da casa onde esta vivia. Os perigos do quotidiano eram diversos e o deus Bes, com todos os seus poderes apotropaicos, era uma garantia de segurança555.

Com apenas uma ocorrência numa estela de Deir el-Medina, temos o deus Aha – acompanhado de Khepri e de uma figura humana em pose de adoração556 – que era um génio benéfico tido como antepassado do deus Bes557 e partilhava com ele as áreas de actuação558.

A segunda divindade mais representada nas fontes materiais é Taueret com 106 referências (103 sozinha e três acompanhada por Hathor)559. Esta deusa está presente em

553 J. F. Borghouts, Op. Cit., 1978, nº 60, p. 39; J. F. Borghouts, Op. Cit., 1971, p. 29. 554 Ver anexo 5.4.6, Figs. 280 a 285.

555 Para mais informações sobre as características desta divindade ver J. C. Sales, Op. Cit., pp. 318 – 321; M.

Malaise, “Bes” in D. B. Redford (ed.), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, Vol. I, Cairo, The American University in Cairo Press, 2001, pp. 179 – 181.

556 Ver anexo 5.4.4, Fig. 252. 557 Cf. J. C. Sales, Op. Cit., p. 319. 558 Cf. Ibidem, p. 322.

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estatuetas560, estelas561, figuras e modelos562, mobiliário e equipamento ritual (grelha de oferendas e bacia), peças de cerâmica563, mas principalmente em joalharia e amuletos564.

Taueret, normalmente identificada como um hipopótamo-fêmea grávida é, na verdade, uma figura compósita com cabeça de hipopótamo, pernas e braços de leão, cauda de crocodilo e peito humano. Tal como o deus Bes, considerado seu marido, Taueret é uma reconhecida divindade doméstica e familiar, e a sua figura grotesca cumpre também a função de assustar os maus espíritos, mas, ao contrário de Bes, tem uma área de actividade mais circunscrita. Esta divindade é acima de tudo protectora da mulher, em especial da mulher grávida – a que está ligada pela sua imagem – e também do parto e de toda a função da maternidade. Os seus amuletos seriam usados nos momentos-chave da vida da futura mãe e da recente mãe.

Taueret era muitas vezes representada ou com o signo hieroglífico S3, símbolo de protecção, ou, tal como Bes, com facas para lutar contra as ameaças. A ‘grávida’, a ‘pesada’ ou a ‘grande’, como era conhecida, era uma deusa protectora que granjeou grande apoio nos lares egípcios por estar tão intimamente ligada à descendência565.

A associação desta deusa à figura do hipopótamo permite acreditar que os vinte exemplos de estatuetas566 e figuras e modelos567 identificados com a forma deste animal lhe possam estar associados ou como representações efectivas de Taueret ou como algum tipo de oferenda que lhe seria dedicada.

Como seria expectável, pelo número de fontes aí recolhidas, Tell el-Amarna é o povoado de onde é proveniente o maior número de vestígios com estas duas divindades, Bes e Taueret (85 e 50%, respectivamente). Por outro lado, por ser Amarna, a nova capital dedicada a Aton, num período dito monoteísta, a presença destes deuses pode parecer mais surpreendente. Contudo, sobre a presença de Taueret em Tell el-Amarna, J. Houser-Wegner afirma: “Taweret’s presence emphasizes the importance of pregnant woman in the lives of the

559 Taueret está presente em catorze dos trinta povoados considerados (Abidos Sul, Akoris, Amara Oeste, Buhen,

Deir el-Medina, Karnak, Kom Rabia, Lahun, Medinel el-Gurob, Semna, Sesebi, Shalfak, Tell el-Amarna e Tell el-Muqdam).

560 Ver anexo 5.2.4, Figs. 236 a 238.

561 Ver anexo 2.2, Figs. 10 A, B e C; anexo 5.4.4, Fig. 253. 562 Ver anexo 5.4.2, Fig. 193.

563 Ver anexo 5.4.5, Figs. 268, 269. 564 Ver anexo 5.4.1, Figs. 116 a 119.

565 Para mais informações sobre as características desta divindade ver J. C. Sales, Op. Cit., pp. 322 – 325; J.

Houser-Wegner, “Taweret” in D. B. Redford (ed.), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, Vol. III, Cairo, The American University in Cairo Press, 2001, pp. 250 – 251; P. Vernus, J. Yoyotte, Op. Cit., pp. 686 – 692.

566 Ver anexo 5.4.3, Figs. 231 a 233.

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common people, who did not cease their worship of this popular goddess568.” Ou seja, no que

à Religião Doméstica diz respeito, e apesar da identificação em casa do culto a Aton – este deus ocupa a quinta posição da lista com vinte e oito ocorrências – numa vertente muito próxima do que era, na altura, a Religião Oficial, as divindades ditas mais populares e mesmo outras, com posição de maior destaque no panteão, como Amon, Anúbis, Hathor, Ísis, Osíris,

etc., continuam a marcar presença na casa dos egípcios.

