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SINTEF Ocean (primærnæringsarenaen)

2 Omtale av instituttene med rapport for bruk av basisbevilgningen

2.1 Institutter som omfattes av det resultatbaserte basisfinansieringssystemet

2.1.4 SINTEF Ocean (primærnæringsarenaen)

Rua Barão de Itapetininga. Sorvetes e modelos falsos no meio-dia de costureiras.

Em frente à Viennense, grandes vitrinas aveludadas onde uma echarpe se perde.

Elas têm uma hora para o lanche. Madame saiu de automóvel com o gigolô.

Na rua movimentada, cabecinhas loiras, cabecinhas crespas, saias singelas.

[...]

O barulho das máquinas de costura recomeça depois do lanche. No quarto escurecido por gobelins, às 12h mãos têm por par um pedaço de pijama separado.

Madame, enrijecida de elásticos e borrada de rímel, fuma, no âm- bar da piteira, o cigarro displicente. Os olhos das trabalhadoras são como os seus. Tingidos de roxo, mas pelo trabalho noturno. (Patrícia Galvão como Mara Lobo, em “Trabalhadoras de agu- lha”)

Pela descrição de uma jornada no centro de São Paulo feita por Mara Leão (pseudônimo de Patrícia Galvão), é possível pensar a complexa rede tecida a partir da fabricação, da circulação e do uso de roupas. Era 1933, ano em que São Paulo ganhou um novo mercado municipal, desativando o “Mercado Ve- lho” que ficava à direita de quem descia a ladeira General Carneiro (BRUNO, 1954: 1356). A cidade crescia velozmente e, da paisagem descrita pelo me- morialista Jorge Americano entre 1895 a 1915 até o texto de Mara de 1933, certamente sua cartografia havia sido alterada. A rua Barão de Itapetininga, antiga chácara do Barão homônimo, 125 era cercada por outras pequenas

chácaras pertencentes a famílias como as do médico Walter Seng que doaram terrenos para a construção de novas vias ligando a Barão a outras ruas no processo de expansão do centro da cidade (SEGAWA, 2004: 113-117).

124 Cidade moderna aqui no sentido descrito por Maria Odila Dias, ao

prefaciar o trabalho de Nicolau Sevcenko (1991:XI), que abrange: uma “urbanização acelerada de São Paulo, improvisada como aventura na trilha da especulação cafeeira, entre 1890 e 1930”; a um “desenraizamento da cultura européia, à revolução da tecnologia, [...] a difusão desordenada e incongruente das condições materiais da vida urbana e industrial a partir da Europa pelo mundo afora”; e o “surto do modernismo paulista” que “confronta a dialética das mudanças desencadeadas pela urbanização com as possibilidades de criação cultural num meio colonizado pela presença européia [...]”.

125 “Chácara do Barão de Itapetininga

– pertencente ao B. de Itapetininga. Abrangia todo o thalweg do Anhangabaú entre o Piques e o Açú, o terreno da actual rua Formosa (aberta em 1855) e o Morro do Chá que era toda a elevação de terreno entre a alludida rua Formosa e o Largo dos Curros (Praça da República) cortado desde 1865 pelas ruas B. Itapetininga, trav. do Paredão, 11 de Julho e 14 de Maio”. In: FREITAS (1955: n. p.).

O Triângulo (Figura 60) foi o emblema da modernização de São Paulo do início do século XX, idéia amplamente abraçada pela historiografia da cidade, sua socieda- de e cultura (BRUNO, 1954; SEVCENKO, 1992; SEGAWA, 2004; BARDUY, 2007). Trecho central da cidade modernista era formado pelas ruas São Bento, Direita e XV de Novembro, esta última antiga rua Imperatriz (SEGAWA, 2004: 341).

