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Sabemos que toda a relação social corresponde ao atual estágio do modo de produção capitalista e que o pensamento dominante está intrinsecamente presente na consciência das massas, ou seja, a consciência predominante é a consciência burguesa. Não é só o trabalho que está dividido e subdividido em pequenas peças parcelares entre os indivíduos, é o próprio indivíduo que está dividido e transformado em engrenagem automática de uma operação exclusiva. No capital, o grau de alienação atinge patamares complexos e de difícil compreensão; as pessoas defenderão o sistema enquanto as relações sociais atuais forem compatíveis com a produção capitalista.
Vimos que no capital o homem está fragmentado, alienado e subsumido à ordem irracional das mercadorias; toda a sua vida tende a formar o homem unilateral, ou seja, um ser limitado, acanhado nas suas potencialidades, podendo desenvolver uma especialidade, mas não a sua liberdade. Por outro lado, milhões de seres humanos estão condenados ao embrutecimento quase total; condições degradantes de vida retiram-lhes a possibilidade de realizar aquilo que Marx considerou como sendo condição sine qua non para poder fazer História, ou seja: comer, morar e vestir.
Se o trabalho é responsável pela humanização e se foi através dele que o homem se tornou Homem, então, como garantir esse processo para aqueles que, talvez, nunca trabalharão? Todavia, o trabalho no processo de produção capitalista é fonte de desumanização do homem. Essa contradição nos leva a refletir sobre o tipo de homem que queremos formar, que seja possível e necessário para a emancipação humana.
Frente à realidade da alienação humana, na qual todo o homem, alienado por outro, está alienado da própria natureza e o desenvolvimento positivo está alienado a uma esfera restrita, está a exigência da onilateralidade, de um desenvolvimento total, completo, multilateral, em todos os sentidos das faculdades e das forças produtivas, das necessidades e da capacitação de sua realização. (MANACORDA, 1991, p. 78).
Pode haver divergências no que diz respeito aos meios pedagógicos e o ideal de homem, contudo, é inconcebível outra formação humana que não contemple a onilateralidade do homem. O ser onilateral traz consigo a história das gerações
passadas, pois é fruto desse processo, mas é no presente que realiza sua própria história, portanto, é um ser criativo, vivo, repleto de possibilidades que também prepara a base para um devir; assim, faz a conexão passado, presente e futuro; não se trata de um homem dividido, vazio e sem história.
Enquanto na sociedade escravista e servil o homem estava limitado pelas forças produtivas, o que lhe impedia alcançar um grau de desenvolvimento de sua plenitude, o capitalismo, com o domínio do homem sobre as forças da natureza, poderia estabelecer a exteriorização absoluta das faculdades criativas de todos.
Para Marx e Engels (1979), o homem onilateral corresponde ao contrário da unilateralidade, ou seja, embora possa realizar uma atividade específica, como pintar, escrever, barbear, isso não significa que precise ser pintor, barbeiro ou escritor; a trata- se de um homem que rompe os limites que o fecham numa experiência limitada e cria formas de domínio da natureza e que sempre se alça a atividades mais elevadas. Com o máximo de suas capacidades desenvolvidas, esse homem pode ultrapassar sua singularidade e alcançar seu ser genérico, colocar em movimento todo o seu ser, abrangendo aspectos relevantes de sua personalidade. Assim, a igualdade humana terá alcançado sua verdadeira essência. Ninguém seria colocado num patamar a mais que o outro, pelo contrário, a capacidade do outro seria minha também, considerando que somos todos produtos da História e todos estariam a serviço da humanidade.
A onilateralidade é, portanto, a chegada histórica do homem a uma totalidade de capacidades produtivas e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidades e prazeres, em que se deve considerar sobretudo o gozo daqueles bens espirituais, além dos materiais, e dos quais o trabalhador tem estado excluído em conseqüência da divisão do trabalho. (MANACORDA, 1991, p. 81).
Na sociedade capitalista, todos os seres humanos estão incluídos no processo irracional e de desumanização, contudo, a classe trabalhadora é a mais suscetível à alienação, vivenciando no seu cotidiano as barbáries do sistema capitalista, estando presentes na maioria das vezes apenas na infra-estrutura, ou seja, na base da produção. Isto significa a ausência das atividades que estão incluídas na superestrutura da sociedade.
