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De todos os desafios globais que a humanidade enfrenta, nenhum é mais importante e emergencial que a gestão do meio ambiente, visando conquistar uma vida sustentável em todas as suas formas. O equilíbrio ecológico que esperam as atuais e futuras gerações não depende única e exclusivamente de que as cadeias alimentares e as correntes de energia estejam equilibradas. O desafio consiste em combinar as demandas dos diferentes usuários, otimizando os recursos disponíveis de maneira sustentável.

A agricultura tem um papel preponderante nesse sentido, dado seu estreitamento natural com a terra e as formas de vida e o papel que exerce no fornecimento do alimento para a população do planeta. Dados da FAO mostram que entre 1960 e 2000, a população mundial cresceu para aproximadamente 6 bilhões de pessoas e a economia global multiplicou-se por seis. Para fazer frente a essas crescentes demandas, a produção de alimentos recebeu um incremento de 250%, o uso de água em atividades agrícolas duplicou, a extração de madeira para produção de papel e celulose triplicou e a extração de madeira para a construção aumentou em mais da metade. Em outros termos, a atividade agropecuária tem gerado prejuízos à sociedade dados os impactos sobre o meio ambiente, mais gravemente o desmatamento, as queimadas, a erosão do solo,

entre outros. E esse agravamento das condições naturais pode aparecer de

maneira mais acentuada e pessimista57 e ou mais amena e otimista58

Do ponto de vista econômico, em que pese os altos índices de produtividade, a atividade apresenta certa vulnerabilidade, uma vez que propicia

, dependendo das mudanças comportamentais dos agentes do chamado agronegócio.

As inovações tecnológicas têm um papel muito importante no atendimento a essas questões. Para isso, as políticas agrícolas devem considerar novos parâmetros, estabelecendo a substituição dos atuais cultivos alimentares por cultivos energéticos e ecológicos. Porém, essa mudança é paradigmática, conquanto necessita de reestruturação do sistema para lograr êxito. Garantir a produtividade dos fatores de produção concomitantemente à conservação da natureza parece ser um caminho paradoxal, dado o modelo produtivista em vigor.

A resposta ao problema desse trabalho perpassa justamente por compreender o exposto. Ou seja, explicar a relação das inovações tecnológicas e do meio ambiente para a promoção da sustentabilidade na agricultura, recortando o estado de Mato Grosso para análise. Pode-se considerar então que as inovações tecnológicas na agricultura matogrossense favorecem fortemente a produtividade do setor, sendo constituídas basicamente por duas frentes: a mecânica, influenciada pela intensa utilização de tratores e máquinas na produção, especialmente de grãos e a agronômica e a físico-química, com uso de insumos (fertilizantes e agrotóxicos) que contribuem largamente para a produtividade, conquanto apresentam custos altíssimos de produção.

57 Brown in Riff (1996), adverte que o mundo estaria à beira de uma grave crise de produção de

alimentos. Segundo ele, a oferta de grãos acha-se próxima do limite imposto pela disponibilidade de terra e de água e pelas tecnologias de produção existentes. O autor complementa que a elevação da produtividade via utilização do pacote tecnológico produtivista já estaria esgotada. Em outras palavras, a oferta não estaria em condições de responder satisfatoriamente ao aumento da demanda.

58 Um estudo promovido pela Food and Agriculture Organization (FAO) chega a conclusões bem menos dramáticas, segundo o qual não haveria problemas estruturais de oferta. A diminuição no ritmo de crescimento da produção seria uma reação natural de mercado, conseqüência da resposta dos principais exportadores de grãos às mudanças introduzidas nas políticas agrícolas e comerciais de vários países, com a redução de subsídios à exportação e de incentivos à produção. Sua afirmativa baseia-se, inicialmente, no fato de que haveria ainda uma quantidade significativa de terra disponível para ser incorporada ao processo produtivo. Além disso, a análise da FAO não admite o esgotamento tecnológico.

uma maior competitividade para o setor somente a curto prazo. A longo prazo, no entanto, pode estar seriamente ameaçado pelos altos custos de produção que o modelo produtivista impõe, onde os insumos podem chegar de 60% a 70% do custo total em algumas propriedades, além de sofrer com as flutuações da demanda e dos preços internacionais das commodities. A produção em grande escala determina o modelo agrícola do estado, onde a pequena propriedade e a agricultura familiar (incluindo os assentamentos) perdem em rentabilidade, pois não conseguem obter ganhos de escala. As grandes propriedades, que chegam a 50 mil hectares ou mais, 1000 em média, ditam o ritmo de expansão dessa nova fronteira agrícola do país.

