A visão que a Polónia tinha da Ucrânia deriva do seu posicionamento geopolítico e do contexto securitário idealizado para si no cenário pós-Guerra Fria, no entanto, os restantes Estados europeus tinham uma visão diferente da Ucrânia e tinham nas suas políticas externas outras prioridades, o que fez com que a anexação da Crimeia fosse vista de forma diferente. Com isto, este subcapítulo focar-se-á em demonstrar como os principais Estados europeus reagiram face à anexação da Crimeia para que seja possível demonstrar como é que o comportamento polaco se distinguiu do comportamento dos seus parceiros europeus.
79 A Rússia, ao anexar a Crimeia ao seu território em conjunto com intervenção nos conflitos separatistas no leste da Ucrânia, obrigou a UE a tomar uma posição que demonstrasse o seu descontentamento e condenação face ao comportamento russo. No entanto não foi fácil encontrar um consenso entre os Estados, uma vez que ao contrário da Polónia e dos Estados Bálticos, a maioria dos Estados-membros da União Europeia não priorizavam a questão ucraniana na sua agenda internacional preferindo manter a sua proximidade à Rússia tanto a nível económico como político, assim como assegurar o fornecimento energético proveniente da Rússia, como tal cada Estado
“favored steps that entailed the least cost for its own economy and advocated those that transferred the cost to others” (Menon e Rumer, 2015:127), o que contribuiu para
dificultar a aplicação de medidas mais duras à Rússia, como a Polónia pretendia. Os vários Estados-membros da União Europeia tinham perceções muito distintas sobre o que se passava na Ucrânia e o que é que esses acontecimentos significavam para o seu contexto securitário, como tal, encontravam-se divididos “It also been the lowest
common denominator between the interest and the views of the member states: with some being more appeasing (such as Italy, Greece and Hungary), some rather disinterested (Spain and Portugal), others asking for an assertive stance and feeling threatened by Russia (the CEE members states), and Germany or France balancing between their economic interests and the need to have a strong EU response” (Nitoiu,
2016:378). Para alguns Estados, entre eles Portugal, Espanha, Malta e Chipre, os acontecimentos na fronteira a leste da União Europeia não eram vistos como uma prioridade nem como uma ameaça prioritária a nível securitário, preferindo focar-se nas questões mediterrânicas e em colocar esta temática na agenda europeia. Em paralelo haviam igualmente Estados que tinham uma visão mais moderada sobre a questão ucraniana e os outros com maiores ligações à Rússia que queriam evitar a aplicação de sanções a Moscovo de forma a proteger os seus interesses.
As diferentes reações no contexto europeu derivam das diferentes perceções de ameaça que o comportamento russo na Ucrânia representa no contexto securitário de cada país (Pezard et al., 2014: 31), a Polónia em conjunto com os Estados Bálticos, a Suécia e a Finlândia (Pezard et al., 2014), têm uma perceção de ameaça militar muito mais elevada do que os outros Estados-membros da UE, levando por isso a um tipo de
80 resposta consideravelmente diferente da dos outros Estados europeus. Importa ainda referir que “The extensive commercial ties linking Europe with Russia enjoy both
economic and political value at the eyes of major European leaders” (Merry, 2015:5),
teve uma grande influência no comportamento dos principais Estados europeus que preferiam manter boas relações com a Rússia em vez de aplicar medidas punitivas ao comportamento russo. Neste sentido, torna-se essencial analisar o comportamento dos principais Estados europeus e aliados da Polónia no contexto dos acontecimentos da Ucrânia e demonstrar quais os motivos que contribuíram para que tivessem uma reação diferente da Polónia.
