A falência ou esgotamento do modelo fordista se inicia, a partir do final da década de 1960 e tende a se acentuar na década seguinte, ocasionada por uma sequência de
33 “O conceito de desenvolvimento se encontra, no momento, numa fase de transição entre a antiga
concepção, que o assimilava à ideia de crescimento econômico e, por conseguinte, a algo objetivo, qualificável e associado a conquistas materiais, e a nova concepção, que o representa como processo e estado intangível, subjetivo e intersubjetivo, e que está associada mais com atitudes e menos com conquistas materiais” (BOISIER, 2006, p. 69).
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eventos, relacionados direta ou indiretamente ao limite do modelo de desenvolvimento industrial assentado na produção em série. Trata-se, em outros termos, conforme evidencia Costa (2007, p. 38) de:
[Uma] crise que se manifesta na inadequação do modo de regulação que não conseguia mais ajustar de forma viável a produção e o consumo dos bens de massa, e do regime de acumulação para dar continuidade ao movimento que vinha tendo a economia mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial. [Além do mais] os choques de oferta que, posteriormente se metamorfosearam em uma crise de demanda, apenas aceleraram o fim do ciclo ao exporem as limitações do modo de regulação para dar sustentabilidade ao Regime de Acumulação Fordista.
O modelo fordista entrou, portanto, em crise no final do anos 1960 em decorrência de uma diminuição significativa tanto da produtividade como da relação capital/produto, do que resultou uma redução na lucratividade. As reações, no entanto, foram distintas. Os empresários reagiram com a internacionalização da produção, enquanto que os Estados Nacionais disciplinaram seus mercados de trabalho e mantiveram políticas monetárias restritivas para controlar a inflação, do que resultou a crise do emprego e do Estado de Bem Estar Social.
Esta crise, no entanto, não se abateu com a mesma intensidade em todos os países. Em sua primeira fase, graças a expansão do crédito na década de 1970, foi possível o surgimento de novos países industrializados (MATTEO, 2011, p. 82-83).
Por outro lado, a desestruturação da economia mundial nesta década foi afetada por três choques de oferta que geraram novas e sucessivas ondas inflacionárias do que resultou um processo de espiral inflacionário sem precedente desde o final da Segunda Guerra Mundial. Trata-se do primeiro34 e do segundo choque de petróleo35 e da crise de produção de cereais36.
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Com relação ao primeiro choque de petróleo, trata-se da reação política ao apoio ocidental dado a Israel na Guerra do Yom Kipur, em 1973, pelos árabes que criaram inúmeras dificuldades para a exportação do petróleo produzido em seus territórios. Pelo fato do petróleo ser o principal insumo da matriz energética do sistema industrial moderno, esta atitude representou um duro golpe no regime de acumulação, razão pela qual ela é considerada “por muitos como o marco derradeiro do encerramento da Era de Ouro” (COSTA, 2007, p. 41).
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O segundo choque do petróleo está relacionado à Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo Ayatollah Rubollah Khomeini, que derrubou o xá Reza Pahlevi. “O novo regime de orientação xiita, exigiu uma ampla negociação dos contratos de exploração das companhias estrangeiras, ocasionando um certo caos no setor. Em 1990 Saddam Hussein, contando com o apoio dos Estados Unidos, tenta ocupar a província de Cuzitão no Irã, rica em petróleo, dando origem a Guerra Irã-Iraque, agravando ainda mais a crise, e, consequentemente, acabando com qualquer possibilidade de reconstrução do padrão de desenvolvimento do pós-guerra. O surto inflacionário deste novo choque de oferta atingiu principalmente os Estados Unidos,
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Os elevados ganhos obtidos pelos países exportadores de petróleo, em função das altas dos preços dos barris, deram origem ao mercado de petrodólares. Como milhões dessas divisas não encontraram aplicação dentro das limitadas estruturas econômicas de alguns países membros da OPEP, (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) retornaram ao Ocidente, injetados nos bancos e grandes financeiras com sede nos países mais industrializados, do que resultou a grande liquidez do mercado financeiro internacional, que durou até o fim da década de 1970 (COSTA, 2007, p.42) .