A terceira divindade mais representada nas fontes materiais é Hathor com setenta vestígios em que aparece sozinha, três em que aparece associada a Taueret e uma situação em que não é claro se se trata de Hathor ou Ísis569. A presença desta deusa identifica-se em duas estelas570, três figuras e modelos, um instrumento (máscara), cinquenta e uma peças de joalharia e amuletos571 (amuletos, anéis e pendentes), uma bacia, treze peças de cerâmica572 e duas placas decoradas573.

A estes vestígios em que a deusa aparece na sua figura feminina, com cabeça humana, orelhas de vaca e cornos liriformes com disco solar574 podemos, talvez, acrescentar vinte e seis representações de vacas (nove figuras e modelos575 e dezassete amuletos) tendo em conta que esta é outra formulação comum desta deusa. Contudo, por ser uma identificação menos segura, optámos por não incluir estes dados na contabilização das presenças desta deusa. Se o fizéssemos, contabilizaríamos cerca de 100 vestígios com esta deusa o que a colocaria muito próxima de Taueret. E esta presença nas fontes materiais é reforçada por um grande número de referências nas fontes textuais, principalmente nos feitiços, como é exemplo o que referimos anteriormente para o deus Bes.

Hathor, ao contrário de Bes e Taueret, não é apenas uma deusa doméstica e familiar. Hathor é proeminente tanto na esfera privada como na esfera estatal, sendo uma das mais importantes e populares deusas do panteão egípcio. Hathor, deusa de múltiplos atributos576, tinha um lado negativo enquanto deusa da destruição e da morte, tinha uma ligação à realeza estando associada a Hórus como esposa/mãe, realidade ilustrada pelo seu nome – Ḥwt Ḥr: a

568 J. Houser-Wegner, Op. Cit., p. 350.

569 Hathor foi identificada em oito povoados: Abidos Sul, Amara Oeste, Deir el-Medina, Kom Rabia, Qantir,

Semma, Sesebi e Tell el-Amarna.

570 Ver anexo 2.2, Figs. 10 A, B e C. 571 Ver anexo 5.4.1, Fig. 120. 572 Ver anexo 5.4.5, Fig. 270. 573 Ver anexo 5.4.8, Figs. 296 e 297. 574 Ver, por exemplo, anexo 2.2, Fig. 10. 575 Ver anexo 5.4.2, Figs. 175 e 176.

576 Para mais informações sobre as características desta divindade ver J. C. Sales, Op. Cit., pp. 174 a 181; S.

Vischak, “Hathor” in D. B. Redford (ed.), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, Vol. II, Cairo, The American University in Cairo Press, 2001, pp. 82 – 85.

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morada de Hórus577 – e era também deusa do amor, da sexualidade, da beleza, da alegria, da música e da dança. A sua materialização numa vaca dava-lhe uma conotação de fertilidade e criação, estando assim ligada à concepção e ao nascimento. Hathor estava muito próxima das mulheres, sendo o modelo feminino nas suas características mais sensuais, mas também em termos maternais. E será, certamente, este lado de protectora das mulheres e de ligação à fertilidade e concepção que justificam a presença desta deusa no contexto da Religião Doméstica. Como veremos, ela ocupa um lugar de destaque nos momentos-chave da vida da mulher.

Assim, mais uma vez, o facto de uma divindade estar relacionada com a protecção da mulher e de tudo o que se relaciona com os filhos é um factor motivador na escolha para a sua presença em casa.

Esta situação está também patente no caso da deusa Ísis que foi identificada em duas estátuas, quatro figuras e modelos, cinco amuletos e duas placas decoradas, quer só (treze ocorrências) quer acompanhada por seu filho Hórus (sete ocorrências).

Ísis, a mais conhecida divindade egípcia, é a expressão de todas as facetas da mulher. Pela sua ligação a Osíris é a imagem da irmã e da esposa, pela sua ligação a Hórus é a imagem da mãe. É uma deusa com uma forte ligação à família, à maternidade e a sua representação acompanhada por Hórus reforça o seu papel de protectora das crianças e da infância. Assim, também Ísis, deusa do amor, da fertilidade, da fidelidade conjugal e defensora dos filhos, merecia um lugar nos lares egípcios578.