A Alemanha assumiu um papel de liderança no seio da UE, no entanto, adotou uma posição moderada contrária aos interesses polacos. A Alemanha, após a sua unificação e a dissolução da URSS, aproximou-se da Rússia e desenvolveu uma profunda ligação económica “Germany is by far Russia’s biggest economic partner in Europe
taking some €38 billion in imports and exporting €36 billion” (Sakwa, 2015:191), sem
esquecer que a Rússia fornece 40% do gás consumido pela Alemanha (Menon e Rumer, 2015:126), o que faz com que a Rússia tenha um papel importante tanto a nível económico, como a nível da segurança energética, obrigando os decisores-políticos em Berlim a agirem com alguma caução na aplicação de medidas punitivas à Rússia. Desta forma, a Alemanha encontrava-se dividida sobre que atitude adotar face ao comportamento russo na Ucrânia “Germany has been trapped between two
contradictory concerns in its response to the seizure of Crimea: its fundamental commitment to international law and economic integration versus its role as a bridge- builder to Russia” (Larsen, 2014:16). Aquando a negociação dos acordos de Minisk,
negociação na qual a Polónia não foi incluída, a Alemanha, assim como a França, reconhecia a possibilidade da Crimeia continuar sob domínio russo focando as negociações apenas na resolução dos conflitos separatistas nas regiões de Lugansk e Donetsk, por sua vez, a Polónia defendia o retorno da Crimeia à soberania ucraniana. Importa referir que a Alemanha tinha na sua política externa outras prioridades, nomeadamente a temática dos refugiados que ocupava um lugar central na política externa alemã (Zajaczkowski, 2017:207) remetendo a questão ucraniana para um lugar secundário.
81 Com base nestes elementos Berlim adotou uma postura consideravelmente diferente da postura polaca “Germany ruled out the use of military force as a solution to
the crisis, believing instead in the power of long-term diplomatic efforts to meet the challenge” (Forsberg, 2016:27), adotando uma posição mais moderada e focada na
resolução do conflito através de negociações diplomáticas. A Alemanha demonstrou sempre interesse em manter um bom relacionamento com a Rússia e via-se como “according to wich the country sees itself as Russia chief interlocutor in Europe” (Forsberg, 2016:36), assumido uma posição de liderança no contexto europeu e o papel de mediador na resolução do conflito entre a Rússia e a Ucrânia.
A França adotou uma postura muito semelhante à da Alemanha, no entanto demonstrou-se muito renitente à aplicação de sanções ou outras medidas punitivas à Rússia e inclusive ao facto de ter de por um travão ao seu relacionamento com Moscovo. Em Paris desenvolveram-se laços de grande proximidade com Moscovo tanto a nível político como económico, marcado pela venda de armamento francês à Rússia (Larsen, 2014:32). À data dos acontecimentos na Ucrânia, a França estava a negociar com a Rússia a venda de dois navios, negócio esse que a França não queria cancelar tendo o feito mais de um ano depois da anexação da Crimeia em Julho de 2015. Existia na classe política francesa o sentimento de que a França deveria continuar a manter uma relação de proximidade com a Rússia e como tal, o embaixador francês Jan Morris Ripper “declared that Russia can count on France assisting it in rebuilding its relations with
European Union” (Zajac, 2016:169).
O relacionamento entre a França e a Rússia para além da sua componente económica, tinha igualmente uma importante componente política no combate ao terrorismo. A 13 de Novembro de 2015 a França tinha sido assolada pelo terrorismo islâmico o que levou o “President Holland and Putin spoke in Crimea of France-Russian
cooperation in combating the so-called Islamic State.” (Zajac, 2016:169). No combate ao
terrorismo Paris via Moscovo como um dos seus principais parceiros fazendo com que a questão ucraniana passasse para segundo plano. Desta forma os interesses tanto da Alemanha como os da França beneficiavam a sua proximidade com a Rússia fazendo com que os dois principais Estados europeus vissem com alguma renitência a aplicação
82 de sanções por parte da UE a Moscovo, preferindo, ao contrário da Polónia, aplicar medidas simbólicas e encetar um diálogo diplomático com Moscovo (Larsen, 2014:32).
