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O enquadramento espacial tem por objectivo perceber o que poderíamos chamar de ‘geografia das fontes’, isto é, através dos povoados onde foram identificadas os vestígios materiais, pretende-se conhecer a sua distribuição pelo território considerado, de modo a identificar se existiam zonas ‘típicas’ ou com uma presença mais significativa da Religião Doméstica, se o tipo de local e povoado teria algum tipo de influência e até se será possível reconhecer um ‘ponto de origem’.

Assim, comecemos por sistematizar a distribuição dos trinta povoados pelas cinco zonas principais – Delta, Baixo Egipto, Médio Egipto, Alto Egipto e Núbia – e apontar o número de vestígios por cada zona:

Tabela 23 – Distribuição dos povoados em estudos por zonas

Zona Povoados povoados Nº de Nº de vestígios

Delta Tell el-Muqdam, Saís, Qantir, Tell Abqa’in, Tell el-Dab’a 5 (6 não contabilizados) 292 Baixo Egipto Lahun, Qasr el-Sagha, Kom el-Fakhry, Lisht, Medinet el-Gurob, Kom Rabia 6 (8 não contabilizados) 411

Médio Egipto Akoris, El-Ashmunein, Tell el-Amarna 3 (1 não contabilizado) 2244

Alto Egipto Abidos (Kom es-Sultan), Abidos Sul, Elefantina, Deir el-Balas, Deir el-Medina, Medinet Habu, Karnak 7 (9 não contabilizados) 330 Núbia Buhen, Mirgissa, Shalfak, Semna, Askut, Uronarti, Kumma, Amara Oeste, Sesebi 9 (8 não contabilizados) 332

A tabela revela, mais uma vez, que uma análise quantitativa pode ser enganadora. Embora o Médio Egipto tenha o menor número de povoados tem o maior número de fontes.

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No entanto, demonstra também que embora na Núbia contabilizemos o maior número de povoados e no Médio Egipto o menor, nenhuma das zonas consideradas se destaca de modo efectivo, nenhuma é realmente preponderante. Deste modo, parece lógico inferir que não existe uma zona do território ‘típica’ da Religião Doméstica, aliás, as práticas da Religião Doméstica cobrem o território de Norte a Sul, desde o Delta até próximo da III Catarata503.

É importante, para aprofundar esta questão, fazer uma breve incursão ao ponto da dispersão temporal de modo a perceber se a distribuição espacial terá uma relação com o passar do tempo. Consideremos a tabela abaixo que relaciona as zonas consideradas com os períodos das fontes aí identificadas504.

Tabela 24 – Relação das zonas geográficas com os períodos considerados

Início do Período

Dinástico Intermédio I Período Império Médio Intermédio II Período Império Novo III Período Intermédio Época Baixa Império Antigo Delta 1 1 4 1 1 Baixo Egipto 4 2 1 Médio Egipto 1 2 Alto Egipto 2 1 2 1 4 1 1 Núbia 7 4

Cruzando a dispersão espacial com a dispersão temporal sobrevêm alguns aspectos que se distinguem. Na Núbia predominam os povoados com vestígios do Império Médio ainda que os do Império Novo também tenham uma presença significativa. O Delta tem fontes desde o Império Médio até à Época Baixa. O Médio Egipto, devido ao menor número de povoados, só tem fontes do Império Novo e do Terceiro Período Intermédio. O Baixo Egipto também tem uma maioria de fontes do Império Médio ainda que o Império Novo e o Terceiro Período Intermédio também estejam representados. Por fim, o Alto Egipto destaca-se por ser a região onde foram identificadas fontes de todos os períodos considerados. Embora não seja a zona com maior número de povoados, o Alto Egipto tem vestígios desde o início do Período Dinástico até à Época Baixa.

Este aspecto leva-nos a questionar: poderá o Alto Egipto ser considerada uma zona ‘típica’? Isto é, o facto de ser uma região onde os vestígios mais se prolongam no tempo fará do Alto Egipto um espaço com uma especial incidência desta prática religiosa? A resposta será: provavelmente não. Em termos de número de vestígios contabilizados o Alto Egipto ocupa apenas a penúltima posição e no conjunto de povoados em causa salienta-se Deir el- Medina o que reduz para apenas cerca de cem vestígios o contributo dos restantes seis

503 Ver mapa em anexo 3.

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povoados, o que não é verdadeiramente significativo no total. Outro aspecto a apontar é o número de povoados por cada período – no Império Novo existem quatro povoados, mas nos restantes períodos os valores posicionam-se entre um e dois, ou seja, excluindo o Império Novo, a presença de povoados com fontes não se evidencia.

Ainda assim, não a elegendo como zona ‘típica’, detemo-nos nela para abordar a questão da possível existência de um ponto de origem, isto é, um lugar e um momento onde as práticas da Religião Doméstica terão tido início, desenvolvimento, e de onde terão irradiado para o resto do território.

Não é uma certeza que esta questão seja válida uma vez que pode não ter existido um ‘ponto de origem’ mas sim vários e em diferentes tempos e espaços. Ou podemos também considerar a possibilidade de uma importação do exterior, considerando, por exemplo, as figuras animais da Mesopotâmia505, ainda que mesmo assim fosse necessário um ponto de

entrada e de subsequente propagação. E ainda aceitar a possibilidade de um desenvolvimento espontâneo, ainda que análogo, baseado nas mesmas motivações e fundo cultural.

