2 Omtale av instituttene med rapport for bruk av basisbevilgningen
2.1 Institutter som omfattes av det resultatbaserte basisfinansieringssystemet
2.1.2 Nofima
Esta investigação principiou da análise e interpretação das marcas presentes no vestido Boué Soeurs (marcas que informam sobre sua trajetória), ou seja, marcas do tempo visíveis na sua fisicalidade, de modo que aqui buscaremos explorar a idéia de “marcas do tempo” nas roupas ao que o historiador Peter Stalybrass chamou de ‘memórias’. 109
Há memórias mais aparentes que outras, isto é, num vestido com mais de oitenta anos, algumas marcas que denotam a passagem do tempo serão mais visíveis e reconhecíveis como manchas, costuras desfeitas, rasgos, sujeira. Outras marcas são percebidas por meio de outros sentidos, como é o caso do cheiro nas cavas-ueta que fazia Stalybrass (2000: 13) rememorar seu ami- go falecido ou do tato que fazia Walter Benjamin (2000: 122) rememorar o conforto das meias de lã de sua infância. Há algumas marcas, no entanto, que precisarão de um olhar mais clínico, ou de sentidos mais apurados para serem identificadas como memórias, ou marcas do tempo. Benjamin (2000: 122) encontra essas marcas quando percebe que não era só o material de que era feita a sua meia que lhe trazia prazer e conforto:
O primeiro armário que se abriu por minha vontade foi a cômoda. [...] Era preciso abrir caminho até os cantos mais recônditos; então deparava minhas meias que ali jaziam amontoadas, enroladas e dobradas na maneira tradicional, de sorte que cada par tinha o aspecto de uma bolsa. Nada superava o prazer de mergulhar a mão em seu interior tão profundamente quanto possível. E não era apenas pelo calor da lã. Era “tradição” enrolada naquele inte- rior que eu sentia em minha mão e que, desse modo, me atraía para aquela profundeza.
A articulação das roupas, assim como os materiais e as técnicas de que são feitas, é também um mediador de sentido, uma passagem que nos conecta instantaneamente e sensorialmente a temporalidades que não são o aqui e o agora. O que Benjamin nomeou “tradição” está, de alguma forma, conectada ao passado que não pode ser revivido tal como aconteceu, mas que deixa las- tros capazes de nos emocionar novamente. A articulação entre as camadas de tecido na saia do vestido, por exemplo, e marca de trabalhos realizados, os quais indicam certa maneira de viver, fabricar e sentir a roupa sobre o corpo.
Atualmente, é possível pensar numa edição da aparência que inicie do corpo e não da roupa. Até a primeira metade do século XX, no entanto, a roupa era o principal agente da mudança e, talvez, a alimentação e o exercício físico tenham sido um dos poucos aliados na construção de corpos da moda. A ho- nestidade e a modéstia hoje mais associadas aos corpos e suas edições 110 es-
tiveram na década de 1920 mais relacionadas às roupas e suas edições. Vestir o corpo com roupas minuciosamente trabalhadas e ricamente ataviadas, de forma que elas próprias defendam os corpos, como se fossem couraças, caso do vestido Boué Soeurs, reflete uma política com relação ao pudor.
110 Emprestamos a expressão
“edição do corpo” de Villaça (2007).
109 Ele escreveu: “se eu
vestia a jaqueta, Allon me vestia. Ele estava lá nos puimentos do cotovelo, puimentos que no jargão técnico da costura são chamados de “memória” (STALYBRASS, 2000:13).
Os editoriais de revistas como “A Moda” na Revista Feminina sinalizavam os novos caminhos propostos pela moda que irradiava de Paris para outras cida- des modernas do mundo e procuravam incluir São Paulo neste grupo seleto de consumidores de “bom gosto” e cultura europeizada. Alguns dos artifícios usados para alcançar tal feito pautavam-se na alusão às casas comerciais111
que surgiam na cidade e transformavam-se com ela, caso emblemático da Mappin Stores, cuja origem britânica só acentuava a elegância vinda das ori- gens européias.