Aparte o fato de a convivência social ter se concentrado em volta do Triângulo, dever- se a questões geográficas e morfológicas, como bem explicou Hugo Segawa (PORTA, 2004: 341-385), a própria con- figuração original da cidade naquele local colaborou para que o alargamento espacial das áreas de lazer e comércio demorasse a acontecer. Até o início do século XX, o Triângulo manteve-se como o centro das atividades sociais de lazer e negócios, deixando a expansão para as décadas posteriores, quando a vontade política permitiu a superação dos obstáculos naturais que aquele pequeno centro conferia (PORTA, 2004).

Se Carmem tivesse passeado por ali nos últimos anos da década de 1920, ela encontraria uma paisagem um pouco distinta das décadas anteriores quando as ruas eram freqüentadas principalmente por homens. A presença feminina era escassa e poucas mulheres podiam ser vistas caminhando por ruas tor- tuosas arrastando seus longos vestidos escuros. Mulheres ricas eram ainda menos vistas que as pobres, porque evitavam as ruas, circulando apenas nos interiores das casas e pelo parco comércio que existia na cidade. Já a vida das costureiras, fiandeiras, bordadeiras, enfim, daquelas que fabricavam as roupas vestidas por outras mulheres, tinha na cidade e suas ruas o ganho de sua sobrevivência. 126 O trabalho era incerto, e muitas eram alugadas por

dia, usando suas próprias casas como oficinas, um sistema de produção que é hoje quase, mas não absolutamente, extinto em São Paulo. 127

A presença maciça de mulheres pobres responsáveis pelas atividades rela- cionadas à fabricação e manutenção de roupas na população da cidade era parte integrante da tradição da vila desde o século XVII, mas é somente no final do século seguinte que esse contingente passou a atrair a atenção das autoridades em seus ofícios ou relatórios para o Reino, sob influência dos interesses das classes dominantes em viver um modo mais europeu de vida (DIAS, 1995: 29). O século XVIII parece ser crucial na história da produção FIGURA 60.

— Guilherme Gaensly. Rua 15 de Novembro, São Paulo, 1920. Fonte: Folha on-line. Disponível em: http://spantiga.folha.com. br/foto_4.html. Acesso em: 10 mar. 2008. Esta rua formava com as ruas Direita e São Bento o “Triângulo”, região do centro da São Paulo antiga que concentrava comércio e lazer.

126 Maria Odila Dias (1995:24) transcreve exemplos do tipo de vida levado por essas

mulheres costureiras que ainda viviam no centro da cidade, antes de serem pressionadas pela urbanização das décadas finais do século XIX e primeiras do século XX a habitar as periferias, criando uma linha invisível de divisão social a que ela chamou de “virtualidades burguesas”. Um desses exemplos é o de “Anna Francisca, costureira, parda, mãe solteira, morava ao Sul da Sé, com dois netinhos e suas filhas, também costureiras e mães solteiras (Joaquina Maria, de 27 anos, e Rosa Maria, de 31); D. Maria Amália, solteira, branca de 30 anos, morava também ao sul da Sé e tinha cinco escravas costureiras trabalhando em sua casa. Num pequeno quarto de aluguel da Ladeira do Carmo, morava, em 1853, Anna Benedita do Espírito Santo, costureira, parda, que foi presa na rua com um canivete na mão... Em Ifigênia, junto ao Convento da Luz, seis fiandeiras pardas, todas jovens, residiam na mesma casa com filhos pequenos [...]” (nota de fim: DAE, ordem 37 A, lata 37 A, Maços da População da Capital, 1836).

127 Em bairros periféricos

como o Chora Menino, na zona Norte da cidade, vivem ainda hoje costureiras e bordadeiras que pegam encomendas para confeccionar roupas de bebês vendidas em lojas de regiões mais ricas da cidade. Essa prática acontece desde pelo menos a década de 1920. Elisa Quintal de Andrade, hoje com 86 anos, é uma delas.