À medida que a divisão do trabalho se desenvolve, o saber, a arte e a cultura separam-se dos produtores, passam para a esfera para a superestrutura e são monopolizadas pelas classes dominantes: Enquanto o conjunto do trabalho da sociedade produzir um rendimento que só o custo excede o que é preciso para assegurar parcimoniosamente a existência de todos, enquanto o trabalho exigir todo ou quase todo o tempo da grande maioria dos membros da sociedade, esta divide-se necessariamente em classes. A par do maior número exclusivamente votado à submissão ao trabalho, forma-se uma classe liberta do trabalho directamente produtivo que se encarrega dos assuntos comuns da sociedade: direção do processo de trabalho, administração do Estado e dos assuntos políticos, justiça, belas-artes, etc. É a lei da divisão do trabalho que está pois na base da divisão em classes. (MARX; ENGELS, 1979, p. 10). Com a dominação econômica garantida, o conjunto dos elementos necessários para a perpetuação dessa dominação encontra-se na superestrutura da sociedade, como podemos observar acima. Nesse sentido, todo o sistema de ensino da sociedade capitalista assenta no racionalismo burguês, ou seja, um idealismo descarado que oculta a realidade antagônica. Toda a sociedade dividida em classe é, necessariamente, idealista: a elite esclarecida dita as normas e a massa bruta deve segui-la sem discussão. Nem sequer há espaço para a famosa ‘liberdade de pensamento’ que a revolução burguesa pretendeu instaurar no mundo; isso porque se trata de iluminar os espíritos a partir do monopólio científico de uma minoria, cujas idéias refletem os seus próprios interesses econômicos imediatos, em oposição aos das amplas massas que não podem escolher a sua verdade em função das suas condições e interesses materiais.
Portanto, não é de estranhar o cidadão egoísta formado no seio da escola da cidadania tão orgulhada pelos tecnocratas a serviço da elite. Esses reproduzem e criam pragmáticas metodologias e discursos para inculcarem nas massas as idéias de uma sociedade do consenso, da ordem e da justiça. Por outro lado, o individualismo exacerbado revela o homem típico e necessário para o atual momento do capitalismo. A indiferença pelo outro está no cerne do modo de se viver na sociedade capitalista; o consumismo tornou-se uma fonte ilusória de se obter a felicidade, como se essa fosse materializável. Somos uma sociedade de pessoas notoriamente infelizes: solitários, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes. Pessoas que ficam alegres quando matam o tempo que tão duramente tentam poupar. Numa passagem de sua obra TER ou SER, Érich Fromm (1980) assinala que consumir é uma forma de Ter, e talvez a mais importante da sociedade industrial. Consumir apresenta qualidades ambíguas:
alivia ansiedade, porque o que se tem não pode ser tirado, mas exige que se consuma cada vez mais, porque o consumo anterior logo perde a sua característica de satisfazer. Os consumidores modernos podem identificar-se pela fórmula; eu sou = o que tenho e o que consumo.
Dessa forma, abstraindo-se que a produção capitalista não só produz mercadorias, como também os consumidores para as mercadorias, pode-se concluir que se tem no processo de formação do homem, o resultado, do HOMEM CAPITAL. Aquele, como já vimos, que veste a camisa do capital. Mas, o homem capital, como o capitalismo, é repleto de contradições, principalmente a classe trabalhadora que convive no seu dia-a-dia com outras características e com possibilidades de transformar-se num outro tipo de homem. É no cotidiano que os valores capitalistas podem ser derrubados um a um; é nos momentos de crise e contradição que os mecanismos de dominação entram em dissonância com a realidade e o cidadão pode vir a questionar seu modo de vida, estando aberto para uma instrução crítica sobre o seu ser e seu papel na História.
Enquanto o indivíduo não tiver conquistado esta liberdade mediante um esforço viril do pensamento filosófico, não é ainda plenamente dono de si próprio e, com seus próprios sofrimentos morais, paga um vergonhoso tributo a necessidade exterior, com que se defronta. Mas, em troca, mal este mesmo indivíduo se liberta do julgo dos entraves opressivos e vergonhosos, nasce para uma vida nova, plena, desconhecida até então, e sua atividade se transforma em expressão consciente e livre da necessidade. O indivíduo se converte em grande força social e nenhum obstáculo pode nem poderá impedi-lo daí em diante de lançar-se com as fúrias dos deuses sobre a pérfida iniqüidade. (PLEKHANOV, 2000, p. 114).
Isso nos leva a considerar que o homem pleno, consciente de seu papel na História, ainda está por vir. Para o homem onilateral nascer é preciso romper com a história fundada na luta de classes, de forma que só poderá haver o pleno desenvolvimento humano se toda a humanidade desenvolver-se onilateralmente, o que significa que a totalidade das forças produtivas seja subsumida por todos os indivíduos livremente associados. Então, enfatizamos que o homem possível hoje ainda é aquele que está formado numa perspectiva de classe, preparado para a luta, para o embate que se trava no decorrer do acirramento dos conflitos; em poucas palavras, é o homem corajoso e desejoso pela emancipação humana que na atualidade se faz crucial; é o
sentimento anticapitalista e consciente da necessidade de acelerar uma autodestruição do sistema.
Mas, será que já existiu um exemplo na História de um processo de formação humana, baseada na totalidade do ser – do homem corajoso, honrado, trabalhador, guerreiro e intelectual? No nascimento da pedagogia socialista podemos nos aproximar do que seria uma coletividade de pessoas em plena formação. É o que veremos adiante com a obra de Makarenko.