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Segundo Golier, Yeruda, Bieres & cols. (2003), na contemporaneidade, várias pesquisas indicam que um dos mais importantes fatores psicossexuais responsáveis pelo aparecimento, precipitação ou agravamento do quadro borderline é a emergência traumática de violência psicológica, física e/ou sexual, em fases precoces do desenvolvimento da criança, principalmente no caso das meninas. A agressão ou abuso, presente nas histórias de uma

grande parte de pacientes com quadro borderline, estaria associada ao trauma antes da formação da personalidade, culminando com a desestruturação psíquica do sujeito. Esse trauma, quanto mais cedo ocorre na vida do indivíduo, mais imaturo e regredido ele se torna. Diferentemente dos psicóticos em geral, que sofrem a clivagem do ego, os estados-limite, em fases pré-genitais, no narcisismo, são acometidos pela clivagem do objeto.

Por que motivo ou como ocorreria a clivagem do ego (perversos e psicóticos) e dos objetos (estados-limite)? A resposta a essa questão pode ser encontrada na teoria da sedução de Freud (citado por Laplanche e Pontalis, 2001), datada de fins do século XIX, segundo a qual haveria uma cena real ou fantasística em que o sujeito (geralmente uma criança) sofreria passivamente, da parte do outro (a maioria das vezes um adulto), propostas ou manobras sexuais a qual explicaria o trauma sofrido e posterior defesa (recalque) contra as lembranças dessa experiência. O processo de recalque evoluiria em dois momentos: quando criança, haveria o acontecimento sexual num sujeito impossibilitado de integrar a experiência, portanto, não haveria o recalque; na puberdade, quando aconteceria um novo fato, que necessariamente não teria um significado sexual em si mesmo, seriam evocados traços de lembranças do primeiro acontecimento e o afluxo de excitação endógena culminaria no recalque. Freud abandonou a teoria da sedução em 1897, quanto à existência de uma cena real traumatizante na criança. Posteriormente reformulou-a, explicando que a cena traumática poderia ser real ou fruto da fantasia e estaria na gênese da histeria e da neurose obsessiva. Durante sua vida, Freud defendeu a importância das cenas de sedução vividas pelas crianças.

Ferenczi (citado por Laplanche e Pontalis, 2001) adotou a teoria freudiana da sedução e afirmou a importância do fator traumático, tão negligenciada na patologia das neuroses. Ele descreveu como a sexualidade adulta “realizava verdadeiramente uma efração no mundo infantil. O perigo da teoria estaria em voltar à noção pré-analítica de uma inocência sexual da criança que a sexualidade adulta viria perverter” (p. 472).

No erotismo adulto, o sentimento de culpa transforma o objeto de amor em objeto de ódio e de afeição, isto é, em objeto ambivalente (clivagem do objeto). Enquanto essa dualidade ainda falta à criança no estado de ternura, é justamente este ódio que surpreende, espanta e traumatiza uma criança amada por um adulto (Ferenczi, citado por Gerber, 1999, p. 356).

Além de Freud e Ferenczi, outros psicanalistas associaram a sedução e o trauma à responsabilidade pela clivagem. Recentemente, autores como Golier & cols. (2003) e Dion (2005) discutiram o trauma psíquico gerado por distintas formas de abuso, como desencadeador da clivagem do ego (perversos e psicóticos) e dos objetos (borderlines), ocorrida em transtornos de personalidades, tais como os de personalidade paranóide e os de personalidade limítrofe.

A fragmentação do Ego, por verdadeira explosão, já não é um mecanismo de defesa, mas um processo de descompensação psicótica acabada. Pelo contrário, a clivagem do Ego continua sendo um mecanismos de defesa (de modo psicótico) contra a angústia de fragmentação e de morte; quando à clivagem das imagos, constitui esta um mecanismo de defesa habitual nos estados-limítrofes, para lutar contra a angústia de perda de objeto e contra o risco de chegar assim ao modo psicótico de defesa por clivagem do Ego (Bergeret, 2006, p. 107).

Bergeret (1998) defendeu, nos estados limites, frustrações muito vivas, que implicam um risco de perda do objeto, compõem o trauma psíquico precoce. Esse deve ser compreendido no sentido afetivo do termo, correspondendo a uma emoção intensa, a uma comoção pulsional ocorrida em um estado do ego mal organizado ou imaturo, a um desorganizador precoce. Como exemplo, trouxe o caso de Freud, “O Homem dos Lobos” (1918), considerando a tentativa de sedução real por parte de um adulto, na qual a criança entrou bruscamente na posição edípica sem estar preparada e utilizou mecanismos de defesa muito arcaicos, tais como, a clivagem dos objetos, a identificação projetiva e idealização primitiva. No momento do segundo ou dos posteriores traumas, o ego regride chegando próximo a esboços de despersonalização. Tanto o primeiro quanto o segundo traumas podem ser substituídos por microtraumas repetidos e próximos, cuja soma dos efeitos corresponderá a um trauma único e importante.