Para além da França e da Alemanha, a Itália encontrava-se também ligada à Rússia a nível económico. A Itália apesar de se ter mantido afastada das negociações com a Rússia, tinha interesse em manter um bom relacionamento com Moscovo. A Itália e a Rússia construíram uma relação de proximidade no ramo energético, como tal, não via com bons olhos a aplicação de medidas pejorativas contra a Rússia “countries such
as France and Italy had developed ramified economic relationships with Russia, with former selling two Mistral -class amphibious landing ships to Russia, while the Italian energy ENI was Gazprom’s key partner in building the €17 billion South Stream pipeline under the Black Sea and up through the Balkans” (Sakwa, 2015:190).
O Reino Unido apresentou uma posição intermédia, tendo adotado após o início da questão ucraniana medias punitivas contra a Rússia “The United Kingdom decided to
to suspend all military cooperation with and defense exports to Russia, and urged its European allies to follow suit” (Larsen, 2014:28). Relembro que o Reino Unido já tinha
tido alguns episódios que contribuíram para criar alguma amistosidade nas suas relações com a Rússia, nomeadamente no caso Litvinenko30 e as alegadas atividades de
espionagem russa no Reino Unido, o que contribuiu em parte para que o Reino Unido fosse um dos Estados a apoiar a aplicação de sanções à Rússia. Importa referir que o Reino Unido, contrariamente à França e à Alemanha, não depende a nível energético nem tem uma relação económica aprofundada com a Rússia, o comércio entre os dois Estados representa apenas 18.7 biliões de dólares (Menon e Rumer, 2015, 124).
Importa ainda analisar o comportamento dos Estados do Grupo de Visegrado uma vez que são uns dos principais aliados da Polónia. Tendo os Estados deste grupo um passado muito semelhante ao da Polonia, a luta pela sua independência no sentido de se soltarem das amarras que os prendiam à URSS, seria de esperar que tivessem uma reação semelhante à polaca, no entanto, aconteceu o contrário. A Hungria, República Checa e Eslováquia faziam parte do grupo de Estados da UE que viam com muita
30 Alexander Litvinenko era um ex-espião russo que estava exilado em Londres tendo inclusive chegado a
colaborar com a agência de espionagem britânica. Foi morto através do envenenamento por polônio-210 em 2006;
83 renitência a aplicação de sanções à Rússia. A República Checa queria proteger as suas exportações para a Rússia enquanto que a Eslováquia e a Hungria queriam proteger o seu sector bancário, “Hungary has key interest in avoiding sanctions that would ban EU
companies to take loans in Russian banks since that could be the end of the planned extension of the nuclear power plant in Park that is both built and financed by Russian companies” (Kotyzová, Bahenský and Kufčák, 2015). Importa ainda destacar que estes
três Estados estão ainda ligados à Rússia dada a sua dependência energética, o gás consumido pela Hungria 49% tem origem russa, mas mais dependentes são ainda a Eslováquia e a República Checa, com um consumo de gás oriundo da Rússia na ordem dos 63% e 80% (Menon e Rumer, 2015:126), valores que representam mais de metade do consumo total de cada um dos Estados, o que faz com que sejam muito vulneráveis à pressão russa.
Importa aqui fazer uma nota ao facto de que os Estados que defendem a aplicação de sanções à Rússia, entre eles a Polónia e os Estados Bálticos, têm eles próprios uma grande ligação à Rússia tanto a nível económico como energético. O comercio entre a Polónia e a Rússia representa mais de 36 biliões de dólares e a nível energético, o gás que a Estónia e a Lituânia consomem é todo ele oriundo da Rússia e o consumido pela Polónia é em mais de metade de origem russa (Menon e Rumer, 2015, 124-126). Estes dados fazem com estes Estados estejam muito mais vulneráveis em relação a outros Estados europeus no que diz respeito às consequências da aplicação de sanções a Moscovo, ainda assim, continuam a defender a aplicação de sanções e de outras medidas punitivas à Rússia.
