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3.2 S ITUASJONSBEVISSTHET I UAV- SYSTEMET

3.2.1 Situasjonsoppfattelse

Como já foi dito anteriormente, a posição do nosso autor é de abolicionista. As mulheres negras, em sua obra, aparecem em situações que caminham para os elogios do tipo lealdade, dedicação ao trabalho, boas prendas no trabalho doméstico, companheirismo etc., eventualmente dotadas de predicados negativos devido a falta de educação. Entretanto, sempre atribui as falhas de caráter ou defeitos, a causas que independem delas próprias; são antes vítimas do sistema de escravidão extremamente injusto nas relações de trabalho e de subserviência. Às vezes lamenta os maus hábitos das negras forras, mas atribui a isso, à falta de instrução que lhes foi negada na sua condição de escrava. Denuncia os longos anos de escravidão como responsáveis pela ignorância das negras e negros, aliados ao descaso dos seus exploradores e à falta de iniciativa dos poderes instituídos no oferecimento de oportunidades educativas, que se lhe afigurava a única possibilidade para corrigir a situação. (GUMES, 1917:235).

No enredo da “comédia drama” A abolição – que retrata dois momentos: 1876 e 1888, a mulher negra aparece casada com um branco; nesse convívio ela aparece atuando com inteligência e demonstrando astúcia e sagacidade na busca de estratégias para vencer os impostores escravistas85.

Gumes, bem informado e atualizado sobre as questões então vividas pela sociedade brasileira, retrata no contexto desta trama, as novas situações que afloram com a campanha abolicionista. Nota-se certa flexibilidade das relações sociais diante do convívio próximo entre negros e pessoas de classes sociais mais abastadas e a situação improvável do casamento entre um negro ex-escravo e uma moça da elite, prova de sua parte, certa resistência ao preconceito racial. Apresenta a mulher negra em convívio próximo com os brancos, onde porta-se de forma inteligente, demonstrando astúcia e sagacidade na busca de estratégias para provar as peripécias do impostor, desmascarando-o e derrotando-o em seus planos. Reforça a sua crença na educação como um caminho certo para a ascensão social na história de Francisco, escravo inteligente que consegue se tornar doutor.

Nessa perspectiva das “redes de convívio e de sobrevivência” dos ex- escravos no pós-abolição, o estudo de Fátima Pires sobre o pós abolição em Caetité

85 Nos apêndices desse trabalho pode-se ler um resumo mais esclarecedor sobre essa comédia A abolição.

é muito elucidativo, esclarecendo a continuidade das relações estabelecidas entre senhores, ex-escravos e pobres livres; afirma que muitos ajustes e negociações possibilitaram o aproveitamento da mão-de-obra agora em sua nova condição, com arranjos que levavam à concessões de faixas de terras, acordos de trabalho para diaristas, meeiros e agregados, utilização comum de aguadas entre outros, e que permitiram a permanência destes sujeitos em espaços muito próximos. As relações entre ex-escravos e pobres livres não foram muito diferentes:

Nos arredores das cidades e arraiais, ex-escravos eram encontrados ao lado de trabalhadores pobres, partilhando rotinas de trabalhos e encontros festivos no dinâmico processo de adaptação da vida sob “nova” condição. Os processos criminais indicam mais indiretamente que, apesar dos desentendimentos por água, pastos terrenos e “vinténs”, a solidariedade perpassou o convívio social desse segmento. (PIRES, 2009: 285).

Como as mulheres negras aparecem nos romances de Gumes? Se citadas como forras, via de regra aparecem na condição de pobres e presas à situações de subserviência e de exploração, respaldadas numa forte relação de amor, respeito, quase devoção aos seus antigos donos. Na maioria das vezes, seus atributos são docilidade, obediência, respeito, dedicação ao trabalho bem feito e asseado.

