Todos os impactos ambientais acima estão interligados entre e si e são conseqüências do desenvolvimento do estado de Mato Grosso e do padrão tecnológico utilizado na agricultura: a retirada da cobertura vegetal original ou desmatamento seria a responsável pela perda de grande parte da biodiversidade
in situ, deixando o ecossistema mais vulnerável pela diminuição de sua resiliência. O manejo inadequado seria a causa de um grave problema ambiental que é a erosão. Com a perda de solo provocada pela erosão, faltam nutrientes para suprir as necessidades nutricionais das plantas, logo, há a necessidade de fertilizantes. Os fertilizantes inorgânicos podem, em excesso, prejudicar a qualidade biológica do vegetal, contaminar os recursos hídricos, além de deixar o solo pobre em microfauna que inibe os inimigos naturais da plantação. Sem os inimigos naturais, surgem as pragas e, para combatê-las, são usados agrotóxicos, como, inseticidas,
fungicidas, entre outros. Estas substâncias, dependendo do princípio ativo, podem ter um efeito residual longo e entrar em contato com o lençol freático e outros cursos d’água contaminando-os, além de se infiltrar na cadeia trófica dos ecossistemas e, em última análise, contaminar o próprio homem (WWF, 2004).
Apesar dos vários fatores que influenciam o processo de desenvolvimento do estado, é possível perceber pelo menos duas coisas importantes: primeiro é que é necessário encontrar formas de elevar a importância da conservação dos biomas da região para o mesmo patamar de sua importância para a produção agropecuária e segundo, é que ainda há tempo de reverter essa situação e iniciar
um trabalho de recomposição de áreas consideradas importantes para a biodiversidade e para a conservação dos recursos naturais (MMA, 2008). No entanto, as metas das políticas públicas devem coadunar com os objetivos dos empresários rurais que têm pautado suas decisões no ganho econômico imediato, comprometendo a sustentabilidade dos seus negócios.
Em relação aos agrotóxicos, ele pode ser considerado o mais prejudicial do ponto de vista ambiental, comparado aos demais itens do “pacote tecnológico”. Há também uma dependência econômica prejudicial ao agricultor, pois, na agricultura moderna, os custos de produção com esses insumos têm alcançado índices elevados e abalado a competitividade, pelo menos a médio e longo prazo. Estudos realizados por Silva e Conceição (2006) apontam o caráter essencial dos agroquímicos para o modelo agrícola nacional, pois mesmo em períodos de volumes decrescentes de empréstimos rurais de custeio (período 1981 a 2002), os gastos continuaram a crescer. Os autores observam também que entre 1972 e 2002, os gastos com agroquímicos cresceram 735% contra apenas 35% de aumentos da área cultivada. Esta discrepância pode ser explicada pelo aumento da produtividade da terra, visto que se tem aumentado à produção agrícola com um menor uso de terra, em decorrência de novas e modernas técnicas de plantio. Esse possível paradoxo do uso de agrotóxicos – de um lado ganhos de produtividade e, de outro, aumentos gradativos dos custos de produção, além de impactos ambientais e sociais – faz parte do modelo agrícola predominante em Mato Grosso.
Para minimizar esses e outros efeitos sobre o meio ambiente, surgem dentro do próprio “pacote tecnológico”, técnicas menos impactantes, porém que não caracterizam mudança no paradigma produtivista da agricultura do estado de Mato Grosso. Hoje, a área agrícola sob Plantio Direto na região centro-oeste é de aproximadamente 30%, dos 9 milhões de hectares plantados. Em Mato Grosso, os maiores percentuais ficam por conta da soja e do algodão, com aproximadamente 90% em áreas de Cerrado (SEDER/MT). Essa técnica pode ser considerada uma inovação incremental, de final de circuito, porém de fundamental importância para redução de impactos ambientais, apresentando as seguintes vantagens: melhor retenção de umidade havendo maiores rendimentos em anos secos; não ocorrência de erosão; mais tempo para semear (enquanto no Plantio Convencional é possível semear 3 a 6 dias após uma chuva forte, no Plantio Direto é possível semear 6 a 12 dias após uma chuva). Na moderna agricultura, corresponde a uma técnica mais sustentável, sendo a mais importante ação ambiental brasileira em atendimento às recomendações da Organização das Nações Unidas e da Agenda 21 Brasileira, indo ao encontro do que foi assinado no Protocolo Verde. Quanto ao retorno econômico, estudos indicam que, a curto prazo (cerca de quatro anos), essa técnica tem maior custo porque o investimento em herbicidas pode superar a economia pelo menor consumo de combustíveis e uso de horas-máquina. A médio e longo prazo, porém, o custo com herbicidas tende a diminuir, principalmente se combinado com rotação de culturas. Estudos de Rodrigues, Nogueira e Imbroisi (2001), revelam que a técnica do plantio direto apresenta como uma de suas vantagens a redução do processo de erosão/sedimentação. No cultivo da soja, o plantio direto é cerca de 0,24% mais caro do que o plantio convencional. O plantio direto com relação ao plantio tradicional tem maior custo com insumos (9,48%), principalmente com o uso de dessecantes, e custos inferiores (-35,84%) com o preparo do solo com relação ao plantio convencional. Por outro lado, os autores advertem que o plantio direto reduz em 79,1% os custos sociais advindos do processo de erosão no cultivo da soja.
Outra técnica importante á a chamada Integração lavoura-pecuária (ILP). Foi apontado no trabalho que a pecuária e a produção de soja são consideradas as grandes responsáveis pelo desmatamento no estado de Mato Grosso. O cenário das Boas Políticas e Práticas da FAO (2008) mostra que a implementação da rotação soja-gado, como também é denominado, utilizando o Sistema Integrado Gado-Colheita Sem Preparo do Solo, poderá reduzir significativamente o desmatamento. A técnica procura ser uma alternativa de produção, com grandes ganhos de produtividade, ao mesmo tempo, ajuda a recuperação de áreas degradadas.
Em termos de valorização da agricultura familiar e dos inúmeros assentamentos no estado, políticas públicas devem ser direcionadas para o fomento de técnicas consideradas ecologicamente mais prudentes. O incentivo à prática da agricultura alternativa (biodinâmica, orgânica, biológica, natural), como forma de disseminar mais intensamente essa técnica pode contribuir para retornos econômicos mais vantajosos, visto que há demanda por alimentos saudáveis em todo planeta. Sem dúvida, essa técnica propicia uma maior respeitabilidade com a natureza, mas merece maior atenção, pois os fatores de produção em pequena escala associados ao rigor dos fatores climáticos na região, dificultam a obtenção de renda em longos períodos de seca, praticamente inviabilizando esse tipo de agricultura.
CAPÍTULO VI