Por outro lado e igualmente revelador, há nessas páginas indícios de que a moda estrangeira não fora simplesmente engolida a gole d’água, mas sim diluída num líquido já espesso de uma cidade recém-moderna de origem agrária e de feições caóticas. Afinal, São Paulo do início do século XX era ain- da um esboço de arquitetura moderna que convivia com a beira dos rios das lavadeiras, dos animais e do esgoto (MATOS, 2002; SANT’ANNA, 2007). Persistia a mentalidade provinciana oitocentistas no que diz respeito à con- duta feminina diante das novidades estrangeiras. É comum, por exemplo, a represália aos estilos mais joviais propostos pelas maisons de couture de Paris que tornavam os vestidos mais fluidos, mais curtos e que exigiam um corpo magro. A nova moda de vestidos confeccionados em tecidos finos e que deixavam melhor entrever o corpo não se transformou em moda na década de 1920 sem que houvesse protestos de parte das mulheres que clamavam ser “senhoras respeitáveis” da sociedade brasileira, como se lê em editorial da Revista Feminina de março de 1920, intitulado “A Mocidade Artificial” e assinado por Marinette:
Uma “Filha de Maria”, moça dis- tincta, dada ás letras e ás bôas obras vi eu, que usava um ves- tido finíssimo de grande decote, mangas muito curtas e... corpi- nho interior sem mangas, preso apenas aos hombros por estreita passadeira, deixando apparece- rem as largas cavas...Culpa dos figurinos? Nem tanto. Questão de interpretál-os, apenas. E a má interpretação é quase geral. A cópia ultrapassa o modelo. Porém, mesmo que os figurinos nos apresentem modelos indig- nos, quem nos obriga a aceitál- os no rigor da sua indignidade? Por que imitar as damas incons- cientes que se vestem assim? Si ellas dispensam o amor á pureza e o respeito á Deus, não o dis- pensemos nós, brasileiras catho- licas praticantes.
FIGURA 59. Capa. Revista
Feminina, n.129, ano 12, fevereiro de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo. Esta foi uma das revistas mais influentes entre as brasileiras na década de 1920. Teve uma coluna permanente que tratava de novidades e conselhos sobre moda, “A Moda”, assinada durante um longo período por Marinette, além de incentivar a produção de trabalhos manuais pelas brasileiras.
111 Sobre essas casas e o
comércio na cidade de São Paulo ver Barbuy, 2007.
A Revista Feminina (Figura 59) era feita e lida por mulheres católicas que participavam de associações sociais femininas praticantes dos eventos bene- ficentes e que prezavam a moral dos bons costumes (BONADIO, 2007). Ha- via, portanto, uma política editorial na revista de manter uma visão crítica à moda novidadeira que pudesse macular a imagem e aparência crédula da sociedade feminina cristã. A repreensão feita a “filha de Maria” por expor seu corpo em favor a uma moda estrangeira sugere uma atitude conservadora em relação à moda. Essas diferenças de mentalidade encontravam na “expressão do gosto” uma maneira de diferenciar a brasileira católica praticante das de- mais seguidoras de moda, como vimos no editorial citado.
Há nesse embate, em prol da manutenção de uma moda mais conservadora, um conflito de gerações. As mudanças de estilo de vida preconizadas pela prática de exercícios e pela participação de mulheres jovens nas atividades esportivas organizadas em clubes sociais não aconteceriam sem um certo choque das diferenças de mentalidade de duas gerações. Os tecidos passaram a ser mais leves, as roupas de corte e recortes mais simples, o que permi- tia contemplar contornos de corpos trabalhados pelo exercício físico. Para Sevcenko (1992:49), eram mesmo os jovens os mais aptos a abraçar essas novas práticas:
Uma vez mais, naturalmente, eram os mais jovens aqueles que melhor poderiam perceber e assimilar essas possibilidades criadas pelo esporte em meio à confusão do caos urbano. Por isso mes- mo, por estar fortemente identificado com os mais jovens e lhes propiciar os indícios de um novo estilo de vida, desembaraçado dos entraves de um passado recente mas já obsoleto, o esporte se torna a moda e a moda adquire um acento desportivo. Assu- mir ostensivamente os sinais associados ao novo ativismo atlético constitui um meio de patentear de forma inequívoca a distância entre as gerações e a diferença entre as mentalidades.