Hórus, deus tutelar da monarquia, está também presente quer nas fontes textuais quer nas fontes materiais, adulto enquanto o próprio Hórus, criança através de Harpócrates, filho de Ísis e Osíris. No que respeita às fontes textuais, Hórus surge nos feitiços assumindo a posição de paciente, isto é, Hórus é identificado com o destinatário do feitiço, independentemente da causa / motivo. E o mesmo acontece nas estelas de Hórus sobre os crocodilos, sendo que nesse caso a intervenção é dupla, activada pelo texto inscrito e pela representação do próprio deus criança na estela. Esta vertente da intervenção de Hórus afasta- o do distante deus falcão dos céus e do poderoso faraó, fazendo ter uma intervenção num domínio ritual mais próximo do homem comum que recorre a ele enquanto deus com um poder de cura. Ou seja, a sua presença em casa pode justificar-se pela sua capacidade de

577 Cf. J. C. Sales, Op. Cit., p. 176.

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intervenção na doença579.

Para completar a tríade Osiríaca referimos agora o próprio Osíris, esposo de Ísis e pai de Hórus, faraó morto, divindade funerária, associado à realeza, à morte e à ressurreição e que ocupa na nossa lista a quarta posição devido a um conjunto de sessenta estatuetas de bronze identificadas numa casa de Tell el-Amarna. Pelas suas características, nada o aproxima, de forma evidente, da realidade doméstica e familiar, contudo, numa leitura menos linear, o facto de Osíris ser um deus com uma grande adesão popular e com uma ligação forte às questões da fertilidade e fecundidade da natureza, com um carácter agrícola, pode, indirectamente, fazer dele um deus com uma potencial intervenção ao nível da reprodução humana, ou mais directamente com as colheitas agrícolas. J. C. Sales refere: “Um antigo costume religioso–

mágico do Egipto antigo […] consistia em regar uma estátua de Osíris feita de barro e trigo (o ‘jardim de Osíris’). Várias destas estatuetas eram enterradas nos campos com o objectivo de assegurar uma colheita abundante […].”580

No total, a lista de deuses elaborada a partir das fontes materiais contempla trinta e cinco divindades e, obviamente, não é possível aqui fazer uma análise da presença de cada uma delas. Escolhemos começar pelos mais representados – Bes, Taueret e Hathor – a que acrescentamos a tríada Osíriaca, não só pelo número de vestígios, mas também pela sua proximidade temática ao universo familiar. De um modo geral, percebemos que, apesar de as divindades tidas por domésticas e familiares assumirem uma posição de destaque, a verdade é que a ligação à casa e à família não é requisito de exclusão. Na verdade, qualquer deus parece poder responder às necessidades do crente. A. Sadek, no âmbito mais abrangente a que chama de religião popular, afirma: “From the study of deities and personal piety we find that almost

all the state gods enter the field of popular religion with theological adaptations specific to each deity”.581

Um exemplo desta presença das divindades estatais na Religião Doméstica é o caso do deus Ptah (treze ocorrências sozinho e duas acompanhado de Amon e Sekhemet em estatuetas, estelas582, figuras e modelos, amuletos, peças de cerâmica e placas decoradas).

Sendo um deus criador, com uma forte ligação à realeza e uma formulação muito

579 Para mais informações sobre as características desta divindade ver J. C. Sales, Op. Cit., pp. 162 – 171; E.

Meltzer, “Horus” in D. B. Redford (ed.), The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, Vol. II, Cairo, The American University in Cairo Press, 2001, pp. 119 – 122.

580 J. C. Sales, Op. Cit., p. 122. Para mais informações sobre as características desta divindade ver pp. 121 – 134. 581 A. Sadek, Op. Cit., p. 85.

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intelectualizada583, Ptah não é uma divindade habitualmente associada a uma religiosidade pessoal. Contudo, este deus não só tem uma forte presença no domínio genérico da Piedade Pessoal onde, em estelas, é designado como “aquele que ouve orações”584, como acontece

com diversos exemplares identificados por W. F. Petrie em Mênfis585, como está também presente em diferentes tipos de objectos identificados em casa. Sendo considerado um deus que escutava as preces do crente, o recurso a Ptah em casa pode não necessitar de outra justificação que a própria vontade de recorrer a um deus que ouve e auxilia.

Tendo em conta as fontes, parece-nos ainda relevante referir quatro outras divindades, neste caso não pelo número de vestígios ou por estarem aparentemente fora de contexto, mas sim pelas suas características e pelas tipologias em causa.

Comecemos pelo deus Tot. Este deus, também uma divindade maior do panteão egípcio, conquistou um lugar na religiosidade pessoal. A. Sadek afirma: “Apart from the official cult of

Thot we learn from various inscriptions left by ordinary people (especially from Deir el- Medina) that Thot was widely worshipped in domestic chapels and private homes, and his images received offerings as well as hymns to praise him”586.

Comummente representado com corpo antropomórfico e cabeça de íbis ou com corpo de íbis ou de macaco com ou sem disco lunar e chifres ou coroa atef com o disco lunar,

uraeus e chifres, Tot é identificado em amuletos587, estelas, figuras e modelos, óstracos e