Do ponto de vista ambiental, as técnicas agrícolas utilizadas pelos produtores rurais no Estado de Mato Grosso - reconhecidamente viáveis para atender à crescente demanda de alimentos apresentada - admitem o avanço da destruição das florestas, empobrecimento do solo e outros danos ambientais sérios, causando essas e outras externalidades ambientais negativas. Percebe-se então que as possibilidades de uma gestão ambiental estratégica, focada na tendência mundial de consumo e em ganhos por produção limpa, são abdicadas em função do uso de técnicas ambientalmente incorretas que exigem do produtor custos gradativamente maiores na correção do solo, uso de insumos, entre outros.

Considera-se, então, que as tecnologias utilizadas na agricultura do Estado de Mato Grosso não reduzem o trade-off entre bem-estar econômico e proteção ambiental, pois representam uma fonte que contribui para o desenvolvimento econômico, porém, não suficiente sendo apenas um potencial, uma condição necessária. Também é possível supor, rebuscando a teoria estudada, que a alocação de recursos na agricultura, dada a tecnologia empregada, não corresponde à Eficiência de Pareto, pois aumenta a satisfação de um indivíduo (agricultor), mas diminui o bem-estar de outro individuo qualquer. Assim, é possível confirmar a hipótese levantada.

Ainda na tentativa de dar mais robustez ao feedback que o problema exige e atender aos objetivos da pesquisa, pode-se afirmar que o fator tecnológico, por si só, não é capaz de afastar as limitações dos recursos, e que a prática dos

produtores tem ocasionado um alto grau de substituição de capital natural por capital manufaturado - sustentabilidade fraca, avaliando finalmente que a agricultura predominante no estado (produtivista) tem forte influências da teoria econômica dominante e apresenta pouca relação com os princípios da sustentabilidade.

Como alternativas viáveis à agricultura matogrossense, de acordo a literatura estudada e dados empíricos analisados no trabalho, são factíveis os seguintes caminhos: ou se introduzem as inovações incrementais que seguem pequenas mudanças e mantém a trajetória tecnologia ou se aplicam as inovações

radicais no sentido de romper com o paradigma produtivista em debate. O

primeiro consiste em manter o padrão tecnológico da agricultura matogrossense e realizar inovações que não intentem por alternativas definitivamente ecológicas e sustentáveis, ou seja, que viabilizem tecnologia de final de circuito (end-of-pipe), aquela que possui um caráter paliativo e convencional, não alterando o padrão de consumo de energia e preservação dos recursos. O segundo permite internalizar novos produtos e processos capazes de evitar impactos ambientais. É a denominada tecnologia limpa, que pressupõe exaurir o paradigma vigente, em outros termos, viabilizar por meio de políticas públicas e informes a agentes privados, um novo modelo agrícola para o estado.

Entende-se que o paradigma vigente da agricultura matogrossense (e do Brasil), merece cuidados, visto todos os problemas apresentados. Porém, uma mudança na trajetória tecnológica, através de uma inovação radical, em que se extingue definitivamente com o modelo agrícola da Revolução Verde, não explica como atender a imensa demanda por alimentos que cresce a cada dia. Considera- se, assim, que a Inovação Incremental seria a mais adequada e contribuiria para: a) atender a crescente demanda mundial por alimentos (população de 6,2 bilhões para 8,2 bilhões em 2020 (World Bank) de forma ambientalmente prudente e economicamente viável; b) incluir agricultores no processo produtivo a fim de desconcentrar a renda agrícola do estado e induzir práticas mais responsáveis e menos degradantes de manejo, através do incentivo à pequena e média agricultura (familiar e assentamentos). Assim, o caminho perpassa por

compartilhar técnicas menos agressivas ao meio ambiente, como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária, elucidadas no trabalho, e técnicas alternativas de produção agrícola, mais especialmente a agricultura orgânica, sem romper imediatamente com a agricultura predominante.

Essas propostas podem indicar possibilidades para uma agricultura mais sustentável em Mato Grosso, onde a estratégia do crescimento agrícola não dê continuidade ao processo de degradação da riqueza que é a sua biodiversidade. As inovações tecnológicas - decorrentes do pensamento schumpeteriano -, em que a evolução das soluções técnicas e gerenciais devem interferir e dar respostas de modo positivo às problemáticas do meio ambiente, são pressupostos indispensáveis para um processo decisivo rumo ao desenvolvimento sustentável. Assim, o princípio básico da agricultura sustentável é que ela não deve apoiar-se exclusivamente na produção de larga escala de grãos e carne, mas que conte também com a exploração racional de recursos existentes, geradores de renda em mercados promissores que associem sua comercialização à manutenção da integridade ambiental.