Comparando as ilustrações de moda de revistas femininas de 1920 com as de uma década anterior, percebemos claramente a mudança de estilos em favor de roupas mais leves cujo design fora influenciado pela mudança do estilo de vida que incluía cada vez mais a prática de esportes e exercícios físicos. O memorialista Jorge Americano (1895-1915: 305) havia notado a crescente importância do esporte e das atividades físicas no cotidiano dos paulistanos e de como eles eram associados à disciplina do corpo. Sobre a educação física nas escolas, ele escreveu:
Não sei de outra coisa sobre educação física senão a ginástica nas Escolas-Modelo e Grupos Escolares, a aula de ginástica no Ginásio de São Paulo e uma Gesellschaft na Rua Vitória, mais ou menos nos fundos da Igreja Protestante da Rua Couto Magalhães. Era principalmente ginástica respiratória, com movimentos dos braços. Fui matriculado na Gesellschaft. [...] A coisa pareceu-me excessivamente prussiana e fiquei poucos meses. Não sei como convenci meu pai de tirar-me de lá, porque ele falava muito em “disciplina” e eu era contra. Mas convenci.
A disciplina do corpo era ainda suave e mais voltada aos jovens no período escolar, se comparada às intervenções cirúrgicas para colocação de próteses tão comuns atualmente para quase todas as idades. Entre 1900 e 1930, os produtos que serviriam a cuidar dos “defeitos” da aparência feminina esta- vam mais associados aos tratamentos médicos que cosméticos, e a beleza ou a falta dela eram tratadas com remédios e não com tratamentos estéticos (SANT’ANNA, 1995). Os corpos do início do século XX tentavam ainda se libertar “de antigos vínculos não apenas religiosos, geográficos, temporais e morais, mas, também, genéticos” (SANT’ANNA, 2004: 17).
Não havia mais espaço na moda jovem para vestidos longos de tecido de seda, anquinhas e espartilhos, o que, além de não conformar com estilos de vida mais esportivos, representava um custo alto de produção: mais tempo gasto nas máquinas de costura e no acabamento das roupas. Os vestidos de 1920 eram o espelho e o alimento de um novo design de moda, em que a racionalidade das atividades produtivas começava a se pronunciar sobre as qualidades do luxo do período anterior. Foi um momento importante para o mercado americano já habituado a um modo de produção racionalizado dentro das confecções de roupas direcionadas ao mercado que atendia as classes médias.
Poucos couturiers franceses, a exemplo de Coco Chanel e Jeanne Regny, aderiram à mudança de estilo ofertando novas propostas para uma moda mais jovem, mais esportiva, mais econômica em termos de uso de materiais e tempo de produção. Alguns editoriais da Revista Feminina eram críticos à avidez das brasileiras pelo luxo, apesar das campanhas internacionais por uma moda mais econômica e racional. Assim publicava a revista no edito- rial “A Moda” de agosto de 1920 (n.75), quando Marinette ainda clamava a atenção das leitoras para a economia na moda:
Temo-nos referido por diversas vezes á necessidade de pôr um pa- radeiro ao luxo excessivo, não só por espírito de economia senão também por espírito de solidariedade com os elegantes de todo o mundo. A campanha de modéstia na indumentária é mundial. Em Paris o governo acaba de prohibir a importação de meias de seda, que é, em geral, de proveniência norte-americana. Essa medida urgia ser feita. Só ultimamente entraram na França dois milhões de pares de meias de seda, me se a prohibição não se fizese sen- tir de prompto, essa somma teria subido espantosamente. Veri- ficou-se então que muitas costureirinhas, muitas meninas pobres poupavam-se das coisas mais essenciaes, mesmo das que dizem respeito á alimentação, para poderem comprar as suas meias de seda, preferindo assim viver com elegância a viver bem nutridas.