Bergeret (1998) reconheceu que o trauma sofrido pela criança em períodos psicossexuais precoces culminaria com o prolongamento da fase de latência (pseudolatência) até o fim da vida do sujeito. Por isso, esse trauma afetivo seria o primeiro desorganizador da evolução desse ser que teria um bloqueio afetivo na maturidade afetiva do ego (ainda não diferenciado sexualmente), o que seria um tronco comum dos estados limítrofes.(Ver anexo 1 A e B)

Esse trauma seria algo afetivo que corresponderia a uma emoção pulsional que surgiu em um estado onde o sujeito ainda seria muito imaturo e mal-organizado para suportar. É como se a criança entrasse brutal e precocemente em uma situação edipiana. Ela ainda não é capaz de entrar nesta relação triangular e genital. Ainda não é possível assegurar-se no amor do pai para suportar o sentimento de “ódio” pela mãe, ou em um outro momento, em assegurar-se no amor da mãe para suportar o ódio do pai. Assim como será difícil recalcar o excesso de tensão sexual ou agressiva. A dificuldade no recalcamento causará a necessidade da utilização de mecanismos de defesa mais arcaicos, que são mais utilizados por psicóticos, como: negação de representações sexuais, a clivagem do objeto, identificação projetiva (Bergeret, 1998).

Alguns autores afirmam que haveria dois setores operacionais do ego no interior da personalidade limítrofe. Um estaria relacionado à adaptação aos dados à realidade exterior, e outro seria mais autônomo a essa realidade, relacionando-se mais as realidades narcísicas. Entretanto não se trata de uma clivagem do ego, como ocorre em uma psicose, e sim de um mecanismo do ego para se defender e evitar a ameaça de rompimento. Desta forma, o ego deforma-se, sem, contudo, atingir seu núcleo, sendo que algumas de suas funções operariam de duas formas diferentes. A primeira em um registro adaptativo, quando não existe ameaça para o sujeito, nem de cunho narcísico nem de cunho genital. A segunda é um registro anaclítico que se dá quando há uma ameaça de perda do objeto oferecendo perigo narcísico e

genital. O ego desses indivíduos estaria sempre se movendo entre estes dois sistemas o que geraria uma certa segurança, mas não proporciona uma solidez necessária. O sujeito torna-se muito dependente da realidade exterior, das posições dos objetos e da distancia entre estes e ele.

Para Bergeret (1998), a linhagem narcisista corresponde à seguinte sucessão de eventos: narcisismo - ideal de ego – ferida narcisista – vergonha – angústia de perda do objeto – depressão. O estado depressivo estaria relacionado com uma situação traumática ocorrida no passado, e a angústia vital seria um sinal de alerta para um perigo potencial no futuro.

Abraham (citado por Delouya, 2001) foi o primeiro autor a suspeitar que a angústia e a depressão menores eram conseqüências da permanência, dentro de si, de vestígios do desamparo infantil, somado ao trauma infantil. Já a depressão maior estaria associada ao evento traumático do nascimento, e angústia seria a reação depressiva a esse evento.

O conceito de trauma psíquico foi perdendo a especificidade inicial estabelecida por Freud e contemporâneos e, alargado, passou a incluir vários tipos de agressão, significando, atualmente, quaisquer acontecimentos graves ou situação crônica danosa ao sujeito. “Todos os referenciais teóricos levam em consideração um estado de falência da mente, do ego ou self sob a ação de uma sobrecarga energética ou de múltiplos estímulos e agressões, informações e demandas” (Dion, 2005, p. 4). Complementando, Dion (2005) asseverou:

O fator nocivo externo é sempre valorizado, pelo menos na experiência traumática inicial, e a participação do mundo interno e das características individuais é bastante reconhecida, seja a violência das pulsões instintivas e a malignidade dos objetos internos, seja o grau de primitivismo, imaturidade, desorganização e incompetência da mente e os conseqüentes distúrbios das funções cognitivas (p.4).

Esse autor explicou que, geralmente, a tendência à repetição de situações traumáticas decorre dos seguintes fatores não excludentes e que freqüentemente se combinam: repetição por não superação do padrão traumático; repetição para elaboração; repetição devido a funções secundárias, estruturantes, defensivas, narcísicas e prazerosas adquiridas pelo padrão. A repetição de determinados funcionamentos destrutivos em pacientes obsessivos, limítrofes,

perversos, psicóticos e outros traumatofílicos, mantidos por razões inconscientes, são defesas utilizadas como garantia vital de estruturação mental, mesmo que disfuncional, como uma reabilitação narcísica e inconsciente prazerosa .

Na organização limítrofe, há o que Freud (citado por Laplanche e Pontalis, 2001) chamou de identificação com o agressor e que é uma submissão total á vontade do agressor, como resultado do medo. A mudança que provoca na personalidade é a introjeção do sentimento de culpa.

Para Lagache (citado por Laplanche e Pontalis, 2001), a identificação com o agressor se situa na origem do ego ideal, em um quadro de origem e de demandas entre a criança e o adulto. “[...] o sujeito identifica-se com o adulto dotado de onipotência, o que implica o desconhecimento do outro, a sua submissão e até mesmo a sua abolição.” (p. 231)