A solução, então, para o excesso de divisas acumulado consistia em disponibilizar recursos, tanto para os países em vias de desenvolvimento, em geral, como os países socialistas, em particular com vistas a solucionar seus crescentes déficits nos balanços de pagamentos, mediante taxas de juros reais muito baixas ou até mesmo negativas, embora flutuantes (COSTA, 2007, p.43).
Além do mais, nos anos 1980, a recessão emanada das políticas monetaristas com origem nos governos liberais37 dos Estados Unidos (Ronald Regan: 1980-1989) e Grã- Bretanha (Margareth Thatcher: 1979-1990) propagou-se pelo resto do mundo, com uma queda dos salários, desmonte do Welfare State e restrição ao crédito. O que é agravado pela ausência de regulação internacional, tendo em vista o fim dos acordos de Bretton Woods no início da década de 1970 (HOBSBAWN, 1999). Em decorrência: “[Assistiu-se] a uma contração do ritmo de crescimento do comércio mundial, o aumento de medidas econômicas protecionistas, e a propagação da instabilidade a partir dos mercados de câmbio para os mercados financeiros e de produtos, em especial, os de commodities”(COSTA, 2007, p. 41).
Este foi um momento em que a hegemonia econômica americana começou a ser questionada, a partir da presença cada vez mais marcante no comércio mundial de países
França, Reino Unido e Itália que se viram obrigados a adotarem uma nova onde de restrição da demanda, o que levou a economia mundial a um novo ciclo recessivo no início dos anos de 1980” (COSTA, 2007,p. 42).
36“Em meados da década de 1970, após uma sequência de más colheitas na União Soviética e de forte seca
nos Estados Unidos, os estoques de cereais no ocidente que visavam estabilizar os preços baixaram significativamente, gerando uma forte alta nos preços dos cereais” (COSTA, 2007, p. 42).
37“As principais decorrências das atitudes dos EUA foram: quebra financeira de países endividados, alguns
deles socialistas; anúncio do projeto Star Wars (Guerra nas Estelas) em 1983, limitando a capacidade de retaliação da URSS; o desastre político e econômico da Perestoika, a partir de 1985-86, e a desintegração da URSS em 1991; a queda do Muro de Berlim em 1989 e o alto custo da reunificação alemã; desvalorização e subsequente valorização do iene. Com isso os EUA liquidaram não só a URSS, mas também com as pretensões de Japão e Alemanha em dar as cartas no capitalismo mundial” (CANO, 2000, p. 16).
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como a Alemanha e o Japão, sendo que este passou a apresentar significativos superávits comerciais, enquanto os Estados Unidos apresentam crescentes déficits.
Na perspectiva, porém, de manter a sua posição como potência hegemônica, os Estados Unidos, através das políticas fiscal e monetária, eleva de maneira considerável as taxas de juros38, e impõem mais uma vez o dólar como equivalente geral da economia mundial, o que levou os países subdesenvolvidos a seguir os desenvolvidos em uma crise generalizada. Especificamente, segundo Matteo (2011, p. 83):
A elevação dos juros nos EUA causou efeitos devastadores sobre a dívida externa dos países em desenvolvimento, o que fez o México quebrar em 1982. Após um breve período de crédito fácil e expansão da economia dos países asiáticos e da Europa (exceto a Grã-Bretanha), houve uma nova elevação dos juros no final dos anos 1980, devido aos grandes déficits norte-americanos, fazendo explodir uma crise sem precedentes nos países em desenvolvimento: México, Rússia, Brasil, e por fim, já nos anos 1990, a Argentina, entraram na moratória.
Depreende-se, então, face ao exposto nesta subseção que o nível de instabilidade e insegurança na economia mundial, a partir do final dos anos 1960, condicionada por vários fatores, levou ao esgotamento do sistema industrial moderno ou sistema de produção fordista, dando início o que para muitos pesquisadores, trata-se de um novo paradigma – o Sistema Industrial Pós-Moderno, ou Regime de Acumulação Flexível, inserido em uma nova ordem econômica internacional regida pela globalização e neoliberalismo conforme será abordado na sequência.