Existe ainda um outro elemento a destacar que se tem vindo a desenvolver na Europa e afeta em muito o relacionamento europeu com a Rússia que é a emergência de partidos de extrema-direita. Na Europa tem-se registado um crescente aumento do apoio da população aos partidos de extrema-direita em vários Estados europeus, o problema é que “One after another, nationalist politicians across the E.U. have praised
the Kremlin leader and harshly criticized their own governments for imposing sanction on Putin’s regime” (Kara-Murza, 2017). Os vários líderes europeus da extrema-direita,
Marine le Pen da Rassemblement National, a Liga do Norte de Matteo Salvini, o Forum
84 Chistian Strache entre outros, já vieram defender o regime de Putin e apelar à normalização das relações entre a Rússia e a UE com a retirada das sanções (Kara-Murza, 2017). Os vários partidos de extrema-direita “across Europe providing vocal support for
Putin’s position in Ukraine” (Ames, 2014) tendo inclusive servido de instrumento do
Kremlin para pressionar os governos europeus para a não aplicação de sanções contra Moscovo. Foram justamente os partidos de extrema-direita europeia que foram convidados enquanto observadores internacionais para legitimarem o referendo realizado na Crimeia (Kara-Murza, 2017). Este foi mais um dos elementos que contribuiu para que a aplicação de sanções à Rússia fosse um processo complicado e demorado, Vladimir Putin valeu-se da crescente popularidade dos partidos de extrema-direita e da proximidade que tinha com estes para retardar e dificultar a existência de um consenso entre os Estados-membros da União Europeia.
Os Estados-membros da UE encontravam-se divididos sobre que posição a adotar relativamente à Rússia, como tal a Polónia, tendo apenas o apoio de alguns Estados em especial os Estados Bálticos, viu-se isolada, uma vez que a maioria dos Estados, assim como os principais Estados europeus, adotaram uma posição diferente à sua.
Os principais Estados-membros da UE, inclusive os Estados mais próximos à Polónia, tanto os aliados do Triangulo de Weimar como do Grupo de Visegrado, optaram por privilegiar o relacionamento que tinham com a Rússia, não só a nível económico como também político o que contribuiu para que se tornasse mais difícil a aplicação de sanções à Rússia. Os vários Estados preferiram preservar os benefícios de um relacionamento de proximidade com a Rússia, optaram por aplicar nas sua políticas externas o princípio do Russia First (Kaminska, 2014:88), e por isso preferiram ‘fechar os olhos’ à violação do direito internacional que a Rússia cometeu ao anexar a Crimeia, território pertencente um Estado soberano, do que aplicar medidas que colocassem em causa o seu relacionamento com Moscovo.
A questão energética foi ainda apontada como um dos fatores que contribuía para que os Estados não quisessem a aplicação de medidas mais duras contra a Rússia, mas relembro que Estados como a Polónia e os Bálticos que dependem muito mais do fornecimento energético de Moscovo escolheram apelar à aplicação de sanções.
85 A ascensão dos partidos de extrema-direita contribuiu igualmente para influenciar o comportamento dos Estados relativamente à Rússia, uma vez que defendiam a não aplicação de medidas que prejudicassem a Rússia, tendo por isso tentado demover o processo de aplicação de sanções à Rússia ao demonstrar o seu apoio ao comportamento russo na Ucrânia.
Importa ainda referir que os Estados-membros tinham outras prioridades internacionais, a França em lidar com o terrorismo islâmico e a Alemanha com a questão dos refugiados e por outro lado a distância geográfica que havia entre alguns Estados- europeus e a Ucrânia fazia com que a crise ucraniana fosse secundarizada. Todo este contexto contribuiu para que a questão ucraniana não fosse um elemento central na agenda internacional de cada Estado europeu e consequentemente não fosse um tema central na agenda da União Europeia.