No entanto, a existência, não podemos dizer de um paradigma, mas de modelos que se repetem em diferentes regiões do território506, parece tornar credível a ideia de que possa ter

havido uma zona de origem a partir da qual se terá dado a disseminação das práticas.

Assim, se, uma vez mais, sairmos dos limites temporais do nosso estudo e recuarmos ao período Pré-Dinástico, vamos perceber que na zona do Alto Egipto existem diversos locais onde foram identificados vestígios que, ainda que provenientes de contextos religiosos – templos e túmulos – apresentam características semelhantes ao que vamos identificar posteriormente em contexto doméstico: el-Mahâsna507, Hierakonpolis508, El-Amra509, Região Pré-dinástica de Abidos510 e Badari/Hammamieh511.

505 Ver Anexo 5.4.2, Figs. 191 e 192.

506 Ver, por exemplo, as figuras femininas em forma de bloco de Buhen e Lahun (Anexo 5.4.2, Figs. 209 e 210) e

o tipo de altar de Mirgissa e de Lisht (Anexo 5.2, Figs. 47 e 48).

507 Cf. D. Anderson, Op. Cit., 2011. Ver Anexo 5.4.2, Fig. 188.

508 Cf. W. Needler, Predynastic and Archaic Egypt in the Brooklyn museum, Brooklyn, The Brooklyn Museum,

1984, pp. 357, 359, 362, 365; http://www.hierakonpolis-online.org/index.php/explore-the-predynastic- cemeteries/hk6-elite-cemetery [acedido a 12/01/2015]

509 Cf. D. Randall-Maciver, A. Mace, Op. Cit., pp. 16 – 7, Pl. IX. 510 Cf. W. Needler, Op. Cit., pp. 284, 367, 370.

511 Cf. G. Brunton, G. Caton-Thompson, Op. Cit., pp. 45, 46, 100, 103; Pl. LIII.46, LVIII.5, LIII.47, LXX.36,

LXXIII.16. Neste caso é necessário referir a hipótese, levantada pelos autores, de alguns dos objectos referenciados serem provenientes de contexto doméstico.

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Será coincidência ou podemos pensar que as práticas que encontramos posteriormente em casa são influência do que anteriormente era feito em templos e túmulos? E, se assim for, terá este processo decorrido, de forma mais evidente, nos povoados do alto Egipto?

A verdade é que em Tell el-Farkha512, um povoado Pré-Dinástico situado no Delta, foram também encontrados vestígios do mesmo género em contextos religiosos e alguns potencialmente domésticos, o que põe a ideia de um ‘ponto de origem’ em causa.

Contudo, parece-nos evidente que esta questão torna clara a necessidade de um estudo aprofundado das fontes do período Pré-Dinástico, sendo que esta é uma questão, obviamente, relevante para um enquadramento temporal.

O número de povoados e a sua dispersão geográfica recorda-nos também a questão, já abordada no primeiro capítulo, da supremacia do contributo de Deir el-Medina e Tell el- Amarna para o conhecimento da Religião Doméstica no Egipto antigo.

É uma verdade incontornável que em conjunto estes povoados têm mais de metade das fontes identificadas e consideradas (54%), sendo que os restantes vinte e oito povoados têm apenas cerca de 46%. Mas, mais uma vez, são só números. Se olharmos para as fontes propriamente ditas, para todas as categorias e tipologias representadas nesses 46% percebemos que, mais do que pensar nos números, devemos conhecer e analisar os vestígios. Se excluirmos Deir el-Medina e Tell el-Amarna continuamos a ter as quatro categorias representadas, e estão presentes todas as designações e uma enorme diversidade de tipologias 1 e 2. Ou seja, este conjunto não contém efectivamente o maior número de fontes contudo, reúne material suficiente para uma análise concreta. Ao que acresce o facto de se tratar de vinte e oito povoados, de diferentes zonas geográficas e períodos históricos o que, sem dúvida, atesta não só a existência desta prática para além dos ditos dois povoados como também a sua abrangência territorial e temporal.

Por fim, e ainda que não seja exactamente uma questão geográfica, parece-nos importante referir que os povoados onde foram identificadas fontes não só estão dispersos, de forma bastante equilibrada, por todo o território, como os próprios povoados são diferentes entre si no que respeita à sua tipologia, motivação/função e ocupação. No capítulo anterior fizemos uma breve caracterização de todos os povoados em causa, mas importa agora sintetizar, de modo a clarificar que lidamos com povoados com um carácter defensivo como os fortes da Núbia e Tell Abqa’in no Delta, povoados associados ao culto funerário de um

512 Cf. M. K. M. Chlodnick, A. Cialowicz, A. Maczynska, Tell el-Farkha I. Excavations 1998 – 2011, Krakow,

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faraó, como Lahun e Lisht, associados a templos, como Medinet Habu e Karnak, povoados que eram postos fronteiriços e comercias, como Elefantina, povoados associados à realeza e à corte, como Medinet el-Gurob, Qantir e Saís, e povoados que devem ser vistos como tendo uma natureza especial e diferenciadora, como Deir el-Medina e Tell el-Amarna.

Assim, podemos inferir ainda que, tal como a localização geográfica, a tipologia do povoado também não influenciava a existência ou não desta prática religiosa. Qualquer que fosse a natureza do povoado em causa ele era passível de ser um espaço que abrigava a concretização de manifestações religiosas.