O número de profissionais do CRAS municipal encontra-se em conformidade com as metas determinadas pela Resolução CIT Nº05 de maio de 2010(5 técnicos de nível superior e 2 de nível médio). Contudo, a equipe é reduzida para atender a demanda, pois tanto nas entrevistas como nas observações detectamos a sobrecarga de ações. Para cumprir as metas quantitativas, a qualidade das ações tende a cair e a não atingir o padrão esperado pelos técnicos e definido pelos documentos oficiais, a exemplo das visitas domiciliares, busca ativa e acompanhamento sociofamiliar.
O reduzido número de profissionais na equipe, francamente insuficiente para o grande montante de trabalho, é um fato que gera sobrecarga carga semanal e extrapola os muros da instituição, pois as profissionais levam atividades para realizar em casa, assim como material para leitura e atualização.
A indisponibilidade de recursos humanos para dar conta de todas as ações requeridas e a falta de transporte são fatores impeditivos para melhor efetivação da prática de busca ativa, visitas domiciliares e acompanhamento sociofamiliar.
O processo de terceirização das profissionais contraria as normatizações legais. É uma situação que não garante direitos trabalhistas e gera instabilidade no emprego, levando à rotatividade dos técnicos. A partir desse fato constatamos dois aspectos contraditórios. O primeiro é que o órgão público encarregado de proteger os direitos dos cidadãos, não os cumpre em relação aos trabalhadores que devem propiciar o acesso dos cidadãos aos demais serviços para usufruto de direitos, um dos objetivos do PAIF. A segunda contradição é que a rotatividade de técnicos tende a fragilizar ou impedir a relação de vínculo que porventura foi estabelecida entre profissional e usuário. A entrada de um novo profissional significa um recomeçar para ele que não chega preparado para o novo tipo de trabalho e pode provocar impactos no processo de desenvolvimento do usuário, gerando desistências ou
desestímulo para freqüentar as atividades desenvolvidas. Essa questão também deve ser levada em consideração, pois outro objetivo do PAIF é prevenir a ruptura dos vínculos familiares e comunitários.
Tomando por base a teorização de vários autores referenciados e as observações realizadas constatamos que a intersetorialidade no PAIF é efetivada no âmbito do cumprimento das condicionalidades. Observamos suas restrições quando ela é retratada apenas como a articulação de reuniões sistemáticas para socialização de informações, planejamento de estratégias para execução de tarefas pontuais e encaminhamentos para outros serviços e políticas.
Se por um lado essas ações podem ser um avanço para o município, não conseguem dar resolutividade a questões estruturais geradoras da pobreza e das desigualdades sociais. Assim, a intersetorialidade é uma diretriz que precisa avançar no município para que possam ser implementadas ações que possibilitem diminuir as situações de risco e/ou vulnerabilidade social a que as famílias usuárias do PAIF estão sujeitas.
O trabalho interdisciplinar ocorre de maneira incipiente, no sentido de que o bom relacionamento da equipe contribui para que não haja conflitos. Contudo, os espaços para aprofundamento de discussão acerca das estratégias que poderiam alavancá-la são restritos, entre outras razões não estudadas, pela falta de tempo.
Se o município tem o propósito de avançar na construção da intersetorialidade, é preciso levar em conta que a heterogeneidade das diversas áreas profissionais que atuam no campo das políticas sociais poderá gerar entraves às discussões, por haver conhecimentos e especificidades bastante distintas tanto entre as categorias profissionais como entre os órgãos envolvidos. Assim, o município deve investir tanto no fortalecimento da interdisciplinaridade das equipes do CRAS como das outras instituições envolvidas.
A rede socioassistencial no município é caracterizada pelo predomínio de ações e organizações da área governamental. O apoio e atuação das entidades da sociedade civil e organizações não governamentais aos serviços do PAIF, ainda não é suficiente para atender a demanda da assistência social. Neste quesito a realidade estudada está muito aquém do que está definido pelo SUAS
No município, a dificuldade de transporte para realizar visitas domiciliares faz com que elas se concentrem nos casos de descumprimento das condicionalidades ou emergenciais. Considerando que a visita domiciliar é uma das
estratégias de busca ativa podemos inferir que esta última tem sido reativa e não tem cumprido o papel proativo que lhe cabe.
Sabemos que o princípio de territorialização implica em ter postura proativa, que vá além da busca dos casos notificados por situações de vulnerabilidade e/ou em situação de risco, ou ainda em descumprimento das condicionalidades.
Ao não adotar a busca ativa como ação proativa e preventiva, por problemas decorrentes de infraestrura, a gestão municipal enfraquece a ação técnica, na medida em que o mover-se pelo território, conhecer suas potencialidades e fraquezas, pode propiciar uma intervenção mais concreta e próxima da situação real, para a implementação de políticas públicas, de maneira a prestar um atendimento mais qualificado aos usuários.
O acompanhamento sociofamiliar não é realizado a contento, pois para ser efetivado com a qualidade devida, além de atendimentos por meio de entrevistas e de participação em grupos os usuários e suas famílias devem receber visitas domiciliares regularmente.
A visita domiciliar permite uma ampla percepção das situações vividas pela família no seu cotidiano, onde pode se observar a estrutura e organização da casa, as relações com os vizinhos, bem como, o entorno social onde a família reside. Oportuniza o contato com outros integrantes do núcleo familiar, a observação dos recursos disponíveis na comunidade e amplia a capacidade de compreensão do técnico acerca do processo de vida da unidade familiar.
Se as visitas são condicionadas à priorização do atendimento às famílias em descumprimento das condicionalidades e à escassez de transporte, ocorre redução tanto na quantidade de famílias acompanhadas como na qualidade dos serviços prestados.
As reuniões de equipe são prejudicadas pela grande quantidade de tarefas. Além de propiciar subsídios para o planejamento, execução e avaliação, as reuniões são momentos ricos para as trocas de experiências e para expressar os limites impostos e as dificuldades encontradas no cotidiano das instituições.
A não realização de reuniões de equipe pode fragilizar o trabalho, pois impede a ocorrência de avaliação e planejamento sistemáticos das ações, uma vez que são o meio principal para discutir e analisar os problemas e necessidades tanto dos usuários como da equipe.
A infraestrutura ofertada pelo município e o apoio da gestão municipal contribuem para dar suporte técnico e operacional às ações de grupos, mais especificamente quanto a realização de entrevistas e participação da equipe em seminários de capacitação e de informações técnicas sobre os serviços.
As profissionais acolhem bem os usuários, através de escuta sensível, parecendo conscientes dos limites e possibilidades de atuação na realidade histórica, social e econômica circundante onde atuam.
As profissionais que conduzem os grupos têm preparo técnico para tal. Na coordenação dos grupos, além da postura de acolhimento, os sujeitos apresentaram também atitude de compreensão e disponibilidade. Essas atitudes incentivam o usuário a participar, emitir sua opinião e ouvir outros participantes. Isso é primordial para desenvolver sentimentos de pertencimento, filiação e identidade grupal.
Dentro dos grupos, a postura das profissionais também é complementada pela ação socioeducativa e os grupos observados, ainda em fase inicial, estão no processo informativo e reflexivo.