e comercialização de têxteis e roupas em São Paulo. Em sua tese Tecidos no

Brasil: um hiato (USP, 2004), Teresa Cristina Toledo de Paula apresenta

excertos comentados sobre os têxteis nas revistas e catálogos institucionais de dois museus da USP: o Museu Paulista e o Museu de Arqueologia e Et- nologia. Nesse material percebemos o destaque dado a artefatos têxteis, que demonstram a preferência e usos de roupas e tecidos no Brasil e na São Paulo a partir do século XVII, como a presença do algodão nas vestes indígenas, além do uso de fibras que hoje não são mais usuais. O artesanato caseiro com mão-de-obra indígena, que produzia panos de algodão, redes e outros objetos, era realizado por mulheres, ficando o comércio dessas mercadorias a cargo de homens. Com a importação de produtos de consumo, especialmente in- gleses no século seguinte, houve uma decadência desse comércio que afetou, por conseqüência, a manufatura artesanal local (DIAS, 1995; HOLANDA, 2005).

Conforme o comércio de artigos importados crescia e hospedava-se nas casas comerciais legalmente estabelecidas no centro a partir de meados do século XIX, seus antigos moradores pobres se afastavam para a periferia, levando consigo as atividades ligadas à manutenção do estilo de vida mais luxuoso que passou a residir áreas ao entorno do Triângulo, como os Campos Elíseos, Higienópolis e a Avenida Paulista (DIAS, 1995; BARBUY, 2007). O acesso das costureiras, vendedoras e ambulantes era passageiro e poderia ser excluí- do da paisagem da cidade moderna a qualquer instante, visto que sua perma- nência era fugaz, se comparada à presença mercante dos edifícios das lojas de departamentos que passaram a habitar o centro da cidade moderna.

Essa São Paulo, ilustrada nas páginas de revistas como a Revista Feminina (1914-1936),128 nos permite entrever alguns caminhos possíveis por onde

Carmem e seu vestido possam ter passado e, certamente, a circulação na ci- dade imprimiu neste algumas marcas significativas. Nos primeiros números da revista, as propagandas ainda ocupavam pouco espaço editorial, sendo que o formato mais comum de publicidade eram os curtos anúncios colocados em pequenas faixas no rodapé da revista, a exemplo daquele da Casa Guerra, em que se lê: “rendas valencianas, linho de todas as qualidades para enfeites de vestidos e roupas brancas, procurem na Casa Guerra. R. S. Bento, 84 e 86 S. Paulo”. 129 Anúncios como este nos informam sobre a moda, as roupas, a

concentração do comércio e algumas práticas de produção e consumo desses produtos.

Anúncios que perdurariam ao longo da existência da Revista, entre os quais os da Casa Guerra, da Casa Allemã e os da Casa Mappin, 130 tinham alguma

ressonância com origem francesa do vestido Boué Soeurs. A denominação Casa parece imitar a Maison que designava o lugar físico, mas também

128 O Arquivo do Estado de São Paulo possui a

maior coleção pública da revista da capital que está incompleta. Há outros acervos públicos que dispõem de alguns números do periódico (CRUZ, 1997), e outros particulares, como o da senhora Avelina Salles Haynes, utilizado por Maria Claudia Bonadio (2007), em sua pesquisa sobre São Paulo dos anos 20.

129 Revista

Feminina, n. 31, ano 3, 1916, s.p. Acervo: AESP.

130 Outros anunciantes no período de 1916 a

1925 foram: Loja Ideal; Ao Bon Diable; Casa Reis, Casa Bonilha; Ao Mundo Elegante e Ao Preço Fixo; Casa Mme Olga ; Au Palais Royal, Au Petit Paris; Casa Lemcke ; Casa Germain ; Ao Empório Toscano; Casa Genin; Casa Excelsior; Bazar Hamburgo; Bazar Alberto; A Nortista (Irmãos Coelho & Cia.).

o conjunto de atividades produtivas, comerciais e criativas da alta-costura. A denominação que antecede o nome do estabelecimento implica não ape- nas prenunciar a que se dedica aquela casa, mas também reflete a voga das nomenclaturas usadas por casas comerciais ligadas à venda de produtos de moda ou vestuário nas décadas de 1910 e 1920. 131