Duas em especial ocuparam posições de destaque na trama d‟O Sampauleiro: Pulcheria, risonha, comunicativa e que mesmo alforriada servia com lealdade a sua sinhazinha; Umbelina, ex-escrava, “bisbilhoteira”, “enredadeira”, residia com sua filha em casa de uma família pobre e passando-se por serviçal, visitava várias famílias em outros sítios, imiscuindo-se nos seus assuntos, bisbilhotando, para depois levar as informações (que viravam fofoca) aos quatro ventos. Esta última, mesmo forra, não possuía autonomia por viver de favor em dependências cedidas por pessoas generosas. Vivia em apuros pelos seus maus costumes, até ser descoberta no roubo da carta falsa que D. Úrsula escreveu para incriminar Maria como suposta interessada em seu filho Abílio. A ex-escrava, descoberta por Abílio, foi tão torturada que acabou pagando com a vida.

Em Vida Campestre (1914), os negros pobres, homens e mulheres trabalhavam em sua própria terra; as mulheres, além do serviço doméstico, trabalhavam ao lado dos homens, ajudando em outras lidas como a fabricação de farinha de mandioca e tapioca; eram elas que limpavam as raízes, raspando a fina camada que as envolvia e depois espremiam e coavam a massa que, após a

retirada da tapioca, era encaminhada para outros aproveitamentos. Essa família de ex-escravos sofriam discriminação racial por parte dos seus vizinhos ricos. A tia Pelonha criada do fazendeiro rico era explorada para fazer as mil e uma tarefas de uma casa.

Em Seraphina, havia o escravo Simeão, de setenta e tantos anos, exemplo de fidelidade à sua senhora, responsabilizava-se por todo o serviço doméstico e colocava-se como seu protetor, visto que ela não tinha marido. A velha Margarida, outra personagem desse romance, possuía uma escrava a quem dera a alforria desde pequena. A velha arrastava a sua negra forra de “gestos indolentes e epiderme com aparência de jabuticaba madura” e nos seus ataques de mau humor, arrependia-se de tê-la alforriado.

Mulheres negras aparecem ainda, como vítimas de abusos sexuais dos ricos proprietários e dos maus tratos das esposas ciumentas conforme citação abaixo:

Os ricos senhores, não tendo em conta o sentimento das pobres criaturas que caíram sob o jugo da escravidão, dominavam também a honra das infelizes escravas e impunham-lhes sem receio, sem a menor compaixão, as suas mais torpes pretensões. Ai da infeliz que procurasse fugir à conspurcação da sua inocência e pureza virginal! Depois o injusto ciúme das senhoras que, na impotência de vindicar nos verdadeiros delinqüentes os seus direitos conjugais postergados, descarregavam a sua cólera sobre a inocente vítima. (GUMES, 1914: 44).

Não havia escapatórias para as mulheres negras escravas diante da concupiscência dos seus senhores. Na sua condição de “propriedade” não podiam se furtar a tais sevícias, pois seriam castigadas por eles e, se aceitassem e fossem descobertas, passariam de vítimas a culpadas e receberiam os castigos das suas “sinhás”.

De todos os perfis femininos apresentados aqui, fica-nos um retrato dos lugares do masculino e do feminino inscritos na sociedade sertaneja objeto deste estudo, conforme as formas de pensar e de ver o mundo de um literato regionalista que buscou focalizá-los de acordo com as suas convicções e inspirado num dado olhar sobre a realidade em que vivia. São perfis que vão de um extremo a outro, sempre passando por uma visão romântica do feminino e pelas imagens construídas por uma prolongada tradição conservadora: ou aparecem como donzelas bonitas, esbeltas, inteligentes, delicadas, simbolizando “pureza virginal”, ou são simples “figuras de ornamento”, incapazes de atuar com competência na esfera política; são

honradas e honestas ou incautas, “impuras barregãs”; poço de virtudes ou desabonáveis enredadeiras; são escravas leais ou forras atabalhoadas nas suas lutas diárias ou ainda, negras inteligentes, integradas ao convívio social. Na sequência, vamos perseguir os difíceis caminhos da sociabilidades femininas presas aos padrões da honra e da moral, tomando como base, além da visão do nosso autor, vários outros documentos da época como processos judiciais, livros de atas e livros de memórias, dentre outros.