Notamos que os editoriais “A Moda” tratam de estilos, tendências das mo- das estrangeiras, sejam elas francesas, americanas, inglesas, espanholas ou italianas. Não há referência às modas brasileiras ou a mulheres elegantes que eventualmente fossem imitadas no Brasil. A menção a essas mulheres acontece através de matérias sobre comportamento da ‘Mulher Brasileira’ em termos familiares, sociais e especialmente religiosos. Um exemplo é o editorial intitulado ‘Perfil da Mulher Brasileira’ (s.n.p.), em se lê: “O appello que faço é a mãe brasileira que é a própria pátria. A idea de pátria é a idea de família, e a família é synthetisada na palavra mãe”.
A percepção de que a moda caminhava para uma maior exposição do corpo e as conseqüências morais dessa mudança não era apenas preocupação das bra- sileiras leitoras e editoras da Revista Feminina, mas parece ter mesmo ocupado mentes e corações de algumas parisienses que estavam no centro irradiador de tais novidades. Assim aparece num editorial de janeiro de 1925 (n.128):
Contra a Moda de Paris
Do hebdomadário feminista “La Française”, extrahimos os seguin- tes commentarios: “Teremos de assistir a este descabimento, Paris deixando de ser o arbitro do bom gosto desthronado por Lon- dres? Verdadeiramente, seria uma catastrophe. E nos parece nada possível que se possam, noutro centro que não o nosso, encontrar melhores e mais lindos modelos de elegância feminina. No emtan- to, uma campanha se faz actualmente no extrangeiro contra as nossas modistas, campanha que não devemos ignorar e que, sai- bamos olhar a verdade em rosto, não é completamente destituída de razão. Dizem, para além das nossas fronteiras, que as modas francezas se tornam de uma indecência tal, que já é tempo de procurar, em outra parte, guias um pouco mais reservados. Oh! Nós não nos enganamos, nós que somos do paiz. Sabemos perfei- tamente que essas modas fora dos limites, as verdadeiras france- zas não as observam em absoluto, postas a parte três ou quatro cabeças de vento e dois ou três novas ricas que estão convencidas de que não dão motivos para críticas. Mas porque se obstinam os nossos grandes costureiros em crear modelos para a exportação, mais escandalosos, mais ousados que nunca, com a esperança de lisongearem a não sei que gostos depravados dos seus ricos clien- tes extrangeiros? E não percebem que á força de exaggerar, elles se arriscam, como aquelle heroe da historia, a matar a gallinha dos ovos de ouro! As nossas verdadeiras elegantes desdenham suas elucubrações, e as mulheres sensatas dos outros paizes, julgando por estas loucuras, o estado mental de todo um povo, estão em via de lhe retirar sua confiança em seus julgamentos. Seria tempo, na verdade, que o bom senso e a justa medida retomassem seu direito neste paiz, que foi por tanto tempo o seu”.
O vestido de Carmem expõe esse estranhamento diante das mudanças dos corpos, e as relações com as roupas e o pudor.112 O modelo de cavas e decote
acentuados e barra pelos joelhos são característicos dos novos tempos e de corpos jovens. Um corpo de vestido revestido com um bordado como este da
maison das irmãs Boué representa a reunião de um número de habilidades
que foram desenvolvidas ao longo de séculos desses tipos de fazeres, transmi- tidos a novas gerações pela oralidade e observação. Além disso, o poder visual do bordado feito com pastilhas vem especialmente de seu jogo com a luz e com a cor, e a alta-costura soube aprimorar o uso desse material em suas re- lações com novas tecnologias de iluminação adotadas nas cidades e em seus espaços ao longo do século XX (GALE; KAUR, 2004: 50-52).
A renda costurada à barra alterando um acabamento anterior mais limpo, ademais, reporta a um tempo mais longo necessário, em algumas esferas sociais e criativas, para que os novos feixes de mentalidade pudessem ser amplamente aceitos.
112 Para Nízia Villaça (2007:58), a concepção mecânica do
corpo e a racionalidade que dava sentido a ele – mentalidade que prevaleceu até o século XIX – deram lugar ao
reconhecimento da corporalidade do sujeito e apenas a crise da visão antropocêntrica é que pôde alargar a percepção do
corpo. Assim, “rompe-se a perspectiva linear que o mantinha exterior e imóvel”, porque “o conhecimento implica interação, relação, transformação concomitante do sujeito e do objeto e questionamento da percepção”.