A partir de 1918, já percebemos o ingresso nas páginas da Revista dos anún- cios das lojas de departamentos imitando as conhecidas lojas inglesas e francesas, que divulgavam seus preços baixos, como o grande chamariz nos anúncios. Era a instalação no Brasil de um tipo de comércio de artigos de moda para classes médias, que existia na França desde a primeira metade do século XIX e cuja loja emblemática fora a Au Bon Marche, aberta em 1869 (MILLER, 1994). Assim, foram freqüentes no período de 1917-1925 anún- cios de lojas como: Ao Bon Diable; Ao Mundo Elegante; Ao Preço Fixo; Au Palais Royal, Au Petit Paris e Ao Empório Toscano (Figuras 61 e 62). 132

FIGURA 61.

— Anúncio de “Ao Empório Toscano”. Revista Feminina, n. 129, ano 12, fevereiro de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. A menção a “preços convidativos” é atraente a uma clientela que encontra opções de casas comerciais vendendo artigos de vestuário.

FIGURA 62.

— Anúncio de “Au Petit Paris”. Revista Feminina, n 56, ano 6, janeiro de 1919, s.n.p.. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. O anúncio indica a variedade da clientela dos produtos para vestuário. Aqui, a divulgação de modelos vindos de maisons parisienses volta-se para um mercado de luxo.

131 As lojas anunciadas na Revista de 1916 a 1919 (que continuaram anunciando na década seguinte)

denominam-se, em sua maioria, Casa. Assim tivemos anúncios da Casa Reis (1818), Casa Bonilha (1918), Casa Mme Olga (1918), Casa Lemcke (1919); Casa Germain (1919) e Casa Genin (1919). Essa denominação remete a um tipo de confecção de roupas mais exclusiva, de um mercado de artigos de luxo aos moldes do que era desenvolvido pelas maisons de couture na França desde meados do século XIX. Nos anos iniciais do século XX, mudanças de regulamento dessas maisons indicavam que havia uma preocupação dos couturiers em diferenciar e distanciar suas marcas daquelas de confecções que passaram a copiar suas criações, por vezes adaptando-as a um público de consumidores menos exigentes e que deram início ao que se tendeu chamar de “a indústria da cópia”.

132 Sobre o comércio de varejo do início do século XX, ver Barbuy, 2007; Fyskatoris, 2006.

A variedade de casas comerciais especializadas em vestuário gerou uma “cultura de moda” na cidade (BARBUY, 2007: 203). A Casa Mappin e a Casa Allemã133 fizeram parte dessa categoria de estabelecimento e, de fato,

o uso de Casa, ao invés de loja, servia como um invólucro da legitimidade da moda de luxo, procurando atrair as classes ascendentes que se espelhavam na sofisticação das elites. A Casa Mappin ou Mappin Stores, como às vezes encontramos em seus anúncios, foi a mais fiel a esse modelo, empregando investimentos estrangeiros e nacionais na implementação e modernização de seus negócios, enquanto que a Casa Allemã, apesar do uso de uma ima- gem moderna e chique, era visivelmente um estabelecimento de menor porte e não alcançou o sucesso de sua rival.

Certamente os tecidos do vestido Boué Soeurs en- contrariam na Mappin al- guma concorrência, porque foram muitos os anúncios da Casa que indicam a im- portação de tecidos finos, especialmente da França e Inglaterra, como os de janeiro de 1920, quando chegaram novos “tecidos leves: etamines, mousse-

line, crepe georgette, to-

bralco, fustão”,134 e outro

de agosto de 1920, em que a Casa apresenta tecidos modernos da nova estação

135 (Figura 63).

Outros anunciantes tam- bém faziam a venda de te- cidos importados e nacionais, como: Casa Bonilha, à Rua Direita, 29, que oferecia “o melhor sortimento de sedas estrangeiras e nacionaes pelos me- nores preços possíveis”, recebendo sempre “as últimas novidades de Paris” (janeiro de 1921); Casa Excelsior, à Rua 15 de Novembro, 37, que vendia casemiras e tinha “sala de provas” (ago. 1921); a Casa Serica, à Rua Barão de Itapetininga, 34, que vendia “sedas nacionais e estrangeiras” (out. 1925) (Figura 64); a George Ducasse & Cia., que comercializava sedas de Lyon (out.1925) (Figura 65); e a Casa Allemã (fev.1925) (Figura 66). 136

FIGURA 63.

— Anúncio de ‘Tecidos Modernos’. “Mappin Stores”. Revista Feminina, n. 75, ano 7, agosto de 1920, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. O Mappin importava tecidos amiúde, mantendo um escritório de exportação na Inglaterra

133 Sobre a histórias dessas

casas, pode-se consultar Heydenreich (1933); Alvim; Peirão, 1985.

134 Revista Feminina, São

Paulo, n. 68, ano 7, jan. 1920. Arquivo do Estado de São Paulo.

135 Revista Feminina, n.

75, ano 7, ago. 1920, s.n.p. Arquivo do Estado de São Paulo.

136 Revista Feminina, n. 80

e 87, ano 8, ago. 1921; e n. 137, ano 12, out. 1925. Acervo AESP.

Pelos anúncios, sabemos que estavam dis- poníveis em São Paulo, da década de 1920, tecidos de tipos e materiais variados – lã, algodão, seda em casemiras e musselines –, nas versões nacional e importada, mas não sabemos exatamente como e em que quantidade esses tecidos eram usados na confecção de roupas femininas. Logo no início das atividades do Mappin Stores no Brasil, entre 1913 e 1914, foram implan- tadas oficinas de costura para roupas femi- ninas e em seguida masculinas e infantis na casa (ALVIM; PEIRÃO,1985: 42). Nes- sa época, no entanto, as oficinas realiza- vam apenas “pequenos ajustes em artigos importados” (ALVIM; PEIRÃO, 1985: 42). De acordo com o depoimento da costureira Emília Mosca que trabalhou no Mappin em 1913, “a oficina funcionava basicamente para ajustar o tamanho dos vestidos que re- cebíamos prontos de Londres ou de Paris” (ALVIM; PEIRÃO, 1985: 42).

Dificilmente, porém, suas oficinas de cos- tura estivessem preparadas para competir com o complexo trabalho de confecção e bordado que encontramos na couture fran- cesa. Os modelos de vestidos de soirée eram normalmente importados, como indicam os anúncios do Mappin durante toda a década de 1920 na Revista Feminina, a exemplo de um de fevereiro de 1920, mencionando a chegada de modelos importados de Paris, e outro de fevereiro de 1925, que anunciava a venda de modelos assinados por “Dorat, Bernard, Zim’s, Mauby, Yvonne e Jean Patou” 137 (Figura 67).

FIGURA 64.

— Anúncio de tecidos da “Casa Serica”. Revista Feminina, n. 137, ano 12, outubro de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo.

FIGURA 65.

— Anúncio das “Sedas de Lyon”. Revista Feminina, n. 132, ano 12, maio de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. FIGURA 66. — Anúncio da “Casa Allemã”. Revista Feminina, n. 129, ano 12, fevereiro de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo.

137 Revista Feminina, n. 69,

ano 7, fev. 1920 (n. p.) e n. 129, ano 12, fev. 1925 (n. p.). Acervo AESP.

Em 1927 o Mappin da Praça do Patriarca lança o primeiro desfile de roupas importadas no Salão de Chá e, a partir dele, dois desfiles anuais – para coleções de verão e in- verno – eram sempre realiza- dos pela Casa (ALVIM; PEI- RÃO, 1985:73). Além dos modelos importados, outros confeccionados nas oficinas de costura eram apresenta- dos. Trabalhava no Mappin um vitrinista contratado que parece ter trabalhado tam- bém como uma espécie de modista, Edward Couch, 138

pois foi ele o responsável pe- las criações nacionais apre- sentadas no desfile de 1927 (ALVIM; PEIRÃO, 1985: 73). Houve então uma mudança significativa na confecção de roupas no Mappin da década de 1910 e na década posterior, quando o modista passou a trabalhar nas oficinas de costura. A direção cria- tiva na confecção de roupas e a aposta da Casa na apresentação das criações nacionais nos desfiles em que antes apenas modelos importados eram apre- sentados devem ter alterado a percepção da clientela com relação à produção local. Ainda que os modelos de Paris fossem as guias-mestras na fabricação de roupas, a presença de uma figura responsável pelo design dos modelos na- cionais permite a criação de vestidos apropriados a um gosto local. De qual- quer modo, os desfiles em São Paulo ainda eram novidade quando Carmem comprou seu Boué Soeurs e, dado que ela teve outros vestidos de couture (um deles provavelmente da Boué Soeurs da década de 1900), dificilmente teria comprado seu modelo em São Paulo (lembremos que o Mappin, por exem- plo, foi aberto em 1913).

Por último, na década de 1920 vimos a entrada dos bazares na Revista Femi-

nina, como o Bazar Hamburgo e o Bazar Alberto, em que ambos aparecem

como anunciantes em 1925. A denominação bazar representa um tipo de comércio ainda mais popular, em que se podia encontrar uma variedade de artigos “secos” a preços baixos que, ao contrário das modernas lojas de de- partamentos, não tinha uma exposição atraente de seus produtos (MILLER, 1994: 21). O estilo de anúncio produzido pelos bazares nos indica a sua dis- tinção com relação à Casa e às lojas de departamentos. O Bazar Hamburgo, FIGURA 67.

— Anúncio do “Mappin Stores”. Revista Feminina, n. 129, ano 12, fevereiro de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. Além dos tecidos, o Mappin importava modelos prontos de Paris e suas oficinas deviam cuidar dos ajustes necessários a moldar as roupas prontas aos corpos de suas clientes.

137 Revista Feminina,

n. 69, ano 7, fev. 1920 (n. p.) e n. 129, ano 12, fev. 1925 (n. p.). Acervo AESP.

138 É incomum a menção a homens para trabalhos relacionados à criação de roupas no início do

século XX. Esta seria uma investigação a ser feita em futuras pesquisas. Edward Couch era um inglês, mencionado por Alvim e Peirão (1985: 48), como “cenógrafo e figurinista”, uma “espécie de artista da casa” que havia trabalhado na loja de departamentos londrina Harrods e que “durante nada menos de 45 anos” foi “responsável pela decoração e pelas vitrines do Mappin, assim como pela montagem dos desfiles e o treinamento das manequins, além da criação de modelos que fizeram época”. Não sabemos como se dava a relação entre Couch e as oficinas de costura do

por exemplo, anunciou na Revista Feminina de fevereiro de 1925 que ven- dia: “armarinhos, papelaria, artigos escolares, roupas brancas para senhoras e creanças, ternos para meninos”. Normalmente localizados nas periferias ou bairros no entorno do centro, os bazares procuravam atender a sua vizi- nhança, oferecendo a ela num único espaço, o que poderia ser encontrado numa rua inteira de comércio do centro da cidade. Assim, o Bazar Hamburgo localizava-se à Rua Sebastião Pereira, 24, e o Bazar Alberto à R. Santa Ephi- genia, 59.139

Neste cenário de comércio variado de artigos de moda, podemos localizar o mercado de luxo (categoria à qual pertence o vestido Boué Soeurs), especial- mente em dois tipos de casa comercial: lojas de departamentos que atendiam a uma clientela informada sobre as novidades da moda, particularmente o Mappin Stores, e as modistas da cidade. Modista era a mulher (com exceções como as de Edward Couch) cujo bom gosto e a habilidade comercial capaci- tavam-na produzir uma “aparência” para outras mulheres. Ela podia também modelar, cortar e costurar, mas não eram esses seus principais atributos. O essencial era conhecer as últimas novidades de Paris, Londres e Nova Iorque,